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12.5.19

um certo tipo de coragem

Gosto de declarações destemidas, desvergonhadas, sinceras e amadurecidas. Há um certo tipo de coragem que só as pessoas que vivem ou viveram grandes amores puros têm. Esses corajosos são os que não temem assumir que os grandes amores nada têm que ver com paixão e, muito menos, com tesão, porque os grandes amores não se compadecem com coisas passageiras ou instantâneas, com impulsos ou reacções corpóreas, com a simples matéria que compõe a carne. Os grandes amores alicerçam-se na admiração desmedida, nos sorrisos rasgados incontroláveis que nos causa a felicidade do objecto amado, no gozo da partilha do insignificante e do mais importante. Os grandes amores têm por base a ternura, o desejo do crescimento individual e mútuo, o desprendimento do próprio amor. Os grandes amores, os verdadeiros amores - porque os verdadeiros amores são só os grandes, os incomensuráveis, os que não conhecem as barreiras da materialidade e da sensitividade - assentam numa simplicidade que só os corações cândidos são capazes de ter. E só esses corações é que têm a tal coragem que permite proclamar que se ama inteiramente, sem permeios de razão, sem pudores de correcção, sem obediência a designações, sem limites de linguagem. Os corações cândidos amam o que vêm e o que lhes está oculto, amam o que tocam e o inatingível, amam o que existe e o que não sabem - mas intuem - existir. A coragem de expressá-lo advém de uma purgação que só a marca de ferro e fogo de um grande amor dá. O amor incontido gera a coragem incontida.

Termino como comecei: gosto de declarações destemidas, desvergonhadas, sinceras e amadurecidas. Gosto dessas declarações lidas e feitas. Feitas também por mim, que de quando em vez me sinto levitar, como se saísse deste Universo conhecido para um outro que ignoro, mas que sei com todo o meu coração, o meu espírito e as minhas forças que existe. E, por isso, nada temo: amo.

© [m.m.botelho]

25.5.17

«não», sem desculpas e, já agora, com ponto final

A crónica de Mariana Mortágua "O nosso direito ao «não»" que o JN publicou no dia 23.05 começa com o seguinte diálogo (imaginado):
"- Olá, como é que te chamas?
- Desculpa, não te conheço. Estou com os meus amigos.
- Vá lá, diz-me só como te chamas.
- Não quero mesmo falar, desculpa.
- Não? Porquê?
- Não quero...
- Anda lá, eu sei que queres!
- Não, não quero, estou ocupada.
- Achas que és boa, é?"


Não li o resto da crónica. Parei logo aqui, porque isto começa logo mal. Para se livrar do incómodo de quem tenta meter conversa, Mortágua põe na boca de uma jovem/mulher a palavra "desculpa" nas duas primeiras frases. Pedir desculpa de quê e para quê? Acaso não pretender dar conversa é motivo de culpa, para dizer "não" e imediatamente pedir ao interlocutor que nos perdoe?

O problema de muita gente não respeitar o espaço do outro reside muito nesta cultura do pedir desculpa por tudo e por nada, o que tem duas péssimas consequências: por um lado, torna a expressão banal e esvazia-a de conteúdo (hoje em dia, pedir desculpa não significa que se esteja consciente de que se praticou algo com culpa e se pretende que o outro nos releve a falta, para alívio da alminha ou de outra coisa qualquer, senão, basta pensar nos agressores de violência doméstica que imediatamente após a agressão pedem desculpa à vítima, para no mesmo dia ou no seguinte voltarem a socá-la); por outro lado, faz da pessoa que pede desculpa sem ter motivo para tal (porque nada que mereça reparo fez) faça figura de subserviente e a subserviência é, como se sabe, perversa, principalmente se é o próprio que sob ela se coloca.

E depois aquele "Não quero...". Ative-me nas reticência, esse sinal de pontuação tão mal usado, tão exageradamente usado. As reticências servem para dizer que quem fala teria algo mais a dizer, mas não diz, deixa apenas a impressão de que, talvez noutra circunstância o dissesse mas que, naquela, prefere deixar a frase a meio. Se a pessoa não quer, como parece ser o caso no diálogo transcrito, visto que já é a terceira vez que o diz (ainda que nas duas primeiras o faça por outras palavras), para que raio estão ali aquelas reticências? Não dava para dar um tom assertivo à resposta da jovem/mulher? É que o que se pretende, nessas situações, e mesmo assertividade, não deixar margem para dúvidas, pôr termo à conversa que está a desagradar e é contrária à vontade.

Podem parecer pormenores sem importância, mas não são. As palavras e a pontuação escolhidas para este diálogo são reflexo do que está gravado a ferros na grande maioria das pessoas: o "Desculpe lá!", o "Obrigadinha, mas não...", o "Por favor, não me incomode, se não der muito transtorno a V. Exa.". Esta subserviência parva e injustificada que apequena quem quer dizer "Não.", essa palavra tão essencial à sobrevivência porque demarca o limite do consentimento.

A propósito disto, costumo perguntar às pessoas se sabem como se distingue um português de qualquer outra pessoa de qualquer outra nacionalidade num pub em Londres. A resposta é simples: é o único tipo que chama o garçon dizendo "Sorry.". As pessoas, geralmente, riem, mas talvez não fosse má ideia que parassem um pouco e pensassem sobre isto.

© [m.m.b.]

3.6.13

causa precipitante ou por que não há inevitáveis



James Dean e o seu adorado «Porsche 550 Spyder», ao volante
do qual haveria de perder a vida aos 24 anos, em 30.09.1955.
[fonte: web]

Quando procuramos explicar um acontecimento, ensinam os estudiosos que devemos fazer uma análise em três planos distintos. Primeiro, identificaremos as causas profundas, as ditas razões de fundo. Depois, invocaremos as razões particularmente importantes. Daí, passaremos para as causas intermédias e, por último, para a causa precipitante.

Olhando para trás, os acontecimentos parecem sempre inevitáveis. E isto explica-se porque nos atemos à causa precipitante, a última no tempo, mas que é, curiosamente, a de menor importância. No fundo, não é uma explicação, não é uma razão, é somente o fósforo que ateia fogo à pilha de papéis antes, e por múltiplos motivos, montada.

Se não fosse aquela a causa precipitante, seria qualquer outra. Não vale a pena fazer a análise das condicionais contrafactuais e perguntar: «E se aquilo não tivesse sucedido?». A resposta será sempre a mesma: as probabilidades de o desfecho ter sido igual continuaria a ser elevada ou muito elevada. Mas «elevada» ou «muito elevada» nunca será sinónimo de «inevitável».

O busílis de tudo está nisto: a invocação da causa precipitante tranquiliza-nos. Por um lado, escusa-nos ao trabalho de descortinar as causas profundas e as intermédias, bem como as razões particularmente importantes. Por outro lado, é a mais recente, a mais viva na memória, a que, ao ser invocada, criará a nuvem de fumo que esconde o muito ou, quem sabe, o nada que está por detrás dela.

Alguém - não sei quem, mas alguém muito antes de mim - disse que as causas precipitantes são como os eléctricos: surgem de 10 em 10 minutos. Dão jeito, efectivamente (já disse porquê), mas não serão o bastante para quem sabe que não passam disso mesmo, de causas que precipitaram o desfecho, e que, por isso mesmo, por si só, não tornariam os acontecimentos realidade.

O que é curioso observar é que as pessoas - todas as pessoas -, depois dos grandes acontecimentos das suas vidas[*], se conformam, seguem em frente, retomam o seu dia-a-dia. Os espíritos mais inquietos, contudo, não deixam de fazer a análise global e ponderada dos três planos distintos, porque querem ver e perceber para além da insignificante causa precipitante. Os outros, bem, os outros eu simplesmente não sei o que fazem.

[*] Por «grandes acontecimentos das suas vidas» pode entender-se tudo e mais alguma coisa, desde uma guerra civil, um despedimento, a crise económica da Europa, o fim de uma relação amorosa ou de amizade, a perda de um pai ou de um filho, uma doença grave. O raciocínio aplica-se ao que quisermos, se quisermos.

© [m.m. botelho]

15.2.13

política, semântica, amor.

«O que surpreende na frase de Francisco José Viegas (FJV) não é, pois, a má-educação (de resto, assumida pelo próprio como "evidente"), mas a falta de decoro. É que por muito que possamos ser solidários com a posição defendida, ninguém deixará de notar que, do ponto de vista político, e fazendo a comparação (porque tudo isto vem à tona — coincidência ou não — no Dia de S. Valentim), FJV se mostra um ex- namorado um tanto ressabiado, daqueles que depressa "parte para outr@", sem fazer o luto da praxe à anterior relação, ao que se sabe, bastante amorosa.»

Um excerto de «Francisco José Viegas, serão mágoas de amor?», a minha crónica de estreia, ontem, no «P3».

© [m.m. botelho]

11.6.12

ainda há muito para colher

Ainda não sei muito bem como vai terminar este meu ano de 2012. Pode ser um ano de concretizações em vários domínios, assim esteja a sorte do meu lado [porque o esforço que me cumpre fazer está a ser feito até à medula], ou pode ser o seu contrário.

Não sou, naturalmente, uma optimista, é verdade. Quando olho para o copo, a minha primeira tentação é vê-lo sempre meio vazio. Porém, porque percebi que isso não me traz vantagem alguma [ao contrário, traz-me algum sofrimento antecipado que, as mais das vezes, é perfeitamente evitável], fui procurando, ao longo da vida, contrariar sempre essa tendência. E consigo fazê-lo de tal modo que, quando dou por mim, estou a meter-me em quinhentas mil coisas em simultâneo e a acreditar piamente que vou fazer todas com o maior sucesso. Embora sinta o nervoso miudinho, acredito sempre que sou capaz e faço-me à vida. Umas vezes correu tudo bem, outras vezes só algumas coisas deram certo.

Até ao momento em que comecei a achar que não seria capaz de ultrapassar determinado obstáculo e em que alguém me confrontou com um visionamento das minhas conquistas numa espécie de "rewind" da minha vida, nunca vi isto de contrariar o meu cepticismo intrínseco como uma capacidade. Achava que o fazia porque era suposto, porque «quem não trabuca não manduca» e é preciso encarar os desafios de frente se queremos alcançar os objectivos que traçámos quando eles não são fáceis. Todavia, não é assim. Na realidade, contrariar o meu pessimismo é mais do que uma forma de estar "porque é suposto". É, verdadeiramente, uma valência que eu tenho e que posso utilizar em todos os campos da minha vida.

Nem sempre consigo fazê-lo com a mesma leveza. Há dias em que avançar contra o vento me retira do corpo pedaços de carne, me extenua, me obriga a «fazer das tripas coração» e quase me faz parar. E há dias em que essas "feridas" e esse cansaço são sentidos, mas não me derrubam e me permitem, apesar de tudo, avançar.

Não há um dia da minha vida em que, desde há uns tempos largos [falo de anos], eu não tenha consciência disto e não me aperceba exactamente de quando tenho de contrariar o meu pessimismo. Este é um dos anversos de ter metas, sei-o. Sei-o porque sempre vivi tendo propósitos, sabendo por que é que era preciso sair da cama todos os dias, mesmo quando os dias eram garantidamente cinzentos. E não houve um dia em que eu tenha ficado na cama, fosse qual fosse a cor do meu céu.

[Admito que, antes de o poder afirmar, tive de passar a minha vida a pente fino, por não querer correr o risco de fazer uma afirmação falsa. Sei que é verdade o que digo: não houve mesmo um dia em que eu tenha ficado na cama.]

Eu não posso - nem quero - queixar-me de nada. Tive alguns momentos na vida em que a sorte não me acompanhou, mas acredito que isso era o necessário para fazer de mim a pessoa que sou hoje. Acredito que as partidas que a vida nos prega servem para fazer de nós pessoas melhores, se quisermos aprender as lições. Acredito que mesmo o pior que nos sucede encerra a virtude de nos recordar, por um lado, que não devemos permitir que volte a suceder-nos e, por outro, que lhe sobrevivemos. Tudo isto se traduz numa série de "vitórias", umas pequeninas, outras enormes, que cada um vai amealhando. Superar uma "derrota" é uma "vitória", tal como superar uma perda é um ganho. Se quisermos.

Quando me olho ao espelho não me deslumbro com o que vejo. Vejo, tão-somente, alguém que chegou até onde eu estou inteira e sem mazelas de maior. Sei que as minhas grandes "derrotas" ainda estão por vir e não tenho a certeza de que lhes sobreviverei inteira, como até aqui. Não tenho a certeza, mas tenho a esperança, porque sei que tenho as valências necessárias para, pelo menos, lhes fazer frente. E também porque não estou e não me parece que alguma vez vá ficar sozinha na minha vida. Tenho o privilégio de ter nela gente maravilhosa, pessoas que me incentivam, que me ajudam, que me reforçam. Uma mão cheia de pessoas decentes com quem me cruzei por laços de sangue ou mero acaso, que já me deram provas mais do que suficientes, em momentos em que poderiam ter dado provas do oposto, de que são isso mesmo que lhes chamei: pessoas decentes.

Não sei se vou concretizar todos os objectivos que tracei para este ano de 2012, mas sei que vou lutar por eles com todas as minhas forças. Não sei, ainda, como terminará este ano, mas tenho esperança de que termine exactamente como imaginei e me estou a empenhar para que suceda. Olho para as "barreiras" que tenho de saltar nesta corrida e "tiro-lhes as medidas". Olho para as minhas pernas e acredito que terão a destreza necessária para se elevarem acima delas. "Treino" todos os dias para que assim seja.

A vida pode ser objecto de um sem número de metáforas, mas todas elas têm de contemplar o bom e o mau. E se eu já ganhei tantas medalhas, por que raio haverei de pensar que não serei capaz de ganhar mais umas quantas neste ano de 2012? «Até ao lavar dos cestos, é vindima», disseram-me uma vez, num momento de grande desânimo. Pois bem: ainda há muito para colher.

© [m.m. botelho]

5.1.12

«não se dão flores a quem morre de cancro»

Não sei muito bem o que pensar das pessoas que atiram para as costas do "Tempo" aquilo que elas mesmas não são capazes de fazer. Dizer que são cobardes ou apáticas, que ficam à espera que o "Destino" ou outra coisa qualquer resolva os seus problemas em vez de "pegarem o touro pelos cornos", dizer que se iludem ao julgar toda a gente pela mesma bitola e ao achar que todos vão acabar por ceder perante certos cenários é já, provavelmente, pensar muito sobre pessoas assim.

Cada um engana-se da maneira que quer e há quem opte por se enganar repetindo que "o Tempo cura tudo", "resolve tudo", "faz esquecer tudo" e quejandos. E depois há uma meia dúzia de tipos, como eu, que sabem que o Tempo não faz nada a não ser revelar a verdadeira essência das pessoas e a falta de ovários ou tintins que as mesmas têm para resolver as coisas ou admitir que as coisas não têm outra resolução senão a que se cristalizou. Já escrevi bastante sobre isso por aqui [eu lembro-me].

As palavras têm um preço muito caro, por isso mesmo é que já os romanos, que não eram parvos, diziam: «se pensares não digas, se disseres não escrevas, se escreveres não assines». Não é de estranhar, portanto, que a maior parte das pessoas opte por nada fazer e prefira "deixar o Tempo correr". O Silêncio é muito mais cómodo do que a Palavra, já percebemos. Só uns quantos doidos varridos é que arriscam sentir, pensar, escrever e assinar. Os outros ficam à espera que o Tempo passe e algo aconteça, porque nunca se sabe: um casamento, um funeral, uma noite de copos e, de repente, a "malta vê-se por aí" e está tudo resolvido, "tão amigos que nós somos".

Pela minha parte, assumo inteiramente que [já] não espero nada de ninguém, mas muito menos espero de quem prometeu vir "um dia" ["quem sabe, talvez, não é?"]: a minha "cegueira emocional" já passou. Agora, só há uma grande consciência da fragilidade e da incapacidade do ser humano, a começar por mim mesma, às vezes. Não tenho ídolos, mas se os tivesse, teriam todos, sem excepção que confirmasse a regra, pés de barro. Seriam todos muito respeitavelmente humanos porque, como proclamou Nietzsche, "Deus está morto".

«Toda a gente tem um preço», diz-se, tal como se diz «quando não os podes vencer, junta-te a eles». É por isso que há quem se venda a troco de engolir uns valentes sapos e se renda por causa do amor [isto dava um refrão de uma canção], perante a insistência alheia ou outra treta qualquer. Por exemplo, há quem faça cair o Carmo e a Trindade num ano por causa da festa e no ano seguinte se junte à festa. Pode parecer mentira, mas afianço que é verdade, apesar de não vir sequer no «Borda d'Água».

Chamam a isso "Mudança" e pintam a coisa de dourado, para os mais distraídos pensarem que é coisa boa. Eu, porém, prefiro chamar os bois pelos nomes: não é "mudança", é "conformismo". Não, também não é "magnanimidade", "capacidade de perdoar", "excepcionalidade" ou o raio. Repito: é "conformismo", é a mais banal e despida evidência do célebre «se não podes vencê-los, junta-te a eles». É "resignação".

Felizmente para mim e para o resto do Mundo, eu não tenho pretensões de criar doutrina interpretativa de aplicação universal e gratuita daquilo que os outros fazem ou não fazem, dizem ou não dizem, escolhem ou recusam. Eu limito-me a chegar às minhas conclusões e a aplicá-las a mim e ao que me rodeia, à minha vida e ao que me acontece. Nesta matéria, eu chego-me.

Quanto aos doutrinadores paternalistas, que sejam muito felizes, mas não me impinjam a sua banha da cobra, por favor. Guardem-na lá para si mesmos, para justificarem perante si próprios as suas atitudes e a sua inépcia, porque deve ser um tanto ou quanto difícil olhar para o espelho e dar de caras com a contradição [perdão, "mudança", "mudança"!] em forma de gente. Se satisfaz, se conforta, digam lá que foi tudo obra do "Tempo" e da "Mudança" e, com um bocadinho de empenho, olhem para quem escolheu não entrar nas mesmas salgalhadas que deixam qualquer um de boca escancarada e digam que é muito intransigente, maluco, limitado, imaturo, rígido ou outra coisa qualquer [digam, escrevam e assinem e, de preferência, remetam para o endereço do dito cujo: assim a criatura ficar a saber exactamente o que V. Exas. pensam dela].

Bom a valer é que as pessoas não esperem ser tidas em grande conta quando optam, como os putos por fazerem fugas para a frente. É bom que as pessoas estejam conscientes de que nem todos são assim tão fáceis de levar, de que nem todos se deixam fascinar por frases feitas ouvidas a outrem e repetidas em estilo "disco-riscado" sem sequer raciocinar. Alguns de nós desconstroem o que lhes acontece e o que vivem, tal como desconstroem os comportamentos alheios em relação a si e aos outros.

É facto assente: alguns de nós sabem que "deixar passar o tempo" pode ser bem diferente de "não vou fazer nada e sempre pode ser que o Sol amanhã nasça quadrado". Alguns de nós sabem que "mudar" é sempre diferente de "resignar-se". Acima de tudo, alguns de nós têm memória e lembram-se do que ouviram dizer sobre outras pessoas que nada faziam a não ser dizer que iam "esperar pelo Tempo certo" [porque não eram capazes de mais, não era?]. E ainda há os que, a somar a isto tudo, de estúpidos não têm rigorosamente nada [estes são, provavelmente, os piores].

Pode ser uma chatice que um dia alguém tenha tido o azar de uma pessoa assim, com estas características irritantes, se ter cruzado consigo e, apesar dos seus múltiplos esforços para que a dita pessoa se tivesse "burrificado", a mesma não ter ficado tão burra quanto dava jeito que tivesse ficado, mas, graças a Deus, não há nenhuma obrigação de a aturar [garanto que não vem na Bíblia] e sempre a pessoa com azar pode mandar a outra dar uma curva [uma qualquer serve, nem sequer precisa de ser a nossa curva favorita]. Com efeito, mandar alguém "dar uma curva" também pode ser um dos significados de "deixar que o Tempo ou outra coisa qualquer nos reaproxime". Claro que sim: diziam que o D. Sebastião também haveria de voltar numa manhã de nevoeiro.

Como facilmente se conclui, se se escolher essa via, a vida oferece sempre uma forma de "arrumarmos" com as coisas que nos maçam ou podem vir a maçar-nos. A vida oferece sempre a faculdade de justificação de tudo e mais alguma coisa [assim queiram os outros acreditar nos motivos invocados]. A vida oferece sempre a possibilidade de dizer que nós não tivemos responsabilidade nenhuma nos acontecimentos, que foi a "Mudança" [nossa e dos outros] que provocou tudo, mesmo quando os acontecimentos não são mais do que simples produto das nossas escolhas [mais ou menos] conscientes.

Assim sendo, que ninguém se apoquente, que ninguém se apresse, que ninguém deixe de gozar todos os benefícios [serão mesmo?] da doce passagem do "Tempo" e da "Mudança": é indesmentível que a vida oferece sempre a possibilidade de deixar tudo, absolutamente tudo e todos, ao leve sabor do T(v)em(n)p(t)o.

[Nota: o título deste texto é um excerto de uma canção dos Xutos & Pontapés. Existe, obviamente, uma razão de ser para ter sido escolhido.]

Assina: © [m.m. botelho]

17.12.11

cesária


Cesária Évora & Marisa Monte. «É doce morrer no mar».
Do álbum «Café Atlântico» [1999].

Morreu hoje Cesária Évora. Na despedida, outra vez a minha canção favorita na sua voz: «é doce morrer no mar». Até sempre, Cesária, «nas ondas verdes do mar».

© [m.m. botelho]

25.2.11

pilares estruturais

«Um bom lema para viver: procura sempre não te matares.»
George Carlin, «Brain droppings» [1998]

Perante certas palavras, atitudes e opções, pergunto-me se não haverá gente que cultiva uma certa atracção pelo abismo. É indubitável que há quem tenha uma extraordinária habilidade para arrasar com as coisas boas que a vida lhe proporcionou, gente que, de um dia para o outro, manda pelos ares os seus pilares estruturais. Pergunto-me se o farão por falta de inteligência, por falta de maturidade, por um estado de insanidade temporária ou permanente ou se será antes por incapacidade de distinguir o que é essencial do que é acessório (o que também pode ser visto como uma consequência de ambas as primeiras hipóteses).

É suposto que as pessoas crescidas saibam destrinçar o que é bom do que é mau para si mesmas. É suposto que as pessoas crescidas sejam capazes de antever que, ao explodirem com as suas próprias estruturas, mais tarde ou mais cedo haverão de cair no mais escuro e lamacento dos poços, criado pelo rebentamento das terras. É suposto que as pessoas crescidas sejam suficientemente perspicazes para perceber que há coisas que não têm preço e que, portanto, há preços que, por muito que estejam dispostas a pagá-los, jamais compensarão aquilo que puseram à venda. Quando o que se pôs à venda era estrutural, a perda desse estrutural nunca será compensada.

Admito que, para chegarem a esta conclusão, algumas pessoas tenham mesmo de celebrar pelo menos um destes maus negócios durante a vida, isto é, que não aprendam com o que a experiência e os alertas dos outros lhes revela, mas tenham elas mesmas de bater com a cabeça na parede para ficarem a saber o quanto dói. Eu, pecadora, me confesso. O que já não entendo tão bem é que, depois de o fazerem, fiquem cheias de autocomiseração e que não aceitem os auxílios que os outros pilares estruturais que lhes restam lhes oferecem para que consigam sair do poço que elas mesmas cavaram e em que elas mesmas se meteram. Fazê-lo só demonstra que não se aprendeu nada com o que aconteceu. É que é suposto que, depois de arrasar um pilar estrutural, se passe a saber distinguir o que é estrutural do que não é, ou seja, que, ao tomar-se consciência de que aquilo que se destruiu era estrutural, se tome consciência do que demais existe na vida de cada um que também o é. Por um motivo bastante básico: é que só aí, nesses outros pilares, será possível encontrar as forças necessárias para elevar novamente a construção.

Por isso, quando vejo que há quem prefira ficar no escuro em vez de pegar nas velas acesas que lhe são estendidas com afecto e preocupação, concluo que se trata de pessoas que não foram capazes de tirar as devidas lições daquilo que lhes aconteceu. Isto leva-me a questionar se essas pessoas não terão mesmo uma atracção pelo abismo, que é o mesmo que dizer pela autodestruição.

Se, num determinado momento, fomos estúpidos ao ponto de arrasar com um dos pilares da nossa vida, é suposto que não continuemos por aí fora, a estourar com os restantes. É suposto que dar com a cabeça na parede nos acorde, nos doa, nos dê objectividade para percebermos o que fizemos de mal a nós mesmos e o que devemos fazer para parar o vórtice de autoflagelação. Em suma, é suposto que dar com a cabeça na parede nos alerte para a necessidade de não prosseguirmos, existência fora, fazendo as mesmas coisas, destruindo as nossas próprias estruturas, desvalorizando o que de bom nos cerca e nos escora. E é, ainda, suposto que cresçamos uns palmos, que ganhemos força nas pernas e que demos o salto do poço, que arrumemos de uma vez por todas com tudo o que nos prejudica, nos enfraquece, nos desgasta e nos puxa para o abismo. É suposto, portanto, que se empreenda uma espécie de purga.

Enquanto isso não acontecer, ninguém estará reestruturado. Andará apenas a enganar-se a si mesmo, a destruir-se a si mesmo, a afundar-se em "self pity" e a desperdiçar as oportunidades que a vida lhe dá de refazer o que foi aniquilado (de preferência, melhor). Poderá até já não andar a bater com a cabeça na parede, mas continua a não perceber que existe mais para além dela. Não terá saído do sítio. Não terá aprendido absolutamente nada.

© [m.m. botelho]

14.2.11

resistências e desligamentos: para mais tarde recordar

Por vezes, durante algum tempo após determinados acontecimentos terem lugar na nossa vida, continuamos a atribuir às pessoas com eles relacionadas um papel especial e inigualável no nosso percurso e quase forçamos, dentro da nossa maravilhosa e inocente cabecinha, a existência de uma importância para essas pessoas, de um lugar que lhes é devido, de um valor que lhes é inerente, ainda que não saibamos explicar por que razão teriam essa importância, esse lugar ou esse valor. A reboque disto, ficamos presos à ideia de que aquelas pessoas detêm ainda o poder de nos avaliarem e que tudo o que elas pensem ou digam sobre nós tem de assumir grande relevo. Como que lhes concedemos o poder de nos julgarem, de tecerem considerações sobre o que fazemos e, mais grave, sobre o que somos e como somos. Ficamos a cismar sobre isso e achamos que as pessoas têm sempre razão, mesmo quando não têm, e permitimos que as suas opiniões tenham efeito em nós, que nos atormentem, que nos sejam muito caras.

Possivelmente, fazemos isto porque o desligamento, em particular o desligamento absoluto que (porque somos uns tontos idealistas que nem parecemos deste mundo) achamos desnecessário, é tremendamente penoso e tendemos a evitar a dor que daí advirá. Em consequência, oferecemos uma resistência enorme à aceitação de que os desligamentos sejam definitivos, indispensáveis, um facto, uma evidência, uma realidade clarividente, pura e dura para toda a gente de bom-senso, grupo no qual, obviamente, não nos incluímos porque estamos muito ocupados a tentar arranjar justificações para legitimar a nossa resistência.

Porém, em certos casos, mais cedo ou mais tarde, damo-nos conta de que, à tal dor do desligamento que achamos desnecessário, à tal dor que a tanto custo queríamos evitar mas não conseguimos, se juntou outra, porventura mais pungente, com a qual nos confrontamos quando olhamos para o que temos com essas pessoas e percebemos que é apenas a cristalização consequente do facto de nada termos feito ou, então, que é apenas a cristalização consequente do facto de alguém, no pleno exercício dos direitos que lhe assistem, não ter aproveitado todas as possíveis oportunidades que, ainda que de forma mais ou menos desajeitada, foram criadas. Em suma, damo-nos conta de que o que temos com essas pessoas não passa do que nós lhes demos (porque lhe atribuíamos importância, lugar, valor) e do que elas, do alto do poder de que nós mesmos as investimos sem qualquer justificação, avaliam (as mais das vezes, de forma errada), pois do outro lado não houve retorno (nem tinha de haver). E quando nos apercebemos de que não houve, não há nem haverá retorno, vamos dar com os burrinhos na água.

A grande vantagem de dar com os burrinhos na água é que, como não é lá muito agradável, somos obrigados (por nós mesmos) a perguntar (a nós mesmos) qual é, afinal, a razão que justifique a atribuição de tal importância, lugar, valor e poder a essas pessoas. Quando damos com os burrinhos na água temos de os ir lá buscar e o banho obriga-nos a acordar para a realidade e para a necessidade de explicarmos a nós próprios porque raio é que fazemos o que fazemos, o que inclui os motivos pelos quais atribuímos determinado estatuto a alguém. Às vezes, não somos capazes de articular uma resposta, não sabemos porquê, não invocamos uma única razão especial. E percebemos, então, que esse estatuto só existe porque nós o criámos dentro da nossa maravilhosa e inocente cabecinha, porque nem a pessoa o pediu, nem lhe era devido, nem sequer é justificado. E tudo o que era deixa de ter sentido.

Com sorte, no meio da angústia, lá encontramos o norte e encaramos o facto de que temos de iniciar uma nova etapa. Começamos, então, a expurgar da nossa maravilhosa e inocente cabecinha o que não tem sentido que lá esteja (a importância, o lugar, o valor e o poder que erroneamente atribuímos a determinadas pessoas), sob pena de bloquearmos o caminho da nossa própria estratégia de sobrevivência e nos desgastarmos infinitamente em trabalhos em que nos metemos porque queremos e sem os quais passaríamos muito bem.

Percebemos, então, que é tudo uma questão de "empowerment" e que, portanto, essas pessoas, uma vez desprovidas do que lhes atribuímos, não passam de pessoas com as quais nos cruzámos e que, em tempos idos, desempenharam um determinado papel na nossa vida. Percebemos, sem retirar qualquer importância a esse papel, que ele só existiu num determinado contexto e porque nós lho atribuímos e, ainda, que só depende de nós que assim deixe de ser.

Percebemos, finalmente, que, por muito difícil que seja, há que fazer os desligamentos absolutos. Há que cortar as pontas que ficaram soltas, porque já não há nada onde elas se prendam, mas também porque não há teias ilusórias e invisíveis, "empowerment" ou mecanismos de resistência que segurem ou liguem o que as pessoas já não querem que exista, aliás, melhor dizendo, o que não existe mesmo, a não ser na nossa visão idílica das coisas e na nossa obstinação pela manutenção de cenários esgotados. Se assim não fizermos, cairemos numa situação contraproducente à prossecução dos nossos objectivos de crescimento individual. Andaremos a desperdiçar as nossas energias atribuindo importância ao que e a quem a não tem.

Com efeito, nem todas as histórias da nossa vida podem ter o final que nós gostaríamos de lhes dar, mas antes o final possível. Não é o fim do mundo, é só um dos vários desligamentos que teremos de fazer ao longo da nossa vida. Há que aceitar que, nas relações com o outro, nem tudo depende de nós, da nossa vontade, da nossa iniciativa, do nosso desejo, da nossa intenção e que, portanto, não faz sentido alimentar dentro de nós a ilusão da desnecessidade do desligamento quando o outro pensa de modo completamente diferente do nosso em relação a isso, e que muito menos vale a pena continuar a atribuir às pessoas uma dimensão que já não lhes é devida, porque algo mudou no trajecto que vinha sendo cumprido. Do mesmo modo que há que ver que, no que respeita ao modo como nós conduzimos a nossa vida, tudo depende de nós, da nossa vontade, da nossa iniciativa, do nosso desejo, da nossa intenção, que cada um deve a si mesmo o mais e o melhor possível e que isso, definitivamente, não se compadece com o desperdício que é andar atrás dos burrinhos para os tirar da água. Se não percebermos isto, só há uma constatação possível: os burrinhos seremos nós.

[Vês, miúda dos caracóis cada vez mais curtos, como tudo o que tu me dizes faz ressonância cá dentro? É por isso que eu não abdico de te ter na minha vida.
E tu, miúda dos caracóis um pouco mais compridos e mais claros, vês como escuto tudo quanto tu te fartas de repetir? É por isso que te estimo como estimo: muito.
Este texto fica aqui, por escrito, para que eu possa relê-lo de cada vez que me deixar cair na tentação de não questionar certas coisas na minha vida. E também para que vós, minhas queridas, possais poupar o vosso latim a dizer pela enésima vez as mesmas ideias. Da próxima vez (que espero que não exista, mas à cautela...), não me mandeis só beber um copo de água e pensar. Mandai-me também ler isto que eu mesma escrevi, isto que eu mesma concluí. Só me fará bem.]

© [m.m. botelho]

3.2.11

a corrida

fonte: visto aqui

Está ali, parado, de corda na mão, na linha de partida. Espera que a corrida comece. Sucede que a corrida não pode começar enquanto não vier alguém que agarre na outra ponta da corda. É uma corrida a dois, a corda é o que os liga, é o que lhes permite comunicar, dizer «estou cansado» ou «tenho sede», para que cada um saiba quando é que o outro precisa de abrandar o passo ou de se abeirar de uma fonte para beber. Enquanto a corda permanecer ali, estendida sobre a terra, a corrida não começa, não pode começar.

Sucedem-se as estações. É Inverno, hoje. Faz frio, um vento gelado que lhe percorre o corpo como uma língua húmida. Vestiu grossas camisolas, um casaco espesso, luvas, um gorro, tudo o que se lembrou, tudo o que ajudasse a suportar a espera. De vez em quando, tira as luvas, olha para as mãos e vê os golpes que se foram desenhando, a pele ressequida, a carne roxa sob as unhas. Mexe-se para aquecer, dá pulos, faz malabarismos. As horas passam. Ninguém vem.

Durante todo este tempo, nunca um café que o aquecesse, nunca um raio de sol que diferenciasse os dias, nunca um passo sequer na corrida. A corrida não começou, não podia começar.

Olha em volta, nada acontece. Olha para dentro e sente o frio quase nos ossos, como um berbequim que foi perfurando as roupas. Olha para as horas e sente o desalento. Cada raiar do dia arrancou-lhe um pouco de paciência, um pouco de empenho, um pouco de sentido, um pouco de estima por si mesmo, até um pouco de vontade, se bem que nunca um pouco de intenção.
Sabe-se ridículo, ali naquela espera. Intui-se assim.

Como se tivessem vida própria, as mãos gretadas começam a recusar agarrar a corda. Não tem forças para as fechar, tolhidas que estão pelo longo tempo. «Já esperei tanto», pensa, «não deverei esperar um pouco mais?», mas não se trata já de esperar, antes de aceitar. Aceitar que, por muito que o tivesse desejado, por muito que o tenho dito, por muito que se tenha empenhado, por muito que tenha esperado, ninguém veio pegar na outra ponta da corda, ninguém quis correr, ninguém quis absolutamente nada.

Sabe que, perante isto, tem de escolher entre preservar tudo o que fez e correr o risco de morrer de frio ou deixar tombar a ponta da corda que segura e sobreviver à intempérie. «Eu aguento um pouco mais», repete, mas sabe que não aguenta, sabe que tem limites, sabe que chegou o dia em que não pode mais permitir-se definhar na linha de partida.

Larga a corda. No limite, larga a corda. Já não sente o corpo, mas, pelo menos, está vivo. No limite, mas vivo. Por momentos, não sabe o que fazer. Angustia-se, pergunta-se se terá desistido, chora. Extenuado, senta-se e descansa. Após o repouso, recomeça a sentir os pés, as pernas, o tronco, os braços, as mãos que abre e fecha vigorosamente. Sabe, então, que não desistiu. Sabe que, ao invés, teve a coragem de se fazer escapar a uma mais do que provável morte ao vento gélido. Escolheu salvar-se. Escolheu-se. E, sozinho, começa a caminhar ao longo da linha de partida.

© [m.m. botelho]

21.12.10

absolutos e imutáveis

Sempre me questionei sobre o que será isso do «espírito do Natal». Uso correntemente a expressão e sei o que pretendo dizer quando a emprego. O que não sei é se os que me ouvem e os outros que a usam o fazem com o mesmo sentido. Todavia, creio que, no fundo, todos temos um ponto em comum: o «espírito do Natal» oscila entre a tranquilidade que advém de um inexplicável sentido de proximidade e comunhão de afectos que parecem "nascer" nesta altura do ano e o frenesim de presentear os que nos são queridos com algo que os faça felizes.

Na verdade, acho que poucas vezes fui invadida pelo «espírito do Natal». Quanto aos afectos, sinto-os durante todo o tempo, por quem os sinto, e mais não há a dizer. Por outro lado, não me lembro de alguma vez ter sido arrastada, à última da hora (que Dezembro é o último mês do ano), por uma vaga de solidariedade para com o semelhante. Quanto aos presentes, confesso que não tenho muita pachorra para o ritual da escolha, da compra, do embrulho, embora goste muito de dar e de receber presentes.

Este ano, não comprei nenhum presente de Natal para ofertar. Os pouquíssimos que já ofereci ou vou oferecer foram todos escolhidos por mim, mas comprados por outras pessoas que me libertaram do fardo de um processo que me é desconfortável. Isto não foi sempre assim, claro. Houve um tempo em que, mesmo não gostando de o fazer, o fazia. E houve um tempo, também, em que gostei verdadeiramente de o fazer. Este ano, contudo, decidi que só o faria se, chegado o tempo, me fizesse sentido fazê-lo. E não fez. Por isso, não há data no calendário que me force a fazer algo que nada me diz, não há convenção social que me vergue à estucha inerente à coisa, não há «espírito do Natal» que me entre pelos poros e me faça abdicar do princípio que estabeleci.

Para o ano, espero, haverá novamente Natal e, então, verei o que me fará sentido fazer, porque o que sinto agora pode sofrer alterações, como, de resto, já sofreu noutras alturas da minha vida. O que isto tem de maravilhoso que mereça ser plasmado por escrito é tão somente o facto de eu me dar conta da possibilidade de alteração de um comportamento e de ela não me perturbar, de eu recusar espartilhar-me em absolutos e em imutáveis, de eu ter deixado de resistir à mudança, de eu ser capaz de pôr em prática a ideia de que o que for, se verá e o que tiver de ser, será. Sim, isto é maravilhoso e merece ser plasmado por escrito, porque parte apenas de um pequeno e, porventura, insignificante exemplo da minha vida, mas é a materialização de uma grande, enorme, gigantesca evolução operada em mim.

© [m.m. botelho]

7.12.10

sonhos

© explodingdog [06.12.2010]

Em trinta anos de vida, lembro-me de uma mão cheia de sonhos, não mais do que isso. Desses, dois foram pesadelos, dois circunscrevem-se a projecções de desejos que acalento para o futuro e o quinto é algo que oscila entre uma coisa e outra, algo que me angustiava muito e que me era doloroso, mas que eu achava que poderia trazer coisas boas se tivesse acontecido na realidade.
Há uns dias, disseram-me que a partir de agora, porque se deu um determinado acontecimento que para mim tinha muita importância, eu haveria de começar a recordar-me dos sonhos que teria. Repliquei que dificilmente assim seria, visto que raramente acordo com a percepção daquilo que povoou a minha cabeça durante o descanso, mas que, todavia, estaria atenta a uma eventual mudança no que a isso respeita.

Esta semana sucedeu que acordei por duas vezes com a perfeita noção de que estava a sonhar. Não sou capaz de reconstituir os acontecimentos, nem as situações, nem os contextos, mas sei que estava a sonhar com qualquer coisa. Isto é algo que também nunca me tinha acontecido, visto que ou me recordava nitidamente do que sonhara ou não me recordava de absolutamente nada.
Fiz um esforço para me lembrar do que estava a viver nos sonhos, mas não fui capaz de descortinar coisa alguma. Tenho apenas presente a sensação de que processei algo de olhos fechados, mas não consigo perceber o que seria.

Agora que penso nisso, já me aconteceu o mesmo estando de olhos abertos. Há acontecimentos - recentes - que sei que vivi, mas não sou capaz de reconstituir com precisão na minha cabeça. Esta é uma sensação muito estranha para quem, como eu, tem memória de elefante e regista durante longo tempo quase tudo o que lhe acontece e que assuma particular relevo.

É possível que uma coisa esteja relacionada com a outra. É possível que tudo isto sejam manifestações de aspectos que ainda não compreendo, mas virei a compreender. Apesar de esta ser uma realidade nova para mim, está a ser muito satisfatório aperceber-me dela. Deparo-me com um desconhecido que sei que virei a conhecer, quando for o tempo, e isso é aliciante. Vejo caminho para percorrer e isso é bom. É sinal de que não estou parada, de que os processos internos estão a ser cumpridos. Finalmente, estou a fazer algo por mim e para mim a partir de dentro. Só agora arranquei para esta viagem, mas sinto que arranquei de vez. E não hei-de parar enquanto não chegar ao meu destino.

© [m.m. botelho]

3.12.10

aprendiz

fotografia de Cesarr Spencer Terrio [2010]

«Na escola da vida não há férias.»
Jorge Amado, «Os Pastores da Noite» [1964]

Se alguma certeza adquiri ao longo da vida, foi a de que não quero chegar ao fim da estrada, olhar para trás e dizer: «Não fiz tudo o que podia». Não. Quero chegar à linha de chegada com a consciência de que nem sempre estive bem, mas fui estando sempre cada vez melhor. Quero poder revisitar todos os episódios da minha história e ver que houve erros meus, mas que a cada erro se seguiu a sua assunção, o enfrentamento das suas consequências e - importantíssimo - que fiz tudo o que estava ao meu alcance para o corrigir.

Não acredito em imperdoáveis, tal como não acredito em impossíveis. Prefiro crer no poder das palavras e dos gestos. Crer nas pessoas e na sua vontade. Crer na coragem e nos afectos. Por isso, embora não descure nenhum dos dois, dou mais importância às soluções do que aos males. E não me lembro de alguma vez ter desistido até ter feito tudo o que me era possível para que vingasse o melhor cenário.

No que à vida diz respeito, sou uma aprendiz sem pretensões de chegar a mestre. Espero apenas manter a lucidez suficiente para chegar ao fim da viagem sem ter saltado nenhuma etapa, nenhuma emenda a seguir a cada falha. Só assim poderei chegar inteira e melhor do que era quando parti.

Se chegasse hoje, chegaria tranquila. Não contornei nenhum obstáculo.

© [m.m. botelho]

1.12.10

o tempo que resta


«O Tempo passado é mestre do presente e do porvir.»
provérbio brasileiro

Uma das conclusões a que o passar dos anos (já lá vão uns quantos) e alguma porradinha que fui levando da vida me permitiram chegar é a de que o Tempo não resolve nada por ninguém. Pode ajudar-nos a relativizar os acontecimentos; dá-nos, seguramente, um certo distanciamento em relação às emoções que os factos ocorridos despertaram em nós; traz-nos a indispensável estabilidade mínima para que consigamos raciocinar sobre o que vivemos. Porém, por si só, o Tempo não resolve nada.
Pode contribuir para que as feridas não fiquem em carne viva, mas não as cura, não as cicatriza, não reata os laços que entretanto ele mesmo ajudou a desatar. O Tempo não aproxima as pessoas, não traz de volta à vida os corações, não transmite aquilo que só as palavras e os gestos podem transmitir. O Tempo não fala, não age, não explica, não escuta, não compreende: isso só as pessoas podem fazer.

Cada vez mais me convenço disto: embora nada possamos fazer para modificar o passado, temos sempre a possibilidade de alguma coisa fazer para melhorar o futuro. Porque o importante não é o que fizemos com o Tempo que já se foi, mas sim o que ainda podemos fazer com o Tempo que nos resta. Importa é fazê-lo no momento certo, porque, a cada dia que passa, corremos sempre o risco de ter deixado passar tempo demais.

© [m.m. botelho]

26.11.10

dispensador

Já não me lembro ao certo quando, mas creio que em finais de 2008, comprei numa loja pequenina cujo nome também já não recordo e que ficava numa das ruas comerciais do centro de Viana do Castelo, um dos objectos que mais satisfação me deu comprar, não só pela utilidade, mas porque o achei muito bonito e porque tinha muito que ver com a fase de vida em que me encontrava então: um dispensador daqueles círculos de algodão que usamos para fazer a limpeza do rosto e aplicar tónicos e bases.

Em acrílico incolor e translúcido, tinha umas aplicações com flores e borboletas ao lado e no fundo, junto à abertura, o que lhe conferia um toque de inocência, alegria e cor, tudo coisas que sentia em abundância naquela altura. Recordo-me que, antes de o embrulhar, o rapaz que estava na loja, onde também comprei um par de pegas de cozinha e cabides, ligou para a Mãe, que tinha saído por instantes, e perguntou-lhe se os círculos de algodão que estavam dentro do dispensador também se incluíam no preço final, muito embora eu lhe tenha dito repetidas vezes que não os queria. Do lado de lá do telemóvel, a Mãe respondeu-lhe que os círculos não eram para venda, pelo que ele os deveria retirar antes de embrulhar o dispensador, o que o rapaz, algo embaraçado, fez.

Mal cheguei a casa, enchi-o de algodão e fui colocá-lo na parede da casa-de-banho, imediatamente abaixo de uma folha da Liga Portuguesa Contra o Cancro com instruções sobre a palpação da mama que já lá estava colada. Humedeci as duas ventosas e pressionei o dispensador contra a parede, que se fixou nela até ao dia de ontem.

Estava eu a escovar os dentes quando, sem que nada o provocasse ou fizesse prever, as ventosas se desprenderam da parede e o dispensador caiu no chão, com estrondo. Ainda de escova dentro da boca, baixei-me de imediato para o apanhar. Foi então que vi que se havia quebrado em ambas as extremidades. Procurei os dois pedaços de acrílico na casa-de-banho, mas só encontrei um. Saí para o quarto e lá dei com o outro, muito longe do local da queda. Peguei em ambos e encaixei-os no dispensador. Com efeito, encaixavam, mas as linhas das quebras eram evidentes e faltava um vértice, muito pequenino, num dos pedaços. Era impossível recuperá-lo sem mazelas.

Gostava a sério daquele objecto. Hesitei um pouco na altura de o comprar, porque custou nada menos do que 25 Euros, mas acabei por me decidir rapidamente, cativada que fiquei pelos desenhos e cor que apresentava. Ao longo de quase dois anos, vi-o diariamente na minha casa-de-banho, toda ela profundamente convencional, de loiças brancas esmaltadas e azulejos bege sem grande graça. Gostava de o ver ali, fixado na parede, sendo útil e, ao mesmo tempo, belo.

Até há uns meses, o dispensador fazia um belo trio colorido com quatro sapos de borracha verde que estavam colados na parede, os quais foram, carinhosamente, baptizados de "xapinhos", e com um rádio que comprei na loja da Universidade do Porto, no Natal de 2007, que tem a forma de uma lágrima e um único botão redondo no centro, de um verde muito bonito e incomum.

No Verão, vi-me forçada (não importa já porquê) a retirar os "xapinhos" da parede da casa-de-banho e a guardá-los numa caixa na despensa, lá bem no fundo de tudo o que consegui colocar-lhe em cima. Ontem, o dispensador que optei por não retirar partiu-se em três. Resiste o rádio que, provavelmente, um destes dias o acaso se encarregará de fazer cair do sítio que o segura, para que não reste mais nada daquele trio.

Aos poucos, as paredes vão-se despindo, os objectos vão desaparecendo, a casa volta a exibir as paredes nuas que tinha quando para cá vim morar. Na porta do combinado já não resta nada, nenhum bilhete, nenhum recado, nenhum poema, nem o programa do Festival do Sudoeste 2008. Na porta da despensa, o mesmo. Tudo limpo e imaculado, sem memórias de nenhum momento, de nenhuma passagem, de nenhum encontro. Porque teve de ser, porque continua a ter de ser.

Lentamente, a minha casa torna ao que era. Eu é que - sei-o - jamais voltarei a ser igual.

© [m.m. botelho]

25.11.10

espada de Dâmocles

Graças aos anos, vivemos muitas dores. Mais tarde ou mais cedo, experimentamos a dor mais difícil de superar: a da perda. Experimentamos várias perdas e perdas diferentes. Em consequência, tropeçamos, caímos, ficamos inanimados, quase morremos e ressuscitamos umas quantas vezes.

Porém, quando tropeçamos, caímos, ficamos sem acção, quase perecemos e voltamos à vida, fazemo-lo sempre a partir de um estado que é definido. Damo-nos conta do que se passou connosco e deixamo-nos ir ou agimos, consoante o que a razão nos diga que façamos no momento e perante aquela situação. Já a angústia é um estado indefinido. Sabemos que algo sucedeu connosco, mas não percebemos o que foi. Perguntamo-nos «O que queres?», «De que precisas?», «O que te falta?», «O que temes?», «O que esperas?», «O que procuras?», «O que te magoa?» e não sabemos a resposta para nenhuma destas questões. Perguntamo-nos «Morreste-te?» e não sabemos responder, não sabemos se estamos vivos ou mortos, porque não nos sentimos em nenhuma dessas dimensões que, embora não concretas, são pelo menos definíveis.

A angústia permanente é uma espécie de limbo entre essas duas realidades, como que um fio de navalha onde nos movemos ou uma autêntica espada de Dâmocles que pende sobre a nossa cabeça. Não vemos, não ouvimos, não compreendemos. À nossa volta apenas um profundo silêncio que nos martiriza, nos corrói lentamente, nos desestabiliza, nos petrifica. Sabemos que a angústia não cessa nem com a dor, nem com o grito, nem com o afastamento, nem com a zanga, nem com a revolta, nem com o choro, nem com a apatia, nem com a tristeza, nem com a desolação, nem com o silêncio porque já experimentámos todas essas fases e ela manteve-se sempre lá. Também sabemos que não temos o controlo de nada, porque a qualquer momento a espada pode deslizar sobre a nossa cabeça e ferir-nos mortalmente.

É então que, se nos custa olhar para cima porque vemos a lâmina, nos voltamos para baixo e damos com o fio da navalha. Sabemos que a única coisa que não podemos fazer é deixarmo-nos tombar sobre ele e, no entanto, essa é a única solução que nos ocorre, já que sangrar até à exaustão, esvaziar as veias do sangue que as percorre, retirar cada uma das gotas de vida que teimam em animar o nosso corpo nos parece a única forma de pôr termo à angústia.

Contudo, porque essa é a solução derradeira, lutamos contra ela. E também porque, no fundo, estamos conscientes que essa é uma solução que pode, igualmente, revelar-se uma não-solução. Na verdade, não sabemos se para lá do fio da navalha não haverá qualquer coisa que nos é desconhecida e tememos que, uma vez aí, a angústia se mantenha. E ficamos no que não compreendemos, mas nos é, apesar de tudo, minimamente conhecido. E fazemos das tripas coração para manter o equilíbrio sobre o fio da navalha. Na iminência de sermos trespassados por dois gumes. Angustiados até à medula. Quase implorando para que não tarde o dia em que a espada de Dâmocles finalmente caia sobre a nossa cabeça.

© [m.m. botelho]

14.11.10

um café em copo de plástico

Sábado à tarde. Ontem, portanto. Acabara de sair de um compromisso. No caminho de regresso, passei por um café com esplanada em frente ao mar. Arrumei o carro e dirigi-me para lá.
Embora as mesas da esplanada estivessem secas, as cadeiras aparentavam estarem molhadas. Como não sou de "arrumar as botas" facilmente, inspeccionei-as uma a uma. Resignada perante o facto de não poder beber um café na esplanada, acabei por entrar e pedir a bebida ao balcão.
Eis senão quando tive a pior ideia daquele dia: «Têm copos de plástico? Apetece-me beber isto a olhar o mar, não enfiada aqui dentro». Tinham. Serviram-me, paguei e caminhei em direcção à saída.
Atravessei o café com o copo de plástico na mão direita, mala ao ombro, cachecol descaído para a esquerda. Estava eu a empurrar a porta para sair quando dois miúdos arrancaram disparados de uma mesa e passaram à minha frente. Eu, que, para além de tudo o mais, sou também bastante crédula, achei que a última criancinha a sair ia ter a delicadeza de segurar a porta, visto que se atravessaram no meu caminho e bem viram que eu ia sair no momento em que eles decidiram ultrapassar-me pela direita, sem sequer sinalizarem a marcha. Achei mal, claro, e por isso, cometi a imprudência de manter o braço esticado para tentar segurar a porta, que não só não foi amparada pelo puto, como ainda foi objecto da acção do vento que se fazia sentir. Resultado: três dedos da mão esquerda entalados, boa parte do café que eu segurava na mão direita entornado no chão, sobre a minha mala que descaíra do ombro, sobre o punho da camisa branco imaculado que eu vestia e, claro, sobre a minha mão. Café quente, refira-se.
A criancinha voltou-se e mirou a bela cena que ajudou a criar. Abriu a porta e disse um sumido «desculpe», antes de voltar costas e correr para o amigo. Eu respondi que não tinha importância, tratei-o o mais cínica e contidamente que consegui por «pequenino» (teria uns doze anos?) e fui pousar o copo de plástico e a mala a pingar café em cima de uma das mesas da esplanada. Como seria de esperar, nem os pais da criança, nem qualquer empregado ou cliente me perguntou se precisava de ajuda. Toda a gente sabe como é: não se usa.
Procurei um lenço de papel. Enxuguei o café da mão, limpei o melhor que pude a mala e, quando dou por mim, estava a dar graças por ter pedido um café curto (e não haver assim tanto líquido no copo para entornar), por não ter caído café nos sapatos (que eram de camurça), por não ter sujado o cachecol (que entretanto havia, providencialmente, descaído para o lado esquerdo) e por só ter entalado três dedos da mão esquerda e não os cinco possíveis.

Sei que há uns tempos eu teria, de igual modo, desculpado imediatamente o miúdo, pois bem vi que saiu a correr porque ia em brincadeira com o amigo e não antecipou o que sucederia, logo, não agiu com intenção de causar aqueles danos e dores. Todavia, também sei que, provavelmente, ia ficar pior do que estragada por ter dado cabo de uma mala (que ainda não sei se vou conseguir recuperar), ainda por cima daquela mala, que tem um significado especial para mim, e, quem sabe, de uma camisa (pois ainda não sei se conseguirei remover aquela nódoa). Em suma, iria ficar o resto do dia aborrecida. Provavelmente, nem beberia o café, sairia dali a maldizer o mau tempo e o acaso, porque, antigamente, eu pensava que estas coisas aconteciam a toda a gente, mas achava sempre que aconteciam com muito maior frequência a mim.
Ontem não foi assim. Não vou dizer que achei hilariante o que me sucedeu, ou que não fiquei preocupada com a possibilidade da perda da mala e da camisa. Não vou dizer que não me doeu horrores ter entalado os dedos (a porta tinha uma mola, por isso é fácil imaginar a dor que terei sentido) ou suportar a temperatura do café na pele. Porém, apesar disso, no meio da adversidade consegui ver que poderia ter sido um pouco pior.
Não sei se a isto se chama relativizar, ser optimista ou outra coisa qualquer. Sei é que pode resumir-se em ter uma perspectiva diferente - e melhor - daquela que há uns tempos eu teria de um acontecimento semelhante. Se a perspectiva é melhor, isso só pode ser um bom sinal: só pode ser sinal de evolução.
Graças a este episódio, posso ter perdido uma mala e uma camisa, mas ganhei a consciência de que em certos pormenores da minha vida tenho hoje uma outra reacção e isso dá-me uma sensação de satisfação. Uma sensação muitíssimo mais valiosa do que o preço daqueles dois ou de quaisquer outros objectos.

© [m.m. botelho]

8.11.10

um bom final

Talvez devêssemos pôr tanto cuidado e esmero no modo como terminamos as nossas relações amorosas, como pomos no modo como as iniciamos. No começo de uma relação, empenhamo-nos para que tudo seja o mais próximo possível da perfeição, para que, de cada vez que o recordemos, possamos dizer que foi o mais belo, inesperado, romântico, arrebatador e apaixonado dos inícios. Exceptuando a parte do romantismo, arrebatamento e paixão, claro está, talvez devêssemos fazer o mesmo quando terminamos. Sim, talvez devêssemos encetar todos os esforços para que, de cada vez que a memória nos levasse de volta ao momento da ruptura, pudéssemos dizer que foi o mais leal, sereno, franco, respeitoso e - porque não? - belo dos finais.

Só um bom final está à altura de um bom começo. Talvez devêssemos, por isso, nós mesmos, procurar estar à altura de ambos, para sermos merecedores de ambos.

Tal como, segundo dizem, nunca é tarde para um bom começo, parece-me que também nunca deveria ser tarde para um bom final. Até porque, consta, só não há remédio para a morte e o fim de uma relação não é a morte, é um luto. Nós continuamos cá, vivos, com a possibilidade de fazer tudo o que ainda houver de ser feito para mudar o que houver de ser mudado. Talvez devêssemos fazê-lo. Sim, talvez devêssemos. Talvez devêssemos acabar de novo quando não acabámos bem.

© [m.m. botelho]

14.9.10

um ano

Quando, há um ano, escrevi isto, acreditava, desejava, ansiava por um cenário muito diferente daquele em que, um ano depois, me encontro. Então, imaginava que voltaria aqui com o peito cheio de conquista, de sabor de vitória, de sensação de dever cumprido, de reforço de tudo o que havia de bom. O percurso não era só meu, mas também era meu e por isso me era permitido crer em tudo isto.

Não voltei. Não interessa como é que voltei, só interessa que não voltei como imaginei há um ano que voltaria. A vida é mesmo assim, dá voltas e voltas, surpreende-nos, confronta-nos com o que não tínhamos sequer como possível, faz tremer o chão debaixo dos nossos pés, abala muitas das nossas convicções (mesmo as mais profundas), obriga-nos a repensar tudo, a testar as nossas forças, as nossas capacidades, os nossos limites.

Viver é mesmo isso. De um dia para o outro, tudo muda, porque não há certezas de nada, apenas da finitude, essa ideia que ora nos faz temer dar passos, ora nos faz querer dá-los com a ânsia de tudo fazer antes que tudo se acabe.

Há um ano, eu sabia que estava a começar uma montanha-russa na minha vida. O que eu não sabia era como chegaria ao fim da viagem. Tive a ousadia de sonhar com um final feliz, daqueles dos livros de histórias infantis, que não veio a cumprir-se. Ficou-me a ousadia do sonho, da qual não me arrependo nem por um instante.
Há um ano, quando escrevi isto, acreditei mesmo que hoje estaria a escrever um texto bem diferente deste. Não estou. Talvez precisamente porque não estou conclua agora que fiz bem em tê-lo sonhado, porque ao menos no mundo dos meus desejos e crenças, aquele texto que hoje não escrevo existiu.

Imaginei algo que não se concretizou, mas não deixei de sonhar. Não sei onde estarei daqui a um ano, mas hoje sei que, daqui a um ano, quero voltar a escrever um texto. Porque não é porque um sonho não se cumpriu que eu perdi a capacidade de os projectar. Muito pelo contrário.

© [m.m. botelho]

26.8.10

escora

Costuma dizer-se que é nos momentos mais difíceis que ficamos a saber quem são os amigos, quem nos quer bem desde o coração, quem «está» de verdade e quem «só estava por estar». Não é tão frequente dizer-se isto, mas também é uma evidência: é nos momentos mais difíceis que ficamos a saber o quanto nos amamos, aquilo de que somos efectivamente capazes e as forças que realmente temos. Alguns descobrem que é menos do que pensavam, enquanto outros chegam à conclusão de que é mais, muito mais do que sequer imaginavam.

Já o pude constatar mais do que uma vez e, por isso, posso afirmá-lo sem hesitações: sou uma das felizardas que se incluem neste segundo grupo, uma das afortunadas que não só sobrevivem como ficam em pé depois dos terramotos. O que, não sendo absolutamente extraordinário, [me] revela algo maravilhoso e - porque não? - notável: eu é que sou a minha grande escora.

© [m.m. botelho]

eu

[m.m. botelho] || Marta Madalena Botelho
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algumas notas importantes sobre os direitos de autor

» O âmbito do direito de autor e os direitos conexos incidem a sua protecção sobre duas realidades: a tutela das obras e o reconhecimento dos respectivos direitos aos seus autores.
» O direito de autor protege as criações intelectuais do domínio literário, científico e artístico, por qualquer modo exteriorizadas.
» Obras originais são as criações intelectuais do domínio literário, científico e artístico, qualquer que seja o seu género, forma de expressão, mérito, modo de comunicação ou objecto.
» Uma obra encontra-se protegida, logo que é criada e fixada sob qualquer tipo de forma tangível de modo directo ou com a ajuda de uma máquina.
» A protecção das obras não está sujeita a formalização alguma. O direito de autor constitui-se pelo simples facto da criação, independentemente da sua divulgação, publicação, utilização ou registo.
» O titular da obra é, salvo estipulação em contrário, o seu criador.
» A obra não depende do conhecimento pelo público. Ela existe independente da sua divulgação, publicação, utilização ou exploração, apenas se lhe impondo, para beneficiar de protecção, que seja exteriorizada sob qualquer modo.
» O direito de autor pertence ao criador intelectual da obra, salvo disposição expressa em contrário.