14.7.08

sex and the city [o sexo e a cidade]

sex and the city | michael patrick king | 2008 | 14.07.2008

13.7.08

uma, duas, três fatias de bolo de chocolate

- Mas afinal de contas, vais ou não vais acabar de comer essa fatia de bolo? – perguntou-lhe ela.

- Não. Acho que não. Perdi o apetite.

- Bom, então se não a acabas, acabo-a eu. Posso, não posso?


Ele nem teve tempo de responder. Ela esticou o braço e tirou-lhe o prato da frente. Ele ficou estarrecido, mirando-a. Deixou cair os olhos no garfo a entrar-lhe pela boca dentro, os lábios muito vermelhos a apertarem o pedaço da fatia de bolo de chocolate, a saliva a envolver tudo num imenso bolo que os dentes trituravam implacavelmente.

Enquanto comia os restos da fatia dele – a bem dizer, a fatia quase toda – ia repetindo muitas vezes que não era bem como as pessoas diziam, que «quem conta um ponto acrescenta um conto» e «as pessoas têm a mania de de um dedinho fazerem um braço inteiro».

- Quem conta um conto acrescenta um ponto. – disse ele com paciência.

- Pois, isso já eu disse. Tenho razão, não tenho?

E metia outra garfada à boca, continuando a vociferar como se naquela esplanada só estivessem eles e ninguém lhes ouvisse a conversa.

- O que tu disseste foi «quem conta um ponto acrescenta um conto – corrigiu o rapaz.

Ela parou, estarrecida. Esbugalhou muito os olhos e fitou-o como se o fulminasse. Abanou a cabeça, agitando os caracóis de um lado para o outro e literalmente aos gritos perguntou-lhe se estava a gozar com ela.

Naquele momento, eu levantei a cabeça e desenterrei os olhos do jornal. Ela segurava o garfo na mão direita e com os dedos gordos da mão esquerda apertava exageradamente o guardanapo. Tinha os lábios brilhantes da manteiga do bolo, quase tão brilhantes como os caracóis do cabelo oleoso debaixo da claridade do sol. Voltou a perguntar-lhe aos brados se ele estava a gozar com ela e levantou-se da cadeira. Eu senti a plataforma de madeira da esplanada estremecer e vi as ripas de madeira baloiçarem debaixo dos pés daquela criatura imponente e ameaçadora. A água tónica do meu copo entornou ligeiramente e, de repente, eu achei que aquilo já era um bocadinho demais.

Foi então que ele balbuciou um tímido «não, mas é claro que não, meu amor» e, levantando-se, lhe foi amparar o braço, lhe tirou a custo o guardanapo de entre os dedos e lhe pediu que se sentasse, que a exaltação não lhe fazia bem aos nervos, que ainda lhe dava «uma coisinha» e que ele não tinha trazido o carro para o caso de «haver novidade».

Ela afastou os caracóis da frente dos olhos, sentou-se, aproximou a cadeira da mesa, suspirou alto, pegou no garfo e partiu mais um pedaço de bolo de chocolate que meteu na boca.

A fatia sumiu em menos de nada. Ele perguntou-lhe se queria outro sumo de laranja natural, sem gelo «por causa da garganta», mas ela disse que sumo não queria, só se fosse outra fatia de bolo. Ele fez imediatamente sinal ao empregado e pediu «outra fatia de bolo para a menina». Entre sorrisos, ele lá se atreveu a dizer -lhe que tinha um bocadinho de bolo no canto da boca. Eu temi a reacção dela, mas enganei-me. Ela lambuzou-se toda e lá deu com o pedacinho de chocolate. Mal o empregado pousou o prato na mesa, comeu a terceira fatia de bolo de chocolate como se antes nada tivesse acontecido. Depois levantaram-se ambos e fizeram-se ao caminho.

Eles ainda não iam longe quando o senhor de idade sentado na mesa ao lado da minha se inclinou na minha direcção e me disse que antes de chegar eu perdera uma belíssima história em que ela lhe contava como a melhor amiga tinha sido abandonada no altar pelo noivo. Antes que ele se pusesse com ideias, ela ameaçara-o dizendo que se alguma vez ela sequer sonhasse que isso já lhe tinha passado pela cabeça, seria melhor ele fugir do país porque, caso o encontrasse, ela trataria de o matar. Temendo pela vida, o rapaz tinha tentado aplacar a ira da namorada pedindo duas fatias de bolo de chocolate, mas não fora capaz de tocar na dele. Tentando agradar-lhe começou a tecer brilhantes considerações sobre as manchas para a honra e reputação que do gesto inqualificável do noivo fujão adviriam para a infeliz jovem. Pelos vistos, exagerou de tal forma que até ela achava que «o povo não era assim tão mau». O resto já eu presenciei.

Por fim, fiquei ainda a saber que aquelas duas singulares criaturas são presença habitual na casa e que, à boca pequena, todos comentam que é graças à necessidade de aplacar os maus fígados dela que, naquela confeitaria, raramente sobra algum bolo de chocolate.

[Também publicado em PNETmulher.]

© Marta Madalena Botelho

6.7.08

a crise económica, as prioridades e o meu subconsciente avarento

Nos últimos tempos tenho sido inúmeras vezes contactada pela Portugal Telecom com o intuito de me convencerem a aderir ao Meo. Já perdi a conta às vezes em que simpáticas senhoras com vozes mais ou menos agradáveis começam a debitar sempre a mesma conversa. Eu confesso que tenho imenso respeito por todo o tipo de trabalhos e ocupações e considero todas as profissões igualmente nobres e necessárias à vida em sociedade, mas só mesmo por isso é que continuo a atender o telefone e a permitir que me roubem aos dez minutos de cada vez. É que dez minutos podem até parecer quase nada em circunstâncias normais, mas pode ser imenso tempo quando há muitas coisas para fazer. Ora, regra geral, as circunstâncias em que as queridas operadoras da PT me pedem que lhes conceda dez minutos são precisamente aquelas em que não me dava jeitinho nenhum conceder-lhos. Sucede que, mercê do meu já referido respeito por todas as funções que permitem ganhar dinheiro de forma honesta, quase nunca consigo dizer-lhes que não e acabo mesmo por gramar com o paleio todo que já sei de cor e salteado.

A minha resposta é sempre a mesma: «muito obrigada, mas não estou interessada». As operadoras, invariavelmente, ficam destroçadas perante a negativa, mas lá acabam por, resignadas, aceitar o meu «não». E depois perguntam se podem perguntar porquê. E eu lá lhes dou a tal resposta que as faz sempre soltar uma gargalhada meio incontrolável, meio tímida, mas sempre suficientemente sonora para chegar ao meu lado da linha. O motivo pelo qual eu não estou interessada em aderir ao Meo, nem agora nem durante os próximos tempos, é simples: eu não tenho televisão em casa.

Não vejo onde esteja o extraordinário deste facto. Há pessoas que não têm carro, outras não têm telemóvel, outras não têm computador. Eu tenho tudo isso, só não tenho televisão. A bem da verdade, até tenho. A coitada viveu longos anos ao serviço da família que, diga-se de passagem, nunca lhe deu muito que fazer. Sendo objecto não muito usado, ninguém dela sentiu muita falta quando eu, chegada a hora de viver sozinha, perguntei se a podia "herdar" antecipadamente. Sem objecções, lá a trouxe e pus no móvel da sala, previamente concebido à sua exacta medida.

A televisão ainda funcionou um par de meses sem dar sinal de padecer de qualquer maleita. Mas as televisões, tal como os robots de cozinha, os relógios de pulso, as colheres-de-pau e o ser humano, têm um ciclo de vida. Esta não foi excepção. Numa noite de Inverno, recusou-se a transmitir o Jornal das 22h da RTP2. «Que raio», pensei eu. A luz vermelha do stand-by estava lá, mas não havia meio de transmitir imagem ou som. Aproximei o ouvido do ecrã e pude ouvir um estalido de cada vez que carregava no botão do telecomando. Era como se aquela pesada televisão me estivesse a dizer que já não tinha forças para mais e me suplicasse que, ao fim de tantos, a deixasse finalmente repousar em paz. Eu deixei.

Ainda não comprei uma televisão nova e não creio que o venha a fazer tão cedo. Do mesmo modo que nos habituamos a ligá-las quando chegamos a casa, também nos habituamos a viver sem elas. Além disso, tenho incontáveis outros destinos a dar ao meu dinheiro, os quais considero bem mais prioritários do que um televisor. Por causa da minha televisão avariada, descobri que também tenho um lado somítico que me impede de investir um pequeno balúrdio em tal objecto. Cheguei à conclusão de que pagaria mais depressa €100,00 por um frigideira anti-aderente da treta do que €200,00 por um televisor com as funções básicas (exemplo que não é de todo inocente, pois aconteceu mesmo).

Talvez esta minha recusa em substituir a minha velha televisão avariada por um destes moderníssimos ecrãs de não sei quantas polegadas seja um reflexo da crise económica que grassa pelo país fora. Talvez não o faça porque o meu subconsciente ainda acalenta a esperança de que ela um dia se decida a voltar a funcionar, tão inesperadamente como se decidiu a não o fazer. Ou talvez eu só esteja mesmo a alcançar plenamente um estádio em que a caixinha que mudou o mundo se tornou para mim um objecto dispensável. O verdadeiro motivo, ainda não o descortinei. Soubesse-o eu e di-lo-ia às prestáveis operadoras da PT que bem se esforçam por me impingir o Meo que, como está bom de ver, não teria qualquer utilidade para mim. Soubessem-no elas e talvez desistissem de me telefonar tanto. É que um dia destes, nunca se sabe, depois de tanto uso, o telefone lembra-se de se desligar para sempre e, isso sim, seria um belo «trinta e um». Não sei porquê, mas tenho cá a ligeira sensação de que eu era menina para não comprar mais nenhum.

[Também publicado em PNETmulher]

© Marta Madalena Botelho

29.6.08

miradouro de santa luzia

miradouro de santa luzia | lisboa | 29.06.2008

Junto à Sé. Lisboa, ao fim da tarde, descansa por detrás das janelas decoradas com pequeninas jarras de flores e cortinados de crochet. Os gatos vêm espreguiçar-se aos parapeitos e espreitam quem passa. Percorremos a pé as ruas enquanto nos deixamos inebriar pela luz ainda tímida dos candeeiros. Apenas meia dúzia de pessoas se cruza connosco. São horas. Lisboa janta e nós sentamo-nos à mesa com ela.

© [m.m. botelho]

direitos "deles", deveres de todos

O tema foi lançado por Paulo Simões Mendes no PnetHomem. Uns dias depois, transitou para o PnetMulher pela mão de Paula Capaz. Se me dão licença, agora sou eu quem vai meter a colherada.

Felizmente, entre todos os colaboradores dos referidos sites impera a liberdade de opinião, de expressão, de comentário e, obviamente, de discordância. Delas pretendo fazer uso. Contudo, limitar-me-ei a fazê-lo na estrita medida em que sirvam para expressar a minha opinião em relação a este assunto que, penso, diz respeito a todos aqueles que se preocupam com os direitos das pessoas, de todas as pessoas.

Li atentamente os textos de ambos os distintos cronistas. Com o devido respeito, considero que o raciocínio expresso por Paula Capaz no seu texto «Desfiles e paradas» parte de vários pressupostos que estão errados, o mesmo se aplicando a alguns comentários que foram feitos quer a essa crónica, quer à crónica de Paulo Simões Mendes. Seguem as razões porque assim considero (em articulado, por defeito de profissão mas, acima de tudo, por facilidade de exposição).

1. Escreve Paula Capaz: «Que eu saiba, ser hetero ou gay, não é um direito, não se adquire nem se escolhe (...). Reclamar o direito a ser gay é uma redundância.». Ora, sucede que as marchas LGBT não têm como objectivo reclamar "o direito a ser gay". Eu confesso que nunca ouvi fosse quem fosse reclamar para si esse direito em lado nenhum. Ao contrário, para mim é clara a ideia de que as marchas LGBT são acções de protesto públicas, nas quais as pessoas (de todas as orientações sexuais) que nela participam reclamam o direito que os cidadãos LGBT têm a receber, por parte do Estado e da Lei, o mesmo tratamento (o que é dizer, os mesmos direitos) que tem qualquer cidadão que não seja LGBT. Ou seja, nas marchas LGBT reivindica-se o fim de todos os actos que estabeleçam diferenças entre os cidadãos com o fundamento único da sua orientação sexual.

2. O que as pessoas reclamam, portanto, é o direito a serem tratadas pela Lei, pelo Estado e pelos outros em condições de igualdade com os outros cidadãos, o que, como toda a gente sabe, não acontece a muitos níveis. São precisos exemplos? Eu dou alguns. Os cidadãos homossexuais não podem casar com a pessoa que amam, o que tem implicações a vários níveis: o parceiro nunca será herdeiro legítimo nas mesmas condições dos cônjuges, um parceiro não pode visitar o outro no hospital nas mesmas condições dos cônjuges, os casais de pessoas homossexuais não podem usufruir da aplicação do coeficiente conjugal em matéria de impostos, nem no que toca aos empréstimos bancários. Além disso, os parceiros homossexuais não podem fazer seguros de saúde familiares porque o Estado diz que eles não são uma família. Os casais constituídos por pessoas do mesmo sexo não podem adoptar. Do mesmo modo, não são beneficiários da procriação medicamente assistida. Uma mulher lésbica também não. E todas estas diferenças têm como único fundamento o quê? A orientação sexual dessas pessoas, ou melhor, o facto de elas não serem heterossexuais, o que é ainda mais esclarecedor. Serão precisos mais exemplos?

3. É muitíssimo recorrente este argumento que também Paula Capaz invoca no seu texto e que cito: «(...) uma parada gay assume uma forma carnavalesca e pouco digna quando pretende a demonstração da intimidade». Mas, então, cabe perguntar: acaso os afectos têm apenas uma dimensão interior, entre as quatro paredes de uma casa ou de um quarto? Os afectos não são, também eles, uma dimensão da existência das pessoas? Não têm, portanto, prospecção pública e social? As pessoas não se beijam e abraçam em público, não passeiam de mãos dadas, não usam alianças nos dedos, não apresentam o parceiro como "meu marido" e "minha mulher", não se comportam socialmente como um casal? A ideia de que a sexualidade do ser humano só se vive na intimidade é redutora e perniciosa. O casamento, por exemplo, é uma das manifestações legislativas, religiosas e sociais da sexualidade das pessoas – senão, mesmo, a mais expressiva –, e ninguém poderá negar isso. Por que razão, então, quando se fala em homo ou bissexualidade, se invoca que “isso” é para ser vivido na intimidade?

4. Quanto ao último parágrafo da crónica, no qual Paula Capaz escreve «Daí a minha indignação, repito, quando vejo alguns gays fazerem questão de falar de um assunto que nem devia ser objecto de discussão, um assunto tão natural quanto sair à noite para jantar fora», apenas dois apontamentos. O primeiro para dizer que concordo que ser homossexual, tal como ter olhos verdes, não se discute. Contudo, não creio que o assunto de que se fala seja o ser-se homossexual. Discute-se – e isso sim, é altamente discutível – é que alguém veja serem-lhe negados direitos apenas (e sublinho o apenas) porque é homossexual. O segundo apontamento versa a comparação invocada na crónica, pois não vislumbro o que tenha que ver «a bota com a perdigota». Talvez ninguém discuta jantares fora de casa porque, por exemplo, ninguém utiliza epítetos "simpáticos" como "paneleiro", "fressureira" ou "rabeta" para designar as pessoas que jantam fora de casa. Já para se referir os homossexuais... E "anedotas" sobre gente que janta no restaurante, alguém conhece? É que sobre homossexuais eu já ouvi um par delas. Talvez não seja por acaso que nunca em Portugal houve uma manifestação da extrema-direita contra as pessoas que jantam fora de casa, mas já houve pelo menos uma contra as pessoas homossexuais. Tudo isto para dizer que os assuntos não são comparáveis e compará-los, para além de parecer ingénuo, é reduzir ambos os temas ao âmbito do corriqueiro, quando não o são. Talvez jantar fora até seja algo trivial, mas, o que afecta diariamente a vida das pessoas não deve ser, não pode ser.

5. Por último, uma referência ao terceiro parágrafo do texto em causa. Diz Paula Capaz: «Percebo que se grite contra uma injustiça social, que se desça a avenida porque os salários são de miséria, que se faça greve porque não há pagamentos, que se use o luto porque somos escravizados, enfim, que se reclamem os direitos que nos são negados.». Então, pergunto: se «percebe» que se reclamem direitos que são negados seja por que meio for (e cito: «que se grite», «que se desça a avenida», «que se faça greve», «que se use o luto»), porque é que não é capaz de perceber que os homossexuais «gritem», «desçam a avenida» e, se preciso for, «usem o luto» se a Lei, o Estado e os outros, todos os dias, lhes negam direitos? Onde está a diferença, por exemplo, entre os professores, os estudantes universitários, os sindicalistas, os que passam recibo verde, os polícias e os LGBT quando descem avenidas empunhando cartazes, gritando palavras de ordem, desfilando com faixas e entoando slogans? Não estão todos eles a lutar pelos seus direitos? Não estão todos eles a defender aquilo em que acreditam? Não estão todos eles a mostrar ao Governo, ao País e ao Mundo que existem e que merecem respeito por parte de toda a gente? Não estão todos eles a fazer valer direitos das pessoas?

6. Em suma e concluindo: quer se trate de professores ou de LGBT, de maiorias ou de minorias, de marchas em luto ou envoltas em cores alegres e garridas, trata-se, em primeira instância, de pessoas, de direitos e da defesa da dignidade humana. Marchas de orgulho LGBT são, portanto, marchas de orgulho humano e, consequentemente, um assunto que diz respeito a toda a gente, sem excepção. A sua existência faz e fará todo o sentido enquanto essas pessoas, esses direitos e essa dignidade não forem integralmente respeitados.


[Também publicado em PNETmulher.]

© Marta Madalena Botelho

26.6.08

diane cluck

diane cluck | mercado negro | aveiro | 26.06.2008

«I like to walk beside you
y're so easy to be around
it's like I'm not even walking beside you
we are rolling along the ground
one shadow made of mercury
we were two till we melted down
now y're easy to be around.»

23.6.08

francisco





© [m.m. botelho] | francisco | 23.06.2008 | 1 dia ainda não completo de vida

22.6.08

a maior e melhor de todas surpresas

Francisco. Hoje. Sem ninguém contar. A maior e melhor de todas surpresas. Sei que terás uma vida boa e bonita. Sei que viverás rodeado de mimos. Sei que serás muito feliz. E sei que és um ser maravilhoso, a quem eu amo com todo o meu coração.

© [m.m. botelho]

órbita cemitério

«A 36000 quilómetros da Terra» – leu – «encontra-se uma órbita geoestacionária, fixa à atmosfera porque se move à mesma velocidade da Terra: a Órbita Cemitério, que é como se denomina aquela para onde são enviados os satélites quando perdem a sua vida útil. Todos os satélites dispõem de uma energia de reserva, de modo que, se ocorrer algum problema, este último combustível remanescente será aproveitado para os enviar para essa órbita, onde ficarão fixos no espaço sem necessidade de qualquer motor para os manter na sua posição». Ou seja, para nos entendermos, os pobres satélites são como elefantes que vão morrer na sua necrópole comum. Se pensarmos bem, não deixa de ser poético. Vá lá, Bea: uns trastes velhos enormes cuja função principal era a comunicação, mudos, afastados para sempre, rodeados por um exercito de trastes velhos similares que também nunca mais poderão comunicar. Uma loucura, não achas?
Lúcia Etxebarría, Beatriz e os corpos celestes,
4.ª edição, Lisboa, Editorial Notícias, 1998, p. 14.

Fixo-me nesta reflexão de Mónica, a personagem deste extraordinário livro de Lúcia Etxebarría que lê coisas que a sua amiga Bea considera desinteressantes e apelida de «lixo». A existência da «órbita cemitério» torna-se, simultaneamente, tranquilizadora e inquietante. Por um lado, sossega-me saber que, apesar do nome curioso, ela não passa do meio encontrado pela ciência espacial para se livrar dos engenhos inúteis para a função que lhes cabia. Por outro lado, preocupa-me um pouco saber que existem ao redor do nosso planeta artefactos daquela natureza vagueando livremente sem destino nem controle.

Sem que o possa tocar ou sentir, sinto em torno de mim um espaço por onde vagueiam as lembranças de pessoas que outrora fizeram parte da minha vida e que hoje não estão presentes. Quero acreditar que se trata apenas daqueles cuja “função” no meu percurso mudou ou deixou, pura e simplesmente, de fazer sentido. Dentro da memória, tenho centenas e centenas de momentos que subsistem por si só, «sem necessidade de qualquer motor para os manter na sua posição».

Como diz Mónica, não deixa de ser poético. Não deixa de ser poético imaginar que um dia todos nós não passaremos de corpos mudos rodeados de outros tantos corpos mudos, girando à velocidade lenta das horas, para sempre apartados uns dos outros, como se nenhuma importância tivéssemos a não ser para nós mesmos. Afinal, todos nós acabaremos por «morrer» numa «necrópole comum», a da memória de tantos pelas vidas de quem passámos e não ficámos. Provavelmente, porque não tínhamos mesmo de ficar.

Talvez esta mesma dinâmica se aplique a tudo. Talvez tudo seja mesmo temporário, passageiro, cronometradamente estabelecido. Simultaneamente, tranquilizador e inquietante.

Quer se trate de satélites obsoletos ou de pessoas, findo o percurso determinado, a última réstia de forças será sempre destinada a seguir caminho para uma espécie de limbo, situado algures entre o cérebro e o coração, entre a memória e os afectos, entre o que foi e o que já não é nem voltará nunca a ser. Esse limbo, em redor de cada um de nós, onde repousam os restos incomunicáveis de tanto e de tanta gente. Esse limbo, ao qual bem poderíamos chamar «órbita cemitério».

[Também publicado em PNETmulher.]

© Marta Madalena Botelho

15.6.08

pelo preço de um «Boca Doce» e de uma desilusão infantil

Há dias, pus-me a fazer um esforço de memória para chegar a esta conclusão: foi muito pouco o que fui proibida de fazer enquanto vivi sobre a alçada familiar. Ainda passaram uns bons minutos até que eu conseguisse lembrar-me de, pelo menos, uma das poucas coisas que me estavam vedadas.

Recordo-me, por exemplo, que lá em casa não havia lugar para os pudins «Boca Doce». A publicidade que passava na televisão entrava-me todos os dias pelos olhos dentro e quase me fazia salivar só de a ver. Sem nunca o ter provado, eu imaginava como seria aquele sabor que andava nas bocas d(e todo)o mundo. Confesso que me fascinava de modo muito especial o pudim de chocolate, não por ser de chocolate – substância da qual não sou grande apreciadora –, mas pela cor e pela textura e, acima de tudo, pelo brilho com que tremelicava em cima do prato.

Um dia, lá tive o atrevimento de pedir que comprassem um pudim «Boca Doce». A minha mãe, que não tinha por hábito negar os meus pedidos só por negar, assegurou-me que eu não haveria de apreciar do sabor, já que aqueles pudins não eram como os que eu estava acostumada a comer. Depois, pacientemente, explicou-me que os ingredientes utilizados para fazer estes pudins eram em pó e não como os que eu via serem misturados nas bacias lá de casa. Eu repliquei que isso já eu sabia, mas não fazia mal. Eu desconhecia por completo o sabor daqueles pudins «da televisão» e começava a ser uma questão de vida ou morte sair daquele estado de ignorância absoluta. Perante a minha insistência, a minha mãe achou que comer umas colheradas de «Boca Doce» ao menos uma vez, nem que fosse só para provar, não haveria de trazer grande mal ao mundo.

E não trouxe. Provei o pudim, mas fiquei-me por aí. Depressa percebi que aquela massa gelatinosa opaca não era parente, nem sequer afastada, dos pudins que eu tinha comido até então. E nem o facto de se tratar do tão desejado pudim de chocolate fez qualquer diferença na apreciação final: um horror. O resto do «Boca Doce» lá ficou, debaixo de uma campânula de vidro, votado à minha total indiferença.

A partir daquele dia, o anúncio publicitário tornou-se cada vez menos fascinante: os pudins tinham uma cor menos bonita, uma textura menos atractiva e o brilho com que tremelicavam em cima do prato desapareceu, até que os «Boca Doce» acabaram por ficar completamente baços e desinteressantes.

E foi assim que, pelo preço de um «Boca Doce» e de uma desilusão infantil, fiquei a saber que o fruto proibido pode até ser o mais apetecido, mas quase nunca é o melhor.

[Também publicado em PNETmulher.]

© Marta Madalena Botelho

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algumas notas importantes sobre os direitos de autor

» O âmbito do direito de autor e os direitos conexos incidem a sua protecção sobre duas realidades: a tutela das obras e o reconhecimento dos respectivos direitos aos seus autores.
» O direito de autor protege as criações intelectuais do domínio literário, científico e artístico, por qualquer modo exteriorizadas.
» Obras originais são as criações intelectuais do domínio literário, científico e artístico, qualquer que seja o seu género, forma de expressão, mérito, modo de comunicação ou objecto.
» Uma obra encontra-se protegida, logo que é criada e fixada sob qualquer tipo de forma tangível de modo directo ou com a ajuda de uma máquina.
» A protecção das obras não está sujeita a formalização alguma. O direito de autor constitui-se pelo simples facto da criação, independentemente da sua divulgação, publicação, utilização ou registo.
» O titular da obra é, salvo estipulação em contrário, o seu criador.
» A obra não depende do conhecimento pelo público. Ela existe independente da sua divulgação, publicação, utilização ou exploração, apenas se lhe impondo, para beneficiar de protecção, que seja exteriorizada sob qualquer modo.
» O direito de autor pertence ao criador intelectual da obra, salvo disposição expressa em contrário.