22.6.09

cristiano ronaldo não é português

Noventa e quatro parece ter sido o número que mais andou nas bocas do mundo na passada semana e tudo por causa de Cristiano Ronaldo. A quantia paga pelo Real Madrid deixou uns boquiabertos, alguns orgulhosos e outros tantos invejosos. Se é muito ou pouco dinheiro depende da perspectiva.

Não sei por que carga de água é frequente achar-se que todo o português adora futebol e, por isso, defende as cores da sua selecção e vibra com os campeonatos, jogadores, treinadores e adjuntos com a mesma intensidade, isto é, imenso. Já nem as mulheres, dantes salvaguardadas desta visão linear das coisas, estão a salvo. Agora até delas se espera que saibam quem é o guarda-redes da Académica, o árbitro do jogo contra a Suécia e o nome do estádio em que vai disputar-se a final da taça EUFA.

Sucede que, daquilo que me é dado a conhecer, há muitos portugueses – e portuguesas, claro! – que não fazem sequer a mais pálida ideia das regras do jogo. Outros há, como eu, que até sabem as regras (e que até já praticaram a modalidade!), mas de bom grado trocam um jogo de futebol, mesmo que recheado de estrelas ou uma final de uma importante competição, por hora e meia de uma boa soneca. Regra geral, estas confissões em público dão logo direito a ser fulminado por diversos olhares vindos de todas as direcções, sendo certo e sabido que o momento do insulto acontece quando a/o pobre fulminada/o confessa achar todas as manifestações de nacionalismo folclórico, a começar pelas relacionadas com a bola, uma grande treta. Já me aconteceu, por isso sei bem do que estou a falar. Não fosse eu senhora de bons reflexos e pés rápidos e quem sabe o meu carro não teria um risco de uma ponta à outra à conta de uma observação do género.

Há quem diga que, de acordo com as regras do bom nacionalismo, português que é português deveria rejubilar intensamente com o facto de Cristiano Ronaldo ter sido o jogador mais caro de sempre. Aliás, há até quem diga que cada português deveria sentir-se ele próprio merecedor de alguns euros dos noventa e quatro milhões que o Real Madrid pagou pelo jogador porque, afinal de contas, Ronaldo é português, é "nosso", logo, o seu valor também.

Parece-me que não é preciso ir daqui a Badajoz (a alusão à cidade espanhola é pura provocação) para perceber o quão iludidos estão. A não ser que Ronaldo nunca se esqueça de que é português para contrariar isso com todas as forças, não estou mesmo a ver em que é que a nacionalidade tenha ajudado.

É óbvio que se há factor que conduziu Cristiano Ronaldo ao elevado patamar onde está, esse factor é com certeza a sua tendência para contrariar esta bonomia tão lusa. No fundo, tudo o que ele faz é esforçar-se por ser o mínimo português possível. Atrever-me-ia até a dizer que, provavelmente, nem sequer gosta de fado! Porém, a grande diferença está nisto: está consciente das suas capacidades e não está à espera que os outros façam aquilo que só depende dele. Isto é ser português? Não, pelo contrário!

Conforme o ponto de vista, noventa e quatro milhões de euros pode ser muito ou pouco dinheiro pela compra de um jogador como ele. Para mim, por exemplo, Ronaldo está a ser mal pago. Bem vistas as coisas, o seu esforço é redobrado, o que, em consequência, deveria ser pago a dobrar. Além de ter de se empenhar em ser um excepcional jogador, todos os dias tem de contrariar os seus genes portugueses, o que deve ser altamente desgastante, senão mesmo heróico!

É uma evidência: mais do que os pés e a criatividade de Cristiano Ronaldo, a sua capacidade de ser pouco português é que o levou onde ele chegou. Isso vale muitíssimo mais do que noventa e quatro milhões de euros. Isso vale muito mais do que qualquer clube de futebol poderia comprar. Isso é impagável.

[Também publicado em PnetCrónicas.]

© Marta Madalena Botelho

18.6.09

«juridiquês»

Chegou-me às mãos, por correio electrónico um texto de fina lavra, atribuído à oratória de um causídico. Nestes tempos em que se discute a existência, a necessidade e a prevalência do «juridiquês», pareceu-me oportuno partilhá-lo por aqui.

«Diz a lenda que um advogado ao chegar em casa, ouviu um barulho estranho vindo do seu quintal. Lá chegado, constatou que um ladrão tentava levar os seus patos de criação.
O Advogado aproximou-se, vagarosamente, do indivíduo e, surpreendendo-o ao tentar pular o muro com seus amados patos, disse-lhe:
- Oh, bucéfalo anácrono! Não te interpelo pelo valor intrínseco dos bípedes palmípedes, mas sim pelo acto vil e sorrateiro de profanares o recôndido da minha habitação, levando meus ovíparos à sorrelfa e à socapa. Se fazes isso por necessidade, transijo; mas se é para zombares da minha elevada prosopopéia de cidadão digno e honrado, dar-te-ei com a minha bengala fosfórica bem no alto da tua sinagoga, e fá-lo-ei com tal ímpeto que te reduzirei à quinquagésima potência que o
vulgo denomina "nada".

Então, o ladrão, confuso, diz:
- Senhor Doutor, eu levo ou deixo os patos?»

Resta saber se seriam estes os «tiques de linguagem para criar sofismas de Advogado» a que o Governador do Banco de Portugal, Dr. Vítor Constâncio, se referia na passada segunda-feira, durante a sua audição perante a Comissão Parlamentar de Inquérito ao Sistema Bancário («caso BPN»)...

© Marta Madalena Botelho

9.6.09

um nome não faz a diferença

placa toponímica da Praça Dr. Oliveira Salazar, em Odemira, existente há largos anos.
[fotografia de Luís Bonifácio]

CComo muitos, também eu achei inusitada a escolha do dia 25 de Abril para a inauguração da Praça António de Oliveira Salazar em Santa Comba Dão. Com tantos dias no calendário foi, dir-se-ia, provocatório fazer coincidir uma homenagem a Salazar com o dia em quem se cumpriam 35 anos sobre o princípio do fim de uma era tão negativamente marcada pelo seu espectro.

Porém, coincidências de datas à parte, devo dizer que não me perturba minimamente que Santa Comba Dão tenha atribuído a uma praça o nome de um filho da terra. Há que compreender as razões que levaram a isso e, para tanto, convém não esquecer que Salazar não foi só o odioso presidente do Conselho que instaurou uma ditadura antiliberal e anticomunista em Portugal, mas também um conterrâneo daquelas gentes (já que nasceu no Vimieiro, uma freguesia do concelho de Santa Comba Dão) e, ainda, um brilhante professor de Direito e um notável académico na sua área (formou-se com 19 valores em Direito, em Coimbra, onde foi regente da cadeira de Economia e Finanças Públicas e se doutorou com apenas 29 anos). Embora a memória colectiva e mais recente tenda a realçar apenas o que Salazar tinha de negativo - e era tanto! - é redutor e mesmo injusto ignorar isto, correndo-se o risco de, como dizem os ingleses, deitar fora o bebé com a água do banho.

Posso até compreender que se apelide o gesto dos santacombadenses de provinciano, embora me pareça muito mais tacanho e vergonhoso promover a general alguém que foi julgado e condenado (e só posteriormente amnistiado) por ter sido líder de uma organização terrorista responsável por ataques bombistas que mataram dezassete pessoas. Muito mais provinciano me parece que essa mesma pessoa tenha adquirido o estatuto de personagem de grande relevo histórico, com honras de aparição em tudo quanto são filmes e documentários sobre a revolução dos cravos como se do único elemento do MFA ainda vivo se tratasse...

Retomando o tema: ao contrário de alguns, não creio que atribuir o nome Salazar a uma praça seja sintoma de que se vivem tempos "salazaristas" em Portugal, embora reconheça que, aqui e ali sempre se poderiam descortinar alguns traços "salazarentos" nos tempos que correm (recordemos o não muito distante autoritarismo de uma certa directora regional de educação do Norte que, sem apelo nem agravo instaurou um procedimento disciplinar a um professor a propósito de uma piada e, ainda, os dois momentos de grande elevação parlamentar em que um primeiro-ministro respondeu a um deputado «não seja ridículo» e a outro «esteja mas é caladinho»).

Em todo o caso, afigura-se tão legítimo existir uma Praça Salazar em Santa Comba Dão como uma Praça Marquês de Pombal em Lisboa. Se o primeiro foi inegavelmente um ditador, o segundo, ao assumir o papel de «mão invisível» do Absolutismo em Portugal, não o foi menos.

No fundo, impõe-se perceber porque é que tais praças foram nomeadas Salazar e Marquês de Pombal, se para exaltar os ditadores, se para homenagear algumas qualidades que (queira-se ou não, goste-se ou não) ambos terão demonstrado. A mim parece claro que foi pelo segundo motivo e, se assim é, o rigor impõe que se o diga, tal como o respeito pelos valores democráticos exigem que se aceite que a realidade é tão rica quanto o pensamento dos homens e que nela há lugar tanto para os que exaltam os defeitos de Salazar como para os que lhe exaltam as virtudes. Façamo-lo e não serão nunca os nomes das praças deste país a fazer a diferença, mas sim, sempre e só, os seus cidadãos.

[Também publicado em PnetCrónicas.]

© Marta Madalena Botelho

8.6.09

gosto tanto deste vídeo...


... realizado por Marco Morandi.
Dustin O'Halloran. «Opus 23».
Do álbum «Piano Solos Vol. 2» [2006].

7.6.09

os (des)curados

A novela começou no dia 2 de Maio, um sábado soalheiro, com a publicação de uma reportagem no jornal «Público», onde o presidente do Colégio de Psiquiatria da Ordem dos Médicos, José Marques Teixeira, afirmou que um psiquiatra poderia dar resposta a um homossexual que lhe pedisse ajuda médica para mudar de orientação sexual. Em síntese, dizia que era possível alterar, no sentido de curar, a orientação sexual de alguém.

No seguimento desta notícia, várias organizações solicitaram ao bastonário da Ordem dos Médicos que se pronunciasse sobre o assunto. O psiquiatra Daniel Sampaio, por sua vez, escreveu, uma semana mais tarde, uma crónica na revista Pública tecendo ferozes críticas às palavras de José Marques Teixeira e deu início a uma petição, exigindo também uma clarificação por parte da cúpula da Ordem e do Colégio da Especialidade de Psiquiatria sobre o que fora noticiado.

Uns dias mais tarde, a 14 de Maio, o bastonário respondeu por escrito às organizações dizendo, entre outras coisas, que a orientação sexual não é uma doença (1). A seguir, o bastonário defende a liberdade de qualquer pessoa para aceitar ou negar a sua orientação sexual e procurar o auxílio de um médico quando a sua sexualidade lhe causar sofrimento. O médico deveria, então, ajudá-lo a definir a orientação que pretende. Luís Nunes remata dizendo que a alteração da orientação sexual de um doente não constitui uma violação ética. Esqueceu-se foi de discorrer sobre o facto de ser possível fazê-lo.

A mim o assunto parece-me tão simples quanto isto: sequer equacionar que se possa reverter, tratar, curar (ou qualquer outra expressão com significado semelhante) a orientação sexual homossexual implica pressupor que se trata de uma doença. Aliás, considerar a elaboração de um plano terapêutico e de um acompanhamento médico com o único propósito de modificar a orientação sexual de alguém, como fez o bastonário, é tratar essa característica como se fosse uma patologia. Todavia, já há muito se concluiu que não é doença, não é patologia, logo, não é curável nem passível de nenhuma intervenção como aquela que é subentendida das palavras do bastonário e do presidente do Colégio de Psiquiatria da Ordem dos Médicos, cuja posição não pode senão causar a maior das estupefacções.

Já a ignorância, essa, é susceptível de tratamento. Dizem que com umas leituras e com um bocadinho de decência intelectual a coisa vai. É só mesmo uma questão de querer.

Marta Botelho

(1) «A APA (American Psychiatric Association) retirou a homossexualidade do seu «Manual de Diagnóstico e Estatística de Distúrbios Mentais» (DSM) em 1973, depois de rever estudos e provas que revelavam que a homossexualidade não se enquadra nos critérios utilizados na categorização de doenças mentais. Psicólogos e sexólogos chegaram à conclusão de que a homossexualidade é uma variante sexual normal.» (v. SILVA, Rita – «O que é a homossexualidade», in Homofobia: Causas e Consequências. Versão electrónica em http://homofobia.com.sapo.pt).

[Sugestão: ler ao som de «Fuck You», de Lily Allen, do álbum «It's not me, it's you» (2009).]


[Também publicado em PnetCrónicas.]

© Marta Madalena Botelho

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