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24.4.19

interdito!

Não tenho andado muito a par de novidades editoriais, nem sequer de promoções, mas hoje, Dia Mundial do Livro, imaginei que houvesse algumas e lá fui desgraçar-me. Na visita às lojas online e livrarias, pude aperceber-me de que há uma profusão de livros com palavras que eu chamo «ordinarices» no título. Ora, «ordinarices», também eu digo algumas, que uma mulher do Norte dificilmente escapa à tentação do alívio cientificamente provado que certos vocábulos em vernáculo puro e duro causam, mas jamais me ocorreria publicar um livro com o título Desenmerda-te* (não sei que mais) - confesso que tenho mais o que decorar do que estes títulos maravilhosos.
Já não bastavam os auto-ajudantes de meia-tigela estrangeiros publicarem livros inteiramente desprovidos de conteúdo com algum interesse cujos títulos não são mais do que soundbytes rascas, agora também temos portugueses a aderir à moda? E eu até falo com algum conhecimento de causa, porque li o A subtil arte de dizer que se f-buraco-de-bala-da da primeira à última página e posso afirmar que foi do tempo mais desperdiçado da minha vida, tanto que de cada vez que me lembro de que li aquilo, só me dão ganas de me autoflagelar com uma disciplina até sangrar.

Por Teutates! Andámos séculos a aprimorar as boas-maneiras, a educação, o saber-estar para virem estes nem-sei-o-que-lhes-chame em pleno século XXI conspurcar as livrarias com isto? Mete dó entrar numa FNAC ou numa Bertrand e olhar para o top de vendas: só livralhada com títulos reles!

Sai um pedido: deixem as livrarias em paz, se fazem favor. Afinal de contas, ainda são um dos poucos redutos de tranquilidade do mundo real realinho que eu vou tendo. Na literatura e na poesia - na arte - aceito tudo, mas na auto-ajuda não. Devia haver locais interditos à mediocridade. Posso sugerir as livrarias?

© [m.m.botelho]

16.1.19

«Precisamos de Ti para isso.»

«Meu Deus. Que Estás no Reino do Céu, que é dentro de nós. [...] [U]m céu. Precisamos de Ti para isso. O Inferno podemos nós próprios fazê-lo.»

__ Margaret Atwood, A História de uma Serva, 1.ª ed [trad. Rosa Amorim]. Lisboa: Bertrand Editora, 2013, p. 223.

8.11.18

«o Homem como ele realmente é»

«AAcabámos por conhecer o Homem como ele realmente é. Afinal, o homem é aquele ser que inventou as câmaras de gás de Auschwitz; contudo, é igualmente aquele ser que entrou nas câmaras de gás de cabeça erguida, com um «Pai-Nosso» ou «Shemá Israel» nos lábios.»

__ Viktor Emil Frankl.O homem em busca de um sentido [trad. do inglês de Artur J. Gonçalves], 6.ª ed. Lisboa: Lua de Papel, 2017, p. 132.

5.11.14

cool & calm

«[T he successful person] is always prepared. Even in failure, he is composed. He is not easily discouraged. [He] considers his struggles to be a kind of sport, and he approaches them as he would a game. He contends with life's difficulties in a relaxed and pleasant manner. He keeps a clear head even when things go wrong. And please believe me when I tell you: successful people are never sore losers; they're the ones who don't whine and give up after every failure. Indeed, they are the ones who keep their chins up, weather life's misfortunes, and live to fight another day. Who will be first to fail the test? The timid and the faint of heart. The whiners, the complainers. He who goes to the exam cool and calm is already halfway there. Such people are in great demand today. That is, I believe, the secret of success

Water Benjamin cit. in
Rosenthal, Lecia (ed.) - Radio Benjamin (Jonathan Lutes (trad.)). London: Verso, 2014
.

6.4.14

iguais, os parênteses

Um dos hábitos que tenho é sublinhar os livros que vou estudando, destacando as partes que me parecem mais importantes para a compreensão do tema que é abordado. Aqui e ali, deixo uma nota. Quando, mais tarde, vou consultá-los, o que sucede muitas vezes, topo com essas anotações e, geralmente, recordo-me das circusntâncias em que foram feitas. Mais valia recordar-me antes do seu teor - era-me mais proveitoso - mas sucedeu que nasci dotada de memória não para tudo o que quero, mas só para o que consigo.
Há pouco estava a consultar um livro e deparei-me com uma anotação "a pedido". São muitíssimo raras as anotações "a pedido" nos meus livros, porque só acontecem quando eu interrompo a leitura e, de repente, me lembro de algo que queria escrever e não posso fazê-lo eu mesma. Nas linhas escritas com inclinação ascendente, uma frase entre parênteses. Fiquei a olhar para eles. O da esquerda bem desenhado, o da direita torto, quase em linha recta até abaixo e só com uma ligeira curvatura no final. Afinal, eram iguais, os parênteses. Olha que coisa.

© [m.m.b.]

14.3.14

bíblico


© [m.m. botelho]

«G"eremias», o fora-da-ortografia, num
[insuspeito]
livro sobre Processo Penal.

© [m.m. botelho]

9.1.14

compreender


Paul McCartney. 25.03.1966. Vale Studios, Londres.
[fonte: web]

«Repito: compreender não significa negar o revoltante, deduzir o inaudito dos precedentes ou explicar fenómenos por meio de analogias e generalidades tais que se deixa de sentir o impacte da realidade e o choque da experiência. Significa antes examinar e suportar conscientemente o fardo que os acontecimentos colocaram sobre nós - sem negar a sua existência nem vergar humildemente com o seu peso, como se tudo o que de facto aconteceu não pudesse ter acontecido de outra forma. Compreender significa, em suma, encarar a realidade, espontânea e atentamente, e resistir a ela - qualquer que ela seja ou possa ter sido.»

Hannah Arendt - As origens do totalitarismo, 4.ª ed.
Lisboa: Publicações D. Quixote, 2010, p. XVIII.

6.5.13

«sê todo em cada coisa.»


© FBA. e Almedina [2013]

Este é um momento de grande satisfação académica e pessoal para mim. A minha dissertação de Mestrado, intitulada «Utilização das técnicas de ADN no âmbito jurídico. Em especial, os problemas jurídico-penais da criação de uma base de dados de ADN para fins de investigação criminal em Portugal», foi agora publicada pela Almedina, na colecção «Monografias». A partir de hoje, está à venda no site da editora e ainda esta semana estará disponível nas livrarias e em todo o mercado livreiro.

Trabalhei muito para esta dissertação, cujo projecto foi apresentado e aprovado pelo Conselho Científico da Universidade do Minho no tempo em que a Reforma de Bolonha não existia. Sabia que o esforço teria de ser enorme e que era uma empreitada investigar este assunto.

Parti praticamente do zero no que à produção científica nacional nesta área dizia respeito (havia partes de obras que referiam a «prova científica» e uns quantos artigos em publicações periódicas sobre o tema). Fui às bibliotecas e pesquisei nos catálogos sozinha. Fartei-me de tirar cópias e apontamentos. Li muito. Trabalhei horas a fio, dias seguidos, noites inteiras, para produzir um texto do qual me orgulhasse e muito próximo do que foi dado à estampa (este, foi obviamente melhorado aqui e ali, como explico em «Nota Prévia»). Abdiquei de muitos prazeres para poder fazer esta dissertação sem nunca parar de trabalhar como Advogada, estudar e sujeitar-me a exames de outras muitas matérias jurídicas em simultâneo. Passei férias de laptop e livros atrás, estive muitas vezes em muito lado com a cabeça no que tinha para ler e escrever, senti algumas angústias e o receio de não ser capaz de fazer isto com o nível de exigência que eu mesma me impunha. Sobrevivi a tudo isso.

À conclusão da escrita da dissertação, seguiu-se a entrega do texto e o aval do Conselho Científico da EDUM, que designou júri para a defesa. Depois, veio a defesa em prova oral pública, na qual a Arguente, a Professora Doutora Helena Moniz, de quem eu já havia sido aluna de Direito Penal em Coimbra e a quem conhecia bem a exigência, além de um rigorosíssimo juízo crítico, me colocou cerca de sessenta questões (embora eu não tenha podido responder a todas, em face da limitação temporal). Após uma prova de noventa minutos, seguiram-se alguns outros de espera pela decisão final. E no dezassete por unanimidade que me foi atribuído começou o sentimento do dever cumprido e a alegria da meta alcançada. Mas eu não queria ficar por ali.

Revi o texto e apresentei-o à Almedina. O trabalho teve de passar por todos os crivos editoriais e, ainda, por aquele que o actual estado da economia do País impõe a uma monografia desta natureza: a consideração dos riscos económicos do investimento. E passou. Seguiram-se três revisões do texto, o convite ao Professor Mário Monte para redigir o «Prefácio» e aguardar o tempo que leva a impressão e o acabamento de uma obra.

Finalmente, vi descer a luz sobre um livro de capa preta, com uma barra verde-água, escrito por mim. Eis a minha dissertação de Mestrado, com a qual espero poder contribuir, ainda que seja de forma mínima, para o avanço do «estado das artes». A minha maior satisfação, sem dúvida alguma, será poder assistir a isso.

Por isso, não sei quem serão, mas não posso deixar de agradecer, desde já, a todos quantos venham a adquirir e a ler a obra e, também, a todos quantos entendam ser a mesma meritória de divulgação entre os potenciais interessados que conheçam: muito obrigada.

© [m.m. botelho]


«Para ser grande, sê inteiro: nada
teu exagera ou exclui.

Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
no mínimo que fazes.

Assim em cada lago a lua toda
brilha, porque alta vive.»
Ricardo Reis, heterónimo de Fernando Pessoa.
Odes [1.ª publ. in «Atena» , n.º 1. Lisboa: Out. 1924.]

7.12.11

«o caminho correcto e único não existe»

«"Você tem o seu caminho.
Eu tenho o meu.
O caminho correto e único não existe."

Eis o trecho de um poema de Robert Frost:
"Diante de mim havia duas estradas.
Escolhi a estrada menos percorrida
E isso fez toda a diferença."

Seguindo a mesma linha, M. Scott Peck, em "A trilha menos percorrida", adverte que nada é fácil quando saímos da rota mais comum: "É humano – e sábio – temer o desconhecido, ficar ao menos um pouco apreensivo ao embarcar em uma aventura. No entanto, é somente com as aventuras que aprendemos coisas importantes."

Ele explica, em seu livro, que o crescimento pessoal é uma tarefa árdua e complexa, que dura a vida toda, e um caminho no qual não existem muitos atalhos, basicamente(*) porque os atalhos são construídos, passo a passo, com as pegadas das próprias pessoas. No entanto, essa maneira de caminhar em direção ao desconhecido contém sabedoria e realização.

Para Peck,
"é provável que nossos momentos mais sublimes ocorram quando nos sentirmos profundamente abatidos, infelizes ou descontentes. É somente nesses momentos que, movidos pela insatisfação, seremos capazes de sair da trilha já percorrida e buscar respostas mais verdadeiras em outros caminhos."»
Allan Percy, in «Nietzsche Para Estressados: 99 Doses de Filosofia
para Despertar a Mente e Combater as Preocupações»
[2011],
editora Sextante [Brasil], p. 94, citação 88.

Mesmo em português do "Brasiú" porque (ainda) não foi editado por cá, um livro que vale a pena ler, para rir, chorar e, acima de tudo, relembrar que sob aquele fatalismo (e bigode) todo, Nietzsche era um génio da simplicidade, a genialidade provavelmente mais rara de encontrar e mais fascinante de descobrir.

(*) E o que eu embirro com a expressão "basicamente", senhores? "Basicamente" quer dizer, "basicamente", o quê? Palavra de honra que não estou a ser picuinhas, mas "basicamente" quer dizer, "basicamente", nada ou, como diria o próprio Nietszche, "nihil". Basta dizer a frase sem a palavra para perceber que não altera nada, absolutamente nada, o seu significado. Pois é.

© [m.m. botelho]

30.11.11

tom sawyer

© «Google»
[o doodle da «Google» de 30.11.2011]

A 30 de Novembro de 1835 nascia Samuel Langhorne Clemens, que adoptou o pseudónimo de Mark Twain. Até o «Google» o homenageou, com um doodle onde estão representadas as personagens "Tom Sawyer" e "Huckleberry Finn".

O primeiro livro - digno de assim ser chamado - que me lembro de ter lido foi, precisamente, «As aventuras de Tom Sawyer». À época, passava também na televisão uma série sobre o sobrinho da Tia Polly.

Tom Sawyer foi uma personagem que nunca esqueci. Lembro-me dos seus castigos, principalmente do de pintar a cerca, da sua ousadia de fumar cachimbo às escondidas, das descidas perigosas do rio em jangadas construídas com muito mais fé do que jeito, da liberdade que reclamava por não querer usar sapatos, das maçãs que roubava nas árvores por que passava.

Cada um à sua medida, pelo menos eu, à minha maneira, quis ser, fui e continuo a ser "Tom Sawyer". Provavelmente por isso o livro me tenha ficado na memória e o tenho lido várias vezes (três vezes seguidas mal entrei em contacto com ele).

Bom, quem nunca se escondeu atrás de muro para atirar pedrinhas aos gatos que atire a primeira pedra. Eu, está visto porquê, não posso atirar. E parabéns ao seu criador.

© [m.m. botelho]

24.9.11

outono

Pisamos no chão o outono
e numa inspiração principiamos
o tempo que há-de vir:
as falésias, os lagos inundados de sol,
a casa habitada entre as árvores,
o silêncio essencial de todas as pedras.

pisamos como se bebêssemos o sentido,
como se em dez dedos coubesse o corpo
de uma mulher altíssima, sábia dos dias,
e a cama escutasse de noite a geração das coisas
sem que as paredes contivessem o ventre oculto.

dá-se em mim o sangue desse amor tão impensável
- na palavra que me leva os lábios o calor dos pulsos,
depois acendo as lágrimas e desenho no ar as tuas mãos.
Vasco Gato [n. 1978].
«depois do frio, ainda. um». in «um mover de mão» [2000]

5.9.11

senso comum

1.Don't be seduced by popular culture. It prevents you from thinking for yourself.
1. Não te deixes seduzir pela cultura popular. Impede-te de pensar por ti mesmo.

2. Don't fall in love with money. It will make you greedy and shallow.
2. Não te apaixones pelo dinheiro. Tornar-te-á ganancioso e superficial.

3. Don't use destructive language. It hurts others as well as yourself.
3. Não uses linguagem destrutiva. Magoa os outros e magoa-te a ti mesmo.

4. Don't judge other people. It's better to work on your own faults.
4. Não julgues as outras pessoas. É melhor trabalhares para corrigir as tuas próprias falhas.

5. Don't let anger get out of control. It can break relationships and ruin lives.
5. Não deixes a raiva sair do controle. Pode pôr fim a relações e arruinar vidas.

6. Keep a positive outlook on life. It's the first step to joy.
6. Mantém uma visão positiva da vida. É o primeiro passo para a alegria.

7. Bring out the best in other people. It's better to build up than to tear down.
7. Faz com que se revele o melhor das outras pessoas. É melhor construir do que demolir.

8. Have impeccable integrity. It brings peace of mind and a reputation of honor.
8. Tem uma integridade impecável. Traz paz de espírito e uma reputação de honra.

9. Help those in need. It really is better to give than to receive.
9. Ajuda os necessitados. É, realmente, melhor dar do que receber.

10. Do everything in love. It is the only way to find true peace and fulfillment.
10. Faz tudo com amor. É a única maneira de encontrar a verdadeira paz e a satisfação plena.
Hal Urban. «The 10 Commandments of Common Sense:
Wisdom from the Scriptures for People of all Beliefs»
[2007]. [tradução minha]

Nota: Mais citações do género, mas de inspiração exclusivamente budista, para acompanhar e meditar aqui, em princípio, diariamente; senão, conforme o meu tempo e dedicação e a minha disponibilidade para publicar.

© [m.m. botelho]

19.4.11

carne

«Se tens um coração de ferro, bom proveito.
O meu, fizeram-no de carne,
e sangra todo dia.»
José Saramago [1922-2010], «Os poemas possíveis» [1981]

12.3.11

desmemorização

fonte: visto aqui

«- Esquecemo-nos de algumas coisas, não é?
- Sim. Esquecemo-nos do que queríamos recordar e recordamos o que queríamos esquecer.»
Cormac McCarthy, «A Estrada» [2006]

Quem, como eu, foi amaldiçoado com uma memória muito mais prodigiosa do que seria necessário, vê-se forçado a, now and then, ter de fazer exercícios de desmemorização. São uma espécie de "treinamento do esquecimento", que exige, antes de mais, uma enorme focalização no próprio e uma resistência absoluta ao que é exterior e nos desvia de nós mesmos. Depois, é necessário que se tracem objectivos que constituam possibilidades de reforço pessoal que e se invistam neles todas as energias possíveis.
Este é um processo lento e exigente, mas é talvez o único modo de reduzir as proporções do que a memória teima em registar. A desmemorização completa não é possível, mas a diminuição do espaço que as coisas ocupam na nossa cabeça é, relegá-las para um plano secundário é. Não é fácil, mas com a devida concentração faz-se. Porque, tendo em mente que é o melhor para nós, tudo se faz. Tudo mesmo. Só parece que não quando nem sequer se tenta.

© [m.m. botelho]

8.3.11

de carnaval

Fragmento de «A náusea», de Jean Paul Sartre [1938].
fonte: visto aqui

5.3.11

à prova

fonte: visto aqui

«A vida consiste em sobreviver a uma série de provas, a começar pelo próprio nascimento.»
Robert Jay Lifton, «The broken connection: on death and the continuity of life» [1979]

28.2.11

o bom equipamento


fonte: visto aqui

«Para sobreviver, perdidos nas montanhas ou na neve, são fundamentais a boa preparação e levar consigo um bom equipamento. Mas, na hora da verdade, o que com frequência separa os vivos dos mortos não é o que levam na mochila, mas sim o que levam na mente.»
Luis Rojas Marcos, «Superar a adversidade: o poder da resiliência» [2011], p. 18

26.2.11

(in)felicidade perfeita

«Todos descobrem, mais tarde ou mais cedo na vida, que a felicidade perfeita não é realizável, mas poucos se detêm a pensar na consideração oposta: que também uma infelicidade perfeita é, igualmente, não realizável.

Os momentos que se opõem à realização de ambos os estados-limites são da mesma natureza: derivam da nossa condição humana, que é inimiga de tudo o que é infinito. Opõe-se-lhe o nosso sempre insuficiente conhecimento do futuro; e a isto se chama, num caso esperança; no outro, incerteza do amanhã. Opõe-se-lhe a certeza da morte, que impõe um limite a qualquer alegria, mas também a qualquer dor. Opõem-se-lhe as inevitáveis preocupações materiais, que assim como poluem qualquer felicidade duradoura, também distraem assiduamente a nossa atenção da desgraça que paira sobre nós, e tornam fragmentária e, por isso mesmo, suportável, a consciência dela.»
Primo Levi, «Se isto é um homem» [1947]

12.2.11

parecer e ser

«Quem observa de fora as regras, mas não o amor que as governa, vê-se muitas vezes demasiado predisposto a qualificar os outros como "prisioneiros".»
Iris Murdoch, «O mar, o mar» [2005], p. 72

Há uns tempos, pediram-me que enunciasse objectos que constituíssem bons presentes para alguém me oferecer. Referi os que me ocorreram de imediato, sem grandes cogitações ou esforço de memória: livros, canetas, marcadores de livros, cadernos ou blocos bonitos, um iPod, uma Lomo, um cachimbo, um ou outro DVD de filmes em que se aprenda alguma coisa para a vida. «Já reparaste que todas essas coisas implicam que estejas sozinha para poderes usufruir delas?», perguntaram. Não, não tinha reparado, mas se nunca reparei é porque não acho que assim seja. É possível ler um livro ou ver um filme com a cabeça recostada no peito de outra pessoa, é possível escrever quando alguém dorme no nosso colo, é possível dividir os headphones de um iPod, é possível fumar cachimbo a dois e uma máquina fotográfica tem muito melhor uso se a empregarmos para eternizar momentos partilhados.

À vista desarmada, posso até parecer muito metida comigo mesma, muito absorta em grandes racionalizações internas, muito no meu casulo, muito cá de casa. Porém, um olhar mais atento que contemple um leque de possibilidades que vão além do óbvio topa que nem tudo é o que parece. É um risco, por isso, que as pessoas, por muito tempo que hajam partilhado com alguém, partam do pressuposto de que são capazes de traçar um perfil do outro e saber que ele é assim ou assado. Não é que até não sejamos, em parte, o que parecemos e, portanto, o que os outros vêem. A questão é que podemos ser - e, na maior parte dos casos, somos - muitíssimo mais do que isso.

© [m.m. botelho]

11.2.11

«perder quem não se pode perder»

«Com a morte, também o amor devia acabar. acto contínuo, o nosso coração devia esvaziar-se de qualquer sentimento que até ali nutrira pela pessoa que deixou de existir. pensamos, existe ainda, está dentro de nós, ilusão que criamos para que se torne todavia mais humilhante a perda e para que nos abata de uma vez por todas com piedade. e não é compreensível que assim aconteça. com a morte, tudo o que respeita a quem morreu devia ser erradicado, para que aos vivos o fardo não se torne desumano. esse é o limite, a desumanidade de se perder quem não se pode perder. foi como se me dissessem, senhor silva, vamos levar-lhe os braços e as pernas, vamos levar-lhe os olhos e perderá a voz, talvez lhe deixemos os pulmões, mas teremos de levar o coração, e lamentamos muito, mas não lhe será permitida qualquer felicidade de agora em diante.»
valter hugo mãe, «a máquina de fazer espanhóis» [2010] [negrito meu]

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