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12.3.11

desmemorização

fonte: visto aqui

«- Esquecemo-nos de algumas coisas, não é?
- Sim. Esquecemo-nos do que queríamos recordar e recordamos o que queríamos esquecer.»
Cormac McCarthy, «A Estrada» [2006]

Quem, como eu, foi amaldiçoado com uma memória muito mais prodigiosa do que seria necessário, vê-se forçado a, now and then, ter de fazer exercícios de desmemorização. São uma espécie de "treinamento do esquecimento", que exige, antes de mais, uma enorme focalização no próprio e uma resistência absoluta ao que é exterior e nos desvia de nós mesmos. Depois, é necessário que se tracem objectivos que constituam possibilidades de reforço pessoal que e se invistam neles todas as energias possíveis.
Este é um processo lento e exigente, mas é talvez o único modo de reduzir as proporções do que a memória teima em registar. A desmemorização completa não é possível, mas a diminuição do espaço que as coisas ocupam na nossa cabeça é, relegá-las para um plano secundário é. Não é fácil, mas com a devida concentração faz-se. Porque, tendo em mente que é o melhor para nós, tudo se faz. Tudo mesmo. Só parece que não quando nem sequer se tenta.

© [m.m. botelho]

8.3.11

de carnaval

Fragmento de «A náusea», de Jean Paul Sartre [1938].
fonte: visto aqui

5.3.11

à prova

fonte: visto aqui

«A vida consiste em sobreviver a uma série de provas, a começar pelo próprio nascimento.»
Robert Jay Lifton, «The broken connection: on death and the continuity of life» [1979]

4.3.11

the time of your life

Li num blogue, já não consigo recordar-me qual, uma frase em inglês que anotei no pequeno caderno cor-de-laranja que há uns meses anda comigo para todo o lado. Era esta: «The biggest mistake you can make is to drift apart from someone who you once had the time of your live with».

Não sei se será o maior erro, mas é seguramente um erro. Pessoas que nos façam sentir como nunca nos sentimos antes, pessoas que nos revelem universos que até aí nos eram desconhecidos e que apenas imaginávamos serem possíveis no plano dos sonhos, pessoas que nos façam viver momentos após os quais sentimos que, se morrêssemos, já teria valido a pena ter vivido, pessoas assim não batem à nossa porta todos os dias; pessoas assim batem à nossa porta, se formos tipos com uma admirável dose de sorte, duas ou três vezes durante toda uma vida. Por isso, apartarmo-nos delas será sempre um erro, um enorme e lamentável erro. Por voltas que dê, não consigo encontrar outra palavra que melhor sirva para o descrever.

© [m.m. botelho]

3.3.11

toda a vida à minha espera?

O filme «127 Hours» [2010], de Danny Boyle, relata a história verídica de Aron Ralston que, em 2003, ficou preso com um braço esmagado num desfiladeiro no fundo do Blue John Canyon, depois da derrocada de uma rocha.

A dado passo, voltado para uma câmara de filmar que levava consigo, Aron diz estas palavras: «Esta pedra esteve à minha espera toda a minha vida. E toda a vida dela. Não é incrível? Desde que era só um pedaço de meteorito há um milhão de biliões de anos. Lá no Espaço. Tem estado à espera. Para aterrar aqui. Precisamente aqui. E eu, eu tenho caminhado em direcção a ela toda a minha vida. O meu ADN trouxe-me direitinho até aqui. Desde o minuto em que nasci. Todas as vezes que respirei, todas as acções que empreendi foram-me trazendo a isto. A esta pequena fissura na crosta da Terra. A esta pedra. Cósmico. Incrível. Deslumbrante.».

Nunca fui muito receptiva à ideia de que a nossa existência está predeterminada. No entanto, confesso que, às vezes, dou por mim a pensar que o que me acontece tinha mesmo de me acontecer. É como se sentisse que algumas alegrias e alguns tormentos - especialmente alguns tormentos - me estavam reservados para que, através deles, possa empreender as necessárias batalhas que me tornarão mais forte, mais independente, mais matura, mais Mulher.

Defendo que as lágrimas são tão indispensáveis a uma vida plena como os sorrisos. O bom reforça-nos, solidifica-nos, impulsiona-nos, mas é o mau que nos revolve, que nos sacode o corpo e a mente e nos leva a expelir as cargas que vamos colocando sobre os ombros e que tornam a nossa viagem mais lenta.

À medida que vamos criando as nossas estruturas, sabemos que haverá de ser nelas que encontraremos tanto o bom, como o mau. Sabemos, de antemão, que haverá de ser quem nos ama que nos ferirá, que haverá de ser quem tem a nossa confiança que a trairá, que haverá de ser quem cuidamos que nos menosprezará. Os outros, a quem não devotamos e que não nos devotam nenhum destes sentimentos, não têm a virtualidade de o fazer.

Talvez seja por isso que eu sou capaz de pressentir quando alguém haverá de me retirar o tapete: porque uma série de passos - desde a baixa das defesas à concessão de determinado estatuto na minha vida -, ainda que não dados com essa intenção, acabou por conduzir a isso, porque aquela situação esteve toda a vida à minha espera, porque fui eu mesma que, ainda que não soubesse, caminhei para ela, porque aceitei correr os riscos. Do mesmo modo que sou capaz de pressentir quando algo de positivo me está reservado e, contra todas as probabilidades, opiniões alheias, ventos e marés, sei que o conseguirei alcançar.

Não creio que estes acontecimentos sejam inevitáveis, destino, sorte traçada. Prefiro encará-los como consequências. Consequências que talvez nós busquemos, que talvez estejam lá para nós desde sempre. Ou então, é tudo obra do acaso, que também haverá de ter o seu papel a desempenhar no meio de tudo isto. Quem sabe? Creio que é mesmo como diz Aron Ralston em «127 Hours»: «Não, vocês não percebem. Eu sei que não percebem. Mas, para mim, faz sentido. Todo o sentido. Tinham de estar aqui.».

© [m.m. botelho]

2.3.11

começar o futuro

© explodingdog [25.02.2011]

«You couldn't change the past but the future could be a different story.
And it had to start somewhere.»
do filme «Little Children» [2006], de Todd Field

28.2.11

o bom equipamento


fonte: visto aqui

«Para sobreviver, perdidos nas montanhas ou na neve, são fundamentais a boa preparação e levar consigo um bom equipamento. Mas, na hora da verdade, o que com frequência separa os vivos dos mortos não é o que levam na mochila, mas sim o que levam na mente.»
Luis Rojas Marcos, «Superar a adversidade: o poder da resiliência» [2011], p. 18

26.2.11

(in)felicidade perfeita

«Todos descobrem, mais tarde ou mais cedo na vida, que a felicidade perfeita não é realizável, mas poucos se detêm a pensar na consideração oposta: que também uma infelicidade perfeita é, igualmente, não realizável.

Os momentos que se opõem à realização de ambos os estados-limites são da mesma natureza: derivam da nossa condição humana, que é inimiga de tudo o que é infinito. Opõe-se-lhe o nosso sempre insuficiente conhecimento do futuro; e a isto se chama, num caso esperança; no outro, incerteza do amanhã. Opõe-se-lhe a certeza da morte, que impõe um limite a qualquer alegria, mas também a qualquer dor. Opõem-se-lhe as inevitáveis preocupações materiais, que assim como poluem qualquer felicidade duradoura, também distraem assiduamente a nossa atenção da desgraça que paira sobre nós, e tornam fragmentária e, por isso mesmo, suportável, a consciência dela.»
Primo Levi, «Se isto é um homem» [1947]

25.2.11

pilares estruturais

«Um bom lema para viver: procura sempre não te matares.»
George Carlin, «Brain droppings» [1998]

Perante certas palavras, atitudes e opções, pergunto-me se não haverá gente que cultiva uma certa atracção pelo abismo. É indubitável que há quem tenha uma extraordinária habilidade para arrasar com as coisas boas que a vida lhe proporcionou, gente que, de um dia para o outro, manda pelos ares os seus pilares estruturais. Pergunto-me se o farão por falta de inteligência, por falta de maturidade, por um estado de insanidade temporária ou permanente ou se será antes por incapacidade de distinguir o que é essencial do que é acessório (o que também pode ser visto como uma consequência de ambas as primeiras hipóteses).

É suposto que as pessoas crescidas saibam destrinçar o que é bom do que é mau para si mesmas. É suposto que as pessoas crescidas sejam capazes de antever que, ao explodirem com as suas próprias estruturas, mais tarde ou mais cedo haverão de cair no mais escuro e lamacento dos poços, criado pelo rebentamento das terras. É suposto que as pessoas crescidas sejam suficientemente perspicazes para perceber que há coisas que não têm preço e que, portanto, há preços que, por muito que estejam dispostas a pagá-los, jamais compensarão aquilo que puseram à venda. Quando o que se pôs à venda era estrutural, a perda desse estrutural nunca será compensada.

Admito que, para chegarem a esta conclusão, algumas pessoas tenham mesmo de celebrar pelo menos um destes maus negócios durante a vida, isto é, que não aprendam com o que a experiência e os alertas dos outros lhes revela, mas tenham elas mesmas de bater com a cabeça na parede para ficarem a saber o quanto dói. Eu, pecadora, me confesso. O que já não entendo tão bem é que, depois de o fazerem, fiquem cheias de autocomiseração e que não aceitem os auxílios que os outros pilares estruturais que lhes restam lhes oferecem para que consigam sair do poço que elas mesmas cavaram e em que elas mesmas se meteram. Fazê-lo só demonstra que não se aprendeu nada com o que aconteceu. É que é suposto que, depois de arrasar um pilar estrutural, se passe a saber distinguir o que é estrutural do que não é, ou seja, que, ao tomar-se consciência de que aquilo que se destruiu era estrutural, se tome consciência do que demais existe na vida de cada um que também o é. Por um motivo bastante básico: é que só aí, nesses outros pilares, será possível encontrar as forças necessárias para elevar novamente a construção.

Por isso, quando vejo que há quem prefira ficar no escuro em vez de pegar nas velas acesas que lhe são estendidas com afecto e preocupação, concluo que se trata de pessoas que não foram capazes de tirar as devidas lições daquilo que lhes aconteceu. Isto leva-me a questionar se essas pessoas não terão mesmo uma atracção pelo abismo, que é o mesmo que dizer pela autodestruição.

Se, num determinado momento, fomos estúpidos ao ponto de arrasar com um dos pilares da nossa vida, é suposto que não continuemos por aí fora, a estourar com os restantes. É suposto que dar com a cabeça na parede nos acorde, nos doa, nos dê objectividade para percebermos o que fizemos de mal a nós mesmos e o que devemos fazer para parar o vórtice de autoflagelação. Em suma, é suposto que dar com a cabeça na parede nos alerte para a necessidade de não prosseguirmos, existência fora, fazendo as mesmas coisas, destruindo as nossas próprias estruturas, desvalorizando o que de bom nos cerca e nos escora. E é, ainda, suposto que cresçamos uns palmos, que ganhemos força nas pernas e que demos o salto do poço, que arrumemos de uma vez por todas com tudo o que nos prejudica, nos enfraquece, nos desgasta e nos puxa para o abismo. É suposto, portanto, que se empreenda uma espécie de purga.

Enquanto isso não acontecer, ninguém estará reestruturado. Andará apenas a enganar-se a si mesmo, a destruir-se a si mesmo, a afundar-se em "self pity" e a desperdiçar as oportunidades que a vida lhe dá de refazer o que foi aniquilado (de preferência, melhor). Poderá até já não andar a bater com a cabeça na parede, mas continua a não perceber que existe mais para além dela. Não terá saído do sítio. Não terá aprendido absolutamente nada.

© [m.m. botelho]

22.2.11

força e determinação

«Confundem força e determinação. Eu sou fraco, porque nunca imponho a minha vontade, mas sou determinado, porque nunca desisto da minha vontade. Ficamos ambos divertidos, eles com o fracasso, eu com o que vem depois.»
Pedro Mexia, «O que vem depois», no blogue «Lei Seca»

21.2.11

monstros

Costumo ler um blogue, o «Educação Irracional», de cuja frase de descrição gosto muito. Diz assim: «Existem dois monstros dentro de mim, um bom e um mau. Se quiseres saber qual sou, respondo-te : sou aquele que mais alimentares».

É uma grande verdade. A não ser que estejamos a falar de gente com sangue de barata, que ninguém espere receber coisas boas quando deu coisas más, que ninguém espere companheirismo quando deu esporadas, que ninguém espere cuidado quando deu rejeição. O ideal, aliás, é que ninguém espere nada, mas muito menos colher as flores que deliberadamente pisoteou.

Depois, ninguém diga, muito consternado, que não ia ficar feliz se assim fosse. Não há pachorra para tanta hipocrisia.

© [m.m. botelho]

ouriço-cacheiro

«A little Consideration, a little
Thought for Others, makes all the diference.»
De um livro do «Winnie, The Pooh», que dizem que é para crianças.

Hoje, se eu pudesse, se me fosse dado escolher, queria ser como o ouriço-cacheiro, que se enrosca em si mesmo até que o perigo se afaste. Se eu pudesse, gostaria de não ter de lidar com uma série de coisas que, de repente, me invadiram a vida e a viraram de pernas para o ar. Tudo coisas que, por muito sentido que possam fazer para os outros, não fazem qualquer sentido para mim. Tudo coisas que, por mais voltas que dê à minha cabeça, por mais uso que faça da minha reconhecidamente descomunal inteligência (sim, já passei a fase da falsa modéstia há muito) não consigo entender, por mais que atente nas explicações que foram dadas e que ouvi com toda a abertura.

O que sinto, neste momento da minha vida - e isto não é auto-comiseração nenhuma, é uma simples constatação, que as coisas são para serem ditas quando se tem ovários para as dizer - é que fui um dano colateral de uma guerra que nem sequer era minha. O que sinto é que fui arrastada para um lodo que me era absolutamente alheio e que engoliu o que não era suposto ser engolido, porque eu não tinha nada que ver com ele. Podem dizer-me até à exaustão que as pessoas se limitaram a viver as suas vidas, que eu, dentro dos meus (chamem-lhe espartilhantes, que é para o lado que eu durmo melhor) princípios e valores, não consigo aceitar que se vivam vidas destruindo outras vidas. Há sempre, pelo menos, duas maneiras de fazer as coisas: a certa e a errada. E, às vezes, no melhor pano cai a nódoa, que é como quem diz, até o mais esforçado dos seres faz as coisas do pior modo possível.

Sei que cada um de nós é o único responsável pela sua própria felicidade. Sei e concordo, mas também tenho a destreza de ver que cada um de nós pode ser causa de infelicidade para os outros. E, convenhamos, cada um de nós até pode fazer tudo pela sua felicidade, que se outros vierem espalhar cinzano no que foi semeado, não há cá milagres que salvem a colheita.

Ao longo de anos, sempre fui exemplar para com todos os envolvidos nesta guerra da qual sou um dano colateral. Nunca os traí, nunca lhes fui desleal, sempre me empenhei no melhor para eles, sempre lhes tive o maior respeito, consideração e amor. Em suma, sempre fiz tudo o que podia para não ser causa da sua infelicidade. Posso até não ter feito muito pela sua felicidade, mas se há coisa que não fiz foi ser causa da sua infelicidade.

O que tive em troca, contudo, não foi o mesmo. Podem até não ter feito muito pela minha felicidade, mas a dado passo tiveram um papel determinante na minha infelicidade. E isso, ser causa de infelicidade do outro, é uma trampa que não se faz a ninguém, muito menos a quem sempre nos tratou bem, nos deu o melhor que tinha e nos amou.

Ah, se eu pudesse, queria ser como o ouriço-cacheiro, que se fecha em si mesmo e não permite que os outros o magoem! Se eu pudesse, queria ter a possibilidade de não permitir que alguém pudesse causar-me dor. Sucede que não posso, que ninguém pode.

Por muito defendidos que sejamos, por muito leais e amantíssimos que sejamos para não despertar a fúria das energias cósmicas, ninguém pode proteger-se dos outros quando os outros optam mesmo por nos sacrificar no seu altar das oblações ao próprio umbigo. Ninguém consegue comandar a vida dos outros de forma a que as suas escolhas, os seus actos, as suas palavras não sejam para nós causa de infelicidade. E não me venham com a conversa de que as pessoas só nos magoam se nós quisermos, porque isso é uma grandessíssima treta. As pessoas magoam-nos se quiserem magoar-nos - ponto - e é fácil perceber porquê: porque todos nos movimentamos num universo de afectos, já que o que nos une é o amor e o respeito que temos uns pelos outros, nada mais. E sendo que a condição humana é amar para ligar, está criado o cenário para que todos aqueles que amamos possam magoar-nos e para que possamos magoar todos aqueles que nos amam.

Isto não é, portanto, uma questão de "empowerment". Isto é, tão-somente, a vida dos homens, pura e dura, em todo o seu esplendor. Quem não vive isolado, quem cria laços de afecto, deixa de ter a possibilidade de controlar a sua própria dor, porque ela passa a poder ser causada por aqueles com quem esses laços são estabelecidos. Não é possível criar laços sem dar esse flanco. Não é possível evitar que assim seja de maneira nenhuma.

O que sobra, então? Sobra a consciência que cada um tem de ter de que, não sendo necessariamente motivo de felicidade para o outro, pode ser motivo da sua infelicidade. Sobra a crença de que aqueles que amamos e a quem estamos ligados terão a amabilidade de não ser causa da nossa infelicidade. Sobra a nossa dignidade de não querermos ser causa da infelicidade alheia.

Não se trata de diabolizar as pessoas. Trata-se de reconhecer a cada um de nós um poder que tem, de facto, um poder que adquire a partir do momento em que cria laços com o outro. Se pudéssemos ser todos ouriços-cacheiros, estaríamos todos muito tranquilos na nossa protecção espinhosa e aí cada um podia fazer trinta por uma linha porque estávamos todos cada um por si. Mas nós só podemos ser humanos, logo, tremendamente desprotegidos pelos afectos que nós mesmos alimentamos.

Se eu pudesse, se me fosse dado escolher, queria ser um ouriço-cacheiro para que ninguém tivesse o poder de me magoar, para que me bastasse encolher-me para afastar o perigo. É que esta condição de não poder ser ilha e ter de criar laços com os outros, esta condição demasiado humana de ficar sujeito ao impacto que o que os outros fazem tem na nossa vida é tremendamente angustiante e às vezes apetece mesmo fazer uma pausa desta contingência.

Confúcio disse que a vida é simples, nós é que temos a mania de a complicar. Em parte, isto é bem verdade: tudo pode ser simples, se todos estivermos conscientes de que podemos ser causa de infelicidade para os outros e, portanto, devemos a todo o custo evitá-lo. Porém, tudo se complica quando cada um desata a viver a sua própria vida, sem olhar a mais nada e, por arrasto, lixa a vida do outro, que se torna um dano colateral das suas acções. Aí é que tudo fica uma novela mexicana sem ponta por onde se lhe pegue: uns a chorarem para um lado, outros a chorarem para o outro, uns a gritarem «Ai, que sacanice que me fizeram!», outros a dizerem «Realmente, fui um grande sacana, mas eu cá tive as minhas razões.». E depois o enredo da novela ganha vida própria, assume contornos de grande ecrã e história de ficção que contada ninguém acredita, nada volta a entrar nos eixos, por muito que se queira, e fica tudo uma grande embrulhada da qual ninguém sai ileso.

Suponho que, aos ouriços-cacheiros, seja relativamente fácil esquecer. Suponho que, uma vez afastado o perigo, não reste mais nada que atormente, mas aos humanos, depois de passada a tempestade, resta sempre a memória. E a memória reaviva sensações que quando são más são terríveis, nos petrificam e, por muito nobre que seja o nosso coração e muito férrea que seja a nossa vontade, nos impedem de deixar de sentir um aperto na garganta quando elas afloram. Mais um motivo para invejar a sorte dos ouriços-cacheiros.

Às vezes, viver a nossa própria vida tem um impacto brutal na vida dos outros. Às vezes, as nossas opções e actos têm a virtualidade de destruir pedaços importantes das estruturas alheias. Isto não significa que devemos deixar de optar e agir, embora às vezes não fosse mau não fazer tudo o que nos dá na real gana, ainda que tenhamos as nossas íntimas razões que nos reconfortam muito na hora de nos justificarmos. Significa apenas que temos de estar conscientes de que aquele impacto ocorrerá, de que aquela destruição terá lugar. Significa, também, que teremos de passar o resto da vida a deitar a cabeça na almofada com a perfeita noção de que um dia tivemos um papel determinante para que assim fosse, porque, tal como temos memória do que nos fizeram, de bom e de mau, sempre teremos memória do que fizemos, de bom e de mau. E ainda há a história do olhar para o nosso próprio retrato e ver que não difere muito do de Dorian Gray, mas isso é só para os mariquinhas pé-de-salsa como eu, que apreciam romances poéticos e fatalistas.

Pela minha parte, acredito que é possível cada um viver a sua vida sem lixar a vida do parceiro. Acredito nisso porque, aos trinta anos, deito a cabeça na almofada com a satisfação de ainda não o ter feito e não me acho nada de especial por isso: só me acho minimamente decente. E se já me aguentei trinta anos, acalento a esperança de aguentar outros trinta, porque sou muito ciosa do meu carácter e deposito grande esperança em mim.

Porém, mais do que isso, o que eu gostava mesmo era de poder deitar a cabeça na almofada sem esta sensação horrenda que é a de que já houve quem, para viver a sua vida, tenha lixado a minha com estrondo. Gostava de não ter de lidar com esta angústia de ter sido estupidamente magoada por quem menos esperava. Gostava de não ter de lidar com a memória de uma dor que poderia, em grande parte, ter sido evitada. Gostava de não ter de olhar para quem me magoou e, sem nenhum esforço para isso, me recordar que o fez, tenha sido lá pelos motivos que tenha sido. É que, com muita pena minha, quando dói, os motivos de cada um não são analgésico e ainda está por inventar o palavreado que provoque amnésia.

Sei que tudo isto é absolutamente irrealista. Sei que o que estou a dizer é que gostava de não levar abanões, de não "crescer" pela dor, de não me fortalecer pela angústia e pela porradinha da vida. Sei que isto é assumir que o que eu gostava era que tudo fosse simples e tranquilo, maravilhoso e idílico, durante a minha passagem pela Terra. A verdade é que há dias em que gostava mesmo. Gostava mesmo que aqueles com quem criei laços não me obrigassem a sofrer desalmadamente, durante uma data de tempo que leva uma eternidade a passar e me desgasta emocionalmente com custos enormes para mim, só para viverem as suas ricas vidinhas, porque creio piamente que poderíamos ser todos muito felizes sem termos de nos andar a estropiar uns aos outros. Gostava mesmo de só ter de sofrer por causa de pessoas em quem não investi, a quem não me dediquei e a quem não votei afectos. Gostava mesmo que as minhas feridas não tivessem nomes, que fossem todas de gente anónima a quem nunca dei abraços e com quem nunca me sentei à mesa. Gostava, admito, porque seria tudo muito mais bonito de se ver, ninguém ficava mal na fotografia e eu não teria estas tristes historietas mirabolantes para contar aos netinhos quando for muito velha. Gostava, palavra de honra que gostava mesmo que, em dias como o de hoje, me fosse dado escolher ser um ouriço-cacheiro.

Como não é, vou ali fazer-me à vida, que ela continua e eu não quero perder pitada de tudo de bom que ainda está para me acontecer. Porque eu mereço: tenho as contas acertadas por uns bons anos.

© [m.m. botelho]

12.2.11

parecer e ser

«Quem observa de fora as regras, mas não o amor que as governa, vê-se muitas vezes demasiado predisposto a qualificar os outros como "prisioneiros".»
Iris Murdoch, «O mar, o mar» [2005], p. 72

Há uns tempos, pediram-me que enunciasse objectos que constituíssem bons presentes para alguém me oferecer. Referi os que me ocorreram de imediato, sem grandes cogitações ou esforço de memória: livros, canetas, marcadores de livros, cadernos ou blocos bonitos, um iPod, uma Lomo, um cachimbo, um ou outro DVD de filmes em que se aprenda alguma coisa para a vida. «Já reparaste que todas essas coisas implicam que estejas sozinha para poderes usufruir delas?», perguntaram. Não, não tinha reparado, mas se nunca reparei é porque não acho que assim seja. É possível ler um livro ou ver um filme com a cabeça recostada no peito de outra pessoa, é possível escrever quando alguém dorme no nosso colo, é possível dividir os headphones de um iPod, é possível fumar cachimbo a dois e uma máquina fotográfica tem muito melhor uso se a empregarmos para eternizar momentos partilhados.

À vista desarmada, posso até parecer muito metida comigo mesma, muito absorta em grandes racionalizações internas, muito no meu casulo, muito cá de casa. Porém, um olhar mais atento que contemple um leque de possibilidades que vão além do óbvio topa que nem tudo é o que parece. É um risco, por isso, que as pessoas, por muito tempo que hajam partilhado com alguém, partam do pressuposto de que são capazes de traçar um perfil do outro e saber que ele é assim ou assado. Não é que até não sejamos, em parte, o que parecemos e, portanto, o que os outros vêem. A questão é que podemos ser - e, na maior parte dos casos, somos - muitíssimo mais do que isso.

© [m.m. botelho]

11.2.11

«perder quem não se pode perder»

«Com a morte, também o amor devia acabar. acto contínuo, o nosso coração devia esvaziar-se de qualquer sentimento que até ali nutrira pela pessoa que deixou de existir. pensamos, existe ainda, está dentro de nós, ilusão que criamos para que se torne todavia mais humilhante a perda e para que nos abata de uma vez por todas com piedade. e não é compreensível que assim aconteça. com a morte, tudo o que respeita a quem morreu devia ser erradicado, para que aos vivos o fardo não se torne desumano. esse é o limite, a desumanidade de se perder quem não se pode perder. foi como se me dissessem, senhor silva, vamos levar-lhe os braços e as pernas, vamos levar-lhe os olhos e perderá a voz, talvez lhe deixemos os pulmões, mas teremos de levar o coração, e lamentamos muito, mas não lhe será permitida qualquer felicidade de agora em diante.»
valter hugo mãe, «a máquina de fazer espanhóis» [2010] [negrito meu]

8.2.11

desejar muito

«Sempre senti que estávamos os dois no mesmo barco, partilhando uma mesma aventura. Líamos os mesmos livros e discutíamo-los: livros infantis, histórias de aventuras, mais tarde romances, história, biografias, poesia, Shakespeare. Apreciávamos e desejávamos muito a companhia um do outro. Uma verdadeira prova, isso era: mais do que devoção, admiração, paixão. Se desejamos muito a companhia de outra pessoa, é porque a amamos.»
Iris Murdoch, «O mar, o mar» [2005], p. 40

Pergunto: e o contrário, será verdade? Isto é, se não desejamos muito a companhia de outra pessoa, é porque não a amamos? Ou podemos não desejar estar, não querer estar, não conseguir estar, decidir não estar precisamente porque a amamos?

© [m.m. botelho]

28.1.11

instantâneos [10]

frase de Anatole France [1844-1924]
visto aqui

27.1.11

para dar fruto

«Se o grão de trigo que cai na terra não morre, continua só
um grão de trigo; mas, se morre, então produz muito fruto.»

«Bíblia», Evangelho Segundo S. João 12, 24

Há uma frase que tenho ouvido muitas vezes nos últimos tempos, não necessariamente dirigida a mim: «Quem não se sente não é filho de boa gente». Um dia, retorqui: «Porque é que diz isso tão repetidamente quando está a conversar comigo? Acha que eu sou naïf? Acha que eu sou "banana", é?». Responderam-me: «Não, não acho, mas não é isso que importa. O que importa é perguntar se a Marta acha isso de si mesma. Importa perguntar se aos outros lhes ocorre que a Marta é "banana" e perguntar que importância é que isso tem para si, se é que tem alguma». Eu, menina bem comportada que sou, pergunto. Pergunto tudo.

I – Achas que eu sou "banana"?

Falei com os que me são próximos. Pedi-lhes que me dissessem se acham que sou "banana" e porquê. Obtive respostas para todos os gostos: há quem ache que sou completamente "banana"; há quem ache que sou "banana" em determinadas circunstâncias e quando estão envolvidas determinadas pessoas; há quem ache que não sou nada "banana", muito pelo contrário. Os motivos para tão diversas opiniões são variados, como se compreende: são muitos olhos a ver o mesmo, mas cada par deles de uma perspectiva própria.

Durante muito tempo, dei relevo ao que os outros pensavam sobre mim. Não que me fosse essencial que os outros só tecessem boas considerações quando o assunto era eu. Como qualquer outra pessoa, cativei o afecto de uns e granjeei o ódio de outros e sempre fui muito consciente disso. Contudo, a esmagadora maioria das pessoas com quem me cruzei na vida sempre me apreciaram e eu gostava do conforto que o afecto dos outros me dava. Foi esse conforto que me habituei a sentir que fez com que para mim se tornasse importante que as pessoas me considerassem. Era bom, e do que é bom todos gostam.

Esse conforto nunca me foi difícil de alcançar. De facto, não me recordo de ter engolido grandes sapos para agradar fosse a quem fosse. Também é verdade que isso nunca me foi exigido, porque sempre tive muita sorte nos encontros e na retribuição dos afectos: aqueles de quem eu gostei, gostaram sempre muito de mim. Por outro lado, tenho também a felicidade de ter prazer em fazer muitas coisas muito diferentes, mantendo preferências, mas sem que isso implique sacrifícios: posso deleitar-me tanto num concerto de Mahler como num bailarico de S. João, apreciar tornedó em redução de vinho do Porto com chalota e batatas confitadas tanto como uma boa bifana no pão, viajar de avião com o mesmo entusiasmo com que viajo de comboio. Em suma, não me é difícil adaptar a um sem número de ambientes e circunstâncias – e, porque não, de pessoas – , o que é tremendamente facilitador quando se trata de colher a simpatia dos outros. Talvez por isso, por saber que me era fácil, eu gozasse de uma íntima certeza de que, quando uma pessoa me interessasse o suficiente para eu querer incluí-la no meu universo, seria capaz de o fazer. Talvez por isso, por saber que tinha tudo para o conseguir, me incomodasse um pouco quando o não conseguia, ou não conseguia logo, mesmo quando não tinha a menor intenção de manter a pessoa na minha vida. E talvez por isso eu desse tanta importância ao que outros pensavam sobre mim.

Porém, quando me pus a pensar no que ganhava ou perdia com a importância que dava ao facto de as pessoas pensarem que eu poderia ser "banana", percebi que a resposta é «nada». Na realidade, o que me pode importar que os outros achem que eu sou demasiado permissiva, demasiado liberal, demasiado «deixa arder que o meu pai é bombeiro», ou mesmo que eu sou demasiado rígida, demasiado racional, demasiado preocupada? Nada! O que interessa é o modo como eu uso as minhas características para trilhar o meu percurso com vista a ser feliz. Isso não depende do que os outros pensam sobre mim, mas sim do que eu penso sobre mim, porque o modo como eu me vejo é que me permite não desperdiçar nada do que sou, é que me permite investir tudo o que tenho em mim mesma, de modo a poder proporcionar a melhor pessoa possível primeiro a mim e depois aos que me rodeiam e me amam.

Assim, concluí que, em rigor e agora, estou-me nas tintas para o que os outros pensam sobre mim, o que inclui o facto de eu ser ou não ser "banana" na forma como lido com as frustrações, os fracassos e as desolações. Estou-me literalmente nas tintas, porque a verdade é que cada um lida com isto como pode e como sabe. Há quem seja sempre muito seguro de si e passe pelas coisas como cão por vinha vindimada; há quem se deixe tomar pela tristeza e depois se erga estruturado; há quem se deixe afundar e ande anos até conseguir levantar-se, se conseguir. São inúmeras as formas de reagir a isto e de agir depois disto, umas eventualmente mais "banana" do que outras. A minha é tão-somente isso: a minha. O método de cada um aplica-se exclusivamente a esse um. Como em tudo, nestas coisas cada um sabe de si e, para os crentes, Deus sabe de todos. Assim sendo, quero lá bem saber das opiniões alheias sobre o modo como eu – e só eu – posso conduzir a minha existência. Não significa isto que desconsidere as pessoas. Simplesmente, não lhes concedo um papel que só eu é que posso ter na minha vida: o de ditar o modo como eu devo vivê-la.

II – E eu, acho que sou "banana"?

Depois de ponderar sobre a importância que tem o que outros pensam sobre a minha eventual "bananice", questionei se eu mesma penso que padeço de tal maleita. Antes de mais, reflecti sobre variadíssimos acontecimentos da minha vida. Sobretudo, sobre a última década da minha vida. E sucedeu-me tanta coisa, nesta última década! Tive uns vinte muito plenos, incrivelmente plenos, de coisas boas e de coisas más. Foquei-me, essencialmente, no modo como reagi às coisas más, como geri a minha vida imediatamente a seguir a esses acontecimentos, como passei a viver depois de eles terem tido lugar, como passei a encarar-me depois de eles fazerem parte de mim, do meu passado. E cheguei a uma conclusão.

Não, não acho que seja "banana". Seria "banana", porventura, se, de cada vez que a vida me traz um revés, ficasse cheia de auto-comiseração e não saísse desse registo. Seria "banana" se, de cada vez que me sinto magoada por alguém ou por alguma situação, ficasse afundada naquela mágoa, sem reacção, limitando-me a pensar que não teria de estar a sofrer se houvesse um pouco mais de tacto, um pouco mais de consideração, um pouco mais de maturidade, um pouco mais de qualquer outra coisa. Não o faço. Quando levo um abanão, ando uns tempos a ver estrelas, com a cabeça à roda, com a sensação de que o chão me falta sob os pés. Afortunadamente, não tenho qualquer prurido em deixar que a tristeza tome conta de mim, mas só durante o tempo estritamente necessário. Choro. Baba e ranho, mesmo. Sinto-me miserável e até sou capaz de me permitir ter um pouco de pena de mim mesma, «coitadinha de mim, que estou a sofrer tanto!». Mas esta fase dura uns tempos, não dura a vida toda. Não me fico por aí. Nunca fiquei. De uma forma ou de outra, reuni sempre as forças necessárias para inverter a tendência da auto-comiseração. Deixo-me tentar por ela, até me posso permitir não lhe resistir no imediatamente após, mas nunca me permiti ceder-lhe completamente. Sempre gostei de mim o absolutamente necessário para não permitir que tal acontecesse. Tenho-me aguentado – caramba, se tenho! – e saio sempre mais reforçada destes episódios menos bons. Nunca saí mais pequena do que era antes de eles terem acontecido.

É uma inevitabilidade: às vezes, as pessoas magoam-se umas às outras. As feridas rasgam-se. A carne fica ali, exposta, viva, a sangrar. O choro irrompe. Então, há que esperar que a dor acalme, que o choro diminua. Há que enxugar as lágrimas. Há que limpar o pus da ferida e cicatrizá-la. Há que ranger os dentes, espernear, maldizer este mundo e o outro e morder a corda com toda a força que temos enquanto escarafunchamos até que a carne putrefacta saia toda. Depois, há que deixar o tempo agir, esperar que se fechem os lanhos, ainda que permaneçam as cicatrizes. Só assim é que se curam as feridas com a certeza da cura.

Quero chegar ao fim da vida toda retalhada, cheia de cicatrizes, mas não de feridas. Quero chegar com a sensação de que me esfarrapei toda, mas que isso é sinónimo de que me fiz à vida, de que apanhei porrada, mas que dei muita luta. Por isso é que eu posso afirmar convictamente que não sou "banana". É que os "bananas" não dão luta. São muito altruístas e tal, muito cheios de perdão para dar aos outros e a si, principalmente, mas cheios de feridas por curar. Fogem daquele momento da limpeza do pus, o mais doloroso nas feridas físicas, o mais tortuoso nas feridas psicológicas. Acagaçam-se todos perante a ideia de aumentar o sofrimento num momento que é já de dor. Anseiam que a crosta cubra as feridas, mas nem sequer as limpam para não doer. Tolhem-se todos no seu cantinho à espera que a coisa passe, porque há-de passar.

Se sou "banana"? Não, não sou. Posso não ser a mais brava das mulheres, mas não sou propriamente uma cobardolas. A terra tem de ser rompida para que nasça fruto, não é? Então, também é preciso que se abram feridas para expurgar o que não interessa, de modo a tornar a viagem possível, sem excesso de carga que só nos limita e nos faz arrastar os pés. Dói muito, dói, principalmente a quem se sente porque é filho de boa gente, mas a verdadeira cura nunca pode ser indolor. A vida não é indolor.

© [m.m. botelho]

16.1.11

o pássaro

fonte: visto aqui

Hope is the thing with feathers
That perches in the soul,
And sings the tune - without the words,
And never stops at all,

And sweetest in the gale is heard;
And sore must be the storm
That could abash the little bird
That kept so many warm.

I've heard it in the chillest land,
And on the strangest sea;
Yet, never, in extremity,
It asked a crumb of me.


Emily Dickinson [1830-1886]

3.12.10

aprendiz

fotografia de Cesarr Spencer Terrio [2010]

«Na escola da vida não há férias.»
Jorge Amado, «Os Pastores da Noite» [1964]

Se alguma certeza adquiri ao longo da vida, foi a de que não quero chegar ao fim da estrada, olhar para trás e dizer: «Não fiz tudo o que podia». Não. Quero chegar à linha de chegada com a consciência de que nem sempre estive bem, mas fui estando sempre cada vez melhor. Quero poder revisitar todos os episódios da minha história e ver que houve erros meus, mas que a cada erro se seguiu a sua assunção, o enfrentamento das suas consequências e - importantíssimo - que fiz tudo o que estava ao meu alcance para o corrigir.

Não acredito em imperdoáveis, tal como não acredito em impossíveis. Prefiro crer no poder das palavras e dos gestos. Crer nas pessoas e na sua vontade. Crer na coragem e nos afectos. Por isso, embora não descure nenhum dos dois, dou mais importância às soluções do que aos males. E não me lembro de alguma vez ter desistido até ter feito tudo o que me era possível para que vingasse o melhor cenário.

No que à vida diz respeito, sou uma aprendiz sem pretensões de chegar a mestre. Espero apenas manter a lucidez suficiente para chegar ao fim da viagem sem ter saltado nenhuma etapa, nenhuma emenda a seguir a cada falha. Só assim poderei chegar inteira e melhor do que era quando parti.

Se chegasse hoje, chegaria tranquila. Não contornei nenhum obstáculo.

© [m.m. botelho]

1.12.10

o tempo que resta


«O Tempo passado é mestre do presente e do porvir.»
provérbio brasileiro

Uma das conclusões a que o passar dos anos (já lá vão uns quantos) e alguma porradinha que fui levando da vida me permitiram chegar é a de que o Tempo não resolve nada por ninguém. Pode ajudar-nos a relativizar os acontecimentos; dá-nos, seguramente, um certo distanciamento em relação às emoções que os factos ocorridos despertaram em nós; traz-nos a indispensável estabilidade mínima para que consigamos raciocinar sobre o que vivemos. Porém, por si só, o Tempo não resolve nada.
Pode contribuir para que as feridas não fiquem em carne viva, mas não as cura, não as cicatriza, não reata os laços que entretanto ele mesmo ajudou a desatar. O Tempo não aproxima as pessoas, não traz de volta à vida os corações, não transmite aquilo que só as palavras e os gestos podem transmitir. O Tempo não fala, não age, não explica, não escuta, não compreende: isso só as pessoas podem fazer.

Cada vez mais me convenço disto: embora nada possamos fazer para modificar o passado, temos sempre a possibilidade de alguma coisa fazer para melhorar o futuro. Porque o importante não é o que fizemos com o Tempo que já se foi, mas sim o que ainda podemos fazer com o Tempo que nos resta. Importa é fazê-lo no momento certo, porque, a cada dia que passa, corremos sempre o risco de ter deixado passar tempo demais.

© [m.m. botelho]

eu

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