20.4.08

carpintaria emocional

A contradição é com a malta apaixonada e eu explico porquê: as pessoas têm a mania de querer relações sólidas como rochas e parceiros maleáveis como argila.

Logo nos primeiros dias do namoro proclamam em altos brados ao mundo, como os adeptos ferrenhos dos clubes de futebol habituados há anos a ficar sempre a poucos pontos do vencedor costumam dizer no início de cada campeonato, que desta vez é que é, que agora é que vão ser elas, que ninguém os pára e aquela é que é a equipa (ou melhor, a parelha) perfeita para vingar os seus intentos. Exaltam todas as características da pessoa amada, algumas até ao ridículo, e mesmo aquilo que é objectivamente negativo ou inestético lhes parece o melhor do mundo e a beleza suprema. Costuma chamar-se a isto «cegueira amorosa», mas é muito mais do que isso: é umbilicalismo puro e duro, disfarçado de paixão assolapada. Senão, vejamos: o outro é perfeito para mim e eu sou perfeita para ele; o meu feitio “encaixa” no dele e o dele no meu; a relação só tem futuro e só vai ser o máximo porque se deu o cruzamento destas duas específicas almas; em suma, eu é que realço em ti o melhor que tu tens e se não fosse eu tu eras apenas mais um entre a multidão. Palavra de honra que é assim mesmo, sem tirar nem pôr. E se são precisos exemplos concretos, eu dou.

Voltando à argila: a primeira tentação do amante é, mal tem espaço para isso, a de começar, pouco a pouco, qual artesão perante uma massa de barro disforme, a esculpir, ou seja, a alterar os hábitos e as características do ser amado. Isto tudo, é claro, sob a capa da eloquente expressão «é preciso limar arestas». Todos os namorados sabem que «é sempre preciso limar arestas» no início das relações. O que a grande maioria não sabe são duas coisas: primeiro, o que deve entender-se por «arestas»; segundo, como é que elas se «limam». A metáfora, portanto, conduz aos maiores equívocos e à gloriosa tarefa do atrevimento pelos meandros da difícil arte da carpintaria emocional. É obra!

De plaina em punho, começa-se por ir arrancando pequenas lascas ao objecto da nossa afeição: aqui e ali, uma sugestão sobre a roupa que usa, sobre as expressões que emprega, sobre as amigas e os amigos com quem sai, sobre o número (sempre excessivo) de cigarros que fuma ou de copos que bebe, sobre o modo (sempre fascinado) como olha para as(os) outras(os) e por aí fora. À medida que o tempo vai avançando, sobe paralelamente o grau de exigência: «acho que és (sempre demasiado) assim ou assado», sendo que «assim ou assado» são quase sempre características inerentes à personalidade, características essas às quais, também quase sempre, se achava imensa graça e perante as quais se ficava embevecido há uns tempos atrás. Eu já escrevi acima: a contradição é com a malta apaixonada.

O problema, note-se, não é que, com o passar dos dias, a tal «cegueira amorosa» se cure e se passe a ver o outro como ele é, qualidades e defeitos bem expostos e em néon fluorescente a piscar. O problema é que a cura arraste consigo o desejo de moldar o outro, de o mudar para aquilo que cada um acha que é o melhor para si e que, por isso, também só pode ser o melhor para o outro. É que a maior parte das vezes não é. Aliás, atrevo-me mesmo a dizer que quase nunca é.

Uma coisa é pedir encarecidamente que se corrijam alguns hábitos que torram a paciência de qualquer mortal, que aborrecem até a mais bem-disposta das criaturas e perturbam sobremaneira a vida a dois: deixar os jornais espalhados pela casa, pousar a toalha molhada em cima da cama, não virar a roupa pelo avesso antes de pôr na máquina de lavar ou nunca despejar os cinzeiros. Outra coisa, bem diversa, é querer que ela ou ele deixem de rir como riem, de reagir como reagem, de sentir como sentem, de se expressarem como se expressam, de gostarem do que gostam ou de fazerem aquilo que os faz felizes, ou seja, em síntese, que deixem de ser como são, que deixem de ser como já eram quando nos apaixonámos perdidamente. Que se limem algumas arestas, dando uma de carpinteiro improvisado com curso profissional tirado à pressão da paixão, ainda vá que não vá. Tentar fazer o outro à nossa imagem, apertando-o entre as mãos para lhe dar forma, cortando aqui e colando acolá, é que já me parece um bocadinho demais.

[Nota importante e para que não haja qualquer equívoco quanto a isso: este texto não contém qualquer mensagem subliminar para a minha cara-metade.]
[Também publicado em PNETcrónicas.]

© Marta Madalena Botelho

15.4.08

caramel

caramel | nadina labaki | 2007 | 15.04.2008

13.4.08

um lugar vazio à mesa

Na penúltima crónica falei da morte. Na última, invocando imagens ao acaso, abordei a solidão. Esta semana, em jeito de encerramento de uma improvável trilogia, dedico um texto ao silêncio, possível denominador comum daquelas duas temáticas.

O silêncio imposto é filho do isolamento, do marasmo e da quietude. O silêncio desejado, por sua vez, é sereno, plácido e seguro. A morte e a solidão trazem consigo, quase sempre, aquele primeiro e ele é, quase sempre, insuportável.

A sabedoria popular proclama em adágio que «a palavra é de prata e o silêncio é de ouro», mas quem vive um quotidiano inteiramente mudo da expressão de afectos e de emoções alheias sabe bem que nem sempre é assim. Às vezes, o silêncio cola-se às paredes das casas e torna-as demasiado espessas, maciças e intransponíveis. Encostando o ouvido à cal percebe-se que dali nada sai senão frio. Paredes caladas são paredes opacas, simples tijolo e betão, meras divisórias.

Lidei com a morte de perto apenas uma vez e ainda há relativamente pouco tempo. Este «relativamente» não podia caber melhor: no que tange à morte, cada um de nós tem «o seu tempo» e podem ter de passar muitos anos – ou mesmo todos os anos – até que a saudade seja pacífica dentro de cada um. Em mim, vai sendo todos os dias um pouco mais, mas ainda não integralmente (não sei se alguma vez inteiramente).

Apanhada de surpresa pelo repentino sucedido, não quis outra coisa senão o profundo silêncio, senão que me cobrisse o peso da ausência de tudo e, todavia, dentro do peito não tinha mais do que brados ensurdecedores e atordoantes que nunca chegaram a sair de lá. Lentamente, esses gritos foram sendo absorvidos pelo suceder dos dias, a dádiva mais preciosa em situações de dor aflitiva.

Passados quase dois anos, confesso que ainda não consegui ordenar ao meu coração que deixe de sentir a falta que me faz o barulho das chaves do meu Avô de cada vez que ouço a porta de casa de minha Avó bater. Confesso que ainda não consegui deixar de ouvir dentro de mim as expressões que ele (e só ele), a par e passo, utilizava. Confesso que ainda não me habituei à ideia de (já) não ter o assobio dele a pincelar-me as tardes de alegria. Passados dois anos, confesso que o que me traz maior nostalgia a reboque do desaparecimento do meu Avô é o silêncio.

O silêncio que, desde então, impregnou a casa da minha avó faz-nos sentir a todos os que lá vamos mais sozinhos e menos entusiastas. Não que a casa se tenha tornado oca, não. Por lá se ri, cavaqueia, vive, mas, de certa forma e quase sem que se dê conta, um pouco mais contidamente. Diz-me quem sabe o que isto é que é assim um pouco por todas as casas em que, um dia, um dos lugares da mesa fica vazio.

O silêncio faz parte da vida tanto quanto a palavra, tanto quanto o riso, tanto quanto o simples som. Bastas vezes é de ouro, mas outras tantas é de prata. Sem querer tirar brilhantismo aos Depeche Mode quando cantam «words are very unnecessary, they can only do harm», remato dizendo que há situações em que uma palavra pode fazer toda a diferença. Para melhor, claro. E essa palavra nem sequer tem de ser muito rebuscada, muito reflectida, muito a propósito. Basta que nos fique na memória e possa preencher o vão de um qualquer dos nossos silêncios indesejados.

Depeche Mode. «Enjoy the silence».
Do álbum «Violator» [1990].


[Também publicado em PNETcrónicas.]

© Marta Madalena Botelho

6.4.08

o frigorífico vazio e o congelador cheio

A solidão é um bilhete de cinema no escuro da minha carteira. A solidão é os auscultadores do meu iPod silenciosos sobre a secretária. A solidão é os meus ténis Nike azuis abandonados na sapateira. A solidão é a minha caneca do pequeno-almoço desprotegida na pia da loiça. A solidão é apenas o meu pijama mal dobrado dentro do armário. A solidão é o meu guardanapo isolado na gaveta. A solidão é a minha toalha de banho ser a única na corda a secar. A solidão é a minha escova de dentes desamparada dentro do copo.

A solidão é a minha refeição individual ultracongelada a rodar pacatamente no micro-ondas. A solidão é o comando à distância da televisão a jazer na minha mesa-de-cabeceira. A solidão é a minha chávena de chá muda no reboliço do Majestic. A solidão é as fotografias de paisagens sem gente espalhadas pela casa. A solidão é o grito aprisionado na minha boca quando acaba o papel higiénico. A solidão é ter trinta e cinco canais de televisão e todos quererem ver o mesmo. A solidão é ter de voltar ao supermercado para trazer todas as compras. A solidão é, simplesmente, não precisar de lista de compras. A solidão é saber sempre quem vai pôr o lixo à rua. A solidão é não ter de perguntar à voz do outro lado da linha com quem deseja falar.

A solidão é ter de sair do banho meio ensaboada, a tiritar de frio, para ver se o gás acabou. A solidão é o meu frasco de perfume quieto a encher a prateleira. A solidão é saber que terei de ir bater à porta do vizinho da frente se receber uma carta endereçada a outra pessoa. A solidão é a certeza de que o dispendioso chinelo que o cão está a roer é meu. A solidão é ter de preparar a minha sopa mesmo quando estou doente. A solidão é ter pagar sempre tudo mais caro só para poder comprar embalagens pequenas. A solidão é comer ovos mexidos três vezes por semana. A solidão é uma segunda almofada na minha cama somente para decoração. A solidão é sair de casa com os cabelos despenteados e só me aperceber disso quando chego ao trabalho. A solidão é acordar todos os dias monotonamente com o despertador.

A solidão é não abrir a boca para te falar. A solidão é a minha mão longe da tua. A solidão é o meu nome desemparelhado do teu. A solidão é o ar frio que entra pela porta quando tu sais.

[Também publicado em PNETcrónicas.]

© Marta Madalena Botelho

1.4.08

vinte e oito

© [m.m. botelho] | porto | abril de 2008

30.3.08

o espectáculo da vida de cada um

A morte senta-se sempre na primeira fila. Imóvel, impassível, impenetrável. Não cheira a nada e, no entanto, é como se lhe sentíssemos o odor a cada inspiração; não tem sabor, mas é como se lhe provássemos o gosto a cada garfada; não tem rosto, mas é como se a víssemos em todas as esquinas que dobramos. Está sentada na primeira fila, assistindo ao espectáculo da vida de cada um de nós. Em silêncio, presencia cada acontecimento marcante, cada grito, cada choro, cada beijo, cada gargalhada, todos os abraços que damos e todos os palavrões que dizemos. Vê-nos dormir, acordar, trabalhar, amar e odiar com a cumplicidade dos grandes amigos, dos grandes amores, da família mais próxima.

Desde a infância até à velhice, a percepção e a certeza da morte são companheiras permanentes de caminho. Sabemos que, mais cedo ou mais tarde, mas inevitavelmente, o confronto sucederá: infalível, inelutável, irrepetível.

Morrer pode ser libertador ou penalizador, dependendo daquilo que já fizemos e do que ainda queremos fazer e, é claro, da qualidade de vida ou falta dela. A consciência da morte apressa-nos, faz-nos sôfregos de ser e estar, empurra-nos para o vórtice das sensações e das emoções, conduz-nos ao excesso e ao desvario. Por outro lado, incute-nos o desejo de realização pessoal, de superação contínua e máxima, faz-nos ultrapassar limites, traçar alargados objectivos, progredir, desejar aproveitar do melhor modo possível cada minuto que passa.

A noção da finitude da vida, qual espada de Dâmocles que pende sobre todas as cabeças, pode surtir em nós os melhores ou os piores efeitos, dar-nos a melhor ou a pior perspectiva das coisas, ser factor de felicidade ou de desespero. Estar consciente de que se vai morrer e ter de ficar à espera que a morte venha ter connosco pode, contudo, ser angustiante. E, até, em certa medida, injusto.

Viver não deveria, nunca, ser uma obrigação, nem uma imposição de regimes políticos, religiões, concepções morais e/ou éticas. Morrer também não. Vida e morte não são valores absolutos, mas circunstâncias que dependem, as mais das vezes, do imprevisto (por acaso, ainda estou viva para escrever esta crónica, mas não sei se, igualmente por acaso, não estarei morta para a semana, mesmo a tempo de não escrever a próxima). Uma autêntica roleta russa, esta coisa da sucessão dos dias. Ora (ainda) se é, ora (já) não se é.

De cada vez que lançamos o olhar para o público, lá está ela. A morte continua ali, sentada na primeira fila, assistindo ao desenrolar dos nossos dias. Se não foi convidada por ninguém, então, certamente, pagou o justo preço do bilhete. Não defraudemos, pois, as suas elevadas expectativas. Até ao cair do pano, o espectáculo deve continuar e, no final, ouvir-se o som dos aplausos. Coloquemos a persona e prossigamos com a representação. A vida, afinal, é muito (d)isso.

[Também publicado em PNETcrónicas.]

© Marta Madalena Botelho

25.3.08

atonement [expiação]

atonement | joe wright | 2007 | 25.03.2008

23.3.08

encontros acidentais

Não soubesse eu ver-te tão transparente
E teria sido apenas
Um encontro acidental
Uma simples vertigem
Dum desporto radical


Carlos Tê, Competência Para Amar

A maior parte das pessoas que acabam por fazer parte da nossa vida entram-nos pela porta dentro sem que dêmos conta. Os dias sucedem-se e, com eles, mais ou menos encontros, quase sempre acidentais. Os grandes amigos, aqueles que guardamos no peito, que resguardamos como peças preciosas ou jardins ocultos onde só nós queremos ser senhores do privilégio de entrada, vieram até nós, as mais das vezes, trazidos pelas vagas do acaso. Os cenários são do mais improvável que a imaginação humana consegue idealizar: mesas de café, semáforos fechados, manifestações de protesto, encontrões em passeios apinhados, aulas absolutamente desinteressantes, casamentos de família e – porque não? – a Internet. E eis senão quando a ponte está lançada, o novelo de lã atirado para o lado de lá e as conversas vão fluindo naturalmente como um longo cachecol que um dia, predizemos, haveremos de usar quando o Inverno for rigoroso cá para os lados da Península Ibérica.

Os encontros acidentais costumam produzir melhores efeitos do que os pormenorizadamente preparados. A quem é que nunca sucedeu conhecer uma pessoa especialíssima – viríamos a descobri-lo mais tarde – num «bad hair day» ou naquele exacto dia em que o almoço deixou como vestígio inocultável uma gigantesca nódoa de vinho na camisa? E, ainda assim, foi precisamente porque tínhamos os cabelos em desalinho ou parecíamos crianças de cinco anos a quem a mãe se esqueceu de pôr o babete que essa pessoa fixou os olhos em nós, nos sorriu e, solícita, se propôs resgatar-nos às gargalhadas mundanas que destruiriam para sempre o nosso ego, convidando-nos para bebermos um copo mais logo, depois do jantar. E depois do copo, novamente, a história do novelo de lã e do cachecol.

As amizades especiais nascem, inúmeras vezes, assim, de encontros acidentais que não esperávamos, nos quais não acreditávamos e que jurávamos a pés juntos serem coisa de argumento "hollywoodesco" ou telenovela da tarde. A verdade é que a vida é, frequentemente, assim mesmo, um guião que não lemos, uma prova para a qual não estávamos preparados, um imenso ponto de interrogação diante dos olhos para o qual não temos resposta porque nem sequer estamos certos de que percebemos bem a pergunta. E, às vezes, com a dose exacta de fortuna e, quem sabe, a conjugação certa de algo que nem sabemos que existe, os resultados são os melhores. Resta a cada um de nós, felizes destinatários da oportunidade que o imprevisto nos deu, fazer bom uso disso.

[Também publicado em PNETcrónicas.]

© Marta Madalena Botelho

a ponta do icebergue

Nem de propósito. Há quem lhe chame ironia do destino, há quem lhe chame acaso, eu chamo-lhe a ponta do icebergue. Apenas uma ponta de um gigantesco icebergue que ainda ninguém sabe muito bem que dimensões terá, mas que todos imaginamos sejam enormes. Perante o vídeo publicitado esta semana no You Tube, no qual uma aluna da Escola Carolina Michaëlis, no Porto, agride uma professora que tentava privá-la do telemóvel – certamente não porque a aluna estivesse a fazer dele um bom uso, se é que há algum bom uso que possa fazer-se de um telemóvel numa sala de aula – um país inteiro fica de boca aberta. Como se fosse de espantar que, no actual estado das coisas, episódios daquela natureza aconteçam.

Já todos percebemos que existe um problema de ausências nas escolas portuguesas, mas também já todos percebemos que essas ausências não nascem nas escolas: são trazidas para as escolas. Onde nascem, então? Em casa, obviamente. Em casa, na família – quando a há –, no carácter de pais e filhos que se deseducam mutuamente.

Portugal é, cada vez mais, um país «sem rei, nem roque», e isto quer nos aspectos estruturantes da nossa sociedade, quer nos mais insignificantes. Na Assembleia da República, por exemplo, o nível do debate parlamentar roça o da estrebaria, com deputados a insultarem-se a torto e a direito, isto quando não é o próprio Primeiro-Ministro que os manda calar. Nas estradas, por tudo e por nada se invoca a pretensa actividade lucrativa de ocupação de tempos livres da progenitora do condutor do carro da frente. Nas repartições públicas, «bom dia» e «obrigada» são expressões que há muito caíram em desuso. Em casa, os pais tratam os filhos como se tivessem a idade deles, a maturidade deles, as responsabilidades deles. Não é de estranhar, portanto, que depois, nas escolas, os alunos revelem todo o esplendor da sua impertinência perante os professores e os funcionários.

Confesso que o que me incomoda sobremaneira no sucedido na escola Carolina Michaëlis é o tom de voz da aluna quando se dirige à professora. Ela já não fala, ela grita estridentemente. Abre a goela e exige da professora que lhe devolva o telemóvel. Ou seja, demonstra, sem margem para dúvidas, que não pretende acatar a indicação da professora e que se acha no direito de a confrontar aos berros. Depois, perturba-me a passividade dos colegas de turma. Todos eles parecem achar o cenário relativamente "normal" e, por isso, não reagem, a não ser quando a situação começa a atingir contornos mais sérios. Até lá, apenas se ouvem gargalhadas e o pedido do "operador de câmara" para que não lhe estraguem o "filme". Por último, atordoa-me a calma – temperada, todavia, com evidente determinação e firmeza – da professora para lidar com aquela criatura que a agarra, a ensurdece e a impede de sair da sala. Tudo isto, reafirmo, me deixa atónita, mesmo a mim, que tenho plena consciência de que a única diferença entre este acontecimento e o dia-a-dia em muitas escolas portuguesas é que este foi filmado e veio aterrar na internet.

Já não dou por mim a perguntar onde é que isto vai parar, mas sim se isto irá mesmo, algum dia, parar. De que é apenas a ponta do icebergue, ninguém duvida. Mas o que faremos quando o icebergue estiver totalmente à vista e formos absolutamente incapazes de lidar com ele? Que faremos quando o icebergue afundar todos os nossos navios, derrubar toda a nossa tripulação e nos impedir de chegar a qualquer destino? Então, parece-me, estaremos definitivamente comprometidos com o fracasso, definitivamente náufragos da inércia de um país inteiro boquiaberto perante o seu próprio espectáculo de horror.

[Também publicado em PNETcrónicas.]

© Marta Madalena Botelho

20.3.08

museu nacional de arte antiga

museu nacional de arte antiga | lisboa | 20.03.2008

Nesta tarde, vimos a exposição temporária, desenhos de Albrecht Dürer sobre a vida de Nossa Senhora, e revimos algumas obras das exposições permanentes. Bebemos café lá em baixo. É sempre muito bom voltar a estes jardins cheios de gente de pedra e de estátuas de carne viva.

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