30.7.10

«bitter knowledge»


Rufus Wainwright. «Go or go ahead» [ao vivo].
Do álbum «Want One» [2003].

imperfeições

Entre muitas outras coisas, recebi de herança genética um diastema, visível desde que a dentição dita de leite deu lugar à definitiva. Nunca fiz grande questão de o corrigir e essa ideia foi praticamente posta de parte quando o meu dentista me disse que fazê-lo poderia comportar o enfraquecimento de todos os meus dentes.
Com o passar dos anos, as pessoas habituaram-se a ver o meu diastema como uma característica que me assentava bem. Há quem diga que me confere carisma, outros dizem que não são capazes de me imaginar sem ele e creio que também eu me habituei a ver o meu diastema como uma característica que, vá lá, não me assenta muito mal.

Tenho assumidamente um fraquinho por dentes brancos, mãos esguias, dedos delicados e orelhas pequeninas. Digamos que me enternecem. No entanto, tenho um fraquinho muito maior por manchas sépia, nevos, narizes imponentes, pelos buraquinhos que a varicela que tivemos em pequeninos deixou na nossa pele. Estas características, geralmente tidas como imperfeições, fascinam-me muito mais do que a obediência absoluta aos cânones da beleza actual, provavelmente, porque são estes detalhes que nos tornam autênticos, diferentes dos demais e que, ao longo dos anos, acabam por nos identificar.

Porém, lidar com as imperfeições de alguém é infinitamente mais difícil do que gostar das suas boas características. E não é difícil perceber porquê, já que compreender o imperfeito é muito menos instintivo e nada nem ninguém nos sensibiliza para isso. Ao invés, a apologia é feita à beleza e ao ideal: desde crianças ouvimos histórias em que todas as princesas encontram príncipes encantados e, mesmo que inconscientemente, inculcamos a convicção de que o mesmo terá de suceder connosco. Logo, se o príncipe não é perfeito, é porque não é para nós.

Talvez por isso nos seja também tão espinhoso aceitar as nossas próprias imperfeições (afinal de contas, somos a princesa da nossa própria história) e, ainda mais, as dos outros. Talvez por isso nos seja tão árduo encarar os pormenores menos bom que todos temos, desde os mais visíveis, como os diastemas, até aos mais escondidos, como aqueles que nem sabemos que temos até ao momento em que, seja lá pelo que for, nos deparamos com eles.

Aprender a fazê-lo é tarefa para uma vida inteira e tomar consciência de que todos temos muito de podridão é algo que só a autoreflexão e a maturidade nos permitirão. Indispensável é que estejamos cientes de que esse percurso é inevitável para todos nós, porque todos haveremos de ser, mais cedo ou mais tarde, confrontados com as nossas características menos positivas. E, claro, com as dos outros também.
Há, por isso, que encontrar as forças indispensáveis para as ver, as aceitar e as corrigir, sem que isso implique o desabar das nossas vidas, dos nossos alicerces, das nossas poucas certezas, se é que as há.
Assim se cresce, assim se evolui, assim se superam os erros, as desilusões e os momentos menos positivos criados por nós mesmos ou pelos que nos rodeiam. Só assim, porque não há via alternativa, não há volta a dar-lhe, por muito engenhosos que sejamos.

Para tudo isto, mais do que qualquer outra coisa, é preciso vontade, o ponto de partida de tudo, porque ninguém fará este caminho se não quiser e muito menos o fará por imposição de alguém. Se o caminhante já iniciou a rota, tenhamos, pelo menos, a humildade de reconhecer que o fez por si. E se formos nós o caminhante, orgulhemo-nos disso. É o mínimo que podemos fazer e é também o mínimo que devemos exigir.

© [m.m. botelho]

28.7.10

a arte de relativizar

© cyanide & hapiness

Aprende-se, porque a vida ensina. Oh, se ensina.

© [m.m. botelho]

21.7.10

be S.M.A.R.T.


© vimrod [2010]

Estado actual: em reflexão, a idealizar, ponderar, seleccionar, estabelecer e conjugar objectivos S.M.A.R.T. para os próximos 12 meses.

[S.M.A.R.T.: abreviatura para specific (especifico), measurable (mensurável), attainable (atingível), realistic (realista) e time-bound (temporizável).]

© [m.m. botelho]

19.7.10

things you need not doing

18.7.10

«the best for our lives»


Beirut. «A sunday smile».
Do álbum «The Flying Club Cup» [2007].

17.7.10

os corações do porto


«O criminoso volta sempre ao local do crime». Pode ser uma frase feita, mas é bem verdade. Ontem foi noite de regresso ao «Piolho», um regresso ansiado, muito imaginado, provavelmente demasiadas vezes adiado.

O carro ficou no parque de estacionamento. As escadas de acesso à Praça Parada Leitão continuam imundas, o cheiro há-se ser sempre nauseabundo. Mas depois daquela subida o céu abate-se sobre nós, o seu negro enche-nos os olhos e respira-se o ar do Porto. Ali , naquela Praça, bate um dos corações do Porto, os outros batem em muitos outros lados e em muitos outros peitos.

As conversas, as gargalhadas, os abraços dos amigos, os copos a chocarem em brindes de quem se viu ainda aquela tarde ou já não se via há anos, tudo isso vai empurrando os ponteiros dos relógios noite dentro e ninguém parece dar por isso. Ali, naquela Praça, bate um dos corações do Porto, os outros batem em muitos outros lados e em muitos outros peitos.

O Porto é tão soberbo e tão imenso que consegue a proeza de ter muitos corações, o que não é obra para um sítio qualquer. Mas tenho para comigo que talvez o grande feito da cidade seja esta sua capacidade assombrosa de não deixar nenhum deles, esteja ele onde estiver, parar de bater.

© [m.m. botelho]

16.7.10

«gosto muito de ti»

O meu sobrinho-afilhado-bebé-bonito, ao telefone:
«Marta, estás em casa.
É o F.
Marta, gosto muito de ti.
Tenho uma camisola e umas sapatilhas.
Partiu os óculos do avô.
Levou tau tau no rabinho.
O bebé vai ler o livro.
É o F.
Madrinha, gosto muito de ti.»


Eu não ouvi, porque o telefone para onde ele falava é um telemóvel que já não funciona, mas alguém assistiu à cena e contou-me. Não importa que não tenha ouvido, o que importa é que ele o disse e eu o sei. E que nunca me vou esquecer que foi hoje, 16 de Julho de 2010, durante a tarde, que ele disse pela primeira vez, espontaneamente e sem hesitar, que gosta muito de mim.

© [m.m. botelho]

14.7.10

mais um Verão

«Mesmo que não conheças nem o mês nem o lugar
caminha para o mar pelo Verão.»

Ruy Belo [1933-1978]

O primeiro passeio pela praia do ano. Algum vento, o cheiro do mar a invadir-me as narinas e a entranhar-se na pele, o reconforto dos pés a serem massajados pela areia.
A sensação do começo de mais um Verão num final de tarde. Uma sensação muito boa.

© [m.m. botelho]

«a little bit harmful»


Rufus Wainwright. «Cigarettes and chocolate milk» [ao vivo].
Do álbum «Poses» [2001].

eu

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