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18.3.14

demagogias parlamentares no dia da Mulher

No passado dia 7 de Março, o Parlamento aprovou para discussão na especialidade o projecto de lei n.º 522/XII, do BE, que, entre outras coisas, propõe a alteração da natureza semipública do crime de violação para pública. A propósito, escrevi um artigo de opinião que o P3 publicou online. Fica a ligação e um excerto.
Deve o Estado impôr a sujeição à investigação e julgamento destes crimes às vítimas, mesmo contra a sua vontade? Alcançar-se-á, assim, o equilíbrio, a concordância prática, entre as três finalidades do processo penal (a realização da justiça e a descoberta da verdade material, a protecção dos direitos fundamentais das pessoas envolvidas no processo e o restabelecimento da paz jurídica), que devem nortear a escolha legislativa sobre a natureza (pública, semi-pública ou particular) dos tipos de crime? A resposta é "não".

© [m.m.b.]

Adenda [em 2014.07.22] - Esta proposta do BE que havia sido aprovada na generalidade foi, em 21.07.2014, chumbada na especialidade.

22.5.13

perigosas concepções


[fonte: web]

«É por perigosíssimas concepções como esta que não pode haver dúvida de que o humanismo e a sensibilidade social fazem toda a diferença na educação das pessoas. Enquanto se der mais valor ao capital financeiro do que ao capital humano, enquanto se der maior importância ao dinheiro do que ao Homem, enquanto se puserem as pessoas ao serviço do vil metal e não este ao serviço daquelas, não haverá outra coisa senão exploradores e explorados, ainda que uns e outros achem que não vem mal algum ao mundo por isso.»

Um excerto de «Empreendedores há muitos, humanistas é que nem por isso», a minha crónica que o «P3» publicou hoje, contendo algumas das minhas reflexões a propósito do sucedido no «Prós e Contras» da passada Segunda-feira.

© [m.m. botelho]

15.2.13

política, semântica, amor.

«O que surpreende na frase de Francisco José Viegas (FJV) não é, pois, a má-educação (de resto, assumida pelo próprio como "evidente"), mas a falta de decoro. É que por muito que possamos ser solidários com a posição defendida, ninguém deixará de notar que, do ponto de vista político, e fazendo a comparação (porque tudo isto vem à tona — coincidência ou não — no Dia de S. Valentim), FJV se mostra um ex- namorado um tanto ressabiado, daqueles que depressa "parte para outr@", sem fazer o luto da praxe à anterior relação, ao que se sabe, bastante amorosa.»

Um excerto de «Francisco José Viegas, serão mágoas de amor?», a minha crónica de estreia, ontem, no «P3».

© [m.m. botelho]

9.3.10

má informação e má opinião

© explodingdog [28.01.2010]

Nos tempos que correm, parece ter-se tornado necessidade universal tecer observações sobre todos os assuntos. Não há alma em Portugal que não tenha uma palavra a dizer sobre as escutas do "Processo Face Oculta", as viagens de Inês de Medeiros a Paris, a tragédia na Madeira, o Plano de Estabilidade e Crescimento, o ordenado de Rui Pedro Soares, os escândalos sexuais do Vaticano, o programa de Miguel Sousa Tavares... Enough. Se enunciasse todos os tópicos, a lista não teria fim.

Mais do que os blogues, o Facebook e o Twitter tornaram-se repositório de todo o tipo de comentários. Com efeito, enquanto os blogues exigem reflexão, ponderação e alguma capacidade de escrita, tanto o Facebook como o Twitter se contentam com apenas alguns caracteres, ideias isoladas, tiradas infundadas, frases instantâneas. Por isso é que estas duas plataformas se tornaram tão apetecíveis e conheceram uma enorme adesão em tão pouco tempo. A catadupa de informação convive bem com a observação de circunstância, que por sua vez convive bem com a desnecessidade de reflexão, que por sua vez convive bem com a desnecessidade de fundamentação, que por sua vez convive bem com a falta de rigor. Sucede que eu, que sou utilizadora entusiasta tanto do Twitter como do Facebook, convivo francamente mal com a realidade que acabei de descrever e duvido, sinceramente, que o mal esteja do meu lado.

Vivemos tempos em que as pessoas sentem a necessidade de opinar para se sentirem socialmente activas, como se quem não comentasse não existisse. Por outro lado, parece-me que [erradamente] se enraizou a ideia de que comentar tudo e todos dá a quem o faz um estatuto de sujeito inteligente, actualizado, culto, quando é exactamente o contrário: a maior parte das vezes é exibida uma pobreza intelectual confrangedora, uma tendência para maledicência «só porque sim», um profundo desconhecimento dos temas. As páginas online dos jornais são o melhor exemplo disso: estão repletas de comentários de quem, nitidamente, não leu sequer a notícia, tendo-se ficado pelo título, o qual frequentemente não reflecte minimamente o teor do texto desenvolvido, como já tive oportunidade de notar diversas vezes em textos publicados neste blogue. Outro espelho disto a que me refiro tem sido, nos últimos tempos, o Twitter, onde é cada vez mais notória a ausência de limites do bom senso nas opiniões que se expressam. E não há dia em que não receba e-mails contendo as mais estapafúrdias afirmações como se de dogmas se tratasse, mensagens que as pessoas automaticamente reencaminham sem sequer se darem ao trabalho de confirmar a informação, sem fazerem a mínima diligência para assegurar que o que vão dizer aos outros não é uma patranha. Deixam-se, assim, instrumentalizar pela intriga, sem disso se darem conta e sem se aperceberem do quanto contribuem para a proliferação dos interesses que acreditam piamente estar a combater.

As manchetes dos jornais que são publicadas a conta-gotas e em obediência a critérios de timing político (ao invés do desejável timing informativo), o autêntico show off das inúmeras comissões parlamentares transmitidas em directo, os programas televisivos ditos «de opinião» que proliferam em todos os canais e o clima permanente de instabilidade política e social constituem o ramalhete de circunstâncias que potenciam a dispersão da desinformação.

Da informação espera-se que seja precisa, completa, relevante, imparcial, isenta e fiável. Obviamente, a opinião não tem de ter estas características, sendo, por definição, a expressão de impressões pessoais sobre determinado assunto, mas tem de ser séria, isto é, bem argumentada e bem fundamentada. Embora nenhuma das duas seja desejável, agora parece mais claro do que nunca que pior do que uma sociedade que não tem informação e opinião é uma sociedade que tem má informação e má opinião, porque piores do que o silêncio e o desconhecimento são a mentira, a falta de ética e a falta de seriedade. E já que a palavra está tanto na moda, atrevo-me a falar de uma "contaminação" da informação e da opinião pública pela desonestidade, cenário absolutamente indesejável numa sociedade que se pretende esclarecida. Como Régio, em «Cântico Negro», apetece dizer: «Prefiro escorregar nos becos lamacentos, / Redemoinhar aos ventos, / Como farrapos, arrastar os pés sangrentos, / A ir por aí...».

© Marta Madalena Botelho

17.9.09

primeira página

Esta é a indescritível primeira página do Jornal de Notícias de hoje: ver imagem. Nela aparece, em primeiro plano, um dos feridos no acidente que ocorreu ontem em Penafiel (a jovem com a cabeça envolta numa ligadura). Em segundo plano surge o inenarrável: a carrinha onde seguiam as sete jovens vítimas e, sentadas no lugar do condutor e do passageiro, duas das vítimas mortais, na exacta posição em que ficaram após o acidente, envoltas em poças de sangue.

O que parece inacreditável não é o facto de alguém ter fotografado o momento. Ao fotojornalismo devemos (e agradecemos) a denúncia de muitas situações e a perpetuação de muitas imagens que ninguém deverá esquecer. O que choca é o facto de esta fotografia - especificamente esta fotografia - ter aparecido na primeira página do jornal.

Imagens do género são geralmente usadas para denunciar situações, para fazer alertas, para mostrar aquilo que às vezes as palavras não são capazes de concretizar. Neste caso, questiona-se o que se pretende transmitir. Se é o horror do acidente, para tanto bastaria uma imagem dos veículos, suficientemente danificados para dar a entender a gravidade e a proporção do embate. Mas não. Estão lá também os corpos ensanguentados de duas das vítimas mortais. Pergunta-se: com que propósito?

Esta primeira página do Jornal de Notícias (bem como esta ligação para a página online do jornal, onde esta e outras fotografias do acidente podem ser vistas em maior resolução) evidencia total desconsideração pela tragédia que constituiu este acidente, particularmente lamentável pelo facto de as vítimas serem todas muito jovens. Essa desconsideração não tem que ver com a dor dos familiares, mas sim com a insensibilidade demonstrada pelo uso de uma imagem onde aparecem duas vítimas mortais ainda encarceradas, o que acaba por redundar numa instrumentalização daqueles dois seres humanos que ali aparecem como objectos inanimados, como se de coisa de menor importância se tratasse.

Pergunto-me onde terá ficado o bom senso quando esta imagem do acidente (atendendo a que o jornal tinha outras) foi a escolhida para figurar na primeira página. Na gaveta, certamente.

[Também publicado em PnetCrónicas.]

© Marta Madalena Botelho

11.8.09

flag wars: o império contra-ataca

Era já dia 10 de Agosto de 2009 (passavam uns minutos da meia-noite) quando um grupo de quatro indivíduos do sexo masculino envergando máscaras de Darth Vader, numa acção conjunta, lograram substituir a bandeira do município de Lisboa pela da monarquia, no mastro do edifício dos Paços do Concelho. Munidos de um escadote e de uma boa dose de ousadia, subiram pela fachada do prédio até à varanda, galgaram para dentro, retiraram a bandeira com as armas da cidade e fizeram hastear aquele que foi o estandarte do país até ao dia 4 de Outubro de 1910.

O facto foi objecto de ampla cobertura mediática um pouco por todos os jornais, televisões, blogues e redes sociais. Afinal de contas, tratou-se de uma iniciativa de pessoas ligadas ao blogue «31 da Armada» (nomeadamente, Rodrigo Moita de Deus, um co-autor que assumiu publicamente ter idealizado e concretizado o momento), com direito a comunicado ao estilo MFA.

Há quem tenha visto isto com uma enorme preocupação: um bando de jovens sem qualquer respeito pelas instituições republicanas e democráticas tomou uma atitude inaceitável e que atenta contra os símbolos nacionais, profanando-os. «Crime!» – exclamam, insurgindo-se.

Outros conotaram o sucedido com o esplendor da silly season: com o país a banhos e sem motivo para olhos alerta e ouvidos à escusa a não ser o tema «Gripe A», a juventude precisa de se entreter com alguma coisa além de festivais de Verão e das touradas (sim, que também há sub-35 que gostam de ver lidar os toiros). Vai daí, inventam-se actos pseudo-heróicos que têm mais de divertimento do que de propósito político. «Coisa de pouca monta!» – pensam, enquanto espalham o bronzeador pelo corpo.

Em suma, onde uns encontram valentia, outros acham cobardia; onde uns vêem seriedade, outros notam inconsequência; onde uns vislumbram terrorismo, outros descortinam mero entretenimento de quatro enfants terribles; o que uns temem ter sido um perigoso episódio que abre precedentes, é por outros reduzido a um fait diver próprio de uma forte imaginação e excesso de tempo livre.

Bem vistas as coisas, o que aconteceu foi um pouco de todas estas coisas.e por um lado se tratou de um acto condenável e até criminoso, por outro lado, no que toca ao plano das motivações, parece que mais não foram do que a expressão de apoio à causa monárquica no ano de preparação das comemorações do centenário da República. Ainda que os próprios autores da façanha queiram estabelecer um paralelismo entre este acto e o modo como foi implantada a República em Portugal, é quase certo que bem sabiam que um e outro não teriam os mesmos efeitos.

O que ninguém poderá pôr em causa é o facto de este episódio ter permitido ao blogue «31 da Armada» beneficiar, por poucos dias que fosse, de um tremendo marketing à boleia dos blogues, do Twitter, da comunicação social e das próprias instituições (note-se que a Câmara Municipal apresentou queixa na PSP, o que irá dar necessariamente lugar a uma investigação criminal tutelada pelo Ministério Público). Desconheço quais serão os números de visitas ao blogue desde que a notícia foi veiculada, mas atrevo-me a dizer que tenham sido em sobejo número, muitas mais do que é costume.

Todos conhecemos como operam estes fenómenos e como a profusão de posts e links em blogues fazem muito mais pela movimentação de interesses do que uma manifestação de 5.000 pessoas. Um pouco de imaginação e arrojo são suficientes para dar início à engrenagem, já que tudo sucede por si mesmo, com a ressalva de que se o objectivo é mesmo derrubar a República será necessário bem mais do hastear de uma bandeira, com ou sem telegrama, com ou sem internet.

Aos que, como eu, consideraram o episódio pouco mais do que um mote para uma crónica, resta o consolo de saber que mais motivos de inspiração se aproximam, já estão prometidas outras acções anti-republicanas com o cunho do «31 da Armada» até Outubro de 2010.

E termino resumindo numa frase tudo o que penso sobre o acto protagonizado pelos quatro membros da "ala monárquica" do «31 da Armada»: «The Force is with you, young Skywalker, but you are not a Jedi yet».

Adenda (em 12.08.2009)

1. De acordo com a Agência Lusa, o Movimento do 31 da Armada (assim designado na notícia) quer agora proceder à troca da bandeira do município de Lisboa pela bandeira monárquica que foi hasteada. Eis mais uma demonstração da notória astúcia com que o grupo rendibiliza em termos mediáticos (e humorísticos) o acontecimento.

2. D. Duarte, pretendente ao trono português, pronunciou-se deste modo sobre o sucedido: «Estou muito satisfeito. Apoio todas as acções que se traduzam no reforço do sentimento de patriotismo e da divulgação do que é a história de Portugal». Assim ficámos a saber que, para D. Duarte, este episódio consiste numa acção patriótica e de divulgação da história nacional (!). O que o leva a assim pensar será, certamente, o pormenor do uso de máscaras de Darth Vader, sem dúvida muito históricas e tremendamente portuguesas...

[Também publicado em PNETcrónicas.]

© Marta Madalena Botelho

3.8.09

timing e vontade

I. É admissível a recusa expressa por Manuela Ferreira Leite em aprovar uma lei que impeça a candidatura de pessoas acusadas, pronunciadas ou condenadas judicialmente por crimes graves (como corrupção) em véspera de eleições. Certamente, o timing não será o melhor. Há candidaturas apresentadas, oficializadas, em marcha e uma alteração legislativa agora daria mais ares de oportunismo político do que da demagogia da qual todos os partidos tanto procuram afastar-se, mas que parece ser congénita.
De resto, antes de aprovar tal medida, sempre há que ponderar se não poderá haver uma subversão dos seus propósitos para sanear determinadas pessoas, bastando para tal que essas pessoas sejam indiciadas pela prática de um crime. Atendendo, ainda, à previsibilidade da demora das decisões finais na justiça portuguesa, o impedimento de apresentar uma candidatura poderá manter-se durante anos a fio, o que pode simplesmente arruinar qualquer carreira política. E há ainda a questão da não culpabilidade: os indiciados que venham a ser julgados não culpados podem ver comprometidas as suas (legítimas) ambições políticas sem que ninguém seja responsabilizado por isso.
Em suma, a proposta de Marques Mendes é um bom ponto de partida, mas há ainda muitos aspectos a lapidar.

II. Timing e contornos específicos da lei à parte, um aspecto se revela evidente em toda esta matéria: tivesse havido vontade política de qualquer um dos partidos (com maiores responsabilidades para os que mais facilmente poderiam fazer aprovar a medida) e a lei poderia já existir. Afinal de contas, Marques Mendes anda a pregar o mesmo sermão há anos.
Veremos se após o acto eleitoral alguma coisa muda. Pela minha parte duvido que seja sequer ponderada qualquer mudança.

[Também publicado em PnetCrónicas e em PnetPolítica.]

© Marta Madalena Botelho

24.7.09

desinformação

O «Jornal de Negócios», na sua versão online, publicou ontem uma notícia («Paulo Azevedo abandona jantar devido a atraso do primeiro-ministro») que dava conta de que Paulo Azevedo, presidente da Sonae SGPS e filho do empresário Belmiro de Azevedo, abandonara um jantar de negócios. De acordo com o título da notícia, o abandono teria sido motivado pelo atraso do Primeiro-Ministro.
Se assim fosse, na minha perspectiva o gesto só seria de louvar, já que a cultura do atraso deveria ser erradicada de todo o Portugal, com maior urgência nas áreas da saúde, justiça e dos negócios. Por vezes, abandonar os eventos é a única forma de protesto em face das demoras e é pena que não se recorra a essa atitude mais vezes.
Sucede que da leitura da notícia não se conclui o que é afirmado no título. Segundo as declarações de Paulo Azevedo que foram transcritas no corpo do artigo, o empresário só poderia estar presente até às 23h00. Quer isto dizer que sempre se ausentaria do jantar se ele se prolongasse até depois dessa hora, independentemente do atraso de José Sócrates ou mesmo do atraso do decurso do evento. Em suma, o motivo do abandono de Paulo Azevedo não foi o atraso do Primeiro-Ministro, mas sim uma impossibilidade de agenda.
Perante a notícia do «Jornal de Negócios», o leitor fica sem saber qual o objectivo de um título que induz em erro, mas de uma coisa passa a ter a certeza: ler as parangonas exige redobradas cautelas e muito do que é escrito na imprensa é, afinal, desinformação.

[Também publicado em PnetCrónicas.]

© Marta Madalena Botelho

20.7.09

«para o infinito e mais além»

Há quarenta anos um homem aterrava na Lua. Com ele, a Humanidade inteira pisava o solo inanimado de todos os sonhos.

A 16 de Julho de 1969, a equipa constituída pelos astronautas Neil Armstrong, Buzz Aldrin e Michael Collins partiu em missão espacial a bordo da nave «Apollo 11». Quatro dias depois, a 20 de Julho, Armstrong era o primeiro ser humano a pousar o pé na Lua. O momento foi encarado como um ponto de viragem do domínio do Homem sobre o espaço, mas mais do que isso, sobre o desconhecido.

A paisagem revelada pelas filmagens e fotografias é de um desolamento completo. A poeira cobre uma extensão a perder de vista, entrecortada aqui e ali por crateras. Tudo é de um cinzento uniforme e quente, excessivamente quente. A luz, recebida apenas do sol, é escassa. Nenhum atributo, portanto, que lhe dê ar de ser um sítio muito hospitaleiro. A Lua é, provavelmente, o local mais adverso já visitado pelo Homem e é, simultaneamente, o que maior fascínio exerce sobre ele.

Durante milénios, concedemos à Lua lugar cimeiro entre os astros. Era ela quem regia os períodos de fertilidade das mulheres e da Terra, a gestação, o parto, a personalidade, a agricultura, as marés, a pesca e, segundo alguns, até o modo como os cabelos e as unhas crescem. Afundado na sua pequenez, encolhido nas suas limitações, o Homem venerou a Lua a partir da Terra. Observou-a, estudou-a, interrogou-se sobre ela, mas nunca foi capaz de lhe tocar. Por isso, independente e mais importante do que todas as suspeições sobre a veracidade do facto de um par de astronautas ter pisado, realmente, o solo lunar, é o impacto que o acontecimento teve na Humanidade e o seu significado.

A partir de então a barreira era apenas o infinito, ou seja, nenhuma. O Homem sentiu ter superado os seus limites físicos, todas as distâncias, a própria imaginação. Depois do domínio da Terra e do Ar, restava o Espaço. Depois do Espaço, não restava nada. Ou melhor, restava tudo, porque tudo era possível.

A chegada à Lua transportou o mundo que conhecíamos para uma nova dimensão e revelou-nos a capacidade - que até então desconhecíamos - de chegarmos ao local de todos os sonhos. Foi só o começo da aventura. Dali partimos, como dizia o desenho animado Buzz Lightyear - mesmo que seja matematicamente impossível - «para o infinito e mais além».

[Também publicado em PNETcrónicas.]

© Marta Madalena Botelho

10.7.09

(ainda) michael jackson: para lá do grotesco

O texto que segue é uma espécie de comentário ao comentário do Manuel S. Fonseca ao meu comentário à crónica que ele escreveu. Pareceu confuso? Não é. Eu escrevi uma crónica, o Manuel escreveu outra, eu comentei a crónica do Manuel (é só espreitar no fundo da página da crónica), o Manuel respondeu com este texto, e assim chegámos aqui.

O texto-resposta do Manuel trouxe-me à memória um episódio do meu passado. Certa vez, em conversa sobre correcções dentárias, alguém me pediu encarecidamente que, caso alguma vez eu viesse a usar um aparelho ortodôntico, corrigisse tudo o que entendesse, excepto o desalinho que apresenta um dos meus incisivos centrais inferiores. Quando perguntei porquê, respondeu-me que aquele pormenor, aquela imperfeição, era belo e que, por isso, não deveria ser apagado. Na altura esforcei-me por acreditar que as palavras eram movidas pelo afecto que vivíamos à época (entretanto extinto), mas sei-o bem (já na altura como agora o sabia) que não. Tratava-se, precisamente, de uma verbalização dessa consciência de que há pormenores – imperfeições – que nos tornam humanos, como diz o Manuel S. Fonseca na sua última crónica. E tudo porque a perfeição não é da nossa natureza e é bom que estejamos todos cientes disso.

Seja como for, nunca corrigi o tal desalinho. Acho graça ao pormenor, do mesmo modo que me habituei a descobrir beleza nas marcas da varicela, nas sardas, nas manchas senis que a idade imprime na pele. E não sei se já disse aqui, mas tenho um fraquinho por narizes imponentes. Daqui se conclui que eu não ando distante da interpretação de que uma boa parte da beleza dos homens reside na sua imperfeição. É também essa imperfeição que torna cada um de nós distinto dos demais e se há coisa que eu aprecio tanto como a liberdade é a autenticidade.

Haverá muitos modos de abordar a imperfeição, haverá muitos tons, haverá muitos contextos, haverá muitos pontos de partida. Subscrevo, por isso e em absoluto, a ideia adiantada pelo Manuel de que, ao lerem a crónica de Henri-Lévy, todas as pessoas lerão a mesma coisa, mas não da mesma forma. Talvez a nossa divergência de interpretação do texto de Henri-Lévy venha daí - o que me parece uma crítica, ao Manuel parece um louvor; o que me parece uma conotação negativa, ao Manuel parece positiva; o que me parece um mau final, ao Manuel parece uma chave-de-ouro. Como é consabido, não há uma única lente para ver o mundo, pelo que todas as representações serão admissíveis. Resta a cada um defender a sua dama.

O que me perturbou na leitura da crónica de Henri-Lévy foi o modo como toma por adquiridos factos que, além de carecerem de fontes, foram sistematicamente desmentidos. Dou a mão à palmatória: é muito provável que eu dê demasiado relevo aos factos e ao rigor e que isso se note bastante. Peço, pois, que nesse aspecto me seja concedido o desconto devido a quem padece de uma degeneração profissional. Admito que me importo imenso com a verdade, porque a concebo como uma relevante parte da ideia de justiça e a justiça é-me muito cara. Se isso me leva a pôr em causa o que é posto em causa (ou seja, desmentido) é porque estou acostumada a ver sempre duas versões da mesma história, o que quase nunca é bom, já que indicia que uma das partes está a mentir e eu não tenho uma relação lá muito amistosa com a mentira (e às vezes em meu prejuízo). São, digamos, os meus «ossos do ofício». Ademais, esta ideia é adensada pela minha firme convicção de que Wilde (e logo Wilde!) poderia igualmente ter dito «É monstruoso ver como, nas nossas costas, as pessoas dizem de nós coisas inteira e absolutamente falsas», porque se há domínio em que, por excelência, é frequentíssimo assistir a observações pouco rigorosas (tanto para o bem como para o mal), é o da apreciação do Outro. Todos sabemos que uma palavra (um boato, se preferirmos) pode construir ou destruir uma reputação num ápice.

Claro que alguém com esta perspectiva crua das coisas dificilmente poderia ter uma visão hagiográfica de Michael Jackson, pelo que neste ponto rebato o que afirmou o Manuel. Não creio ter-lhe cantado quaisquer loas, a não ser que assim se considere a minha referência ao seu papel na história da música ocidental e ao seu talento como intérprete/bailarino/inovador/universal. O que escrevi mantenho, porque nisso Michael Jackson é mesmo o que eu disse que ele era: ímpar e genial, já que não usei outro adjectivo para o qualificar que não estes. Quanto a mais, pouco me importam os pecadilhos de Jackson, se fez ou não sexo para conceber os filhos, se tomava ou não drogas para anestesiar a dor física, se fez duas ou mil operações plásticas. Procuro respeitar a palavra das pessoas (neste caso, de Jackson), principalmente quando não há provas substanciais de que estejam a mentir. O que me importa (e incomoda), e muito, é esta tendência (demasiado) humana de nos atermos (demasiado) ao estranho, ao misterioso, à imperfeição. Ainda que tenha de gastar fortunas em incenso, dificilmente a compreenderei. Continuo a achar que o grotesco tem o seu papel a desempenhar, mas que está longe de ser o protagonista da história.

[Também publicado em PnetCrónicas.]

© Marta Madalena Botelho

8.7.09

digno de tablóides no seu melhor

Bernard Henri-Lévy publicou hoje, no jornal "i", uma crónica intitulada «As três estações da via-sacra de Michael Jackson». O artigo, ao invés de filosófico e reflexivo, como tem pretensão de considerar-se, é digno de tablóides no seu melhor.

Praticamente toda a informação nele contida é falsa. E como sabemos que é falsa? Em primeiro lugar, porque foi veiculada por um certo tipo de comunicação social que jamais primou pela lisura e pela objectividade. Depois, porque nunca foram sequer indiciadas as fontes de tais informações (como poderiam, se as mesmas são falsas?). Por último, porque foram sistematicamente negadas pelo próprio Michael Jackson em vida.

Estes "boatos" que distorcem a realidade foram ainda negados por outras pessoas envolvidas, como, por exemplo, os médicos do cantor. Com efeito, não há sequer um médico (ou uma clínica) no mundo que confirme e tenha provas de ter realizado uma operação cirúrgica a Michael Jackson para além das duas - ao nariz e de reconstrução aquando do incidente que lhe provocou queimaduras graves durante a gravação de um anúncio da «Pepsi» - que o próprio sempre admitiu ter feito.

O tão falado facto de o tom de pele do cantor ter mudado ao longo da vida não tem nada de extraordinário, ao contrário do que a crónica de Henri-Lévy, tal como tantos outros artigos mal-intencionados, pretende dar a entender. A razão afecta 2% da população mundial e chama-se Vitiligo, é uma doença de pele não-contagiosa que se caracteriza pela perda da pigmentação da pele e tanto Jackson como os seus médicos afirmaram que o cantor padecia dela. Michael Jackson tentou ocultar a doença durante um longo período da sua vida e fê-lo enquanto a maior extensão da sua pele não estava ainda despigmentada. A partir de certa altura, praticamente todo o rosto foi afectado pela despigmentação, o que levou Jackson a optar pela maquilhagem (indispensável para proteger quem tem a doença) de tom mais claro. Isto justifica também o tom "de porcelana", característico dos doentes com Vitiligo, bem como as máscaras, já que a doença aumenta em larga escala o risco de cancro de pele.

É também por isso que as acusações de ódio racial de que Jackson foi alvo são apenas uma tentativa de denegrir a sua imagem, já que, inegavelmente, ele fez mais pelos negros na história da música do que anos e anos de blues e jazz. Os mais atentos certamente não precisarão de recordar «They don’t care about us» (curiosamente, uma canção também usada para distorcer as verdadeiras intenções do cantor) para confirmar o enorme comprometimento de Jackson com diversas questões sociais controversas.

A referência à câmara de oxigénio onde, supostamente, o cantor dormia só pode ser considerada leviana, já que foi desmentida pelo próprio (como se o ridículo não bastasse já para a pôr em causa!). Quanto ao formato do rosto e às mudanças que o mesmo foi evidenciando ao longo do tempo, compare-se com o de sua mãe e talvez as diferenças não sejam assim tão grandes (mesmo no que toca ao nariz).

Outro aspecto incompreensível da crónica de Henri-Lévy é a afirmação que Jackson tinha horror ao ser humano. Ele, como nenhuma outra figura pública da sua dimensão (haverá alguma, além de Madonna?), sempre se quis rodeado de gente. Escolheu as crianças porque não o criticavam, porque não o viam como objecto a explorar para fazer dinheiro às custas de fotografias ou como um bom alvo para uma difamação através de um artigo de jornal. Escolheu o seu mundo (Neverland) porque só ali se sentia em paz, longe dos olhares curiosos e maldosos que em tudo o que fazia buscavam oportunidade para o acusar, criticar, atingir. Quem poderá censurá-lo por isso?

Sobre a concepção dos filhos, todos parecem saber mais do que o próprio Jackson e a mãe das crianças. Mesmo não tendo que o fazer (chega a ser ofensivo pôr a questão em causa), ambos afirmaram repetidamente que as crianças foram concebidas naturalmente, através de relações sexuais. De resto, não consta que o cantor tivesse algum problema nesse aspecto, atendendo a que foi casado duas vezes e outros relacionamentos mais ou menos sérios lhe foram conhecidos.

Em suma, de uma ponta à outra, a crónica de Henri-Lévy está baseada em inverdades e afirmações nunca confirmadas, em menções infundadas, em considerações que roçam o insulto, daquelas que o hábito de ler em certo tipo de "imprensa" já quase nos anestesiou a indignação, mas que não deixam de ser chocantemente lamentáveis quando publicadas noutros suportes e subscritas por certos nomes.

Michael Jackson, como todos os seres ímpares e geniais, será sempre um bom tópico de reflexão sobre o ser humano, especialmente no que respeita à possibilidade de ultrapassar a própria dimensão da materialidade e da temporalidade e de se tornar eterno. Por isso, a maior evidência do tremendo erro em que incorreu a crónica de Henri-Lévy é a frase com que a mesma termina. Afirmar que alguém como Michael Jackson morre só pode ser visto como ingenuidade. Uma ingenuidade de certo modo só equiparável à crença em todas as incorrecções em que o resto do texto se ancorou.

[Ver e ouvir: Michael Jackson. «They don't care about us». 1996. Versão não censurada (contém cenas de violência).]

[Também publicado em PnetCrónicas.]

© Marta Madalena Botelho

22.6.09

cristiano ronaldo não é português

Noventa e quatro parece ter sido o número que mais andou nas bocas do mundo na passada semana e tudo por causa de Cristiano Ronaldo. A quantia paga pelo Real Madrid deixou uns boquiabertos, alguns orgulhosos e outros tantos invejosos. Se é muito ou pouco dinheiro depende da perspectiva.

Não sei por que carga de água é frequente achar-se que todo o português adora futebol e, por isso, defende as cores da sua selecção e vibra com os campeonatos, jogadores, treinadores e adjuntos com a mesma intensidade, isto é, imenso. Já nem as mulheres, dantes salvaguardadas desta visão linear das coisas, estão a salvo. Agora até delas se espera que saibam quem é o guarda-redes da Académica, o árbitro do jogo contra a Suécia e o nome do estádio em que vai disputar-se a final da taça EUFA.

Sucede que, daquilo que me é dado a conhecer, há muitos portugueses – e portuguesas, claro! – que não fazem sequer a mais pálida ideia das regras do jogo. Outros há, como eu, que até sabem as regras (e que até já praticaram a modalidade!), mas de bom grado trocam um jogo de futebol, mesmo que recheado de estrelas ou uma final de uma importante competição, por hora e meia de uma boa soneca. Regra geral, estas confissões em público dão logo direito a ser fulminado por diversos olhares vindos de todas as direcções, sendo certo e sabido que o momento do insulto acontece quando a/o pobre fulminada/o confessa achar todas as manifestações de nacionalismo folclórico, a começar pelas relacionadas com a bola, uma grande treta. Já me aconteceu, por isso sei bem do que estou a falar. Não fosse eu senhora de bons reflexos e pés rápidos e quem sabe o meu carro não teria um risco de uma ponta à outra à conta de uma observação do género.

Há quem diga que, de acordo com as regras do bom nacionalismo, português que é português deveria rejubilar intensamente com o facto de Cristiano Ronaldo ter sido o jogador mais caro de sempre. Aliás, há até quem diga que cada português deveria sentir-se ele próprio merecedor de alguns euros dos noventa e quatro milhões que o Real Madrid pagou pelo jogador porque, afinal de contas, Ronaldo é português, é "nosso", logo, o seu valor também.

Parece-me que não é preciso ir daqui a Badajoz (a alusão à cidade espanhola é pura provocação) para perceber o quão iludidos estão. A não ser que Ronaldo nunca se esqueça de que é português para contrariar isso com todas as forças, não estou mesmo a ver em que é que a nacionalidade tenha ajudado.

É óbvio que se há factor que conduziu Cristiano Ronaldo ao elevado patamar onde está, esse factor é com certeza a sua tendência para contrariar esta bonomia tão lusa. No fundo, tudo o que ele faz é esforçar-se por ser o mínimo português possível. Atrever-me-ia até a dizer que, provavelmente, nem sequer gosta de fado! Porém, a grande diferença está nisto: está consciente das suas capacidades e não está à espera que os outros façam aquilo que só depende dele. Isto é ser português? Não, pelo contrário!

Conforme o ponto de vista, noventa e quatro milhões de euros pode ser muito ou pouco dinheiro pela compra de um jogador como ele. Para mim, por exemplo, Ronaldo está a ser mal pago. Bem vistas as coisas, o seu esforço é redobrado, o que, em consequência, deveria ser pago a dobrar. Além de ter de se empenhar em ser um excepcional jogador, todos os dias tem de contrariar os seus genes portugueses, o que deve ser altamente desgastante, senão mesmo heróico!

É uma evidência: mais do que os pés e a criatividade de Cristiano Ronaldo, a sua capacidade de ser pouco português é que o levou onde ele chegou. Isso vale muitíssimo mais do que noventa e quatro milhões de euros. Isso vale muito mais do que qualquer clube de futebol poderia comprar. Isso é impagável.

[Também publicado em PnetCrónicas.]

© Marta Madalena Botelho

9.6.09

um nome não faz a diferença

placa toponímica da Praça Dr. Oliveira Salazar, em Odemira, existente há largos anos.
[fotografia de Luís Bonifácio]

CComo muitos, também eu achei inusitada a escolha do dia 25 de Abril para a inauguração da Praça António de Oliveira Salazar em Santa Comba Dão. Com tantos dias no calendário foi, dir-se-ia, provocatório fazer coincidir uma homenagem a Salazar com o dia em quem se cumpriam 35 anos sobre o princípio do fim de uma era tão negativamente marcada pelo seu espectro.

Porém, coincidências de datas à parte, devo dizer que não me perturba minimamente que Santa Comba Dão tenha atribuído a uma praça o nome de um filho da terra. Há que compreender as razões que levaram a isso e, para tanto, convém não esquecer que Salazar não foi só o odioso presidente do Conselho que instaurou uma ditadura antiliberal e anticomunista em Portugal, mas também um conterrâneo daquelas gentes (já que nasceu no Vimieiro, uma freguesia do concelho de Santa Comba Dão) e, ainda, um brilhante professor de Direito e um notável académico na sua área (formou-se com 19 valores em Direito, em Coimbra, onde foi regente da cadeira de Economia e Finanças Públicas e se doutorou com apenas 29 anos). Embora a memória colectiva e mais recente tenda a realçar apenas o que Salazar tinha de negativo - e era tanto! - é redutor e mesmo injusto ignorar isto, correndo-se o risco de, como dizem os ingleses, deitar fora o bebé com a água do banho.

Posso até compreender que se apelide o gesto dos santacombadenses de provinciano, embora me pareça muito mais tacanho e vergonhoso promover a general alguém que foi julgado e condenado (e só posteriormente amnistiado) por ter sido líder de uma organização terrorista responsável por ataques bombistas que mataram dezassete pessoas. Muito mais provinciano me parece que essa mesma pessoa tenha adquirido o estatuto de personagem de grande relevo histórico, com honras de aparição em tudo quanto são filmes e documentários sobre a revolução dos cravos como se do único elemento do MFA ainda vivo se tratasse...

Retomando o tema: ao contrário de alguns, não creio que atribuir o nome Salazar a uma praça seja sintoma de que se vivem tempos "salazaristas" em Portugal, embora reconheça que, aqui e ali sempre se poderiam descortinar alguns traços "salazarentos" nos tempos que correm (recordemos o não muito distante autoritarismo de uma certa directora regional de educação do Norte que, sem apelo nem agravo instaurou um procedimento disciplinar a um professor a propósito de uma piada e, ainda, os dois momentos de grande elevação parlamentar em que um primeiro-ministro respondeu a um deputado «não seja ridículo» e a outro «esteja mas é caladinho»).

Em todo o caso, afigura-se tão legítimo existir uma Praça Salazar em Santa Comba Dão como uma Praça Marquês de Pombal em Lisboa. Se o primeiro foi inegavelmente um ditador, o segundo, ao assumir o papel de «mão invisível» do Absolutismo em Portugal, não o foi menos.

No fundo, impõe-se perceber porque é que tais praças foram nomeadas Salazar e Marquês de Pombal, se para exaltar os ditadores, se para homenagear algumas qualidades que (queira-se ou não, goste-se ou não) ambos terão demonstrado. A mim parece claro que foi pelo segundo motivo e, se assim é, o rigor impõe que se o diga, tal como o respeito pelos valores democráticos exigem que se aceite que a realidade é tão rica quanto o pensamento dos homens e que nela há lugar tanto para os que exaltam os defeitos de Salazar como para os que lhe exaltam as virtudes. Façamo-lo e não serão nunca os nomes das praças deste país a fazer a diferença, mas sim, sempre e só, os seus cidadãos.

[Também publicado em PnetCrónicas.]

© Marta Madalena Botelho

7.6.09

os (des)curados

A novela começou no dia 2 de Maio, um sábado soalheiro, com a publicação de uma reportagem no jornal «Público», onde o presidente do Colégio de Psiquiatria da Ordem dos Médicos, José Marques Teixeira, afirmou que um psiquiatra poderia dar resposta a um homossexual que lhe pedisse ajuda médica para mudar de orientação sexual. Em síntese, dizia que era possível alterar, no sentido de curar, a orientação sexual de alguém.

No seguimento desta notícia, várias organizações solicitaram ao bastonário da Ordem dos Médicos que se pronunciasse sobre o assunto. O psiquiatra Daniel Sampaio, por sua vez, escreveu, uma semana mais tarde, uma crónica na revista Pública tecendo ferozes críticas às palavras de José Marques Teixeira e deu início a uma petição, exigindo também uma clarificação por parte da cúpula da Ordem e do Colégio da Especialidade de Psiquiatria sobre o que fora noticiado.

Uns dias mais tarde, a 14 de Maio, o bastonário respondeu por escrito às organizações dizendo, entre outras coisas, que a orientação sexual não é uma doença (1). A seguir, o bastonário defende a liberdade de qualquer pessoa para aceitar ou negar a sua orientação sexual e procurar o auxílio de um médico quando a sua sexualidade lhe causar sofrimento. O médico deveria, então, ajudá-lo a definir a orientação que pretende. Luís Nunes remata dizendo que a alteração da orientação sexual de um doente não constitui uma violação ética. Esqueceu-se foi de discorrer sobre o facto de ser possível fazê-lo.

A mim o assunto parece-me tão simples quanto isto: sequer equacionar que se possa reverter, tratar, curar (ou qualquer outra expressão com significado semelhante) a orientação sexual homossexual implica pressupor que se trata de uma doença. Aliás, considerar a elaboração de um plano terapêutico e de um acompanhamento médico com o único propósito de modificar a orientação sexual de alguém, como fez o bastonário, é tratar essa característica como se fosse uma patologia. Todavia, já há muito se concluiu que não é doença, não é patologia, logo, não é curável nem passível de nenhuma intervenção como aquela que é subentendida das palavras do bastonário e do presidente do Colégio de Psiquiatria da Ordem dos Médicos, cuja posição não pode senão causar a maior das estupefacções.

Já a ignorância, essa, é susceptível de tratamento. Dizem que com umas leituras e com um bocadinho de decência intelectual a coisa vai. É só mesmo uma questão de querer.

Marta Botelho

(1) «A APA (American Psychiatric Association) retirou a homossexualidade do seu «Manual de Diagnóstico e Estatística de Distúrbios Mentais» (DSM) em 1973, depois de rever estudos e provas que revelavam que a homossexualidade não se enquadra nos critérios utilizados na categorização de doenças mentais. Psicólogos e sexólogos chegaram à conclusão de que a homossexualidade é uma variante sexual normal.» (v. SILVA, Rita – «O que é a homossexualidade», in Homofobia: Causas e Consequências. Versão electrónica em http://homofobia.com.sapo.pt).

[Sugestão: ler ao som de «Fuck You», de Lily Allen, do álbum «It's not me, it's you» (2009).]


[Também publicado em PnetCrónicas.]

© Marta Madalena Botelho

10.5.09

as razões de veronica

Silvio Berlusconi não é um homem qualquer, nem no modo de fazer política, nem na aparência, nem no modo como se expressa e muito menos no branco lívido da dentição. Oscila entre o excessivo e o disparatado, entre o indiscreto e o ofuscante, entre o piroso e o inconveniente. Não podia esperar-se que o seu divórcio fosse nada menos do que aparatoso.

Berlusconi faz questão de propagandear aos sete ventos que aprecia mulheres bonitas. Até aqui, nada de anormal nem de novo, não fosse o modo como o faz. Berlusconi é mais do que óbvio, é ostensivo na afirmação do facto, de tal forma que o mundo inteiro dele tem conhecimento e sabe até quem são as suas preferidas.

Veronica suportou tudo isto (e, quem sabe, algo mais) em silêncio durante cerca de trinta anos. Provavelmente, mentalizou-se de que tinha um marido mulherengo e deixou os dias e a tinta dos jornais correrem. É intrigante, por isso, que tenha vindo agora, alegadamente por causa das vinte e cinco beldades que Berlusconi e o seu partido escolheram para integrarem as listas como candidatas ao Parlamento Europeu, dizer que quer divorciar-se. Terá Veronica temido que Silvio se antecipasse a ela nessa intenção? Terá Veronica encontrado um novo amor? Ou estará Veronica, simplesmente, farta do modo como o marido se revela insensível perante a vergonha e humilhação que ela sofre sempre que as eleitas de Silvio têm direito a mais umas parangonas?

Ninguém sabe e, prevê-se, ninguém saberá, até porque após a bombástica revelação tanto o Primeiro-Ministro italiano como a sua (ainda) mulher se remeteram ao silêncio e não parecem muito dispostos a alimentar curiosidades.

Porém, Berlusconi, mais do que todos os adjectivos com que o caracterizei no início deste texto, é imprevisível e o desfecho desta história parece distante e afigura-se rocambolesco. Recostemo-nos, pois, na cadeira porque, como o velho Silvio já nos habituou, os melhores (e mais belos) episódios, com certeza, ainda estão para vir.

[Também publicado em PnetCrónicas.]

© Marta Madalena Botelho

3.5.09

a multidão é perversa

Há momentos da nossa vida que nunca haveremos de esquecer. Não estou a referir-me a datas em que fizemos coisas importantes como, por exemplo, o dia em que acabámos o curso ou nos casámos, mas a acontecimentos que teriam tudo para serem do mais corriqueiro que possa imaginar-se mas que, contra todas as probabilidades, se tornaram marcantes.

Um desses momentos foi a minha primeira aula de Filosofia. Eu tinha quinze anos e à minha frente estava uma das professoras mais brilhantes de quem tive o privilégio de ser aluna e que tinha por hábito não mostrar os dentes nas aulas, muito menos na primeira. Aquela professora tinha por costume – há já vários anos - inaugurar o ano lectivo escolhendo uma vítima a quem colocava uma questão, vítima essa que, invariavelmente, era o desgraçadinho que respondia pelo seu número favorito, o doze.

Naquele ano eu era a tal desgraçadinha. A professora, do alto dos seus metro e oitenta, escreveu no velho quadro de lousa preta uma frase: «a multidão é perversa». Depois, olhando-me sobre os óculos, disse: «Explique, por favor».

Não me lembro exactamente do que pensei, mas sei que me senti ruborescer. Seguiu-se um profundo silêncio apenas entrecortado pelo som abafado das pancadas que a professora dava com o ponteiro no estrado enquanto percorria toda a extensão da sala. Eu bem que engolia em seco, lia e relia a frase escrita no quadro, olhava para o tampo da secretária, para a porta da sala, para as fissuras da parede, mas da minha boca não saiu qualquer som.

Estivemos naquilo uma enormidade de tempo até que, quando faltavam cinco minutos para soar a sineta, a professora perguntou: «Número doze, sabe ou não sabe explicar o sentido daquela frase?». Eu, num misto de alívio e de vergonha, respondi que não, que não sabia. Entre dentes, do estrado soou um «Já podia ter dito», mas ninguém se atreveu sequer a sorrir. No fundo queríamos todos saber o que era isso da Filosofia, o que raio queria dizer «a multidão é perversa» e como se lidava com uma professora que era capaz de nos deixar em suspenso durante quarenta e cinco minutos.

Em duas penadas ficámos elucidados: «Quando inseridas em grupos grandes, principalmente em grupos que lhes permitam manter o anonimato, as pessoas fazem coisas que jamais fariam se estivessem sozinhas ou em grupos pequenos.» Depois perguntou: «Percebeu, número doze?». Eu, a voz quase sumida, lá respondi a medo que sim. A aula terminou com uma exortação que, se mergulhar dentro da minha cabeça, quase consigo ouvir: «Então se percebeu, veja lá se nunca mais se esquece, está bem?».

Eu nunca mais me esqueci, como está bom de ver, e não apenas porque a minha memória para isso contribuiu mas, principalmente, porque a vida se encarregou de mo lembrar inúmeras vezes.

Ainda esta semana me recordei de que a multidão é perversa porque, nas manifestações do 1.º de Maio, num país que ainda há menos de uma semana comemorava a liberdade e a democracia a propósito de uma revolução que teve de excepcional o facto de ser pacífica, um cabeça-de-lista de um partido numas eleições foi insultado e agredido de forma vil e cobarde. Na verdade, como poderia esquecer-me de que a multidão é perversa se, num país que se diz um Estado de Direito, há quem pratique estes actos e ache que daí não vem grande mal ao mundo (porque no fundo ele até merecia umas boas bordoadas pelo que fez) e fique de bem com a sua consciência, no conforto de que está oculto numa turba que lhe garante o anonimato?

De facto, dificilmente poderia esquecer-me de que a perversidade da multidão é o somatório da perversidade de cada um de nós, que continuamos a encolher os ombros e a fingir que não é nada connosco sempre que episódios destes acontecem.

[Banda sonora: The Doors. «People are strange». Do álbum «Strange days». 1967.]

[Também publicado em PnetCrónicas.]

© Marta Madalena Botelho

19.4.09

a bela e os monstros


«Diz-me os teus preconceitos, dir-te-ei quem és.»

Se há uma semana me perguntassem se o nome Susan Boyle me dizia alguma coisa, provavelmente, não hesitaria muito mais do que trinta segundos antes de responder «não». Hoje, não só sei quem é Susan Boyle como já ouvi várias conversas em torno da sua descoberta.

Invariavelmente, a primeira referência fica-se pelo aspecto físico. Não há quem não realce o facto de Boyle ostentar um mais que visível buço abaixo do nariz. O choque aumenta quando se diz que ela nem sequer se dá ao trabalho de o descolorar.

A pergunta que se segue é se depila as sobrancelhas, mas também aqui a resposta é negativa. Exibindo um par de farfalhudas tiras de pêlo sobre os olhos, Boyle, uma vez mais, revela-se indisposta a ceder a suplícios faciais. É fácil antever onde a conversa conduz: bocas escancaradas, esgares de nojo, drama.

Ao que parece, uma mulher do século XXI simplesmente não pode optar livremente por não se depilar. Caso opte, para além de ser vista como se de extra-terrestre se tratasse, é imediatamente catalogada de feia, já para não falar de mimos como desleixada e masculina. Segundo consta, nos tempos que correm, os pêlos são privilégio masculino mas, mesmo assim, apenas de alguns homens, isto porque até eles devem submeter-se ao laser, à cera ou à pinça se os pêlos não tiverem um crescimento homogéneo e orientado na mesma direcção (de acordo com os doutos ensinamentos que colhi numa revista dita «fashion»).

Não estou certa de que a palavra «ridículo» seja suficiente para caracterizar o que penso de tudo isto. Às vezes dou por mim a pensar nos sacrifícios tremendos – que fazem o arrancar dos pêlos parecer o maior dos prazeres – que foram necessários para chegarmos onde estamos em matéria de liberdade. O ser humano passou séculos a lutar contra qualquer forma de opressão, quer ela viesse do Estado, quer do seu semelhante. Alguns seres humanos continuam a ter de travar essa luta todos os dias. Mas por cá, no mundo dito «civilizado», a opressão deixou de ser externa para passar a ser interna, porque as mulheres e os homens dos nossos dias, tão seguros de si se encontravam que transferiram os aguilhões que condicionam os seus movimentos, as suas escolhas e o seu tempo para dentro de si mesmos. Outra coisa não são os preconceitos, os complexos e os esteriótipos a que, sem nos darmos conta, nos vergamos diariamente. Da depilação ao vestuário, da linguagem à decoração das casas, tudo parece obedecer a regras bem delimitadas que ninguém viola sob pena de ser excluído do «grupo». Na ânsia de se manter dentro de um (cada vez mais pequeno) rectângulo identitário, um esmagador número de pessoas toma determinado perfil como sendo o ideal e tenta a todo o custo reproduzi-lo em si mesmo (nem que para isso tenha de padecer torturas que nem sempre são físicas), reduzindo assim a sua autonomia e a expressão da sua individualidade à mera imitação.

Quem não se enquadra é relegado para plano inferior e depreciado. Só isso, aliás, poderá explicar as caras de espanto que uma voz como a de Susan Boyle provocou, só porque não era suposto que alguém com o seu aspecto pudesse cantar tão maravilhosamente. Isto, claro, como se a voz dependesse da aparência das pessoas...

O essencial continua e haverá de ser sempre invisível aos olhos. Não depende, por isso, do tratamento que damos ao nosso exterior, dos esteriótipos a que os nossos preconceitos nos submetem. Talvez o fenómeno Boyle tenha surgido não apenas para deleite musical, mas também para nos fazer pensar um pouco mais sobre isso.

[É irónico o facto de o momento televisivo em que Susan Boyle derrubou preconceitos ter tido início com as estas palavras «There was a time when men were kind».]

[Texto integral publicado em PnetCrónicas.]

© Marta Madalena Botelho

12.4.09

por trinta dinheiros ou menos

Por muito que uns gostem e outros odeiem Portugal, terra de aparições, consagrações e dedicações, é, antes de mais, um país devoto. Poderia acrescentar-se ao manguito do «Zé Povinho» uma velinha na mão direita que a imagem do português típico não ficaria muito comprometida e, ao invés, muito mais completa. Por algum motivo esta nação foi dedicada à Imaculada Conceição. Por algum motivo a azinheira escolhida por Nossa Senhora para alertar para os males do comunismo e a imperatividade da recitação do rosário tem raízes em Fátima. Por algum motivo vivemos inebriados durante quarenta anos pelo impacto da trilogia «Deus, Pátria, Família».

Muito poucos devem ser os feriados municipais que não sejam em honra de um santo católico. Terra que se preze tem sempre como padroeiro um santo, de preferência mártir. A toponímia, por seu turno, está cheia de referências aos eleitos da Igreja Católica. E nem a doçaria escapa a baptismos abençoados.

Porém, tanta religiosidade não implica sempre e só sacrifício. Bem vistas as coisas, até tem as suas vantagens. A par das festas religiosas andam sempre os festejos profanos. Enquanto as primeiras obrigam a jejuns, arrependimentos e penitências, as segundas primam pelos desregramentos, exageros e diversão. A Páscoa e as manifestações que a cercam são o exemplo paradigmático disso.

No sábado que a Igreja chama «de Aleluia» é costume, em diversas localidades, fazer-se a «Queima do Judas». Depois de uma encenação mais ou menos complexa (conforme os costumes locais), que consiste num auto-de-fé popular, o boneco representando o traidor de Cristo é queimado em chamas altas, sob forte regozijo dos que assistem ao espectáculo.

A cerimónia da «Queima do Judas», mais do que a expressão colectiva do desejo de pôr fim ao período de tormenta imposto pela Quaresma, é a concretização da vingança da abstinência de tudo aquilo a que se releva o mal que faz pelo bem que sabe, entre os excessos dos insultos ao «maldito» e o espalhafato das carpideiras.

Mas Judas é, também, um providencial bode expiatório de todos males e de todas as críticas que, numa tentativa de desculpabilização, todos reconhecem necessários, tão imprescindíveis quanto o beijo que o discípulo delator deu ao Mestre na hora em que o entregou, tudo para que se cumprisse o que tinha sido escrito pelos Profetas.

O Judas que se queima na noite que antecede o dia da Ressurreição poderia muito bem simbolizar tantos que, como ele, se vendem por trinta dinheiros ou até por bem menos, agora como dantes, mas que não vêem grande mal nisso, já que acreditam que haverá sempre quem venha depois para redimir o mal feito.

Segundo certas tradições, o boneco que arde no alto da forca tem ao peito uma sábia inscrição: «Aqui jaz Judas Iscariote / Aquele que a Cristo vendeu / Todos os que daí me olham / São mais Judas do que eu». Dizem alguns que é a parte que o fogo mais trabalho tem para consumir. Certamente, não é por acaso.

[Também publicado em PnetCrónicas.]

© Marta Madalena Botelho

5.4.09

«I've got you under my skin»

Cá por casa sempre me chamaram «rabinho do gato». Como sou a filha mais nova e a neta mais nova e, além disso, tenho uma certa tendência (saudável) para a mimalhice, o nome assentava-me bem.

Isto foi assim durante 28 anos, até que em Junho passado nasceu o meu sobrinho que, como está bom de ver, veio descaradamente apoderar-se das atenções que antes eram todas minhas. Ora eu, que apesar de mimada sou sensata, tentei mentalizar-me de que aquela era a evolução natural das coisas, que a vida era mesmo assim, feita de cedências e que eu, como tia responsável e crescidinha, teria mesmo de partilhar o mimo com aquele pequenino rebento. Parecia evidente: havia alguém mais novo na família e eu corria o risco de deixar de ser o «rabinho do gato».

Mas eu não estava assim tão disposta a abdicar da minha posição e, por isso, cedo fiz questão de estruturar uma argumentação que me permitisse invocar o estatuto especial. Afinal de contas, o meu sobrinho era o «rabinho de um outro gato» que entretanto se havia iniciado com o casamento dos pais dele. Por mim, ele poderia ser rei de tudo e mais alguma coisa, desde que deixasse intocável a minha esfera e, principalmente, o meu gatinho.

Pouco tempo levaria, porém, até que o meu sobrinho conquistasse o meu coração e me fizesse apaixonar por ele ao ponto de quase esquecer a questão. Acreditem que é muito difícil resistir: o sacaninha tem charme até mais não. Nunca o vi acordar mal-disposto e até as birrinhas que vai fazendo (que nunca vi demorarem mais do que um minuto) têm graça. Deve ser qualquer coisa que lhe põem no leite para o fazer assim tão querido e simpático (digo eu, que não percebo nada de alimentação infantil).

Mas mesmo tendo em conta este meu estado de completa rendição aos encantos daquela pequena porção de gente, quando ontem à tarde a minha irmã requisitou os meus serviços de babysitter por um par de horas, eu estava longe de imaginar que seria tudo tão especial.

Como o meu sobrinho tem uma relação algo atribulada com cadeiras, espreguiçadeiras e todos os artefactos humanos que o confinem a uma sensação de aprisionamento (bem como com sapatos e sapatilhas, diga-se en passant), obrigou-me a andar com ele ao colo para todo o lado. Foi assim que descobri que até nem me safo mal a escrever no computador, a ler o jornal e a mudar os canais de televisão só com uma mão. Mais complicado, porém, é suportar alguns puxões de cabelos e o modo destemido e decidido com que me aperta o nariz, as bochechas e o queixo, mas com paciência, tudo se aguenta (agora que me lembro disso, é absolutamente incrível a força que aquelas mãozinhas têm, meu D'us).

Ainda assim, não pode dizer-se senão que passei uma tarde deliciosa na companhia do meu sobrinho-afilhado-concorrente-directo-ao-posto-de-«rabinho-do-gato», que acabou por adormecer no meu colo e dormir o sono dos justos durante um bom bocado. Para o adormecer dancei com ele e cantei-lhe o «I’ve got you under my skin», metade com letra, metade com murmúrios (precisamente naquelas partes em que não me lembrava da letra). Foi assim que dali a poucos minutos ele foi encostando a cabecita ao meu peito e desistindo de lutar contra o sono. Não sei se foi da minha voz melodiosa, se da verdade da declaração de amor que lhe fiz. Tudo o que importa é que resultou.

© Marta Madalena Botelho

29.3.09

coisas pequenas

Esta semana cumpriu-se um ano sobre o lançamento da rede Pnet tal como a conhecemos hoje e, especificamente, sobre o lançamento da PnetMulher e da PnetHomem, dois sites de crónicas onde 14 vozes vão dizendo, ao longo dos dias da semana, de sua justiça.

Tenho o privilégio de estar no «projecto cor-de-rosa» (por favor, permitam que eu me refira assim a este site) desde o arranque. Digo «privilégio» porque para mim o foi verdadeiramente e por vários motivos. Em primeiro lugar, porque eu nunca tinha sido parte integrante de um espaço de escrita colectivo (se exceptuarmos algumas coisas escritas a quatro mãos, mas de cariz muito diverso do que por cá se faz); depois, porque eu não fazia ideia de como se estruturava um site com estas características e foi muito bom ver e aprender; por último, porque eu estava longe de imaginar o quão gratificante seria pertencer a uma equipa escrevente tão diversificada em tantos aspectos.

Sobre o que é a PnetMulher não vale a pena escrever: isso vê-se e as minhas palavras sempre ficariam aquém do dinamismo que esta página contém. Por isso, prefiro falar sobre as minhas crónicas semanais.

Uma das minhas canções favoritas dos Madredeus chama-se «Coisas pequenas». Gosto dela por vários motivos mas, acima de tudo, porque se debruça mais sobre o desejo do que sobre a concretização, o que é raro alguém fazer e percebe-se bem porquê: é muito mais difícil falar do desejo de amar do que do próprio amor, por exemplo.

Quando releio as minhas crónicas costumo pensar mais no que elas poderiam ter sido do que naquilo que são. São, como diz a letra do Pedro Ayres de Magalhães sobre as palavras, «coisas pequenas» e «coisas pequenas são / coisas pequenas». Dentro de mim está sempre o desejo de que essas «coisas pequenas» que por aqui vou deixando escritas sejam o bastante para dizer o quanto eu gosto de as escrever. Não sei se este meu desejo se concretiza sempre - é esta a diferença entre o que as minhas crónicas são e o que elas poderiam ter sido – mas provavelmente não é suposto saber. As crónicas só são minhas enquanto as escrevo, porque depois são do leitor, do mesmo modo que só são o que eu queria que fossem enquanto as escrevo, porque depois são o que o leitor quiser que elas sejam.

Estas crónicas só existem porque um dia a Maria do Céu Brojo teve a amabilidade de me endereçar um convite inteiramente inesperado. Esse convite só existiu porque os responsáveis pela rede Pnet quiseram criar este site. Este projecto só se concretizou porque um grupo de pessoas aceitou o desafio de assumir o cumprimento de cada uma das tarefas. A PnetMulher só se mantém online há um ano porque desse lado há quem nos leia e nos faça sentir que vale a pena continuar.

Por isso, na comemoração deste primeiro ano de existência da PnetMulher, importa felicitar e agradecer a todos, sem excepção, mas principalmente a ti, que neste momento me lês. Sabes, sem alguém desse lado do monitor isto por aqui, por muito bom que fosse, não teria graça nenhuma, acredita. Isto que aqui deixo escrito é só um «obrigada». Sim, caro leitor, «coisas pequenas», talvez, mas «são tudo o que eu te quero dar».

[Ouvir: Madredeus. «Coisas pequenas». Do álbum «Paraíso». 1997.]

[Também publicado em PnetCrónicas.]

[Nota: em 01/07/2009 operou a fusão dos sites PnetMulher e PnetHomem, o que deu origem ao site PnetCrónicas.]

© Marta Madalena Botelho

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algumas notas importantes sobre os direitos de autor

» O âmbito do direito de autor e os direitos conexos incidem a sua protecção sobre duas realidades: a tutela das obras e o reconhecimento dos respectivos direitos aos seus autores.
» O direito de autor protege as criações intelectuais do domínio literário, científico e artístico, por qualquer modo exteriorizadas.
» Obras originais são as criações intelectuais do domínio literário, científico e artístico, qualquer que seja o seu género, forma de expressão, mérito, modo de comunicação ou objecto.
» Uma obra encontra-se protegida, logo que é criada e fixada sob qualquer tipo de forma tangível de modo directo ou com a ajuda de uma máquina.
» A protecção das obras não está sujeita a formalização alguma. O direito de autor constitui-se pelo simples facto da criação, independentemente da sua divulgação, publicação, utilização ou registo.
» O titular da obra é, salvo estipulação em contrário, o seu criador.
» A obra não depende do conhecimento pelo público. Ela existe independente da sua divulgação, publicação, utilização ou exploração, apenas se lhe impondo, para beneficiar de protecção, que seja exteriorizada sob qualquer modo.
» O direito de autor pertence ao criador intelectual da obra, salvo disposição expressa em contrário.