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26.10.08

deus tem sentido de humor, alguns portugueses é que não.

Durante esta semana foi noticiado que a Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC) recebeu mais de setenta queixas motivadas por um sketch intitulado «Louvado sejas, ó Magalhães», que integrou o episódio 3 do último programa dos Gato Fedorento, «Zé Carlos», no qual alguém envergando uma batina celebra uma cerimónia muito semelhante a uma missa em louvor do Magalhães, que termina com o sacrifício de um dos presentes, todos eles professores. Segundo um comunicado da ERC, as queixas apresentadas a propósito deste sketch, todas em nome individual, centram-se «essencialmente na ofensa, no achincalhamento e na falta de respeito pelos símbolos religiosos católicos, em especial pelos rituais da Eucaristia».

Ainda é recente a memória da suspensão da emissão dos programas de Herman José na R.T.P. por ter parodiado a Última Ceia. A sorte de Manuel Luís Goucha e de Teresa Guilherme foi ainda mais insólita: foram ambos despedidos da Rádio Renascença por terem contado aos microfones daquela estação de rádio uma anedota em que uma das personagens era Deus.

Lamentavelmente, não se pode dizer que seja propriamente novidade em Portugal o que está a suceder aos Gato Fedorento, tal como não pode dizer que o que aconteceu a Herman, Goucha e Teresa Guilherme sejam apenas vagas lembranças. Em Portugal continua a haver quem ainda não consiga distinguir a caricatura da ofensa, a crítica do ultraje, a liberdade de expressão da afronta.

Há quatro aspectos comuns a estas três histórias: (1) são momentos humorísticos (2) de certa forma relacionados com a religião que (3) foram transmitidos em meios de comunicação social e (4) que suscitaram sentimentos de ofensa em alguém. Contudo, há anos a separá-las. Anos que, supostamente, deveriam ter surtido algum efeito no modo como os portugueses reagem ao humor, mas que não surtiram.

Com efeito, continua a haver em Portugal quem ache que há temas absolutamente vedados ao humor. Alguns nacionalistas, por exemplo, acham que cantar o hino nacional com uma letra alterada deveria ser razão mais do que suficiente para encarcerar alguém durante, no mínimo, vinte anos (mas estou certa de que se lhes perguntássemos o nome de quem escreveu a música e a letra de «A Portuguesa», não saberiam dizer). Por seu turno, os adeptos dos clubes de futebol continuam a zangar-se uns com os outros só à conta de umas anedotas que alguém com excesso de tempo livre põe a circular via e-mail. Alguns católicos, por sua vez, acham que importar alguns elementos da sua religião para fazer uma crítica ao governo (sim, por incrível que pareça, tratava-se de uma crítica ao governo e às acções de formação por ele propostas aos professores e não de um achincalhamento da cerimónia da missa) é uma infâmia e uma ofensa gravíssima ao seu sentimento religioso.

Resumindo, em Portugal só se pode fazer piadas sobre alentejanos, mulheres, advogados, homossexuais e a Manuela Moura Guedes. Quase tudo o resto haverá sempre de constituir ofensa para alguém, neste país que, não obstante os hercúleos esforços de alguns perseverantes que teimam em fazer rir este povo sisudo, ainda não é capaz de rir de si mesmo.

O sketch dos Gato Fedorento não contém absolutamente nada que possa considerar-se ofensivo da celebração da missa simplesmente porque não incide sobre nenhum aspecto religioso. Toda a crítica é dirigida às acções de formação do Magalhães, nas quais os professores foram convidados a enaltecer o computador («louvar» foi o verbo utilizado pela imprensa) e a prestar-lhe algo muito semelhante a uma veneração. Embora tenha como inspiração um símbolo religioso católico, o sketch fica-se por aí no que concerne a esse assunto. Tudo o resto é, tão somente... humor, caricatura, boa disposição e crítica mordaz!

O estilo do Gato Fedorento nem sequer é novo. Aliás, há quem diga que este programa esgota o conceito de humor que eles realizam. Não deixa de causar alguma perplexidade, portanto, que haja setenta pessoas a fazer tanto barulho por nada.

Já vai sendo tempo de, em Portugal, se porem de lado certos pruridos que apenas dão azo a polémicas perfeitamente estéreis e de que de nada servem senão para evidenciar que ainda há quem não tenha inteligência suficiente para decompor e interpretar um simples sketch humorístico.

Não consta, contudo, que Jesus tenha vindo à Terra só porque os Gato Fedorento puseram um coro a cantar «Louvado sejas, ó Magalhães», ainda por cima, num Domingo, dia do Senhor! Só há uma conclusão a tirar de tudo isto: Deus tem sentido de humor, alguns portugueses é que não.

[Também publicado em PnetMulher]

© Marta Madalena Botelho

28.9.08

portugal: brandos costumes = bolorentas manias

Faço questão de que a minha crónica de hoje comece com uma afirmação ou, como dizem os nossos queridos amigos ingleses (lembremo-nos do Tratado de Methuen e logo se avivará em nós a memória de tão profunda e profícua amizade), um statement: a palavra favorita dos portugueses é «crise». Pede-se uma opinião a um português sobre o estado do seu país e a primeira palavra que lhe vem à boca é crise. É imediato, é irreflectido, é tão evidente que até nem é preciso perguntar: crise, crise, crise.

Ainda me lembro, era eu gaiata (gosto tanto da palavra «gaiata»!), já a Ivone Silva e o Camilo de Oliveira apregoavam na televisão (eram os tempos em que eu ainda tinha televisão), de garrafa na mão: «isto é que vai uma crise!». Já passaram mais de vinte anos e o discurso poderia ser exactamente o mesmo, não fosse a grande actriz já nos ter deixado.

Aliás, diga-se em abono da verdade, os portugueses são tão profícuos em crises como em opiniões. Eu diria mesmo que a segunda palavra favorita dos portugueses é «opinião». Os portugueses adoram dar a sua opinião e entenda-se «dar» na verdadeira acepção da palavra: o português adora dar o seu parecer sobre tudo quanto é assunto, motu proprio, sem que ninguém lhe peça, sem que venha ao caso. Ah, o português, esse abnegado cidadão do mundo que, consciente do seu papel determinante no rumo de todas as questões e mais alguma, nunca teme nem se abstém de dar a sua opinião, numa demonstração de esforço e sacrifício pelo seu país!

E eis-me chegada à terceira palavra favorita dos portugueses: «país». Os portugueses gostam tanto da sua nação que não deve haver um único que não tenha a bandeira de Portugal em casa (nem que seja daquelas que em vez dos castelos que D. Afonso Henriques tanto se esfalfou a conquistar aos mouros tenha pagodes chineses). Português que se preze ama a pátria mais do que a própria mãe. Por exemplo, se, numa casa portuguesa com certeza, a mãe pedir ao filho que desça três andares, pegue na botija do gás que está na garagem e a traga para cima para que ela possa cozinhar o almoço que ele haverá de comer, o filho responderá que agora não pode ir porque está num momento decisivo do jogo na PSP (leia-se Playstation Portable). Mas se um dos senhores da bola pedir aos portugueses que coloquem a bandeira nacional por tudo quanto é lado, eles largam tudo e não se importam de andar a fazer figurinhas ridículas com uma bandeira espetada numa haste de plástico na janela do seu Fiat Punto branco, desde que seja em nome da nação.

Assim sendo, aos portugueses interessa, acima de tudo, resolver a crise que, em sua opinião, assola este país. Tudo o mais é fait diver. Os portugueses querem lá bem saber do debate mensal na Assembleia da República, do «Magalhães», da visita de Hugo Chavez ou da exposição de Picasso no Algarve. E nem lhes falem do casamento entre pessoas do mesmo sexo porque, como diria Manuel Alegre, já chega de andarmos a falar de assuntos menos importantes só porque são fracturantes e estão na moda.

Os portugueses já têm muito em que pensar! Logo a começar, na malfadada Euribor e nas comissões da banca e, depois, na Justiça e na atribuição das indemnizações a Paulo Pedroso e Pinto da Costa, no aumento da criminalidade, nos números do Euromilhões e no apuramento da selecção nacional para o Mundial 2010. E depois há as notícias do Público, do Portugal Diário e do Correio da Manhã onde é imperioso que cada português deixe expressa a sua opinião...

Portugal é, diz-se, um país de brandos costumes. Sim, sem dúvida, um país de costumes. Portugal, o «meu país de marinheiros, o meu país das naus, de esquadras e de frotas» de que falava António Nobre, agora só gosta de navegar em águas conhecidas, em águas tranquilas, em segurança. Portugal quase já só vai onde lhe mandam, só faz o que lhe deixam fazer, só arrisca se outros lhe garantirem o apoio (financeiro e político, na maior parte dos casos).

Não é por acaso que, mesmo tendo passado tanto tempo, os textos que a Ivone Silva interpretou no Sabadabadu continuam tão actuais (tão assustadoramente actuais!), mas sim porque as prioridades dos portugueses são sempre as mesmas (as tais palavras favoritas) e, à luz da emergência dessas preocupações, todas as outras questões se tornam inoportunas.

Algo sobressai no meio de tudo isto: Portugal está desfasado da realidade em que, por força das circunstâncias, é obrigado a movimentar-se. Por isso, chega com décadas de atraso a locais de onde os outros já partiram, simplesmente porque se recusa a pegar no leme do seu próprio destino, a tomar decisões por si mesmo, a escolher quais são, de facto, as suas prioridades.

Ah, se ao menos os costumes fossem menos brandos!...

[Também publicado em PNETmulher]

© Marta Madalena Botelho

21.9.08

a alteração do regime jurídico do divórcio para totós ou apenas uma proposta de abordagem diferente

A propósito da alteração do regime jurídico do divórcio discute-se muito o modelo do divórcio, ignorando a discussão em torno daquilo que lhe é sempre anterior, o casamento. Este texto pretende ser uma proposta de abordagem diferente para a reflexão em torno da alteração do regime jurídico do divórcio e algumas matérias que lhe são conexas.

Duas perguntas.

1. Por que razão, em vez de se procurarem outras soluções para pôr fim ao casamento, não se opta por extinguir definitivamente o contrato, abolindo a figura jurídica, sem mais?

2. Por que é que o Estado não deixa, de uma vez por todas, de querer regulamentar as relações afectivas entre duas pessoas adultas, livres e capazes, deixando-as exercer livre e conscientemente os seus direitos à liberdade, à autonomia sexual e à felicidade individual (este último, fui importá-lo à Constituição Americana, já que não está expressamente consagrado na Constituição da República Portuguesa, embora decorra do seu espírito)?


Quatro observações.

1. O amor entre as duas pessoas adultas, livres e esclarecidas, bem como as relações que desse sentimento derivem, não devem ser regulamentados por nenhum Estado ou, a admitir-se alguma regulamentação, ela deverá ser a menor possível.

2. As escolhas que digam respeito à felicidade de cada um cabem em exclusivo a essas pessoas e nelas não deve haver ingerências políticas, sociais, morais, religiosas ou quaisquer outras.

3. Abolir a figura jurídica do casamento teria como reflexo a queda de inúmeros preconceitos, discriminações, intromissões morais e religiões no plano legislativo e, acima de tudo, teria a virtude de acabar com desigualdades ridículas (como as de género e as fiscais) que subsistem (sim, em pleno século XXI) e são muito potenciadas pela existência da figura do casamento.

4. Para o caso de se cair na tentação fácil e redutora de justificar a necessidade legal da existência do contrato de casamento invocando o conceito de "família", convém nunca perder de vista que "família" e "casamento" são coisas absolutamente distintas e independentes. Não é o casamento que gera a família; o que sucede às vezes é que há famílias que nascem de um casamento, mas não é por isso que deixa de haver famílias que devem ser reconhecidas como tal e que surgiram e se mantêm fora do casamento. Evitemos, portanto, as falácias, que só inquinam as discussões e põem a nu a argumentação demagógica.


Uma ressalva.

Defender a extinção da figura jurídica do casamento não é sinónimo de que se tenha algo contra o casamento. Pode mesmo ser-se contra a existência da figura mas, sendo ela uma realidade, optar-se por se contrair casamento e/ou defender o direito de todas as pessoas a casar, sem que isso denuncie qualquer contradição. Metaforicamente falando, trata-se de «dançar ao som da música», uma vez que devido à existência do casamento, só é possível aceder a uma série de vantagens de índole vária no estado civil de "casado". (Aqui sempre viria a propósito invocar Voltaire para, mutatis mutandis, como ele, dizer «Não estou de acordo com aquilo que dizeis (com a existência do casamento), mas lutarei até ao fim para que vos seja possível dizê-lo (contraí-lo)»).


Uma consideração crítica.

A celeuma em torno deste assunto foi esclarecedora daquilo que em Portugal se pensa sobre o casamento, o divórcio e os seus efeitos. Tal como em muitas outras matérias, a sociedade portuguesa exibiu em todo o seu esplendor a profunda ignorância de que padece relativamente à realidade matrimonial de um grande número de casais portugueses. Com efeito, os portugueses continuam a fingir:

1. que não há desigualdade de facto entre os cônjuges;

2. que um dos cônjuges (geralmente, a mulher) acaba sempre por contribuir mais do que o outro em espécie (com trabalho, para falar mais claramente) para a vida doméstica e familiar (situação ainda mais frequente quando há filhos);

3. que a causa da esmagadora maioria dos divórcios litigiosos não é a falta de amor, mas sim a violação reiterada dos deveres conjugais (respeito, fidelidade, coabitação, cooperação e assistência);

4. que a possibilidade prevista pela Lei de um dos cônjuges ser considerado culpado é, muitas vezes, o único ponto de força que resta ao cônjuge que é vítima da violação dos deveres conjugais para conseguir "negociar" o fim do contrato de casamento de uma forma digna.

Por outro lado, tudo isto denunciou que os portugueses não foram capazes de ver que a alteração do regime jurídico do divórcio proposta:

1. só caminhava para a igualdade de facto dos cônjuges nos casos em que ela já existia, pois enfraquecia em muito a posição do cônjuge mais dependente, caso o houvesse;

2. permitia ao cônjuge que apenas contribuiu para a vida familiar e doméstica com dinheiro pudesse exigir ao cônjuge que a ela mais se dedicou com tempo, trabalho e abnegação (abdicando, por exemplo, de se entregar à carreira profissional como deveria) uma indemnização;

3. permitia que o cônjuge que reiteradamente violou os deveres conjugais pudesse obter o divórcio por iniciativa própria sem indemnizar ou compensar o cônjuge que foi vítima da violação desses deveres;

4. permitia que, por exemplo, um cônjuge que toda a vida agrediu física e verbalmente o outro mas que contribuiu com mais dinheiro para a vida familiar pudesse não só obter unilateralmente o divórcio, mas também, pelos contributos em dinheiro, pudesse obter uma indemnização do cônjuge a quem toda a vida agrediu, com a agravante de, não havendo culpa na extinção do contrato, nunca ser responsabilizado pela sua conduta violadora das imposições do contrato que celebrou.

Os exemplos de situações graves que a alteração proposta potenciaria poderiam ser inúmeros, como facilmente se antevê. Por isso, deixo aqui a sugestão aos interessados para que leiam as considerações do Senhor Presidente da República sobre a matéria, com as quais concordo em parte.


E termino.

Esta cegueira lusa, potenciada pela "politiquice" demagógica praticada pela imprensa, pelos bloggers, pelos "comentadores de serviço", etc. causa-me alguma urticária, confesso. Ao que me perguntam porque é que, se assim é, eu não mudo de país, respondo citando o Miguel Esteves Cardoso (vénia): «Eu estou completamente apaixonado por Portugal, sempre apaixonado doente e tudo o que eu vejo, ou quase tudo o que eu vejo e ouço, acho maravilhoso»...

Posto isto, que prossiga o debate.

[Três Tristes Tigres. «O mundo a meus pés». Partes Sensíveis. 1993. Uma excelente banda sonora para qualquer divórcio.]

[Também publicado em PNETcrónicas]

© Marta Madalena Botelho

14.9.08

o que é que Madonna tem?

Esta noite, Madonna pisará pela terceira vez um palco em Portugal. À sua frente, 75.000 fanáticos pela sua música, mas não só. Madonna tem «seguidores», «idólatras», gente que está onde a sua «diva» está. Madonna não prende pela música ou, pelo menos, não só pela música. A ousadia, a postura de confronto, o constante desafio aos poderes instituídos, as subliminares mensagens de sátira política, social e religiosa levam a que uma legião de pessoas de todo o mundo a venere. Por ela, pagam-se pequenas fortunas no mercado negro dos bilhetes para concertos, passam-se noites ao relento a dormir na calçada dura e fria, percorrem-se quilómetros, atravessam-se fronteiras, sufoca-se entre milhares de pessoas para ser um dos sete mil que estão mais próximos do palco. Por ela, tudo isto fazem os súbditos da rainha da música pop.

O que é que Madonna tem? Tem tudo como ninguém. Aos cinquenta anos continua a ter mais versatilidade do que muitas cantoras com metade da sua idade. Madonna assume e adora o trono da personificação de tudo o que seja «contra a corrente». É, por tudo o que fez e a que se sujeitou, uma sobrevivente.

Lembro-me perfeitamente do quão piroso era gostar de Madonna nos meus tempos de liceu. Acreditem, era muito, muito piroso. Os véus, os crucifixos, as rendas, os colares chegados ao pescoço eram conotados com tudo o que de mais parolo podia existir debaixo dos céus (é preciso ter em conta que nos anos 90 estávamos todos ultra-sensíveis: andávamos a ressacar de uma década com laca nos cabelos, chumaços nos blasers e tecidos com padrões de figuras geométricas...). Mas Madonna é uma camaleoa e, como tal, soube percorrer o caminho que muitos deixam a meio e consolidar definitivamente a sua carreira alicerçando-a na diferença. Nos nossos dias deixou de ser piroso gostar de Madonna e Madonna – convenhamos – está ela mesma muito menos pirosa.

Não há alminha que nunca tenha cantarolado «Like a virgin» tentando imitar a voz delico-doce com que ela canta essa canção. Mas de virgem, inocente e doce a autora do polémico Sex tem muito pouco. É precisamente por estarem conscientes disso que tantos a adoram: porque Madonna encarna muito daquilo que não ousam ser.

[Também publicado em PNETmulher.]

© Marta Madalena Botelho

nem com pauzinhos de canela

Raramente bebo café fora de casa. Antes de mais, porque acho obsceno o preço de um café expresso em Portugal. No Majestic, por exemplo, um café, quer seja expresso, quer seja de saco, custa a bela quantia de 1,75€. Um café simples, daqueles pretos, básicos, que sabe a café e não sabe a mais nada, repito, custa a bela quantia de 1,75€. Mas a coisa não se fica por aqui. Na Casa do Livro, um local muito agradável para conversar e estar com os amigos, custa, se a memória me não atraiçoa, 1,50€. E que dizer do Piolho D’Ouro, esse ex libris da Baixa do Porto que, para servir ao cliente um café na esplanada, cobra nada mais, nada menos do que 0,80€?

Ainda me lembro da primeira vez que me insurgi contra o aumento do preço do café. Foi há já uns anos, andava eu pelos bancos da Faculdade, naqueles tempos em que o dinheiro era sempre pouco e o tempo sempre curto para tudo o que havia para fazer e comprar, incluindo o café, ao menos depois do almoço, para a cabeça não tombar sobre a sebenta durante as animadas tardes de douta prelecção. No local onde eu costumava beber café, a reboque da cedência de lugar do escudo ao Euro, o aumento foi de quase 50%. Quando, ao longe, o empregado me atirou com o novo preço – «Cinquenta cêntimos!» – pus-me a fazer contas rápidas de cabeça: «Cinquenta cêntimos são cem escudos, ora de sessenta para cem vão quarenta...». Indignada, levantei-me da cadeira e, chegando ao balcão, disparei: «Olha lá, mas está tudo doido?! Então ainda no Natal o café custava sessenta "paus" e agora em Janeiro custa mais quarenta?». Do outro lado, a explicação: «Ah pois! O que esperavas? Se fosses tu a ter uma casa aberta para um bando de tipos que andam sempre a contar os tostões que mal lhes dá para os copos, que só abancam aqui para beber a bica, também aproveitavas a oportunidade para mexer no preço!». Obviamente, paguei o café e pirei-me. Julgo que nem preciso dizer que comecei a beber muito menos café fora de casa do que bebia até então.

Ao cabo de todo este tempo, continuo a considerar que aquela resposta foi injusta. Quem fixa os preços dos bens que vende é, claro está, o comerciante. Mas não me parece honesto para com o cliente que se inflacione o preço de determinado produto muito acima do seu valor real apenas porque é um produto muito consumido (ou mesmo o mais consumido). É indubitável que a maior parte das pessoas que lê o jornal nas esplanadas deste país consome um café ou pouco mais, mas das três uma: (1) ou se incentiva o consumo de outro tipo de produtos, nomeadamente, divulgando-os (porque é que são tão raros os locais onde é fornecida ao consumidor a informação sobre os produtos ao seu dispor sem que aquele tenha de a pedir?) ou baixando-lhes o preço; (2) ou passa a comercializar-se apenas aquilo que é procurado; (3) ou se interioriza definitivamente que a palavra «negócio» pode ter dois significados: «lucro» e «prejuízo». Onerar o consumidor de um determinado produto de modo a compensar o investimento em produtos menos procurados e dos quais, portanto, o retorno apenas será alcançado a médio prazo é no mínimo injusto e no máximo desonesto para com o cliente.

Sorrateiramente, o fenómeno do aumento excessivo e injustificado do preço do café quando o mesmo passou a ser pago em Euros ocorreu em todo o lado, mesmo em espaços onde a justificação que me foi dada naquele dia frio de Janeiro nos meus tempos de faculdade não colhe, já que comercializam em larga escala outro tipo de bens, como são bons exemplos os que referi no início deste texto. Porém, se, aqui e ali, confronto amigos e conhecidos com o facto, perguntam-me o que haverão de fazer e logo se apressam a dizer que na vizinha Espanha, em França ou em Itália o café é ainda mais caro e quase nunca de melhor qualidade. Que me importa a mim que um expresso custe 2,50€ em Barcelona ou mesmo 3,00€ em Copenhaga?!

Eu, pela minha parte, sei o que fiz. Uma vez que não queria privar-me do consumo de café (uma das minhas bebidas preferidas) comprei uma máquina de café expresso e passei a bebê-lo em casa. Posso assegurar que o trabalho de limpar/carregar o manípulo e lavar a chávena é largamente compensado pela poupança monetária e que o retorno do investimento financeiro se alcança ao fim de escassos meses.

Além disso, fazer e beber o café em casa tem uma suprema vantagem: ninguém é obrigado a levar com os malfadados pauzinhos de canela que pululam por toda a parte e que todos os proprietários de estabelecimentos de restauração acham que são apreciados pelos clientes, mesmo quando não são**. Se, ao menos, nos dessem a possibilidade de escolher entre a canela e o metal das velhinhas colheres que dobrávamos para fazer alfinetes de gravata para os trajes académicos!... Sim, isto já é a saudade do tempo de estudante a falar por mim... A saudade do tempo em que a bica depois de almoço custava apenas sessenta "paus"...
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* Se bem que, às vezes, a prelecção causasse sonolência, não se pense que a culpa era sempre imputável aos Mestres, por quem, aliás, na sua maioria, tenho elevada consideração académica. A estafa era, as mais das vezes, a própria matéria...

** A minha indignação é suscitada por solidariedade, já que eu não adoço nem mexo o café.

[Também publicado em PNETmulher.]

© Marta Madalena Botelho

24.8.08

uma medalha providencial

Nelson Évora, enquanto vencedor da prova olímpica de triplo santo na qual granjeou a medalha de ouro em Pequim, tem inteiro mérito. Vejo qualquer prémio, seja ele olímpico ou não, seja ele uma medalha de ouro ou uma taça de cerâmica das Caldas da Rainha, como a justa recompensa de um árduo trabalho, de muito esforço e dedicação e, mais do que tudo isso, de uma enorme vontade e determinação de superar os limites do próprio corpo, de mostrar ao Homem que ele é mais do que aquilo que se limita a ser, que ele pode ser tudo aquilo que quiser, não bastando, contudo, para tal, querer.

O desporto, precisamente porque implica, antes de mais, uma prestação física, é um palco excepcional onde, perante os espectadores, pode ser representada a peça da recriação humana. No desporto, o atleta faz-se a si mesmo, continuando a obra de quem o criou mas, mais do que isso, melhorando-a.

Talvez por isso seja muito raro encontrar alguém que não reconheça grandes virtudes na prática desportiva. O Homem é, antes de tudo, é matéria e o desporto debruça-se sobre essa matéria para a moldar e aperfeiçoar. Contudo, não esqueçamos que essa matéria é passível de corrupção e, portanto, mais tarde ou mais cedo, haverá de desaparecer. De facto, os feitos atléticos tendem a cair muito mais rapidamente no esquecimento do que, por exemplo, um prémio literário. Como não faço parte daquele afortunado grupo de pessoas que têm solução para tudo dentro das algibeiras, bastando revolver o seu conteúdo durante uns instantes para apresentarem imediatas verdades absolutas, devo confessar que não sei por que é assim, embora gostasse muito de saber. Contudo, sou capaz de afiançar já que julgo que tudo haverá de começar e acabar num aspecto bastante mesquinho: a irresistível tentação demasiado humana (da qual também eu, confessadamente, padeço aqui e ali) para considerar a produção intelectual superior à física. E se é verdade o que afirmei no início deste parágrafo, que é muito raro encontrar alguém que não reconheça grandes virtudes na prática desportiva, também não deixa de ser verdade que em Portugal continua a ver-se a actividade física como algo de complementar e não de central. Bons exemplos do que acabo de dizer são o papel residual que a disciplina de Educação Física tem no plano escolar, a quase total ausência de prática desportiva entre os estudantes universitários e o ridículo investimento que é feito para a criação de infra-estruturas desportivas, onde pessoas de todas as idades possam praticar desporto ao longo da vida.

É inegável que o culto do desporto é, para muitos de nós, feito a partir do sofá, de telecomando na mão, ou nas esplanadas dos cafés, atrás de mesas carregadas de tremoços e cervejas e de cachecol ao pescoço. E é igualmente inegável que, entre nós, muito mais do que a prestação se valoriza o resultado, quantas vezes ignorando que tal como o sucesso de uma mente brilhante que ganha um prémio literário depende de uma conjuntura de factores endógenos e exógenos (como o estímulo, a criação de oportunidades, a reunião de apoios, etc.), também os resultados desportivos não dependem exclusivamente do atleta.

Num país de brandos costumes, a medalha de ouro de Nélson Évora acaba por ser providencial. Bastou ler os jornais, os blogues, ver as reportagens desportivas para perceber como, despudoradamente, Portugal exibiu a sua pequenez ao atribuir à medalha deste atleta o efeito redentor do falhanço de outros (com excepção de Vanessa Fernandes que goza de um estatuto especial em função da idade, do género – admitamo-lo – e do percurso de excepção que tem feito. o qual foi coroado com uma medalha de prata que, embora não tenha «enchido as medidas» de muitos portugueses eleva a fasquia das expectativas para os Jogos Olímpicos de Londres e, portanto, adia a alegria ou o descontentamento para então). Um pouco por toda a parte suspirou-se de alívio quando Évora subiu ao pódio: a honra da Pátria estava salva, o país conquistava uma medalha de ouro, ao menos uma, de modo a garantir a inscrição de Portugal, ao menos por um dia, nos jornais do mundo inteiro. O resto, pouco importa. Se foi só uma, pouco importa. Se é preciso mudar alguma coisa no modo como se investe no desporto em Portugal, pouco importa. Se é preciso mudar o modo como se educa para o desporto em Portugal, pouco importa. Por agora, desapertam-se os cintos e respira-se de alívio. O país está de fim de semana e, atrás de mesas carregadas de tremoços, brinda à medalha de Nélson Évora, a preciosa medalha de ouro que durante os próximos quatro anos haverá de obnubilar as frustrações desportivas de dez milhões de portugueses.


[Também publicado em PNETmulher.]

© Marta Madalena Botelho

29.6.08

direitos "deles", deveres de todos

O tema foi lançado por Paulo Simões Mendes no PnetHomem. Uns dias depois, transitou para o PnetMulher pela mão de Paula Capaz. Se me dão licença, agora sou eu quem vai meter a colherada.

Felizmente, entre todos os colaboradores dos referidos sites impera a liberdade de opinião, de expressão, de comentário e, obviamente, de discordância. Delas pretendo fazer uso. Contudo, limitar-me-ei a fazê-lo na estrita medida em que sirvam para expressar a minha opinião em relação a este assunto que, penso, diz respeito a todos aqueles que se preocupam com os direitos das pessoas, de todas as pessoas.

Li atentamente os textos de ambos os distintos cronistas. Com o devido respeito, considero que o raciocínio expresso por Paula Capaz no seu texto «Desfiles e paradas» parte de vários pressupostos que estão errados, o mesmo se aplicando a alguns comentários que foram feitos quer a essa crónica, quer à crónica de Paulo Simões Mendes. Seguem as razões porque assim considero (em articulado, por defeito de profissão mas, acima de tudo, por facilidade de exposição).

1. Escreve Paula Capaz: «Que eu saiba, ser hetero ou gay, não é um direito, não se adquire nem se escolhe (...). Reclamar o direito a ser gay é uma redundância.». Ora, sucede que as marchas LGBT não têm como objectivo reclamar "o direito a ser gay". Eu confesso que nunca ouvi fosse quem fosse reclamar para si esse direito em lado nenhum. Ao contrário, para mim é clara a ideia de que as marchas LGBT são acções de protesto públicas, nas quais as pessoas (de todas as orientações sexuais) que nela participam reclamam o direito que os cidadãos LGBT têm a receber, por parte do Estado e da Lei, o mesmo tratamento (o que é dizer, os mesmos direitos) que tem qualquer cidadão que não seja LGBT. Ou seja, nas marchas LGBT reivindica-se o fim de todos os actos que estabeleçam diferenças entre os cidadãos com o fundamento único da sua orientação sexual.

2. O que as pessoas reclamam, portanto, é o direito a serem tratadas pela Lei, pelo Estado e pelos outros em condições de igualdade com os outros cidadãos, o que, como toda a gente sabe, não acontece a muitos níveis. São precisos exemplos? Eu dou alguns. Os cidadãos homossexuais não podem casar com a pessoa que amam, o que tem implicações a vários níveis: o parceiro nunca será herdeiro legítimo nas mesmas condições dos cônjuges, um parceiro não pode visitar o outro no hospital nas mesmas condições dos cônjuges, os casais de pessoas homossexuais não podem usufruir da aplicação do coeficiente conjugal em matéria de impostos, nem no que toca aos empréstimos bancários. Além disso, os parceiros homossexuais não podem fazer seguros de saúde familiares porque o Estado diz que eles não são uma família. Os casais constituídos por pessoas do mesmo sexo não podem adoptar. Do mesmo modo, não são beneficiários da procriação medicamente assistida. Uma mulher lésbica também não. E todas estas diferenças têm como único fundamento o quê? A orientação sexual dessas pessoas, ou melhor, o facto de elas não serem heterossexuais, o que é ainda mais esclarecedor. Serão precisos mais exemplos?

3. É muitíssimo recorrente este argumento que também Paula Capaz invoca no seu texto e que cito: «(...) uma parada gay assume uma forma carnavalesca e pouco digna quando pretende a demonstração da intimidade». Mas, então, cabe perguntar: acaso os afectos têm apenas uma dimensão interior, entre as quatro paredes de uma casa ou de um quarto? Os afectos não são, também eles, uma dimensão da existência das pessoas? Não têm, portanto, prospecção pública e social? As pessoas não se beijam e abraçam em público, não passeiam de mãos dadas, não usam alianças nos dedos, não apresentam o parceiro como "meu marido" e "minha mulher", não se comportam socialmente como um casal? A ideia de que a sexualidade do ser humano só se vive na intimidade é redutora e perniciosa. O casamento, por exemplo, é uma das manifestações legislativas, religiosas e sociais da sexualidade das pessoas – senão, mesmo, a mais expressiva –, e ninguém poderá negar isso. Por que razão, então, quando se fala em homo ou bissexualidade, se invoca que “isso” é para ser vivido na intimidade?

4. Quanto ao último parágrafo da crónica, no qual Paula Capaz escreve «Daí a minha indignação, repito, quando vejo alguns gays fazerem questão de falar de um assunto que nem devia ser objecto de discussão, um assunto tão natural quanto sair à noite para jantar fora», apenas dois apontamentos. O primeiro para dizer que concordo que ser homossexual, tal como ter olhos verdes, não se discute. Contudo, não creio que o assunto de que se fala seja o ser-se homossexual. Discute-se – e isso sim, é altamente discutível – é que alguém veja serem-lhe negados direitos apenas (e sublinho o apenas) porque é homossexual. O segundo apontamento versa a comparação invocada na crónica, pois não vislumbro o que tenha que ver «a bota com a perdigota». Talvez ninguém discuta jantares fora de casa porque, por exemplo, ninguém utiliza epítetos "simpáticos" como "paneleiro", "fressureira" ou "rabeta" para designar as pessoas que jantam fora de casa. Já para se referir os homossexuais... E "anedotas" sobre gente que janta no restaurante, alguém conhece? É que sobre homossexuais eu já ouvi um par delas. Talvez não seja por acaso que nunca em Portugal houve uma manifestação da extrema-direita contra as pessoas que jantam fora de casa, mas já houve pelo menos uma contra as pessoas homossexuais. Tudo isto para dizer que os assuntos não são comparáveis e compará-los, para além de parecer ingénuo, é reduzir ambos os temas ao âmbito do corriqueiro, quando não o são. Talvez jantar fora até seja algo trivial, mas, o que afecta diariamente a vida das pessoas não deve ser, não pode ser.

5. Por último, uma referência ao terceiro parágrafo do texto em causa. Diz Paula Capaz: «Percebo que se grite contra uma injustiça social, que se desça a avenida porque os salários são de miséria, que se faça greve porque não há pagamentos, que se use o luto porque somos escravizados, enfim, que se reclamem os direitos que nos são negados.». Então, pergunto: se «percebe» que se reclamem direitos que são negados seja por que meio for (e cito: «que se grite», «que se desça a avenida», «que se faça greve», «que se use o luto»), porque é que não é capaz de perceber que os homossexuais «gritem», «desçam a avenida» e, se preciso for, «usem o luto» se a Lei, o Estado e os outros, todos os dias, lhes negam direitos? Onde está a diferença, por exemplo, entre os professores, os estudantes universitários, os sindicalistas, os que passam recibo verde, os polícias e os LGBT quando descem avenidas empunhando cartazes, gritando palavras de ordem, desfilando com faixas e entoando slogans? Não estão todos eles a lutar pelos seus direitos? Não estão todos eles a defender aquilo em que acreditam? Não estão todos eles a mostrar ao Governo, ao País e ao Mundo que existem e que merecem respeito por parte de toda a gente? Não estão todos eles a fazer valer direitos das pessoas?

6. Em suma e concluindo: quer se trate de professores ou de LGBT, de maiorias ou de minorias, de marchas em luto ou envoltas em cores alegres e garridas, trata-se, em primeira instância, de pessoas, de direitos e da defesa da dignidade humana. Marchas de orgulho LGBT são, portanto, marchas de orgulho humano e, consequentemente, um assunto que diz respeito a toda a gente, sem excepção. A sua existência faz e fará todo o sentido enquanto essas pessoas, esses direitos e essa dignidade não forem integralmente respeitados.


[Também publicado em PNETmulher.]

© Marta Madalena Botelho

4.6.08

o barulho e o silêncio

Parece que a possibilidade de Hillary Clinton poder vir a ser a próxima candidata do Partido Democrata às eleições presidenciais dos Estados Unidos da América foi um assunto tremendamente importante e que deu imenso que falar pelo facto de se tratar da primeira mulher a poder alcançar tal posto naquele país. Como já é consabido, Clinton não passou, afinal, de uma possibilidade que não resistiu ao furacão Obama e hélas!, ainda não foi desta que uma mulher lá chegou.

Parece que o facto de Manuela Ferreira Leite ter sido, efectivamente, candidata à presidência de um dos maiores partidos portugueses (o outro é o PCTP/MRPP) e, mais do que isso, ter ganho as eleições foi um assunto tremendamente desinteressante e que deu imenso que silenciar, devido - será? - ao facto de se tratar da primeira mulher a alcançar tal posto neste país. Como já é consabido, Ferreira Leite já não é somente uma possibilidade, mas sim um realidade que resistiu ao furacão Santana Lopes e quejandos e hélas, foi mesmo desta que uma mulher lá chegou.

[Dizem que é assim no país onde o partido do Governo aprova uma chamada «Lei das Quotas» mas não a cumpre, esse mesmo país onde há uma mão cheia de associações de defesa dos Direitos das Mulheres que não se insurgem perante o facto e que também acham que não têm nada a dizer sobre a eleição de Manuela Ferreira Leite...]

[Tambéml publicado em PNETmulher.]

© Marta Madalena Botelho

1.6.08

já lá vai algum tempo desde a última vez que sonhei acordada.

Quando o genérico começou a rolar, ainda me ecoava nos ouvidos uma repetitiva melodia arabesca, ainda sentia no peito o coração a bater ao ritmo das pancadas do durbak. «O Segredo de Um Cuscuz» («La Graine Et Le Mulet», no original), o filme de Abdellatif Kechiche que tive o privilégio de ver na passada quarta-feira, não é um filme de digestão fácil. E o termo «digestão» não cai aqui ao acaso. Uma das cenas mais imponentes do filme – e uma das mais longas, também – tem lugar à mesa, uma mesa em redor da qual se reúne uma família numerosa, comendo, bebendo, conversando em grande animação e diversidade de posturas, cada qual degustando o seu cuscuz de peixe. Pelo meio trocam-se olhares cúmplices e simultaneamente desconfiados, porque todos os presentes têm algo a esconder dos outros: há um recém-casado muito pouco fiel, uma mulher traída que não se sente parte da família, uma irmã que acoberta as traições do irmão, um francês que adora cuscuz mas poucas palavras sabe de árabe, uma jovem em dieta que não resiste a pimentos, uma matriarca separada que ainda não deixou de amar o marido que a abandonou.

Tal como eles, todos temos os nossos pequenos pecados a ocultar, principalmente daqueles que mais amamos. Tememos a rejeição dos que nos são queridos, não estar à altura das suas expectativas, não corresponder ao estereótipo da nossa função nas suas vidas. E estremecemos.

Talvez por isso uma figura como a de Slimane Beiji seja altamente improvável. Trata-se da personagem central do filme, um sexagenário que há trinta e cinco anos trabalha precariamente num estaleiro que o acha velho e lento demais para as funções que desempenha. Até aqui, nada de surpreendente. Mas Slimane guarda dentro do peito um sonho: abrir um restaurante num cargueiro decrépito, um negócio para deixar aos filhos quando morrer. E aqui tudo muda de figura. Acalentar sonhos aos sessenta anos é, por si só, digno de nota; empenhar todo o tempo e esforço para a sua concretização é ainda mais meritório.

Slimane, ao lutar pelo seu sonho até à exaustão, acaba por dar a todos quantos o vêem uma imensa lição de vida. Quantos de nós não desistimos já de algo que queríamos muito só porque algo ou alguém nos colocou um entrave, por minúsculo que tenha sido? Acabar a pensar que talvez não o quiséssemos assim tanto é uma forma de contornar as coisas, mas nem sempre é verdade. Provavelmente, queriamo-lo mesmo muito, simplesmente não tivemos a coragem e a perseverança para lutar por ele.

O filme termina com sugestões e não com afirmações. Não se vê o que aconteceu no fim daquela longa noite, mas intui-se. Cada um dos amados de Slimane – as filhas, a ex-mulher, os amigos músicos, a incansável Rym e a sua mãe –, não obstante o tanto que os separa uns dos outros, contribuiu com a sua parte para a realização de um mesmo objectivo.

Saí da sala com uma amálgama de sons e imagens a latejarem-me na cabeça: os palavrões da conversa entre uma adolescente e a mãe, a expressão desolada e os gritos agonizantes de uma mulher repetidamente traída pelo marido, o zumbido de uma motorizada e a fumaça espessa saindo do escape, os movimentos embriagantes, encantadores e extenuantes do ventre de Rym. E o durbak, sempre o durbak vibrando entre duas mãos enrugadas.

Cheguei à conclusão de que já lá vai algum tempo desde a última vez que sonhei acordada. Pus-me a fazer contas à vida e já lá vai demasiado tempo. «Quando foi a última vez que fizeste algo grandioso?», pensei com os meus botões, enquanto a chuva morrinha ia caindo lentamente sobre o pára-brisas do meu carro.

[Também publicado em PNETmulher.]

© Marta Madalena Botelho

27.4.08

adoptar um cão, escrever um blogue e cuidar de um bonsai

Quase todos os seres humanos, independentemente da sua idade, profissão, condição social e do espaço geográfico em que vivem, partilham entre si pequenos detalhes, alguns deles muito íntimos, muito privados e muito secretos. Porém, nem essa intimidade, essa privacidade ou esse secretismo os tornam singulares. Ao invés, são comuns e muito mais fáceis de encontrar do que, prima facie, se suporia. Entre esses detalhes, há um que tem estado muito presente na minha vida nos últimos tempos porque, involuntariamente, tem surgido em conversas com amigos, no que vou lendo por aí e até nos filmes que tenho visto. Talvez o objectivo de todo este acaso seja mesmo o de me fazer reflectir um pouco sobre o assunto.

Refiro-me ao medo que muitas pessoas têm de um dia virem a sentir que deixaram passar a vida sem terem feito tudo aquilo que queriam. Já todos, certamente, o sentimos e o sentiremos ainda até ao fim dos dias. De tempos a tempos e ao longo do nosso percurso pessoal, é altura de fazer balanços e em cada um desses momentos de auto-análise a angústia é sempre a mesma: «ainda não fiz o suficiente».

Para cada período da nossa vida, traçamos objectivos: abrir uma livraria, ganhar uma medalha, acabar o curso, casar, escrever um livro, adoptar um cão, concluir o doutoramento, ter o primeiro filho, ir aos Himalaias. Mas se um propósito não se cumpre no período a que o destinámos, nem por isso deixa de constar da lista, passando a fazer parte do rol de «must do» da próxima fase. Isto tudo para que aquela «angústia de ainda não ter feito o suficiente» não se torne em «certeza de que o suficiente nunca se fará».

Quase todos temos, portanto, uma tendência intrínseca e inegável para acharmos que se algo ainda não aconteceu nas nossas vidas quando deveria ter acontecido, ainda há-de acontecer, nem que seja quando já formos velhinhos. Mas isto, é claro, apenas enquanto ainda é possível que, em função do tempo, venha a acontecer. Transposta a barreira temporal, a definitiva, aquela a partir da qual já não nos assiste o direito de sonhar, e malogradas as metas traçadas, começa a ser cozinhado no íntimo de cada um esse prato tão difícil de digerir que dá pelo nome de "frustração", que coze no lume brando do desencanto e é temperado abundantemente com resignação e tristeza.

Acredito, porém, que não obstante todo o desalento que emerge assim que somos confrontados com o absoluto impedimento, é possível conviver saudavelmente com a frustração. Com efeito, ela faz tanto parte da vida como a realização e estará sempre presente, independentemente do modo como lidemos com ela. É certo que essa convivência saudável é mais facilmente alcançável quando a origem da frustração não tenha sido algo que dependia exclusivamente da nossa vontade ou da nossa acção. É caso para dizer que, nestas circunstâncias, a obra do acaso é tranquilizadora. Mas mesmo que os objectivos não tenham sido cumpridos porque nós não quisemos ou não dedicámos a eles todas as forças que tínhamos – mesmo que não tenhamos tido um filho porque decidimos apostar na carreira profissional, ou que não tenhamos feito o doutoramento porque escolhemos dedicar a juventude a viajar pelo mundo, ou mesmo que nunca tenhamos escrito um livro porque sempre achámos demasiado trabalhoso transformar as ideias em palavras, – é imperioso ter em mente que o único compromisso de felicidade que temos é connosco mesmos e que isso não se confunde com nenhuma forma de egoísmo, ainda que o politicamente correcto nos diga que sim.

É importante que nos esforcemos por concretizar o que idealizámos e que o façamos no tempo certo, mas é igualmente indispensável que estejamos sempre conscientes de que nem tudo o que idealizámos será concretizado. Se a sorte não estiver do nosso lado e, por obra única do acaso ou conjugada com a nossa vontade ou falta dela, algo ficar pelo caminho, deixemos, pacificamente, que fique mesmo para trás. O trilho adiante estará, certamente, cheio de estimulantes desafios. Gastar energias com objectivos passados é desperdiçar energias que poderiam ser aplicadas no cumprimento de objectivos futuros. Não perceber isto pode ser um erro crasso, daqueles que arrastam consigo muitos outros erros crassos, numa bola de neve que nos impede de nos sentirmos bem com quem somos. Sempre constou que o caminho é para a frente e que para trás... anda a burra. No plano dos desejos cabe imenso, mas no plano da realidade cabe muito pouco. Na verdade, nunca viveremos tudo. Importa é viver bem tudo o que vivermos.

Apenas mais duas notas finais. A primeira para explicar que o título desta crónica é uma tentativa de actualização aos tempos modernos da expressão «ter um filho, escrever um livro e plantar uma árvore»; a segunda para deixar uma sugestão que, de alguma forma, se prende com o tema deste texto: o filme «The Bucket List» («Nunca é Tarde Demais»), de Rob Reiner, ainda em exibição nas salas portuguesas (ver trailer).

[Também publicado em PNETcrónicas.]

© Marta Madalena Botelho

23.3.08

a ponta do icebergue

Nem de propósito. Há quem lhe chame ironia do destino, há quem lhe chame acaso, eu chamo-lhe a ponta do icebergue. Apenas uma ponta de um gigantesco icebergue que ainda ninguém sabe muito bem que dimensões terá, mas que todos imaginamos sejam enormes. Perante o vídeo publicitado esta semana no You Tube, no qual uma aluna da Escola Carolina Michaëlis, no Porto, agride uma professora que tentava privá-la do telemóvel – certamente não porque a aluna estivesse a fazer dele um bom uso, se é que há algum bom uso que possa fazer-se de um telemóvel numa sala de aula – um país inteiro fica de boca aberta. Como se fosse de espantar que, no actual estado das coisas, episódios daquela natureza aconteçam.

Já todos percebemos que existe um problema de ausências nas escolas portuguesas, mas também já todos percebemos que essas ausências não nascem nas escolas: são trazidas para as escolas. Onde nascem, então? Em casa, obviamente. Em casa, na família – quando a há –, no carácter de pais e filhos que se deseducam mutuamente.

Portugal é, cada vez mais, um país «sem rei, nem roque», e isto quer nos aspectos estruturantes da nossa sociedade, quer nos mais insignificantes. Na Assembleia da República, por exemplo, o nível do debate parlamentar roça o da estrebaria, com deputados a insultarem-se a torto e a direito, isto quando não é o próprio Primeiro-Ministro que os manda calar. Nas estradas, por tudo e por nada se invoca a pretensa actividade lucrativa de ocupação de tempos livres da progenitora do condutor do carro da frente. Nas repartições públicas, «bom dia» e «obrigada» são expressões que há muito caíram em desuso. Em casa, os pais tratam os filhos como se tivessem a idade deles, a maturidade deles, as responsabilidades deles. Não é de estranhar, portanto, que depois, nas escolas, os alunos revelem todo o esplendor da sua impertinência perante os professores e os funcionários.

Confesso que o que me incomoda sobremaneira no sucedido na escola Carolina Michaëlis é o tom de voz da aluna quando se dirige à professora. Ela já não fala, ela grita estridentemente. Abre a goela e exige da professora que lhe devolva o telemóvel. Ou seja, demonstra, sem margem para dúvidas, que não pretende acatar a indicação da professora e que se acha no direito de a confrontar aos berros. Depois, perturba-me a passividade dos colegas de turma. Todos eles parecem achar o cenário relativamente "normal" e, por isso, não reagem, a não ser quando a situação começa a atingir contornos mais sérios. Até lá, apenas se ouvem gargalhadas e o pedido do "operador de câmara" para que não lhe estraguem o "filme". Por último, atordoa-me a calma – temperada, todavia, com evidente determinação e firmeza – da professora para lidar com aquela criatura que a agarra, a ensurdece e a impede de sair da sala. Tudo isto, reafirmo, me deixa atónita, mesmo a mim, que tenho plena consciência de que a única diferença entre este acontecimento e o dia-a-dia em muitas escolas portuguesas é que este foi filmado e veio aterrar na internet.

Já não dou por mim a perguntar onde é que isto vai parar, mas sim se isto irá mesmo, algum dia, parar. De que é apenas a ponta do icebergue, ninguém duvida. Mas o que faremos quando o icebergue estiver totalmente à vista e formos absolutamente incapazes de lidar com ele? Que faremos quando o icebergue afundar todos os nossos navios, derrubar toda a nossa tripulação e nos impedir de chegar a qualquer destino? Então, parece-me, estaremos definitivamente comprometidos com o fracasso, definitivamente náufragos da inércia de um país inteiro boquiaberto perante o seu próprio espectáculo de horror.

[Também publicado em PNETcrónicas.]

© Marta Madalena Botelho

16.3.08

família, escola e Estado: o necessário compromisso triangular

Há muito tempo – há, provavelmente, demasiado tempo –, instalou-se entre nós a ideia de que formação e educação são uma e a mesma coisa. Daí a pensar-se que o professor é, antes de tudo o resto, um educador, foi um ápice. Este estado de coisas foi-se cristalizando até se tornar definitivo e, pelo andar da carruagem, parece cada vez mais improvável a inversão da situação.

Por um lado, os pais e a sociedade civil foram-se lentamente demitindo da sua verdadeira função em relação aos seus filhos e cidadãos: a de educar e ser exemplo. Por outro lado, a comunidade escolar, professores e auxiliares de acção educativa, passaram a carregar às costas, numa atitude de passividade e de aceitação incontestada, um papel que não lhes cabe, o de educador, olvidando que a outra face da moeda seria o descurar do papel formativo e instrutivo da Escola. Quanto aos responsáveis políticos e, seja-me permitida a menção, os agentes sindicais, foi vê-los de mãos nos bolsos, assobiando para o ar, vendo a banda passar como se nada fosse com eles. Mas nada disto é de estranhar, se tivermos em conta que o confronto entre Governo e sindicatos só surge quando se fala em salários ou na (re)definição do status quo dos docentes. O resultado é, quase sempre, crispação e endurecimento de posições, até que um lado da "barricada" acaba por reconhecer que perdeu a batalha, clamando, com voz de bravo soldado ferido mas não morto, que não perdeu a guerra. Sucede, porém, que ninguém se dedica a contabilizar as baixas e elas são sempre demasiadas para aquilo que um pequeno país como o nosso pode suportar.

No Portugal contemporâneo, a Educação é uma área tão desfalcada de compromisso social e de participação cívica como qualquer outra. Assim é também, e de modo flagrante, na Cidadania, na Justiça, na Saúde, na Economia, na Cultura e numa infinidade de outras matérias onde os bons projectos ficam na gaveta, as negociações emperram porque são bloqueadas pela lógica de manutenção dos pequenos poderes e as reformas – as tão ansiadas, faladas e indispensáveis reformas! – ou são verdadeiros nados-mortos ou se revelam, na prática, um elefante numa loja de porcelanas: desadequadas e destrutivas e, não raras vezes, instalam o caos.

A função precípua da Escola é formar, isto é, através do ensino apetrechar os seus alunos com ferramentas que lhes permitam, desde o início, compreender o que lhes é transmitido, desenvolver raciocínios próprios, pensar em abstracto, posicionar-se criticamente em relação a tudo – mesmo tudo! –, desenvolver teorias e, em última instância, serem os cidadãos que uma sociedade empenhada em superar-se constantemente precisa.

Aos pais, por seu turno, incumbe a transmissão dos (bons) valores, das boas maneiras, dos bons comportamentos e da noção do que se é e do espaço que se ocupa em cada situação concreta. É competência dos pais valorizarem os filhos enquanto seres humanos e despertarem neles o interesse pelo que os rodeia. É tarefa parental educar a criança para a vida em sociedade, para a partilha do espaço comunitário e para o respeito pelos direitos e características do outro, por mais dissemelhante que ele seja ou possa parecer. O ponto de partida de tudo isto só pode ser um: a dádiva dos afectos.

Ao governo e às forças de mobilização social, em comunhão de esforços, caberá o papel conformador destas funções das células familiar e escolar, através da criação das condições para que cada uma delas possa levar a cabo, da melhor forma, a sua missão. Essas condições estão longe de serem, como parece pensar-se, apenas materiais. Mais importante do que uma escola equipada com bons meios é uma escola que reúna bons recursos humanos, gente capaz, dedicada e realizada: professores que gostem do que fazem e que não vejam o ensino como o reduto dos que necessitam de um vínculo laboral relativamente estável ou não conseguem colocação nas profissões para as quais se sentem verdadeiramente vocacionados; professores que tenham condições para leccionar, para explorar as capacidades dos seus discentes e que não se vejam reduzidos à função de vigilantes, de substitutos de estruturas de ocupação de tempos livres ou, pior ainda, de famílias ausentes ou desinteressadas da educação dos filhos. Igualmente imperioso é que os alunos respeitem os professores, reconhecendo neles verdadeiros mestres a quem devem atenção; que sejam polidos e educados com os seus pedagogos, funcionários e colegas e que, já agora e se não for pedir muito, tenham alguns hábitos de concentração e de estudo.

Implementar tudo isto, já se sabe, quase nunca se coaduna com brandos costumes, com falinhas mansas, com falta de coragem para limpar a eira. Definir convenientemente os papéis de cada um dos intervenientes no desenvolvimento das crianças e jovens e, mais fundamental ainda, fazer com que as crianças e os jovens o assimilem devidamente, nunca será produto apenas do esforço isolado de um dos vértices do triângulo formado pela Família, a Escola e o Estado. Enquanto em Portugal não for abandonada a ideia de que só tem de fazer-se o que se pode e que a mais não se é obrigado, mantendo esta cultura de sacudir a água do seu capote para o capote do vizinho, não teremos apenas, de tempos a tempos, uma «geração rasca» como, polemicamente, Vicente Jorge Silva chamou à minha. Teremos um país inteiro cego, surdo e mudo a assistir à sua própria ruína desde a infância.

Nota: alguns dos conceitos utilizados neste texto não respeitam integralmente a rigidez das definições vocabulares constantes dos dicionários. Algumas palavras que são sinónimos no dicionário são aqui usadas num sentido muito específico.


[Também publicado em PNETcrónicas.]

© Marta Madalena Botelho

9.3.08

"avaliação": a tão falada e, afinal, a menos contestada

Daquilo que tenho tido oportunidade de conversar com amigos e conhecidos sobre a questão que ontem trouxe para a rua milhares de professores, "avaliação" parece-me ser, de longe, a palavra mais repetida por toda a gente e, também, a pedra-de-toque que vai dividindo opiniões, mesmo entre aqueles que não são governo nem professores. Todavia, não parece que a "avaliação" seja contestada em si, enquanto ideia, enquanto elemento que todos parecem reconhecer como aceitável e que deve perpassar o novo estatuto da carreira docente. Ao invés, ela é tida como algo aceitável e, até, desejável, sendo que a questão que opõe as duas facções é a do modelo a que deverá obedecer. Mas será que a tão falada "avaliação" é, simultaneamente, a mãe de todos os problemas e a salvação para todos os males?

Mais importante do que discutir a avaliação, não seria, por exemplo, discutir se ela é ou não o meio adequado para aferir aquilo que pretende aferir-se, ou seja, o sucesso – ou a falta dele – do ensino em Portugal? E não seria, também, conveniente apurar se os critérios propostos pelo Ministério da Educação são os indicados para contabilizar resultados? Mas, antes disso, será que os resultados que pretendem quantificar-se são mesmo quantificáveis, isto é, a excelência de um sistema de ensino (só) é medível, graduável, avaliável em função de "avaliações" feitas aos seus professores? E os que desempenharão o papel de avaliadores, estarão investidos em tais funções por que motivos? Têm, de facto, a competência técnica e o correcto domínio das matérias para poderem, com propriedade, isenção e rectidão, avaliarem os docentes?

Pela minha parte, responderia «não» a todas estas perguntas, pelo que, obviamente, encontro muitas razões válidas para a realização de uma «Marcha da Indignação». Creio, contudo, que o ponto de partida não deveria ser a contestação, pura e simples, da "avaliação", só porque não se temem avaliações, como os professores dizem não temer. Talvez não fosse má ideia começar por derrubar as ideias pela base, demonstrando de que modo e por que razões são manifestamente desadequadas aos propósitos e, nessa medida, votadas ao fracasso. Escusaríamos, então, de ter de as testar na prática para chegarmos a essa mesma conclusão.

[Também publicado em PNETcrónicas.]

© Marta Madalena Botelho

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» O âmbito do direito de autor e os direitos conexos incidem a sua protecção sobre duas realidades: a tutela das obras e o reconhecimento dos respectivos direitos aos seus autores.
» O direito de autor protege as criações intelectuais do domínio literário, científico e artístico, por qualquer modo exteriorizadas.
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