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26.10.08

deus tem sentido de humor, alguns portugueses é que não.

Durante esta semana foi noticiado que a Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC) recebeu mais de setenta queixas motivadas por um sketch intitulado «Louvado sejas, ó Magalhães», que integrou o episódio 3 do último programa dos Gato Fedorento, «Zé Carlos», no qual alguém envergando uma batina celebra uma cerimónia muito semelhante a uma missa em louvor do Magalhães, que termina com o sacrifício de um dos presentes, todos eles professores. Segundo um comunicado da ERC, as queixas apresentadas a propósito deste sketch, todas em nome individual, centram-se «essencialmente na ofensa, no achincalhamento e na falta de respeito pelos símbolos religiosos católicos, em especial pelos rituais da Eucaristia».

Ainda é recente a memória da suspensão da emissão dos programas de Herman José na R.T.P. por ter parodiado a Última Ceia. A sorte de Manuel Luís Goucha e de Teresa Guilherme foi ainda mais insólita: foram ambos despedidos da Rádio Renascença por terem contado aos microfones daquela estação de rádio uma anedota em que uma das personagens era Deus.

Lamentavelmente, não se pode dizer que seja propriamente novidade em Portugal o que está a suceder aos Gato Fedorento, tal como não pode dizer que o que aconteceu a Herman, Goucha e Teresa Guilherme sejam apenas vagas lembranças. Em Portugal continua a haver quem ainda não consiga distinguir a caricatura da ofensa, a crítica do ultraje, a liberdade de expressão da afronta.

Há quatro aspectos comuns a estas três histórias: (1) são momentos humorísticos (2) de certa forma relacionados com a religião que (3) foram transmitidos em meios de comunicação social e (4) que suscitaram sentimentos de ofensa em alguém. Contudo, há anos a separá-las. Anos que, supostamente, deveriam ter surtido algum efeito no modo como os portugueses reagem ao humor, mas que não surtiram.

Com efeito, continua a haver em Portugal quem ache que há temas absolutamente vedados ao humor. Alguns nacionalistas, por exemplo, acham que cantar o hino nacional com uma letra alterada deveria ser razão mais do que suficiente para encarcerar alguém durante, no mínimo, vinte anos (mas estou certa de que se lhes perguntássemos o nome de quem escreveu a música e a letra de «A Portuguesa», não saberiam dizer). Por seu turno, os adeptos dos clubes de futebol continuam a zangar-se uns com os outros só à conta de umas anedotas que alguém com excesso de tempo livre põe a circular via e-mail. Alguns católicos, por sua vez, acham que importar alguns elementos da sua religião para fazer uma crítica ao governo (sim, por incrível que pareça, tratava-se de uma crítica ao governo e às acções de formação por ele propostas aos professores e não de um achincalhamento da cerimónia da missa) é uma infâmia e uma ofensa gravíssima ao seu sentimento religioso.

Resumindo, em Portugal só se pode fazer piadas sobre alentejanos, mulheres, advogados, homossexuais e a Manuela Moura Guedes. Quase tudo o resto haverá sempre de constituir ofensa para alguém, neste país que, não obstante os hercúleos esforços de alguns perseverantes que teimam em fazer rir este povo sisudo, ainda não é capaz de rir de si mesmo.

O sketch dos Gato Fedorento não contém absolutamente nada que possa considerar-se ofensivo da celebração da missa simplesmente porque não incide sobre nenhum aspecto religioso. Toda a crítica é dirigida às acções de formação do Magalhães, nas quais os professores foram convidados a enaltecer o computador («louvar» foi o verbo utilizado pela imprensa) e a prestar-lhe algo muito semelhante a uma veneração. Embora tenha como inspiração um símbolo religioso católico, o sketch fica-se por aí no que concerne a esse assunto. Tudo o resto é, tão somente... humor, caricatura, boa disposição e crítica mordaz!

O estilo do Gato Fedorento nem sequer é novo. Aliás, há quem diga que este programa esgota o conceito de humor que eles realizam. Não deixa de causar alguma perplexidade, portanto, que haja setenta pessoas a fazer tanto barulho por nada.

Já vai sendo tempo de, em Portugal, se porem de lado certos pruridos que apenas dão azo a polémicas perfeitamente estéreis e de que de nada servem senão para evidenciar que ainda há quem não tenha inteligência suficiente para decompor e interpretar um simples sketch humorístico.

Não consta, contudo, que Jesus tenha vindo à Terra só porque os Gato Fedorento puseram um coro a cantar «Louvado sejas, ó Magalhães», ainda por cima, num Domingo, dia do Senhor! Só há uma conclusão a tirar de tudo isto: Deus tem sentido de humor, alguns portugueses é que não.

[Também publicado em PnetMulher]

© Marta Madalena Botelho

24.10.08

palin, a sopeira

Pergunta: se é mesmo verdade que a senhora Sarah Palin gastou aquela enormidade de dólares (podia ter sido simplesmente dinheiro, mas não, foram dólares) em roupas e cabeleireiros, porque é que continua a ter aquele ar de sopeira?

A vasta experiência que me dá a minha visita anual, em noitada de São João, à roulotte das Farturas Nela, diz-me que, fisicamente, entre ela e a senhora que simpaticamente apregoa «São tão boas que até vais querer rapar a panela!» não há grande diferença.

Já no resto, são como da água para o vinho: a senhora das Farturas Nela gosta mais de pessoas do que de petróleo e não permite que homem nenhum, nem mesmo um pseudo-bispo de uma pseudo-igreja, lhe ponha a mão em cima.

[Também publicado em PnetMulher]

© Marta Madalena Botelho

19.10.08

esta vida de magalhães está a dar cabo de mim!

Eu assumo: tenho uma ligeira, ligeiríssima embirração com o Magalhães. Não, não é devido ao impacto positivo ou negativo que poderá ter na aprendizagem das nossas crianças, não é por causa daquele menu com ratinhos absolutamente redutor e infantil, nem sequer é por causa das inqualificáveis e indescritíveis acções de formação a que alguns docentes se sujeitaram onde cantavam a Grândola numa versão adulterada para enaltecer a amizade que eles sentem pelo pequeno Magalhães, nada disso. Isso, verdade seja dita, não me aquece nem me arrefece porque, a bem da verdade, não me está a apetecer gastar nem que seja meia dúzia de caracteres a propósito do assunto.

Eu até simpatizo bastante com a máquina. Aqui há dias, passei uns bons vinte minutos sentada naquelas cadeirinhas de plástico que estão na secção de livros infantis da Fnac só para poder experimentar o Magalhães. Fiquei rendida a dois aspectos: por um lado é azul, e eu gosto muito da cor azul (embora não pelos mesmos motivos do Dr. Pôncio Monteiro); em segundo lugar, porque o computador pesa menos de um quilo e, ainda por cima, tem aquela alça muito prática para ser transportado. Não fosse o tamanho reduzido das teclas que se mostraram desajustadas aos meus dedos e, naquela noite, eu mesma teria passado a ser uma orgulhosa proprietária de um Magalhães.

A causa da minha embirração com o Magalhães é outra: o nome. Se era para fazer dele um computador pretensamente «português dos quatro costados», então, deveria chamar-se Silva e mais nada. Afinal de contas, Silva é o sobrenome mais comum entre a população portuguesa e aquele que mais "exportámos" para o Brasil. Magalhães, assim de repente, rima com alemães e isso parece-me uma coisa muito pouco portuguesa. Se ao menos rimasse com fado ou bacalhau!... Se era para invocar o navegador português, tinham-lhe chamado Fernão que sempre se prestava a rimas mais diversificadas e interessantes!

Mas há mais inconvenientes. Por exemplo, o que é que o Durão Barroso e o Magalhães têm em comum? O til, claro. E o til pode ser um problema. Como toda a gente está recordada, quando Durão Barroso assumiu a presidência da Comissão Europeia, o seu nome foi publicado nos jornais do mundo inteiro. E o que é que aconteceu ao til? Nuns casos, desapareceu, sem mais, e o Durão deu origem ao "Durao". Noutros casos, sacrificou-se a palavra inteira e o acento de José e o senhor passou a ser nomeado "Jose" Manuel Barroso. O Magalhães, coitado, haverá de sofrer da mesma terrível sorte, a de ver o seu nome decepado pelos teclados internacionais que impiedosamente mutilam o til e dará lugar, planeta fora, ao "Magalhaes". Volto a insistir: se fosse Silva, eram trabalhos escusados.

Eu até aceito que Magalhães seja, digamos, mais chique do que Silva, embora «chique a valer», como diria o Dâmaso Cândido de Salcede (outro belo nome) n’«Os Maias», fosse um nome com letras dobradas, mas adiante. Mas, se a ideia era dar um ar empinocado ao computador, eu até condescendia num Da Silva ou De Silva. Estou a lembrar-me de três figuras famosas que fazem jus ao sobrenome e à partícula: a pintora portuguesa Maria Helena Vieira Da Silva, o pintor espanhol Diego Rodriguez De Silva y Velázquez e o corredor brasileiro Ayrton Senna Da Silva. Ao lado deles, o computador Da Silva só poderia sair enaltecido. E se o Magalhães fosse Silva, seria fácil encontrar-lhe dois padrinhos que ajudassem à sua divulgação. Refiro-me a dois ilustres Silvas: os Presidentes da República de Portugal (Aníbal Cavaco Silva) e do Brasil (Luís Inácio Lula da Silva). Era perfeito!

Tenho tanta pena que assim não seja que até me lembrei de iniciar uma petição para mudar o nome ao Magalhães, mas depois reconsiderei por achar que seria infrutífero. Num país onde pouco muda, não haveria de ser o nome de um computador a excepção. Resta-me, na intimidade, chamar Silva aos Magalhães com que me for cruzando. Sempre dará para manter a boa tradição portuguesa de, à boca pequena, atribuir epítetos "carinhosos" às pessoas em substituição dos seus nomes verdadeiros.

[Também publicado em PnetMulher]

© Marta Madalena Botelho

12.10.08

e assim o PS perdeu a oportunidade de matar dois coelhos com uma só cajadada


A imagem da primeira página do jornal PÚBLICO de 10 de Outubro de 2008.

Obedecendo à disciplina de voto imposta na reunião do grupo parlamentar de 2 de Outubro, os senhores deputados do PS votaram contra ambas as propostas de alteração do Código Civil tendo em vista viabilizar o casamento entre duas pessoas do mesmo sexo apresentadas pelo BE e pelo PEV que foram levadas a plenário na passada sexta-feira. Em resultado, do ponto de vista legislativo tudo ficou na mesma, mas do ponto de vista político há consequências que acabaram por beliscar, e muito, os socialistas.

As coisas começaram a andar mal assim que a JS comunicou que iria retirar a sua proposta (que coincidia com a proposta do BE), impedindo que a mesma fosse a plenário apenas porque entendiam que o objectivo do BE era «ultrapassar» o PS e não propriamente aprovar a alteração da lei. Escudando-se nesses supostos tortuosos proveitos eleitorais do BE, a JS recuou e recuar, em política, é quase sempre – e aqui foi – sinónimo de debilidade. O partido que «não anda a reboque de nenhum outro partido» (nas palavras de José Sócrates), afinal andou a reboque dos acontecimentos provocados… pelos outros partidos. Ora, já todos sabemos que a política é um domínio especialmente profícuo em retórica, mas talvez nunca venhamos a habituar-nos a estas tentativas de disfarçar o indisfarçável: a antecipação do BE e do PEV incomodou o PS e isso ficou bem patente.

As coisas continuaram a andar mal quando se tornou pública a imposição da disciplina de voto aos deputados socialistas, com excepção de Pedro Nuno Santos. Alegou o grupo parlamentar que a excepção se justificava pelo facto de o deputado em questão ter assumido publicamente a sua posição favorável à alteração legislativa, tendo mesmo chegado a tomar medidas no sentido de a concretizar. As vozes que, dentro do grupo parlamentar, se insurgiram contra isto foram todas no mesmo sentido: a imposição é, no mínimo, questionável à luz do estatuto dos deputados e do exercício individual da função. E é questionável nesta como em todas as matérias, embora neste caso seja mais flagrante, até pelo facto de alguns (erradamente) considerarem tratar-se de uma questão de consciência. Sucede que esta não é nem nunca foi uma questão de consciência. Nenhuma matéria de Direitos Fundamentais é matéria de consciência. Os direitos fundamentais são inerentes à pessoa humana e à sua dignidade, não dependendo de nenhum Estado e de nenhuma consciência para existirem, mas, tão somente, para serem reconhecidos. O reconhecimento destes direitos não pode depender das opiniões, consciências e preconceitos dos deputados, pois é independente de tudo isso. Ao invés, no correcto exercício das suas funções, aos deputados cumpre viabilizar as alterações legislativas que sejam necessárias para o reconhecimento desses direitos. Neste sentido, dir-se-ia que é mesmo um dever dos deputados pôr termo a todas as formas de discriminação e violação de direitos fundamentais que decorram da letra da Lei.

E se é um dever, mais premente se torna a questão da celeridade com que isso deve ser levado a cabo. É inaceitável, no que respeita à dignidade humana, que o P.S. opte por protelar o fim de uma discriminação que reconhece existir para um momento posterior apenas porque a proposta apresentada que visa pôr-lhe fim não foi feita pela sua bancada parlamentar, mas sim por outros partidos (embora pretenda fazer passar a ideia de que o fez por entender que a questão necessita de «maior maturação» (sic)). Quase roça a obscenidade afirmar que se considera que a proibição do casamento entre duas pessoas do mesmo sexo é discriminatória e atentatória contra os direitos humanos e, simultaneamente, ficar sentado votando contra a alteração legislativa que acabaria com essa proibição. Foi o que fizeram todos os deputados do P.S. excepto o referido Pedro Nuno Santos, Manuel Alegre (que votou a favor) e Isabel Pires de Lima (que deliberadamente se ausentou do Plenário durante a votação). Isto evidencia uma clara irresponsabilidade perante o que são as obrigações de qualquer um de nós enquanto cidadão de um Estado de Direito democrático – e por estas obrigações entenda-se respeitar os direitos fundamentais da pessoa humana – e, em termos políticos, uma vontade deliberada de instrumentalizar a função do deputado, substituindo os critérios pelos quais a mesma se deve nortear por critérios políticos, de subserviência intelectual ao "seguidismo" partidário e de aniquilamento da capacidade decisória das pessoas que desempenham essa função.

De tudo importa reter que, mais do que votos, o P.S. perdeu uma soberana oportunidade de operar uma modificação que se impõe em termos sociais e legislativos e, ainda, a possibilidade de dar sinais claros aos cidadãos portugueses de que é um partido capaz de defender aquilo em que acredita. Todavia, tudo o que o P.S. perdeu é pouco, mesquinho e profundamente insignificante se comparado com a oportunidade de felicidade que tantos e tantos cidadãos deste país perderam.

[Também publicado em PnetMulher]

© Marta Madalena Botelho

5.10.08

amor, dinheiro e falsos pundonores

Sempre achei curioso o facto de, em quase todas as situações de abordagem de determinados assuntos conotados com os afectos das pessoas, se procurar a todo o custo colocar o ênfase nos sentimentos, tentando reduzir à mínima importância tudo o que diga respeito ao dinheiro. O casamento e o divórcio, por exemplo, são dois casos paradigmáticos disto mesmo.

Muito provavelmente devido a ideias românticas (e, atrevo-me a dizer, impregnadas de religiosidade bacoca), quer-se à viva força impor a ideia de que, mais do que secundário, invocar as questões materiais quando se fala de casamento e divórcio é altamente censurável. Isto como se o dinheiro não dissesse qualquer respeito ao domínio do casamento e do divórcio, isto como se o dinheiro fosse algo dispensável e tudo o que importasse fosse a paixão.

Desenganemo-nos: quer no casamento (civil), quer no divórcio, se há algo supérfluo é a emoção. Com efeito, no que concerne ao casamento civil, ou seja, aquele que é regulado pela Lei, de nada importa que os cônjuges se amem. Importa, sim, que se respeitem, que se assistam mutuamente, que sejam fiéis um ao outro, que cooperem um com o outro e que coabitem a mesma casa. Se fazem isto porque se amam ou não, de nada interessa aos olhos da Lei. O amor ou a falta dele apenas têm relevância no plano individual ou no restrito âmbito do casal ou, ainda, como sucede em alguns casos, no plano religioso.

Do mesmo modo, para pôr fim ao casamento por meio do divórcio, de pouco aproveita que os cônjuges já não se amem. Aliás, não raras vezes sucede em situações de divórcio litigioso que pelo menos um dos cônjuges ainda nutre afecto pelo outro e, contudo, não será por isso que o tribunal não haverá de decretar o divórcio.

Mas, voltemos ao deveres decorrentes do contrato de casamento. São eles: respeito, assistência, fidelidade, cooperação e coabitação. Como facilmente se vê, embora todos estes deveres possam decorrer do amor, também é certo que nenhum destes deveres decorre necessariamente do amor. Consequentemente, poderá haver violação de todos eles existindo, em simultâneo com essa violação, uma enorme paixão entre os cônjuges. O que leva a concluir que o amor não é, obrigatoriamente, um elemento determinante do contrato de casamento.

Mas há mais. Embora fosse tremendamente tranquilizadora a ideia de que as pessoas se casam por amor, a verdade é que não é só por amor, nem sequer essencialmente por amor que as pessoas se casam. O amor existiu e existirá sempre para além das convenções, para além da assinatura de contratos, para além de registos escritos em livros paroquiais ou de Conservatórias. Para que dois indivíduos se amem bastam esses mesmos indivíduos, sem mais. E embora possamos até admitir que o amor é, na maior parte dos casos, o critério que preside à escolha do parceiro com quem se quer celebrar o casamento, haveremos também de convir que ele não é o factor que leva as pessoas a casarem. Sejamos honestos: a esmagadora maioria das pessoas casa-se por tradição, para concretizar um sonho, por obediência a convenções sociais, para que lhe seja concedido um empréstimo bancário, porque quer ter filhos, por questões sucessórias, para ter pretexto para dar uma festa e receber presentes ou por uma infinidade de outras razões que seria fastidioso enumerar. Em boa verdade, poucas serão as pessoas que casam tendo como única e exclusiva razão para isso o amor que sentem uma pela outra.

Não deveria, pois, surpreender uma única alma o facto de tanta importância se dar na Lei civil à vertente material do casamento. Trata-se de um contrato do qual decorrem, para cada uma das partes, direitos e deveres. Caso haja incumprimento desse contrato porque uma das partes não observou a prestação a que estava obrigada, haverá lugar, como em qualquer outro contrato, ao pagamento de uma indemnização à contraparte. Daí que seja nuclear abordar as questões monetárias no âmbito do divórcio, que nada mais é senão a declaração do fim de um contrato de casamento.

É fundamental que a Lei acautele a situação monetária dos casados: por isso existem o quociente conjugal em matéria de impostos e as taxas de juro mais baixas para casais, bem como os direitos sucessórios decorrentes do casamento, por exemplo. Mas, do mesmo modo, também releva que a Lei acautele a situação monetária dos ex-casados: por isso existe a responsabilidade civil do cônjuge que incumpriu a sua obrigação no casamento, por exemplo.

Em suma, há que assumir sem falsos pundonores que falar de casamento e de divórcio é muito mais falar de dinheiro do que de amor. E eu atrevo-me mesmo a dizer que, se isto fosse devidamente tomado em conta, a ninguém surpreenderia o indispensável pragmatismo com que deve lidar-se com ambas as matérias.

[Também publicado em PNETmulher]

© Marta Madalena Botelho

28.9.08

portugal: brandos costumes = bolorentas manias

Faço questão de que a minha crónica de hoje comece com uma afirmação ou, como dizem os nossos queridos amigos ingleses (lembremo-nos do Tratado de Methuen e logo se avivará em nós a memória de tão profunda e profícua amizade), um statement: a palavra favorita dos portugueses é «crise». Pede-se uma opinião a um português sobre o estado do seu país e a primeira palavra que lhe vem à boca é crise. É imediato, é irreflectido, é tão evidente que até nem é preciso perguntar: crise, crise, crise.

Ainda me lembro, era eu gaiata (gosto tanto da palavra «gaiata»!), já a Ivone Silva e o Camilo de Oliveira apregoavam na televisão (eram os tempos em que eu ainda tinha televisão), de garrafa na mão: «isto é que vai uma crise!». Já passaram mais de vinte anos e o discurso poderia ser exactamente o mesmo, não fosse a grande actriz já nos ter deixado.

Aliás, diga-se em abono da verdade, os portugueses são tão profícuos em crises como em opiniões. Eu diria mesmo que a segunda palavra favorita dos portugueses é «opinião». Os portugueses adoram dar a sua opinião e entenda-se «dar» na verdadeira acepção da palavra: o português adora dar o seu parecer sobre tudo quanto é assunto, motu proprio, sem que ninguém lhe peça, sem que venha ao caso. Ah, o português, esse abnegado cidadão do mundo que, consciente do seu papel determinante no rumo de todas as questões e mais alguma, nunca teme nem se abstém de dar a sua opinião, numa demonstração de esforço e sacrifício pelo seu país!

E eis-me chegada à terceira palavra favorita dos portugueses: «país». Os portugueses gostam tanto da sua nação que não deve haver um único que não tenha a bandeira de Portugal em casa (nem que seja daquelas que em vez dos castelos que D. Afonso Henriques tanto se esfalfou a conquistar aos mouros tenha pagodes chineses). Português que se preze ama a pátria mais do que a própria mãe. Por exemplo, se, numa casa portuguesa com certeza, a mãe pedir ao filho que desça três andares, pegue na botija do gás que está na garagem e a traga para cima para que ela possa cozinhar o almoço que ele haverá de comer, o filho responderá que agora não pode ir porque está num momento decisivo do jogo na PSP (leia-se Playstation Portable). Mas se um dos senhores da bola pedir aos portugueses que coloquem a bandeira nacional por tudo quanto é lado, eles largam tudo e não se importam de andar a fazer figurinhas ridículas com uma bandeira espetada numa haste de plástico na janela do seu Fiat Punto branco, desde que seja em nome da nação.

Assim sendo, aos portugueses interessa, acima de tudo, resolver a crise que, em sua opinião, assola este país. Tudo o mais é fait diver. Os portugueses querem lá bem saber do debate mensal na Assembleia da República, do «Magalhães», da visita de Hugo Chavez ou da exposição de Picasso no Algarve. E nem lhes falem do casamento entre pessoas do mesmo sexo porque, como diria Manuel Alegre, já chega de andarmos a falar de assuntos menos importantes só porque são fracturantes e estão na moda.

Os portugueses já têm muito em que pensar! Logo a começar, na malfadada Euribor e nas comissões da banca e, depois, na Justiça e na atribuição das indemnizações a Paulo Pedroso e Pinto da Costa, no aumento da criminalidade, nos números do Euromilhões e no apuramento da selecção nacional para o Mundial 2010. E depois há as notícias do Público, do Portugal Diário e do Correio da Manhã onde é imperioso que cada português deixe expressa a sua opinião...

Portugal é, diz-se, um país de brandos costumes. Sim, sem dúvida, um país de costumes. Portugal, o «meu país de marinheiros, o meu país das naus, de esquadras e de frotas» de que falava António Nobre, agora só gosta de navegar em águas conhecidas, em águas tranquilas, em segurança. Portugal quase já só vai onde lhe mandam, só faz o que lhe deixam fazer, só arrisca se outros lhe garantirem o apoio (financeiro e político, na maior parte dos casos).

Não é por acaso que, mesmo tendo passado tanto tempo, os textos que a Ivone Silva interpretou no Sabadabadu continuam tão actuais (tão assustadoramente actuais!), mas sim porque as prioridades dos portugueses são sempre as mesmas (as tais palavras favoritas) e, à luz da emergência dessas preocupações, todas as outras questões se tornam inoportunas.

Algo sobressai no meio de tudo isto: Portugal está desfasado da realidade em que, por força das circunstâncias, é obrigado a movimentar-se. Por isso, chega com décadas de atraso a locais de onde os outros já partiram, simplesmente porque se recusa a pegar no leme do seu próprio destino, a tomar decisões por si mesmo, a escolher quais são, de facto, as suas prioridades.

Ah, se ao menos os costumes fossem menos brandos!...

[Também publicado em PNETmulher]

© Marta Madalena Botelho

21.9.08

a alteração do regime jurídico do divórcio para totós ou apenas uma proposta de abordagem diferente

A propósito da alteração do regime jurídico do divórcio discute-se muito o modelo do divórcio, ignorando a discussão em torno daquilo que lhe é sempre anterior, o casamento. Este texto pretende ser uma proposta de abordagem diferente para a reflexão em torno da alteração do regime jurídico do divórcio e algumas matérias que lhe são conexas.

Duas perguntas.

1. Por que razão, em vez de se procurarem outras soluções para pôr fim ao casamento, não se opta por extinguir definitivamente o contrato, abolindo a figura jurídica, sem mais?

2. Por que é que o Estado não deixa, de uma vez por todas, de querer regulamentar as relações afectivas entre duas pessoas adultas, livres e capazes, deixando-as exercer livre e conscientemente os seus direitos à liberdade, à autonomia sexual e à felicidade individual (este último, fui importá-lo à Constituição Americana, já que não está expressamente consagrado na Constituição da República Portuguesa, embora decorra do seu espírito)?


Quatro observações.

1. O amor entre as duas pessoas adultas, livres e esclarecidas, bem como as relações que desse sentimento derivem, não devem ser regulamentados por nenhum Estado ou, a admitir-se alguma regulamentação, ela deverá ser a menor possível.

2. As escolhas que digam respeito à felicidade de cada um cabem em exclusivo a essas pessoas e nelas não deve haver ingerências políticas, sociais, morais, religiosas ou quaisquer outras.

3. Abolir a figura jurídica do casamento teria como reflexo a queda de inúmeros preconceitos, discriminações, intromissões morais e religiões no plano legislativo e, acima de tudo, teria a virtude de acabar com desigualdades ridículas (como as de género e as fiscais) que subsistem (sim, em pleno século XXI) e são muito potenciadas pela existência da figura do casamento.

4. Para o caso de se cair na tentação fácil e redutora de justificar a necessidade legal da existência do contrato de casamento invocando o conceito de "família", convém nunca perder de vista que "família" e "casamento" são coisas absolutamente distintas e independentes. Não é o casamento que gera a família; o que sucede às vezes é que há famílias que nascem de um casamento, mas não é por isso que deixa de haver famílias que devem ser reconhecidas como tal e que surgiram e se mantêm fora do casamento. Evitemos, portanto, as falácias, que só inquinam as discussões e põem a nu a argumentação demagógica.


Uma ressalva.

Defender a extinção da figura jurídica do casamento não é sinónimo de que se tenha algo contra o casamento. Pode mesmo ser-se contra a existência da figura mas, sendo ela uma realidade, optar-se por se contrair casamento e/ou defender o direito de todas as pessoas a casar, sem que isso denuncie qualquer contradição. Metaforicamente falando, trata-se de «dançar ao som da música», uma vez que devido à existência do casamento, só é possível aceder a uma série de vantagens de índole vária no estado civil de "casado". (Aqui sempre viria a propósito invocar Voltaire para, mutatis mutandis, como ele, dizer «Não estou de acordo com aquilo que dizeis (com a existência do casamento), mas lutarei até ao fim para que vos seja possível dizê-lo (contraí-lo)»).


Uma consideração crítica.

A celeuma em torno deste assunto foi esclarecedora daquilo que em Portugal se pensa sobre o casamento, o divórcio e os seus efeitos. Tal como em muitas outras matérias, a sociedade portuguesa exibiu em todo o seu esplendor a profunda ignorância de que padece relativamente à realidade matrimonial de um grande número de casais portugueses. Com efeito, os portugueses continuam a fingir:

1. que não há desigualdade de facto entre os cônjuges;

2. que um dos cônjuges (geralmente, a mulher) acaba sempre por contribuir mais do que o outro em espécie (com trabalho, para falar mais claramente) para a vida doméstica e familiar (situação ainda mais frequente quando há filhos);

3. que a causa da esmagadora maioria dos divórcios litigiosos não é a falta de amor, mas sim a violação reiterada dos deveres conjugais (respeito, fidelidade, coabitação, cooperação e assistência);

4. que a possibilidade prevista pela Lei de um dos cônjuges ser considerado culpado é, muitas vezes, o único ponto de força que resta ao cônjuge que é vítima da violação dos deveres conjugais para conseguir "negociar" o fim do contrato de casamento de uma forma digna.

Por outro lado, tudo isto denunciou que os portugueses não foram capazes de ver que a alteração do regime jurídico do divórcio proposta:

1. só caminhava para a igualdade de facto dos cônjuges nos casos em que ela já existia, pois enfraquecia em muito a posição do cônjuge mais dependente, caso o houvesse;

2. permitia ao cônjuge que apenas contribuiu para a vida familiar e doméstica com dinheiro pudesse exigir ao cônjuge que a ela mais se dedicou com tempo, trabalho e abnegação (abdicando, por exemplo, de se entregar à carreira profissional como deveria) uma indemnização;

3. permitia que o cônjuge que reiteradamente violou os deveres conjugais pudesse obter o divórcio por iniciativa própria sem indemnizar ou compensar o cônjuge que foi vítima da violação desses deveres;

4. permitia que, por exemplo, um cônjuge que toda a vida agrediu física e verbalmente o outro mas que contribuiu com mais dinheiro para a vida familiar pudesse não só obter unilateralmente o divórcio, mas também, pelos contributos em dinheiro, pudesse obter uma indemnização do cônjuge a quem toda a vida agrediu, com a agravante de, não havendo culpa na extinção do contrato, nunca ser responsabilizado pela sua conduta violadora das imposições do contrato que celebrou.

Os exemplos de situações graves que a alteração proposta potenciaria poderiam ser inúmeros, como facilmente se antevê. Por isso, deixo aqui a sugestão aos interessados para que leiam as considerações do Senhor Presidente da República sobre a matéria, com as quais concordo em parte.


E termino.

Esta cegueira lusa, potenciada pela "politiquice" demagógica praticada pela imprensa, pelos bloggers, pelos "comentadores de serviço", etc. causa-me alguma urticária, confesso. Ao que me perguntam porque é que, se assim é, eu não mudo de país, respondo citando o Miguel Esteves Cardoso (vénia): «Eu estou completamente apaixonado por Portugal, sempre apaixonado doente e tudo o que eu vejo, ou quase tudo o que eu vejo e ouço, acho maravilhoso»...

Posto isto, que prossiga o debate.

[Três Tristes Tigres. «O mundo a meus pés». Partes Sensíveis. 1993. Uma excelente banda sonora para qualquer divórcio.]

[Também publicado em PNETcrónicas]

© Marta Madalena Botelho

14.9.08

o que é que Madonna tem?

Esta noite, Madonna pisará pela terceira vez um palco em Portugal. À sua frente, 75.000 fanáticos pela sua música, mas não só. Madonna tem «seguidores», «idólatras», gente que está onde a sua «diva» está. Madonna não prende pela música ou, pelo menos, não só pela música. A ousadia, a postura de confronto, o constante desafio aos poderes instituídos, as subliminares mensagens de sátira política, social e religiosa levam a que uma legião de pessoas de todo o mundo a venere. Por ela, pagam-se pequenas fortunas no mercado negro dos bilhetes para concertos, passam-se noites ao relento a dormir na calçada dura e fria, percorrem-se quilómetros, atravessam-se fronteiras, sufoca-se entre milhares de pessoas para ser um dos sete mil que estão mais próximos do palco. Por ela, tudo isto fazem os súbditos da rainha da música pop.

O que é que Madonna tem? Tem tudo como ninguém. Aos cinquenta anos continua a ter mais versatilidade do que muitas cantoras com metade da sua idade. Madonna assume e adora o trono da personificação de tudo o que seja «contra a corrente». É, por tudo o que fez e a que se sujeitou, uma sobrevivente.

Lembro-me perfeitamente do quão piroso era gostar de Madonna nos meus tempos de liceu. Acreditem, era muito, muito piroso. Os véus, os crucifixos, as rendas, os colares chegados ao pescoço eram conotados com tudo o que de mais parolo podia existir debaixo dos céus (é preciso ter em conta que nos anos 90 estávamos todos ultra-sensíveis: andávamos a ressacar de uma década com laca nos cabelos, chumaços nos blasers e tecidos com padrões de figuras geométricas...). Mas Madonna é uma camaleoa e, como tal, soube percorrer o caminho que muitos deixam a meio e consolidar definitivamente a sua carreira alicerçando-a na diferença. Nos nossos dias deixou de ser piroso gostar de Madonna e Madonna – convenhamos – está ela mesma muito menos pirosa.

Não há alminha que nunca tenha cantarolado «Like a virgin» tentando imitar a voz delico-doce com que ela canta essa canção. Mas de virgem, inocente e doce a autora do polémico Sex tem muito pouco. É precisamente por estarem conscientes disso que tantos a adoram: porque Madonna encarna muito daquilo que não ousam ser.

[Também publicado em PNETmulher.]

© Marta Madalena Botelho

nem com pauzinhos de canela

Raramente bebo café fora de casa. Antes de mais, porque acho obsceno o preço de um café expresso em Portugal. No Majestic, por exemplo, um café, quer seja expresso, quer seja de saco, custa a bela quantia de 1,75€. Um café simples, daqueles pretos, básicos, que sabe a café e não sabe a mais nada, repito, custa a bela quantia de 1,75€. Mas a coisa não se fica por aqui. Na Casa do Livro, um local muito agradável para conversar e estar com os amigos, custa, se a memória me não atraiçoa, 1,50€. E que dizer do Piolho D’Ouro, esse ex libris da Baixa do Porto que, para servir ao cliente um café na esplanada, cobra nada mais, nada menos do que 0,80€?

Ainda me lembro da primeira vez que me insurgi contra o aumento do preço do café. Foi há já uns anos, andava eu pelos bancos da Faculdade, naqueles tempos em que o dinheiro era sempre pouco e o tempo sempre curto para tudo o que havia para fazer e comprar, incluindo o café, ao menos depois do almoço, para a cabeça não tombar sobre a sebenta durante as animadas tardes de douta prelecção. No local onde eu costumava beber café, a reboque da cedência de lugar do escudo ao Euro, o aumento foi de quase 50%. Quando, ao longe, o empregado me atirou com o novo preço – «Cinquenta cêntimos!» – pus-me a fazer contas rápidas de cabeça: «Cinquenta cêntimos são cem escudos, ora de sessenta para cem vão quarenta...». Indignada, levantei-me da cadeira e, chegando ao balcão, disparei: «Olha lá, mas está tudo doido?! Então ainda no Natal o café custava sessenta "paus" e agora em Janeiro custa mais quarenta?». Do outro lado, a explicação: «Ah pois! O que esperavas? Se fosses tu a ter uma casa aberta para um bando de tipos que andam sempre a contar os tostões que mal lhes dá para os copos, que só abancam aqui para beber a bica, também aproveitavas a oportunidade para mexer no preço!». Obviamente, paguei o café e pirei-me. Julgo que nem preciso dizer que comecei a beber muito menos café fora de casa do que bebia até então.

Ao cabo de todo este tempo, continuo a considerar que aquela resposta foi injusta. Quem fixa os preços dos bens que vende é, claro está, o comerciante. Mas não me parece honesto para com o cliente que se inflacione o preço de determinado produto muito acima do seu valor real apenas porque é um produto muito consumido (ou mesmo o mais consumido). É indubitável que a maior parte das pessoas que lê o jornal nas esplanadas deste país consome um café ou pouco mais, mas das três uma: (1) ou se incentiva o consumo de outro tipo de produtos, nomeadamente, divulgando-os (porque é que são tão raros os locais onde é fornecida ao consumidor a informação sobre os produtos ao seu dispor sem que aquele tenha de a pedir?) ou baixando-lhes o preço; (2) ou passa a comercializar-se apenas aquilo que é procurado; (3) ou se interioriza definitivamente que a palavra «negócio» pode ter dois significados: «lucro» e «prejuízo». Onerar o consumidor de um determinado produto de modo a compensar o investimento em produtos menos procurados e dos quais, portanto, o retorno apenas será alcançado a médio prazo é no mínimo injusto e no máximo desonesto para com o cliente.

Sorrateiramente, o fenómeno do aumento excessivo e injustificado do preço do café quando o mesmo passou a ser pago em Euros ocorreu em todo o lado, mesmo em espaços onde a justificação que me foi dada naquele dia frio de Janeiro nos meus tempos de faculdade não colhe, já que comercializam em larga escala outro tipo de bens, como são bons exemplos os que referi no início deste texto. Porém, se, aqui e ali, confronto amigos e conhecidos com o facto, perguntam-me o que haverão de fazer e logo se apressam a dizer que na vizinha Espanha, em França ou em Itália o café é ainda mais caro e quase nunca de melhor qualidade. Que me importa a mim que um expresso custe 2,50€ em Barcelona ou mesmo 3,00€ em Copenhaga?!

Eu, pela minha parte, sei o que fiz. Uma vez que não queria privar-me do consumo de café (uma das minhas bebidas preferidas) comprei uma máquina de café expresso e passei a bebê-lo em casa. Posso assegurar que o trabalho de limpar/carregar o manípulo e lavar a chávena é largamente compensado pela poupança monetária e que o retorno do investimento financeiro se alcança ao fim de escassos meses.

Além disso, fazer e beber o café em casa tem uma suprema vantagem: ninguém é obrigado a levar com os malfadados pauzinhos de canela que pululam por toda a parte e que todos os proprietários de estabelecimentos de restauração acham que são apreciados pelos clientes, mesmo quando não são**. Se, ao menos, nos dessem a possibilidade de escolher entre a canela e o metal das velhinhas colheres que dobrávamos para fazer alfinetes de gravata para os trajes académicos!... Sim, isto já é a saudade do tempo de estudante a falar por mim... A saudade do tempo em que a bica depois de almoço custava apenas sessenta "paus"...
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* Se bem que, às vezes, a prelecção causasse sonolência, não se pense que a culpa era sempre imputável aos Mestres, por quem, aliás, na sua maioria, tenho elevada consideração académica. A estafa era, as mais das vezes, a própria matéria...

** A minha indignação é suscitada por solidariedade, já que eu não adoço nem mexo o café.

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© Marta Madalena Botelho

7.9.08

(manu)[e]screver

Gosto muito de escrever. Do acto de escrever, propriamente dito. De pegar na caneta e no papel e traçar letras. Por isso, também gosto muito de canetas e papéis. E de lápis. Gosto tanto de canetas, papéis e lápis que acho que posso dizer que são os meus objectos favoritos. Isto se é que se pode dizer que se tem objectos favoritos sem parecer muito ridículo.

Guardo meia dúzia de canetas e pequenos cadernos de anotações com muito carinho no meu coração e na minha memória. Alguns deles ocupam esse espaço não apenas porque me fascinam, mas também por causa das pessoas que mos ofertaram. Guardá-los religiosamente é quase como guardar um pouco dessas pessoas. Como se, de cada vez que pego neles e lhes dou uso, garatujando nem que seja a maior das tontarias ou a frase mais desprovida de sentido, estivesse a tocar nessas pessoas, a senti-las mesmo ali ao pé, ao alcance da minha mão. Como se, escrevendo, agitasse a minha relação com elas e juntas andássemos para aí aos traços, que é como quem diz às voltas com as palavras, aos rodopios, numa roda de emoções e caracteres. Mas o Tempo e a Distância – e a modorra que nos impede de os diminuir – têm-se encarregado de manter a caneta dentro do copo
que repousa sobre a secretária e os caderninhos brancos imaculados, as folhas muito certinhas e alinhadas, sem sinais de terem sido tocados. O que (não) escrevo são as nossas conversas, aquelas conversas que não temos porque deixaram de ter sentido, porque as palavras entre nós deixaram de ter o mesmo significado e a transmissão da informação passou a ter ruído, prejudicando a mensagem. Aos poucos, fomos deixando de ter assunto, do mesmo modo que a tinta se acaba nas cargas das canetas.

Cada vez mais uso o teclado do computador em vez das minhas próprias mãos para escrever. Julgo até que a minha caligrafia é cada vez menos acessível à leitura dos outros. Logo a minha caligrafia, tão esmerada na escola primária, por meio da qual granjeei tantos elogios, agora simplesmente esguia e impetuosa, demasiado indefinida, sempre vestida de preto, quase defunta.

Nesta chamada «sociedade da tecnologia e informação» tudo tem de ser normalizado, estilizado, uniformizado, até o desenho das letras. Os cadernos e as canetas caíram em desuso, e em desuso caiu também o hábito de guardar dentro de grandes caixas de papelão as cartas e os postais que em tempos recebemos e que tinham cor, cheiro e textura, cada um deles diferente, único e irrepetível.

Fica tanto por manuscrever. Fica tanto por dizer.

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© Marta Madalena Botelho

31.8.08

porto-fantasma

A pouco e pouco, o Porto vai assistindo ao encerramento ou descaracterização das suas salas de cinema. Dizem que, em grande parte, e no que respeita de modo particular à Baixa, é mais uma consequência da desertificação daquela zona da cidade. Apenas alguns escolhem, deliberadamente, viver onde as casas estão degradadas, as ruas esburacadas, os acessos são difíceis e tortuosos, os bens de primeira necessidade estão distantes e arrumar o carro é quase impossível.

Entre os que se debruçam sobre as causas e as soluções para este estado de coisas, há quem abra a boca muitas vezes para invocar esse milagroso elixir que curaria a Baixa de todos os seus males: a «requalificação da malha social». Porém, a desertificação não é justificação para tudo.

No Porto há um profundo desinteresse público e privado pela conservação dos espaços físicos - imóveis e vias públicas. A cidade envelhece a olhos vistos e, às vezes, chega mesmo a cair de podre (quando não somos nós a cair nos seus buracos). Os interesses monetários e a especulação imobiliária falam mais alto. Por isso, no Porto sacrifica-se o que existe em função do que poderá vir a existir (e que, as mais das vezes, nunca chega a existir). Investir no que já está edificado parece não mobilizar os detentores do capital. Por sua vez, recuperar e reconstruir não são escolhas para os proprietários, para quem os valores ridículos das rendas justificam suficientemente a falta de iniciativa.

A somar a isso, é cada vez mais evidente uma quase absoluta indiferença dos habitantes em relação a fenómenos que conduzem à diminuição da qualidade de vida. Talvez falte a consciência de que o encerramento de espaços culturais é, efectivamente, sinónimo de diminuição de qualidade de vida. Perante tal cenário, somente um silêncio demasiado perturbador.

Pior do que uma cidade que vai morrendo aos poucos, é uma cidade que não denuncia os seus homicidas. O Porto, lamentavelmente, cala e consente. Só as madeiras rangem um pouco por toda a parte, nesta cidade-fantasma.

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© Marta Madalena Botelho

24.8.08

uma medalha providencial

Nelson Évora, enquanto vencedor da prova olímpica de triplo santo na qual granjeou a medalha de ouro em Pequim, tem inteiro mérito. Vejo qualquer prémio, seja ele olímpico ou não, seja ele uma medalha de ouro ou uma taça de cerâmica das Caldas da Rainha, como a justa recompensa de um árduo trabalho, de muito esforço e dedicação e, mais do que tudo isso, de uma enorme vontade e determinação de superar os limites do próprio corpo, de mostrar ao Homem que ele é mais do que aquilo que se limita a ser, que ele pode ser tudo aquilo que quiser, não bastando, contudo, para tal, querer.

O desporto, precisamente porque implica, antes de mais, uma prestação física, é um palco excepcional onde, perante os espectadores, pode ser representada a peça da recriação humana. No desporto, o atleta faz-se a si mesmo, continuando a obra de quem o criou mas, mais do que isso, melhorando-a.

Talvez por isso seja muito raro encontrar alguém que não reconheça grandes virtudes na prática desportiva. O Homem é, antes de tudo, é matéria e o desporto debruça-se sobre essa matéria para a moldar e aperfeiçoar. Contudo, não esqueçamos que essa matéria é passível de corrupção e, portanto, mais tarde ou mais cedo, haverá de desaparecer. De facto, os feitos atléticos tendem a cair muito mais rapidamente no esquecimento do que, por exemplo, um prémio literário. Como não faço parte daquele afortunado grupo de pessoas que têm solução para tudo dentro das algibeiras, bastando revolver o seu conteúdo durante uns instantes para apresentarem imediatas verdades absolutas, devo confessar que não sei por que é assim, embora gostasse muito de saber. Contudo, sou capaz de afiançar já que julgo que tudo haverá de começar e acabar num aspecto bastante mesquinho: a irresistível tentação demasiado humana (da qual também eu, confessadamente, padeço aqui e ali) para considerar a produção intelectual superior à física. E se é verdade o que afirmei no início deste parágrafo, que é muito raro encontrar alguém que não reconheça grandes virtudes na prática desportiva, também não deixa de ser verdade que em Portugal continua a ver-se a actividade física como algo de complementar e não de central. Bons exemplos do que acabo de dizer são o papel residual que a disciplina de Educação Física tem no plano escolar, a quase total ausência de prática desportiva entre os estudantes universitários e o ridículo investimento que é feito para a criação de infra-estruturas desportivas, onde pessoas de todas as idades possam praticar desporto ao longo da vida.

É inegável que o culto do desporto é, para muitos de nós, feito a partir do sofá, de telecomando na mão, ou nas esplanadas dos cafés, atrás de mesas carregadas de tremoços e cervejas e de cachecol ao pescoço. E é igualmente inegável que, entre nós, muito mais do que a prestação se valoriza o resultado, quantas vezes ignorando que tal como o sucesso de uma mente brilhante que ganha um prémio literário depende de uma conjuntura de factores endógenos e exógenos (como o estímulo, a criação de oportunidades, a reunião de apoios, etc.), também os resultados desportivos não dependem exclusivamente do atleta.

Num país de brandos costumes, a medalha de ouro de Nélson Évora acaba por ser providencial. Bastou ler os jornais, os blogues, ver as reportagens desportivas para perceber como, despudoradamente, Portugal exibiu a sua pequenez ao atribuir à medalha deste atleta o efeito redentor do falhanço de outros (com excepção de Vanessa Fernandes que goza de um estatuto especial em função da idade, do género – admitamo-lo – e do percurso de excepção que tem feito. o qual foi coroado com uma medalha de prata que, embora não tenha «enchido as medidas» de muitos portugueses eleva a fasquia das expectativas para os Jogos Olímpicos de Londres e, portanto, adia a alegria ou o descontentamento para então). Um pouco por toda a parte suspirou-se de alívio quando Évora subiu ao pódio: a honra da Pátria estava salva, o país conquistava uma medalha de ouro, ao menos uma, de modo a garantir a inscrição de Portugal, ao menos por um dia, nos jornais do mundo inteiro. O resto, pouco importa. Se foi só uma, pouco importa. Se é preciso mudar alguma coisa no modo como se investe no desporto em Portugal, pouco importa. Se é preciso mudar o modo como se educa para o desporto em Portugal, pouco importa. Por agora, desapertam-se os cintos e respira-se de alívio. O país está de fim de semana e, atrás de mesas carregadas de tremoços, brinda à medalha de Nélson Évora, a preciosa medalha de ouro que durante os próximos quatro anos haverá de obnubilar as frustrações desportivas de dez milhões de portugueses.


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© Marta Madalena Botelho

17.8.08

ler uma história de amor como quem come uma sanduíche

- Ena, tantos! E quando vais ler isto tudo? – A pergunta foi feita pela minha mãe quando veio cá a casa e se deparou com a pilha de livros que tenho em cima da secretária onde escrevo este texto. Respondi-lhe que ainda não sei onde irei arranjar tempo para os ler, mas também não estou preocupada com isso. Sei apenas que vou ler alguns, tal como tenho a certeza de que não os lerei todos.

Pus-me a olhar para o pequeno monte de títulos à minha frente. As capas são coloridas, algumas muito coloridas, mesmo. Capas atractivas, como que a antecipar um conteúdo também ele empolgante e que me prenderá como leitora. Mas há mais em comum entre estes livros. À excepção de um deles, todos são de prosa. À parte disso, são todos livros «magros». O de lombada mais generosa talvez tenha umas 130 a 150 páginas. Estou a olhá-los de esguelha, por isso, pode ser que me engane. Mas não, não devo estar enganada. E digo isto porque entre os livros que compro e que leio há um certo padrão, do qual há já algum tempo me dei conta.

Gosto de histórias curtas, escorreitas, bem contadas. Gosto que me deixem espaço para as minhas próprias construções em torno das personagens e dos cenários. Gosto de ser induzida, mas não conduzida pelo escritor. E, acima de tudo, acho que as histórias, principalmente se forem histórias de amor, devem ser breves.

Todas as histórias de amor são breves. «A» conhece «B», apaixonam-se, amam-se e, depois, ou vivem felizes para sempre, ou se separam, umas vezes para viverem outras histórias de amor, outras não. O que sucede pelo meio é mais ou menos complexo, porque as histórias de amor são como as sanduíches, senão vejamos. As sanduíches começam e acabam sempre da mesma maneira – com duas fatias de pão – e o recheio varia consoante o gosto de quem as vai comer – com mais ou menos fiambre, mais ou menos tomate, mais ou menos maionese. Do mesmo modo, todas as histórias de amor começam e acabam da mesma maneira – com uma intensa paixão que se vai esfumando no tempo, umas vezes para se transformar no que os entendidos chamam «amor», outras vezes para desaparecer – e o que vai acontecendo no meio varia consoante a inspiração e o romantismo dos amantes – com mais ou menos sensualidade, mais ou menos envolvimento, mais ou menos entrega.

Entre os livros que comprei há algumas histórias de amor, que é como quem diz, algumas sanduíches. Importa, por isso, que quando as leia tenha alguma fome. Muita fome, de preferência. Eis por que sei que não as lerei a todas, eis por que sei que certamente lerei algumas. Deixar-me-ei saciar, mas sem me empanzinar, até porque o menu é extenso e para degustar cada uma delas convenientemente, importa que o estômago esteja perfeitamente livre de vestígios da degustação anterior. Mais tarde, quem sabe, talvez venha a escrever sobre algumas dessas histórias de amor. Para já, há que encontrar tempo para as saborear devidamente.

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© Marta Madalena Botelho

10.8.08

peneiras, caprichos ou "uma grande pancada"

Em quase trinta anos de vida, como está bom de ver, já mudei de opinião em relação a imensas coisas, sobre os mais variados assuntos, por diversas vezes. Nada de especial, suponho. Por algum motivo existe um ditado que diz que «só os burros é que não mudam». Todavia, continua a haver um núcleo intangível de matérias em relação às quais me mantenho “saudavelmente casmurra”. São considerações, hábitos e manias que, por mais velhinha que seja, acho que nunca vou mudar.

Não se trata de teimosia nem de personalidade forte, nem de qualquer outro nome que se tente invocar. Sinceramente, não perco muito tempo a pensar nisso, mas acho que não passam de coisas que cada um e todos nós temos que nos permitem achar alguma coerência dentro de nós mesmos. Ao longo dos anos tudo se vai transformando: o estilo de vida, a saúde física e mental, a memória, as responsabilidades. Perante tanta mudança, talvez seja reconfortante sabermos que há determinados aspectos que serão do mesmo modo para sempre, pelo menos durante o nosso «para sempre».

Há uns anos atrás, na sequência de um jantar desagradabilíssimo (cujo motivo que gerou o incómodo nada teve que ver comigo), decidi que jamais me sentaria à mesa com pessoas de quem não gostasse. Foi uma espécie de jura interna, daquelas seladas com sangue e lacre que eu imaginei fidedignamente para a tornar tão real quanto possível. De então para cá, tenho feito um esforço para me manter fiel à minha decisão. E, que me lembre, tenho-o conseguido.

É claro que já estive à mesa com pessoas com quem não simpatizava por aí além, o que sucede bastas vezes em jantares de grupo em que o único elo de ligação entre os convidados é o anfitrião. Mas tirando isso, nunca me permiti sentar-me numa mesa onde estivesse alguém com que não tivesse boas relações.

As refeições são actos de partilha. Enquanto comemos expomos muito de nós e observamos muito dos outros. Dividir uma mesa com alguém implica que entre nós e essa pessoa haja uma ponte, para que essa partilha possa feita e as exposições/observações ocorram sem receios.

Sempre considerei – e continuo a fazê-lo – que sentar-me à mesa com alguém que não aprecie a minha companhia ou alguém cuja companhia eu não aprecie seria uma espécie de afronta mútua, algo de infame e incomportável para alguém que exige de si mesmo aquilo que eu exijo. Uma ignomínia, portanto, e isto fazendo apenas os juízos mínimos...

Não vou onde não sou bem-vinda e também não concedo o privilégio da minha companhia a quem dele não é merecedor, muito menos se isso implicar uma refeição em conjunto. Respeito verdadeiramente o acto de comer e isso não me permite conspurcá-lo, por questões de trato social ou outras. Há quem diga que são peneiras, outros dizem que são caprichos, outros ainda que é “uma grande pancada”. Pois que seja. Pode até ser que seja mesmo. Para mim, é somente o meu esforço em ser fiel a mim e aos meus princípios e valores. Se isso é ser snob, obsessiva ou maluca, então sê-lo-ei, com todo o gosto e muita determinação.

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© Marta Madalena Botelho

3.8.08

contra a rotina

Preciso vitalmente de contrariar aquilo a que ironicamente chamo «a rotina das férias». Tempo de descanso, se transformado em rotina, deixa de ser o que é. Pavor. De maneira que faço um esforço por me perder, sim, perder é o termo correcto. Perco-me por temporadas – gosto de dizer temporadas, sem contar os dias, pois saber quantos são ao certo aviva a memória do seu fim e torna-os mais pequenos – imitando as cigarras. A meteorologia, essa incógnita e imperscrutável personagem, contudo, ainda não consegui contrariar. Embora ela me altere os planos não raras vezes, eu sei que, mais dia, menos dia, será a minha vez de clamar por desforra.

Gosto de partir para o nada, para o silêncio, a acalmia. Onde quer que vá, quero perder-me de mim nos outros. Anseio por passear em ruas cheias de gente desconhecida, não fazer ideia da nacionalidade do casal que se deita ao meu lado na praia, deixar de ver pessoas e ver somente vultos a quem não tenha de endereçar as expressões da praxe. Aliás, o mais provável que aconteça se, por acaso, me cruzar com algum rosto familiar é que não o reconheça mesmo. Embora leve os olhos abertos, não será para ver gente, mas para me deixar inundar desta claridade única que tem o sol no Estio.

Não vale a pena sentir ou verbalizar saudades. As férias são sempre um tempo demasiado curto para que a falta desponte. Gosto de acreditar que apenas invocamos a falta porque somos uns românticos incuráveis que odeiam despedidas.

Durante uma temporada estarei singularmente gozando o que a tal da aleivosa meteorologia só oferece quando lhe dá na gana: sol, azul e verde. Quero embriagar-me de luz, mar e natureza e a taça é pequena só para mim.

À noite, tenciono quedar-me no breu a ouvir os grilos, sem pensar em nada a não ser na maravilha que é uma noite fresca depois de um dia de soalheira.

A viagem ainda é longa. Nos ouvidos levo uns headphones velhinhos ligados a um ainda mais velhinho leitor de CDs, que eu não sou nem nunca serei menina de iPod – preciso de sentir que a minha música tem qualquer coisa de real que me prenda ao mundo.

Quando as pilhas estiverem gastas, restará a quietude do nada e o ruído emudecido do relógio esquecido na gaveta.

[Também publicado em PNETmulher.]

© Marta Madalena Botelho

27.7.08

um pedacinho de céu em plena terra

Apesar de estarmos praticamente na recta final do mês de Julho, aqui pelo Norte hoje está um daqueles dias taciturnos, mais convidativos ao silêncio do que ao burburinho da areia coberta de toalhas coloridas ou das esplanadas repletas de gente. Está um dia tão calmo que de vez em quando, apenas um murmúrio, um rugido de onda interrompe o sossego que me tem prendido ao livro que estou a ler.

Por isso, hoje os meus vizinhos também escolheram a tranquilidade das suas casas. Olhando em frente vejo que o filho mais novo está, como sempre, agarrado ao computador enquanto o pai preguiça no sofá da sala. Na janela ao lado, uma rapariga com um gato preto deitado no colo esforça-se por pintar as unhas dos pés sem o acordar.

Até os pássaros estão calados. Esvoaçam de cá para lá no céu cinzento, alguns pousam nos fios eléctricos, mas nem piam entre si. As gaivotas hoje estão em terra e de vez em quando também passam por aqui. A tarde ameaça chuva.

Se pudesse e o tempo a isso convidasse, estaria, obviamente, a passear junto ao mar. Gosto de caminhar pela linha da praia e ver como as janelas das casas do outro lado da rua se abrem uma a uma, algumas ainda timidamente, para deixarem entrar a luz do sol reflectida num imenso manto azul e frio. Mas hoje não há sol e o dia também não está suficientemente quente para me fazer trocar os sapatos pelas Havaianas. Resta-me ficar aqui por casa e imaginar a espuma a beijar-me os pés, os recortes da ondulação na areia, os meus olhos a afundarem-se no abismo marítimo.

Às vezes, sinto que o mundo poderia muito bem ser do tamanho de um metro quadrado, desde que esse metro quadrado fosse ao pé da praia. E dou graças por poder usufruir diariamente do cheiro da maresia e da serenidade do repetitivo vaivém das ondas. Imagino que o Paraíso seja algo de muito semelhante a isto: areia a perder de vista e um manto salgado ao fundo. E questiono-me sobre o que terei feito para merecer lograr um pedacinho de Céu em plena Terra.

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© Marta Madalena Botelho

20.7.08

tira-teimas

Chega o tempo quente e com ele o prenúncio de férias. Férias, essa palavra simultaneamente tão desejada e tão temida pelos casais.

Se é verdade que as férias podem e devem ser sinónimo de descanso, também é verdade que, em alguns casos, acabam por ser um período de reflexão em que se chega a uma penosa conclusão: a da incontornável finitude das relações amorosas.

Não é por acaso que a maior parte dos casais se separa – muitas vezes de modo definitivo – após as férias de Verão. São, pelo menos, duas semanas em que cada um dos elementos do casal tem necessariamente de conviver com o outro, muitas vezes exclusivamente um com o outro, sem o subterfúgio que podem ser os filhos e os amigos. E é nessas circunstâncias que se começa a ter percepção daquilo que realmente subsistiu da relação entre ambos. E, às vezes, o que subsistiu foi muito pouco.

Costumo gracejar e dizer que o Verão traz consigo dois factores essenciais à correcta percepção dos amores: a claridade da luz do sol e os corpos ao léu. A claridade é fundamental porque nos permite ver melhor quem temos ao nosso lado e toda a panóplia de características que o/a compõem. Os corpos ao léu, por sua vez, têm uma dupla virtude: se, por um lado – e metaforicamente falando –, revelam o que verdadeiramente existe, sem quaisquer artificialismos, por outro lado – e concretamente falando –, são o melhor meio de aferir o quão a pessoa com quem partilhamos a vida gosta de admirar «o alheio», consoante siga mais ou menos disfarçadamente (inclinando corpo, cabeça e o mais que houver para inclinar) todo e qualquer corpinho descascado que lhe passe pela frente dos olhos.

Brincadeiras à parte, diria que o modo como os casais vivem o período de férias é fundamental para a continuidade das relações e todos teríamos a lucrar se tomássemos consciência disso. Tempo sem trabalho é tempo para pensarmos em nós e nas nossas necessidades. Em síntese e sem rodeios: é tempo de egoísmo. Nas férias queremos fazer o que nos dá na realíssima gana (seja isso beber até cair todas as noites, seja ler «Os Miseráveis» de uma assentada). Só que fazer o que nos apetece exibe um pouco daquilo que somos. E esse pouco acaba por ser muitíssimo, já que, regra geral, coincide com aquilo que tentamos que passe despercebido durante o resto do ano.

Partilhar as férias com alguém pode significar o confronto com o que é aquela pessoa sem disfarces. E isso nem sempre é agradável e/ou vai de encontro às nossas expectativas. É aí que entra aquela malvada sensação que tanto nos consome e que tanto procuramos ignorar e que se chama «desilusão». Porém, julgar que a desilusão apenas vem do lado do outro é, no mínimo, ingénuo. Durante as férias o tempo também nos sobra para pensarmos no que fizemos durante o ano que passou, no que crescemos, no que fizemos o outro crescer, nos objectivos que cumprimos, nos que ajudámos o outro a cumprir, no quanto nos entregámos ao amor e no quanto deixámos que o outro a ele se entregasse. As conclusões a que chegamos nestas matérias ficam muitas vezes longe daquilo que imaginávamos que estivessem e é aí que somos confrontados com as nossas próprias (imensas) falhas.

Frequentemente, os meses de Verão, em consequência da maior disponibilidade, são meses de observância atenta e ponderada das relações amorosas. Frequentemente, os meses pós-Verão, em consequência da reflexão antes levada a cabo, são meses de decisões sérias e definitivas sobre o estado das relações amorosas. É um dado adquirido, quase um cliché social. Quero acreditar que não há nada de errado nisso e que se trata somente de uma consequência normal do desgaste que afecta as pessoas. Contudo, confesso que dou por mim a pensar se não seria bem diferente se todos fossemos quem realmente somos e tivéssemos a ousadia de fazer o que nos dá na real gana ao longo de todo o ano. Talvez então as férias fossem tempo de não pensar em nada, verdadeiras férias, merecido descanso.

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© Marta Madalena Botelho

13.7.08

uma, duas, três fatias de bolo de chocolate

- Mas afinal de contas, vais ou não vais acabar de comer essa fatia de bolo? – perguntou-lhe ela.

- Não. Acho que não. Perdi o apetite.

- Bom, então se não a acabas, acabo-a eu. Posso, não posso?


Ele nem teve tempo de responder. Ela esticou o braço e tirou-lhe o prato da frente. Ele ficou estarrecido, mirando-a. Deixou cair os olhos no garfo a entrar-lhe pela boca dentro, os lábios muito vermelhos a apertarem o pedaço da fatia de bolo de chocolate, a saliva a envolver tudo num imenso bolo que os dentes trituravam implacavelmente.

Enquanto comia os restos da fatia dele – a bem dizer, a fatia quase toda – ia repetindo muitas vezes que não era bem como as pessoas diziam, que «quem conta um ponto acrescenta um conto» e «as pessoas têm a mania de de um dedinho fazerem um braço inteiro».

- Quem conta um conto acrescenta um ponto. – disse ele com paciência.

- Pois, isso já eu disse. Tenho razão, não tenho?

E metia outra garfada à boca, continuando a vociferar como se naquela esplanada só estivessem eles e ninguém lhes ouvisse a conversa.

- O que tu disseste foi «quem conta um ponto acrescenta um conto – corrigiu o rapaz.

Ela parou, estarrecida. Esbugalhou muito os olhos e fitou-o como se o fulminasse. Abanou a cabeça, agitando os caracóis de um lado para o outro e literalmente aos gritos perguntou-lhe se estava a gozar com ela.

Naquele momento, eu levantei a cabeça e desenterrei os olhos do jornal. Ela segurava o garfo na mão direita e com os dedos gordos da mão esquerda apertava exageradamente o guardanapo. Tinha os lábios brilhantes da manteiga do bolo, quase tão brilhantes como os caracóis do cabelo oleoso debaixo da claridade do sol. Voltou a perguntar-lhe aos brados se ele estava a gozar com ela e levantou-se da cadeira. Eu senti a plataforma de madeira da esplanada estremecer e vi as ripas de madeira baloiçarem debaixo dos pés daquela criatura imponente e ameaçadora. A água tónica do meu copo entornou ligeiramente e, de repente, eu achei que aquilo já era um bocadinho demais.

Foi então que ele balbuciou um tímido «não, mas é claro que não, meu amor» e, levantando-se, lhe foi amparar o braço, lhe tirou a custo o guardanapo de entre os dedos e lhe pediu que se sentasse, que a exaltação não lhe fazia bem aos nervos, que ainda lhe dava «uma coisinha» e que ele não tinha trazido o carro para o caso de «haver novidade».

Ela afastou os caracóis da frente dos olhos, sentou-se, aproximou a cadeira da mesa, suspirou alto, pegou no garfo e partiu mais um pedaço de bolo de chocolate que meteu na boca.

A fatia sumiu em menos de nada. Ele perguntou-lhe se queria outro sumo de laranja natural, sem gelo «por causa da garganta», mas ela disse que sumo não queria, só se fosse outra fatia de bolo. Ele fez imediatamente sinal ao empregado e pediu «outra fatia de bolo para a menina». Entre sorrisos, ele lá se atreveu a dizer -lhe que tinha um bocadinho de bolo no canto da boca. Eu temi a reacção dela, mas enganei-me. Ela lambuzou-se toda e lá deu com o pedacinho de chocolate. Mal o empregado pousou o prato na mesa, comeu a terceira fatia de bolo de chocolate como se antes nada tivesse acontecido. Depois levantaram-se ambos e fizeram-se ao caminho.

Eles ainda não iam longe quando o senhor de idade sentado na mesa ao lado da minha se inclinou na minha direcção e me disse que antes de chegar eu perdera uma belíssima história em que ela lhe contava como a melhor amiga tinha sido abandonada no altar pelo noivo. Antes que ele se pusesse com ideias, ela ameaçara-o dizendo que se alguma vez ela sequer sonhasse que isso já lhe tinha passado pela cabeça, seria melhor ele fugir do país porque, caso o encontrasse, ela trataria de o matar. Temendo pela vida, o rapaz tinha tentado aplacar a ira da namorada pedindo duas fatias de bolo de chocolate, mas não fora capaz de tocar na dele. Tentando agradar-lhe começou a tecer brilhantes considerações sobre as manchas para a honra e reputação que do gesto inqualificável do noivo fujão adviriam para a infeliz jovem. Pelos vistos, exagerou de tal forma que até ela achava que «o povo não era assim tão mau». O resto já eu presenciei.

Por fim, fiquei ainda a saber que aquelas duas singulares criaturas são presença habitual na casa e que, à boca pequena, todos comentam que é graças à necessidade de aplacar os maus fígados dela que, naquela confeitaria, raramente sobra algum bolo de chocolate.

[Também publicado em PNETmulher.]

© Marta Madalena Botelho

6.7.08

a crise económica, as prioridades e o meu subconsciente avarento

Nos últimos tempos tenho sido inúmeras vezes contactada pela Portugal Telecom com o intuito de me convencerem a aderir ao Meo. Já perdi a conta às vezes em que simpáticas senhoras com vozes mais ou menos agradáveis começam a debitar sempre a mesma conversa. Eu confesso que tenho imenso respeito por todo o tipo de trabalhos e ocupações e considero todas as profissões igualmente nobres e necessárias à vida em sociedade, mas só mesmo por isso é que continuo a atender o telefone e a permitir que me roubem aos dez minutos de cada vez. É que dez minutos podem até parecer quase nada em circunstâncias normais, mas pode ser imenso tempo quando há muitas coisas para fazer. Ora, regra geral, as circunstâncias em que as queridas operadoras da PT me pedem que lhes conceda dez minutos são precisamente aquelas em que não me dava jeitinho nenhum conceder-lhos. Sucede que, mercê do meu já referido respeito por todas as funções que permitem ganhar dinheiro de forma honesta, quase nunca consigo dizer-lhes que não e acabo mesmo por gramar com o paleio todo que já sei de cor e salteado.

A minha resposta é sempre a mesma: «muito obrigada, mas não estou interessada». As operadoras, invariavelmente, ficam destroçadas perante a negativa, mas lá acabam por, resignadas, aceitar o meu «não». E depois perguntam se podem perguntar porquê. E eu lá lhes dou a tal resposta que as faz sempre soltar uma gargalhada meio incontrolável, meio tímida, mas sempre suficientemente sonora para chegar ao meu lado da linha. O motivo pelo qual eu não estou interessada em aderir ao Meo, nem agora nem durante os próximos tempos, é simples: eu não tenho televisão em casa.

Não vejo onde esteja o extraordinário deste facto. Há pessoas que não têm carro, outras não têm telemóvel, outras não têm computador. Eu tenho tudo isso, só não tenho televisão. A bem da verdade, até tenho. A coitada viveu longos anos ao serviço da família que, diga-se de passagem, nunca lhe deu muito que fazer. Sendo objecto não muito usado, ninguém dela sentiu muita falta quando eu, chegada a hora de viver sozinha, perguntei se a podia "herdar" antecipadamente. Sem objecções, lá a trouxe e pus no móvel da sala, previamente concebido à sua exacta medida.

A televisão ainda funcionou um par de meses sem dar sinal de padecer de qualquer maleita. Mas as televisões, tal como os robots de cozinha, os relógios de pulso, as colheres-de-pau e o ser humano, têm um ciclo de vida. Esta não foi excepção. Numa noite de Inverno, recusou-se a transmitir o Jornal das 22h da RTP2. «Que raio», pensei eu. A luz vermelha do stand-by estava lá, mas não havia meio de transmitir imagem ou som. Aproximei o ouvido do ecrã e pude ouvir um estalido de cada vez que carregava no botão do telecomando. Era como se aquela pesada televisão me estivesse a dizer que já não tinha forças para mais e me suplicasse que, ao fim de tantos, a deixasse finalmente repousar em paz. Eu deixei.

Ainda não comprei uma televisão nova e não creio que o venha a fazer tão cedo. Do mesmo modo que nos habituamos a ligá-las quando chegamos a casa, também nos habituamos a viver sem elas. Além disso, tenho incontáveis outros destinos a dar ao meu dinheiro, os quais considero bem mais prioritários do que um televisor. Por causa da minha televisão avariada, descobri que também tenho um lado somítico que me impede de investir um pequeno balúrdio em tal objecto. Cheguei à conclusão de que pagaria mais depressa €100,00 por um frigideira anti-aderente da treta do que €200,00 por um televisor com as funções básicas (exemplo que não é de todo inocente, pois aconteceu mesmo).

Talvez esta minha recusa em substituir a minha velha televisão avariada por um destes moderníssimos ecrãs de não sei quantas polegadas seja um reflexo da crise económica que grassa pelo país fora. Talvez não o faça porque o meu subconsciente ainda acalenta a esperança de que ela um dia se decida a voltar a funcionar, tão inesperadamente como se decidiu a não o fazer. Ou talvez eu só esteja mesmo a alcançar plenamente um estádio em que a caixinha que mudou o mundo se tornou para mim um objecto dispensável. O verdadeiro motivo, ainda não o descortinei. Soubesse-o eu e di-lo-ia às prestáveis operadoras da PT que bem se esforçam por me impingir o Meo que, como está bom de ver, não teria qualquer utilidade para mim. Soubessem-no elas e talvez desistissem de me telefonar tanto. É que um dia destes, nunca se sabe, depois de tanto uso, o telefone lembra-se de se desligar para sempre e, isso sim, seria um belo «trinta e um». Não sei porquê, mas tenho cá a ligeira sensação de que eu era menina para não comprar mais nenhum.

[Também publicado em PNETmulher]

© Marta Madalena Botelho

29.6.08

direitos "deles", deveres de todos

O tema foi lançado por Paulo Simões Mendes no PnetHomem. Uns dias depois, transitou para o PnetMulher pela mão de Paula Capaz. Se me dão licença, agora sou eu quem vai meter a colherada.

Felizmente, entre todos os colaboradores dos referidos sites impera a liberdade de opinião, de expressão, de comentário e, obviamente, de discordância. Delas pretendo fazer uso. Contudo, limitar-me-ei a fazê-lo na estrita medida em que sirvam para expressar a minha opinião em relação a este assunto que, penso, diz respeito a todos aqueles que se preocupam com os direitos das pessoas, de todas as pessoas.

Li atentamente os textos de ambos os distintos cronistas. Com o devido respeito, considero que o raciocínio expresso por Paula Capaz no seu texto «Desfiles e paradas» parte de vários pressupostos que estão errados, o mesmo se aplicando a alguns comentários que foram feitos quer a essa crónica, quer à crónica de Paulo Simões Mendes. Seguem as razões porque assim considero (em articulado, por defeito de profissão mas, acima de tudo, por facilidade de exposição).

1. Escreve Paula Capaz: «Que eu saiba, ser hetero ou gay, não é um direito, não se adquire nem se escolhe (...). Reclamar o direito a ser gay é uma redundância.». Ora, sucede que as marchas LGBT não têm como objectivo reclamar "o direito a ser gay". Eu confesso que nunca ouvi fosse quem fosse reclamar para si esse direito em lado nenhum. Ao contrário, para mim é clara a ideia de que as marchas LGBT são acções de protesto públicas, nas quais as pessoas (de todas as orientações sexuais) que nela participam reclamam o direito que os cidadãos LGBT têm a receber, por parte do Estado e da Lei, o mesmo tratamento (o que é dizer, os mesmos direitos) que tem qualquer cidadão que não seja LGBT. Ou seja, nas marchas LGBT reivindica-se o fim de todos os actos que estabeleçam diferenças entre os cidadãos com o fundamento único da sua orientação sexual.

2. O que as pessoas reclamam, portanto, é o direito a serem tratadas pela Lei, pelo Estado e pelos outros em condições de igualdade com os outros cidadãos, o que, como toda a gente sabe, não acontece a muitos níveis. São precisos exemplos? Eu dou alguns. Os cidadãos homossexuais não podem casar com a pessoa que amam, o que tem implicações a vários níveis: o parceiro nunca será herdeiro legítimo nas mesmas condições dos cônjuges, um parceiro não pode visitar o outro no hospital nas mesmas condições dos cônjuges, os casais de pessoas homossexuais não podem usufruir da aplicação do coeficiente conjugal em matéria de impostos, nem no que toca aos empréstimos bancários. Além disso, os parceiros homossexuais não podem fazer seguros de saúde familiares porque o Estado diz que eles não são uma família. Os casais constituídos por pessoas do mesmo sexo não podem adoptar. Do mesmo modo, não são beneficiários da procriação medicamente assistida. Uma mulher lésbica também não. E todas estas diferenças têm como único fundamento o quê? A orientação sexual dessas pessoas, ou melhor, o facto de elas não serem heterossexuais, o que é ainda mais esclarecedor. Serão precisos mais exemplos?

3. É muitíssimo recorrente este argumento que também Paula Capaz invoca no seu texto e que cito: «(...) uma parada gay assume uma forma carnavalesca e pouco digna quando pretende a demonstração da intimidade». Mas, então, cabe perguntar: acaso os afectos têm apenas uma dimensão interior, entre as quatro paredes de uma casa ou de um quarto? Os afectos não são, também eles, uma dimensão da existência das pessoas? Não têm, portanto, prospecção pública e social? As pessoas não se beijam e abraçam em público, não passeiam de mãos dadas, não usam alianças nos dedos, não apresentam o parceiro como "meu marido" e "minha mulher", não se comportam socialmente como um casal? A ideia de que a sexualidade do ser humano só se vive na intimidade é redutora e perniciosa. O casamento, por exemplo, é uma das manifestações legislativas, religiosas e sociais da sexualidade das pessoas – senão, mesmo, a mais expressiva –, e ninguém poderá negar isso. Por que razão, então, quando se fala em homo ou bissexualidade, se invoca que “isso” é para ser vivido na intimidade?

4. Quanto ao último parágrafo da crónica, no qual Paula Capaz escreve «Daí a minha indignação, repito, quando vejo alguns gays fazerem questão de falar de um assunto que nem devia ser objecto de discussão, um assunto tão natural quanto sair à noite para jantar fora», apenas dois apontamentos. O primeiro para dizer que concordo que ser homossexual, tal como ter olhos verdes, não se discute. Contudo, não creio que o assunto de que se fala seja o ser-se homossexual. Discute-se – e isso sim, é altamente discutível – é que alguém veja serem-lhe negados direitos apenas (e sublinho o apenas) porque é homossexual. O segundo apontamento versa a comparação invocada na crónica, pois não vislumbro o que tenha que ver «a bota com a perdigota». Talvez ninguém discuta jantares fora de casa porque, por exemplo, ninguém utiliza epítetos "simpáticos" como "paneleiro", "fressureira" ou "rabeta" para designar as pessoas que jantam fora de casa. Já para se referir os homossexuais... E "anedotas" sobre gente que janta no restaurante, alguém conhece? É que sobre homossexuais eu já ouvi um par delas. Talvez não seja por acaso que nunca em Portugal houve uma manifestação da extrema-direita contra as pessoas que jantam fora de casa, mas já houve pelo menos uma contra as pessoas homossexuais. Tudo isto para dizer que os assuntos não são comparáveis e compará-los, para além de parecer ingénuo, é reduzir ambos os temas ao âmbito do corriqueiro, quando não o são. Talvez jantar fora até seja algo trivial, mas, o que afecta diariamente a vida das pessoas não deve ser, não pode ser.

5. Por último, uma referência ao terceiro parágrafo do texto em causa. Diz Paula Capaz: «Percebo que se grite contra uma injustiça social, que se desça a avenida porque os salários são de miséria, que se faça greve porque não há pagamentos, que se use o luto porque somos escravizados, enfim, que se reclamem os direitos que nos são negados.». Então, pergunto: se «percebe» que se reclamem direitos que são negados seja por que meio for (e cito: «que se grite», «que se desça a avenida», «que se faça greve», «que se use o luto»), porque é que não é capaz de perceber que os homossexuais «gritem», «desçam a avenida» e, se preciso for, «usem o luto» se a Lei, o Estado e os outros, todos os dias, lhes negam direitos? Onde está a diferença, por exemplo, entre os professores, os estudantes universitários, os sindicalistas, os que passam recibo verde, os polícias e os LGBT quando descem avenidas empunhando cartazes, gritando palavras de ordem, desfilando com faixas e entoando slogans? Não estão todos eles a lutar pelos seus direitos? Não estão todos eles a defender aquilo em que acreditam? Não estão todos eles a mostrar ao Governo, ao País e ao Mundo que existem e que merecem respeito por parte de toda a gente? Não estão todos eles a fazer valer direitos das pessoas?

6. Em suma e concluindo: quer se trate de professores ou de LGBT, de maiorias ou de minorias, de marchas em luto ou envoltas em cores alegres e garridas, trata-se, em primeira instância, de pessoas, de direitos e da defesa da dignidade humana. Marchas de orgulho LGBT são, portanto, marchas de orgulho humano e, consequentemente, um assunto que diz respeito a toda a gente, sem excepção. A sua existência faz e fará todo o sentido enquanto essas pessoas, esses direitos e essa dignidade não forem integralmente respeitados.


[Também publicado em PNETmulher.]

© Marta Madalena Botelho

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