17.8.08

ler uma história de amor como quem come uma sanduíche

- Ena, tantos! E quando vais ler isto tudo? – A pergunta foi feita pela minha mãe quando veio cá a casa e se deparou com a pilha de livros que tenho em cima da secretária onde escrevo este texto. Respondi-lhe que ainda não sei onde irei arranjar tempo para os ler, mas também não estou preocupada com isso. Sei apenas que vou ler alguns, tal como tenho a certeza de que não os lerei todos.

Pus-me a olhar para o pequeno monte de títulos à minha frente. As capas são coloridas, algumas muito coloridas, mesmo. Capas atractivas, como que a antecipar um conteúdo também ele empolgante e que me prenderá como leitora. Mas há mais em comum entre estes livros. À excepção de um deles, todos são de prosa. À parte disso, são todos livros «magros». O de lombada mais generosa talvez tenha umas 130 a 150 páginas. Estou a olhá-los de esguelha, por isso, pode ser que me engane. Mas não, não devo estar enganada. E digo isto porque entre os livros que compro e que leio há um certo padrão, do qual há já algum tempo me dei conta.

Gosto de histórias curtas, escorreitas, bem contadas. Gosto que me deixem espaço para as minhas próprias construções em torno das personagens e dos cenários. Gosto de ser induzida, mas não conduzida pelo escritor. E, acima de tudo, acho que as histórias, principalmente se forem histórias de amor, devem ser breves.

Todas as histórias de amor são breves. «A» conhece «B», apaixonam-se, amam-se e, depois, ou vivem felizes para sempre, ou se separam, umas vezes para viverem outras histórias de amor, outras não. O que sucede pelo meio é mais ou menos complexo, porque as histórias de amor são como as sanduíches, senão vejamos. As sanduíches começam e acabam sempre da mesma maneira – com duas fatias de pão – e o recheio varia consoante o gosto de quem as vai comer – com mais ou menos fiambre, mais ou menos tomate, mais ou menos maionese. Do mesmo modo, todas as histórias de amor começam e acabam da mesma maneira – com uma intensa paixão que se vai esfumando no tempo, umas vezes para se transformar no que os entendidos chamam «amor», outras vezes para desaparecer – e o que vai acontecendo no meio varia consoante a inspiração e o romantismo dos amantes – com mais ou menos sensualidade, mais ou menos envolvimento, mais ou menos entrega.

Entre os livros que comprei há algumas histórias de amor, que é como quem diz, algumas sanduíches. Importa, por isso, que quando as leia tenha alguma fome. Muita fome, de preferência. Eis por que sei que não as lerei a todas, eis por que sei que certamente lerei algumas. Deixar-me-ei saciar, mas sem me empanzinar, até porque o menu é extenso e para degustar cada uma delas convenientemente, importa que o estômago esteja perfeitamente livre de vestígios da degustação anterior. Mais tarde, quem sabe, talvez venha a escrever sobre algumas dessas histórias de amor. Para já, há que encontrar tempo para as saborear devidamente.

[Também publicado em PNETmulher.]

© Marta Madalena Botelho

15.8.08

m.u.n.d.o. ou mais uma noite de ócio

festival m.u.n.d.o.
15.08.2008 | forte de santiago da barra | viana do castelo

e soubesse eu artifícios
de falar sem o dizer
não ia ser tão difícil
revelar-te o meu querer

Deolinda. A melhor das supresas. Depois de todas as excelentes críticas ao concerto no Sudoeste '08, ao qual não assisti inteiramente, com muita pena minha, muitas expectativas, todas elas superadas. O público era parco, mas isso não assustou a Deolinda, que se entregou de corpo e alma à actuação e encantou todos. Onde ela for, eu irei lá ter.  
Dead Combo. Pouca interacção com o público. Sei que faz parte da postura teatral do duo, mas cria uma estagnação difícil de contrariar quando se trata de um concerto puramente instrumental, sem espectáculo e sem letras para cantar. A meio, a inevitável dispersão.  
A Naifa. Sem João Aguardela e com um Luís Varatojo demasiado tímido, Maria Antónia Mendes foi dona e senhora do palco. Nas canções d'A Naifa não há electrónica, pop ou fado: há Música. Na voz de Mitó não há estridência, cadência nem dolência: há Voz. E um corpo a vaguear elegantemente no escuro de uma noite em que as nuvens encobriram uma lua a encher. O remate foi perfeito com as versões de «Subida aos Céus» e «Desfolhada». Já agora, por onde andam os Três Tristes Tigres que tanta saudade deixaram?  

Depois, apenas a chuva sobre o pára-brisas e o movimento repetitivo das escovas. Dentro da cabeça, ainda o eco dos sons do M.U.N.D.O..

© [m.m. botelho]

11.8.08

sudoeste '08. súmula.

sudoeste '08
07,08,09 e 10.08.2008 | herdade da casa branca | zambujeira do mar

Poeira, aperto, corpos suados, o cansaço dos dias pesados que sucediam às noites longas. Ao longe, as luzes do palco, misturadas com os sons das canções que todos queriam ouvir, a diluírem-se nas nuvens que o vento teimou em arrastar.

Quem disse que as noites a Sudoeste não podem ser românticas?

© [m.m. botelho]

10.8.08

peneiras, caprichos ou "uma grande pancada"

Em quase trinta anos de vida, como está bom de ver, já mudei de opinião em relação a imensas coisas, sobre os mais variados assuntos, por diversas vezes. Nada de especial, suponho. Por algum motivo existe um ditado que diz que «só os burros é que não mudam». Todavia, continua a haver um núcleo intangível de matérias em relação às quais me mantenho “saudavelmente casmurra”. São considerações, hábitos e manias que, por mais velhinha que seja, acho que nunca vou mudar.

Não se trata de teimosia nem de personalidade forte, nem de qualquer outro nome que se tente invocar. Sinceramente, não perco muito tempo a pensar nisso, mas acho que não passam de coisas que cada um e todos nós temos que nos permitem achar alguma coerência dentro de nós mesmos. Ao longo dos anos tudo se vai transformando: o estilo de vida, a saúde física e mental, a memória, as responsabilidades. Perante tanta mudança, talvez seja reconfortante sabermos que há determinados aspectos que serão do mesmo modo para sempre, pelo menos durante o nosso «para sempre».

Há uns anos atrás, na sequência de um jantar desagradabilíssimo (cujo motivo que gerou o incómodo nada teve que ver comigo), decidi que jamais me sentaria à mesa com pessoas de quem não gostasse. Foi uma espécie de jura interna, daquelas seladas com sangue e lacre que eu imaginei fidedignamente para a tornar tão real quanto possível. De então para cá, tenho feito um esforço para me manter fiel à minha decisão. E, que me lembre, tenho-o conseguido.

É claro que já estive à mesa com pessoas com quem não simpatizava por aí além, o que sucede bastas vezes em jantares de grupo em que o único elo de ligação entre os convidados é o anfitrião. Mas tirando isso, nunca me permiti sentar-me numa mesa onde estivesse alguém com que não tivesse boas relações.

As refeições são actos de partilha. Enquanto comemos expomos muito de nós e observamos muito dos outros. Dividir uma mesa com alguém implica que entre nós e essa pessoa haja uma ponte, para que essa partilha possa feita e as exposições/observações ocorram sem receios.

Sempre considerei – e continuo a fazê-lo – que sentar-me à mesa com alguém que não aprecie a minha companhia ou alguém cuja companhia eu não aprecie seria uma espécie de afronta mútua, algo de infame e incomportável para alguém que exige de si mesmo aquilo que eu exijo. Uma ignomínia, portanto, e isto fazendo apenas os juízos mínimos...

Não vou onde não sou bem-vinda e também não concedo o privilégio da minha companhia a quem dele não é merecedor, muito menos se isso implicar uma refeição em conjunto. Respeito verdadeiramente o acto de comer e isso não me permite conspurcá-lo, por questões de trato social ou outras. Há quem diga que são peneiras, outros dizem que são caprichos, outros ainda que é “uma grande pancada”. Pois que seja. Pode até ser que seja mesmo. Para mim, é somente o meu esforço em ser fiel a mim e aos meus princípios e valores. Se isso é ser snob, obsessiva ou maluca, então sê-lo-ei, com todo o gosto e muita determinação.

[Também publicado em PNETmulher.]

© Marta Madalena Botelho

3.8.08

contra a rotina

Preciso vitalmente de contrariar aquilo a que ironicamente chamo «a rotina das férias». Tempo de descanso, se transformado em rotina, deixa de ser o que é. Pavor. De maneira que faço um esforço por me perder, sim, perder é o termo correcto. Perco-me por temporadas – gosto de dizer temporadas, sem contar os dias, pois saber quantos são ao certo aviva a memória do seu fim e torna-os mais pequenos – imitando as cigarras. A meteorologia, essa incógnita e imperscrutável personagem, contudo, ainda não consegui contrariar. Embora ela me altere os planos não raras vezes, eu sei que, mais dia, menos dia, será a minha vez de clamar por desforra.

Gosto de partir para o nada, para o silêncio, a acalmia. Onde quer que vá, quero perder-me de mim nos outros. Anseio por passear em ruas cheias de gente desconhecida, não fazer ideia da nacionalidade do casal que se deita ao meu lado na praia, deixar de ver pessoas e ver somente vultos a quem não tenha de endereçar as expressões da praxe. Aliás, o mais provável que aconteça se, por acaso, me cruzar com algum rosto familiar é que não o reconheça mesmo. Embora leve os olhos abertos, não será para ver gente, mas para me deixar inundar desta claridade única que tem o sol no Estio.

Não vale a pena sentir ou verbalizar saudades. As férias são sempre um tempo demasiado curto para que a falta desponte. Gosto de acreditar que apenas invocamos a falta porque somos uns românticos incuráveis que odeiam despedidas.

Durante uma temporada estarei singularmente gozando o que a tal da aleivosa meteorologia só oferece quando lhe dá na gana: sol, azul e verde. Quero embriagar-me de luz, mar e natureza e a taça é pequena só para mim.

À noite, tenciono quedar-me no breu a ouvir os grilos, sem pensar em nada a não ser na maravilha que é uma noite fresca depois de um dia de soalheira.

A viagem ainda é longa. Nos ouvidos levo uns headphones velhinhos ligados a um ainda mais velhinho leitor de CDs, que eu não sou nem nunca serei menina de iPod – preciso de sentir que a minha música tem qualquer coisa de real que me prenda ao mundo.

Quando as pilhas estiverem gastas, restará a quietude do nada e o ruído emudecido do relógio esquecido na gaveta.

[Também publicado em PNETmulher.]

© Marta Madalena Botelho

1.8.08

a primeira noite de agosto

Depois do repasto, caminhar sob o luar, na primeira noite do mês de Agosto. O calor das noites de Agosto ainda tímido, mas já a ameaçar. Os meus calções brancos em destaque na paisagem. Sou eu, ali no escuro. Bem distinguível.

© [m.m. botelho]

27.7.08

um pedacinho de céu em plena terra

Apesar de estarmos praticamente na recta final do mês de Julho, aqui pelo Norte hoje está um daqueles dias taciturnos, mais convidativos ao silêncio do que ao burburinho da areia coberta de toalhas coloridas ou das esplanadas repletas de gente. Está um dia tão calmo que de vez em quando, apenas um murmúrio, um rugido de onda interrompe o sossego que me tem prendido ao livro que estou a ler.

Por isso, hoje os meus vizinhos também escolheram a tranquilidade das suas casas. Olhando em frente vejo que o filho mais novo está, como sempre, agarrado ao computador enquanto o pai preguiça no sofá da sala. Na janela ao lado, uma rapariga com um gato preto deitado no colo esforça-se por pintar as unhas dos pés sem o acordar.

Até os pássaros estão calados. Esvoaçam de cá para lá no céu cinzento, alguns pousam nos fios eléctricos, mas nem piam entre si. As gaivotas hoje estão em terra e de vez em quando também passam por aqui. A tarde ameaça chuva.

Se pudesse e o tempo a isso convidasse, estaria, obviamente, a passear junto ao mar. Gosto de caminhar pela linha da praia e ver como as janelas das casas do outro lado da rua se abrem uma a uma, algumas ainda timidamente, para deixarem entrar a luz do sol reflectida num imenso manto azul e frio. Mas hoje não há sol e o dia também não está suficientemente quente para me fazer trocar os sapatos pelas Havaianas. Resta-me ficar aqui por casa e imaginar a espuma a beijar-me os pés, os recortes da ondulação na areia, os meus olhos a afundarem-se no abismo marítimo.

Às vezes, sinto que o mundo poderia muito bem ser do tamanho de um metro quadrado, desde que esse metro quadrado fosse ao pé da praia. E dou graças por poder usufruir diariamente do cheiro da maresia e da serenidade do repetitivo vaivém das ondas. Imagino que o Paraíso seja algo de muito semelhante a isto: areia a perder de vista e um manto salgado ao fundo. E questiono-me sobre o que terei feito para merecer lograr um pedacinho de Céu em plena Terra.

[Também publicado em PNETmulher.]

© Marta Madalena Botelho

23.7.08

erlend & eirik

&copy cristina pinto pinto&copy cristina pinto pintokings of convenience | casa da música | 22.07.2008
fotografias de cristina pinto pinto

22.7.08

kings of convenience

kings of convenience | casa da música | porto | 22.07.2008

«I didn't know you then, now did I girl?
I couldn't hear you singing softly to me.
I didn't know you then, now did I girl?
I didn't see the brave girl so near me.
I didn't know you then, now did I girl?
I couldn't hear you singing softly to me, singing softly to me.
And now I find it was you all the time.»

20.7.08

tira-teimas

Chega o tempo quente e com ele o prenúncio de férias. Férias, essa palavra simultaneamente tão desejada e tão temida pelos casais.

Se é verdade que as férias podem e devem ser sinónimo de descanso, também é verdade que, em alguns casos, acabam por ser um período de reflexão em que se chega a uma penosa conclusão: a da incontornável finitude das relações amorosas.

Não é por acaso que a maior parte dos casais se separa – muitas vezes de modo definitivo – após as férias de Verão. São, pelo menos, duas semanas em que cada um dos elementos do casal tem necessariamente de conviver com o outro, muitas vezes exclusivamente um com o outro, sem o subterfúgio que podem ser os filhos e os amigos. E é nessas circunstâncias que se começa a ter percepção daquilo que realmente subsistiu da relação entre ambos. E, às vezes, o que subsistiu foi muito pouco.

Costumo gracejar e dizer que o Verão traz consigo dois factores essenciais à correcta percepção dos amores: a claridade da luz do sol e os corpos ao léu. A claridade é fundamental porque nos permite ver melhor quem temos ao nosso lado e toda a panóplia de características que o/a compõem. Os corpos ao léu, por sua vez, têm uma dupla virtude: se, por um lado – e metaforicamente falando –, revelam o que verdadeiramente existe, sem quaisquer artificialismos, por outro lado – e concretamente falando –, são o melhor meio de aferir o quão a pessoa com quem partilhamos a vida gosta de admirar «o alheio», consoante siga mais ou menos disfarçadamente (inclinando corpo, cabeça e o mais que houver para inclinar) todo e qualquer corpinho descascado que lhe passe pela frente dos olhos.

Brincadeiras à parte, diria que o modo como os casais vivem o período de férias é fundamental para a continuidade das relações e todos teríamos a lucrar se tomássemos consciência disso. Tempo sem trabalho é tempo para pensarmos em nós e nas nossas necessidades. Em síntese e sem rodeios: é tempo de egoísmo. Nas férias queremos fazer o que nos dá na realíssima gana (seja isso beber até cair todas as noites, seja ler «Os Miseráveis» de uma assentada). Só que fazer o que nos apetece exibe um pouco daquilo que somos. E esse pouco acaba por ser muitíssimo, já que, regra geral, coincide com aquilo que tentamos que passe despercebido durante o resto do ano.

Partilhar as férias com alguém pode significar o confronto com o que é aquela pessoa sem disfarces. E isso nem sempre é agradável e/ou vai de encontro às nossas expectativas. É aí que entra aquela malvada sensação que tanto nos consome e que tanto procuramos ignorar e que se chama «desilusão». Porém, julgar que a desilusão apenas vem do lado do outro é, no mínimo, ingénuo. Durante as férias o tempo também nos sobra para pensarmos no que fizemos durante o ano que passou, no que crescemos, no que fizemos o outro crescer, nos objectivos que cumprimos, nos que ajudámos o outro a cumprir, no quanto nos entregámos ao amor e no quanto deixámos que o outro a ele se entregasse. As conclusões a que chegamos nestas matérias ficam muitas vezes longe daquilo que imaginávamos que estivessem e é aí que somos confrontados com as nossas próprias (imensas) falhas.

Frequentemente, os meses de Verão, em consequência da maior disponibilidade, são meses de observância atenta e ponderada das relações amorosas. Frequentemente, os meses pós-Verão, em consequência da reflexão antes levada a cabo, são meses de decisões sérias e definitivas sobre o estado das relações amorosas. É um dado adquirido, quase um cliché social. Quero acreditar que não há nada de errado nisso e que se trata somente de uma consequência normal do desgaste que afecta as pessoas. Contudo, confesso que dou por mim a pensar se não seria bem diferente se todos fossemos quem realmente somos e tivéssemos a ousadia de fazer o que nos dá na real gana ao longo de todo o ano. Talvez então as férias fossem tempo de não pensar em nada, verdadeiras férias, merecido descanso.

[Também publicado emPNETmulher.]

© Marta Madalena Botelho

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