31.8.08

porto-fantasma

A pouco e pouco, o Porto vai assistindo ao encerramento ou descaracterização das suas salas de cinema. Dizem que, em grande parte, e no que respeita de modo particular à Baixa, é mais uma consequência da desertificação daquela zona da cidade. Apenas alguns escolhem, deliberadamente, viver onde as casas estão degradadas, as ruas esburacadas, os acessos são difíceis e tortuosos, os bens de primeira necessidade estão distantes e arrumar o carro é quase impossível.

Entre os que se debruçam sobre as causas e as soluções para este estado de coisas, há quem abra a boca muitas vezes para invocar esse milagroso elixir que curaria a Baixa de todos os seus males: a «requalificação da malha social». Porém, a desertificação não é justificação para tudo.

No Porto há um profundo desinteresse público e privado pela conservação dos espaços físicos - imóveis e vias públicas. A cidade envelhece a olhos vistos e, às vezes, chega mesmo a cair de podre (quando não somos nós a cair nos seus buracos). Os interesses monetários e a especulação imobiliária falam mais alto. Por isso, no Porto sacrifica-se o que existe em função do que poderá vir a existir (e que, as mais das vezes, nunca chega a existir). Investir no que já está edificado parece não mobilizar os detentores do capital. Por sua vez, recuperar e reconstruir não são escolhas para os proprietários, para quem os valores ridículos das rendas justificam suficientemente a falta de iniciativa.

A somar a isso, é cada vez mais evidente uma quase absoluta indiferença dos habitantes em relação a fenómenos que conduzem à diminuição da qualidade de vida. Talvez falte a consciência de que o encerramento de espaços culturais é, efectivamente, sinónimo de diminuição de qualidade de vida. Perante tal cenário, somente um silêncio demasiado perturbador.

Pior do que uma cidade que vai morrendo aos poucos, é uma cidade que não denuncia os seus homicidas. O Porto, lamentavelmente, cala e consente. Só as madeiras rangem um pouco por toda a parte, nesta cidade-fantasma.

[Também publicado em PNETmulher.]

© Marta Madalena Botelho

29.8.08

nitin sawhney


Nitin Sawhney. «Letting go».
Do álbum «Beyond Skin» [1999].

inspiração

Pela minha parte, caro Mr. Finn, digo que há apenas duas fontes de inspiração para a escrita: uma valentíssima dor-de-corno ou um grande amor. A primeira, porque nos esmaga e nos obriga a expulsar o que nos tolhe corpo e alma. O segundo, porque nos preenche e nos obriga a libertar o que nos inunda cérebro e coração. O facto de ambos os estados fornecerem extenso material só traz vantagens. Sendo que, regra geral, passamos de um estado ao outro sucessivamente, não há períodos de falta de inspiração. O que há é uma tremenda falta de coragem para admitir que dor e euforia são duas faces da mesma moeda e que, na vida, tudo se paga.

© [m.m. botelho]

26.8.08

manhas de meliante

parque carlos alberto | porto | 24.08.2008

Atravesso as Praças Parada Leitão e Teixeira Gomes e desço as escadas que me levam ao parque de estacionamento. Procuro apressadamente nos bolsos o cartão de pagamento que trouxe do «Piolho». Não o encontro, mas eu tenho a certeza de que fui eu quem o guardou, julgo que nos bolsos. Verifico uma vez mais. Não, definitivamente não fui eu que guardei o cartão. Por momentos, questiono se não estarei a começar a evidenciar sinais de demência. Sendo assim, terei de pagar a taxa com moedas. Tu sorris para mim e agitas dois cartões entre os dedos. Afinal de contas, não estou assim tão tontinha: sempre era eu quem tinha guardado o cartão.
Tens manhas de meliante, tu. Podias muito bem ser carteirista de profissão. Certamente tiraste-me o cartão do bolso sem que eu me apercebesse.
Não sei bem por que fiquei surpreendida com a tua arte de dedos leves. Afinal de contas, foi também sem que eu desse por ela que, numa madrugada de nevoeiro, me roubaste o coração.

© [m.m. botelho]

25.8.08

piolho

piolho d'ouro | porto | 24.08.2008

O «Piolho» estava, como sempre, apinhado. Não admira, era sábado à noite, uma noite de Verão não muito amena mas suficientemente convidativa para uns copos com os amigos. Lá fora, uma sessão improvisada de percussão e o ruído excessivo das vozes que procuravam fazer-se ouvir. Atravessei a porta e fui para a rua. Enfiei as mão nos bolsos e inspirei fundo. A Praça não seria a mesma se estivesse vazia. Toda aquela gente faz falta, cada um à sua maneira, mas nem todos sabem disso.

© [m.m. botelho]

24.8.08

uma medalha providencial

Nelson Évora, enquanto vencedor da prova olímpica de triplo santo na qual granjeou a medalha de ouro em Pequim, tem inteiro mérito. Vejo qualquer prémio, seja ele olímpico ou não, seja ele uma medalha de ouro ou uma taça de cerâmica das Caldas da Rainha, como a justa recompensa de um árduo trabalho, de muito esforço e dedicação e, mais do que tudo isso, de uma enorme vontade e determinação de superar os limites do próprio corpo, de mostrar ao Homem que ele é mais do que aquilo que se limita a ser, que ele pode ser tudo aquilo que quiser, não bastando, contudo, para tal, querer.

O desporto, precisamente porque implica, antes de mais, uma prestação física, é um palco excepcional onde, perante os espectadores, pode ser representada a peça da recriação humana. No desporto, o atleta faz-se a si mesmo, continuando a obra de quem o criou mas, mais do que isso, melhorando-a.

Talvez por isso seja muito raro encontrar alguém que não reconheça grandes virtudes na prática desportiva. O Homem é, antes de tudo, é matéria e o desporto debruça-se sobre essa matéria para a moldar e aperfeiçoar. Contudo, não esqueçamos que essa matéria é passível de corrupção e, portanto, mais tarde ou mais cedo, haverá de desaparecer. De facto, os feitos atléticos tendem a cair muito mais rapidamente no esquecimento do que, por exemplo, um prémio literário. Como não faço parte daquele afortunado grupo de pessoas que têm solução para tudo dentro das algibeiras, bastando revolver o seu conteúdo durante uns instantes para apresentarem imediatas verdades absolutas, devo confessar que não sei por que é assim, embora gostasse muito de saber. Contudo, sou capaz de afiançar já que julgo que tudo haverá de começar e acabar num aspecto bastante mesquinho: a irresistível tentação demasiado humana (da qual também eu, confessadamente, padeço aqui e ali) para considerar a produção intelectual superior à física. E se é verdade o que afirmei no início deste parágrafo, que é muito raro encontrar alguém que não reconheça grandes virtudes na prática desportiva, também não deixa de ser verdade que em Portugal continua a ver-se a actividade física como algo de complementar e não de central. Bons exemplos do que acabo de dizer são o papel residual que a disciplina de Educação Física tem no plano escolar, a quase total ausência de prática desportiva entre os estudantes universitários e o ridículo investimento que é feito para a criação de infra-estruturas desportivas, onde pessoas de todas as idades possam praticar desporto ao longo da vida.

É inegável que o culto do desporto é, para muitos de nós, feito a partir do sofá, de telecomando na mão, ou nas esplanadas dos cafés, atrás de mesas carregadas de tremoços e cervejas e de cachecol ao pescoço. E é igualmente inegável que, entre nós, muito mais do que a prestação se valoriza o resultado, quantas vezes ignorando que tal como o sucesso de uma mente brilhante que ganha um prémio literário depende de uma conjuntura de factores endógenos e exógenos (como o estímulo, a criação de oportunidades, a reunião de apoios, etc.), também os resultados desportivos não dependem exclusivamente do atleta.

Num país de brandos costumes, a medalha de ouro de Nélson Évora acaba por ser providencial. Bastou ler os jornais, os blogues, ver as reportagens desportivas para perceber como, despudoradamente, Portugal exibiu a sua pequenez ao atribuir à medalha deste atleta o efeito redentor do falhanço de outros (com excepção de Vanessa Fernandes que goza de um estatuto especial em função da idade, do género – admitamo-lo – e do percurso de excepção que tem feito. o qual foi coroado com uma medalha de prata que, embora não tenha «enchido as medidas» de muitos portugueses eleva a fasquia das expectativas para os Jogos Olímpicos de Londres e, portanto, adia a alegria ou o descontentamento para então). Um pouco por toda a parte suspirou-se de alívio quando Évora subiu ao pódio: a honra da Pátria estava salva, o país conquistava uma medalha de ouro, ao menos uma, de modo a garantir a inscrição de Portugal, ao menos por um dia, nos jornais do mundo inteiro. O resto, pouco importa. Se foi só uma, pouco importa. Se é preciso mudar alguma coisa no modo como se investe no desporto em Portugal, pouco importa. Se é preciso mudar o modo como se educa para o desporto em Portugal, pouco importa. Por agora, desapertam-se os cintos e respira-se de alívio. O país está de fim de semana e, atrás de mesas carregadas de tremoços, brinda à medalha de Nélson Évora, a preciosa medalha de ouro que durante os próximos quatro anos haverá de obnubilar as frustrações desportivas de dez milhões de portugueses.


[Também publicado em PNETmulher.]

© Marta Madalena Botelho

20.8.08

sempre surpreendente

Nunca a vi como alguém «convencional», digamos assim. Pelo menos, não depois de, tinha eu quatro ou cinco anos, me ter explicado sem rodeios como se faziam bebés, recusando o recurso ao subterfúgio da viagem da cegonha que vem de Paris. Cedo percebi que com ela não haveria assuntos interditos, até porque a vida real não se compadece com tabus de qualquer espécie para aqueles que a querem viver plenamente.
Contudo, com o afastamento físico, fui-me esquecendo destes traços característicos, da sua curiosidade sobre o que lhe é estranho, da sua voracidade em descobrir a novidade. A ausência do contacto diário como que deixou cair alguma poeira sobre isso.
Aguardando que eu terminasse um trabalho ao qual se encarregou de dar o devido destino postal, ela sentou-se em frente à minha secretária e começou a ler o «Dorme cá hoje», de João Gesta que, acabadinho de sair da minha caixa de correio, encimava uma pilha de livros.

Quando lhe entreguei o envelope contendo o trabalho por que esperava não havia sequer trinta minutos, comunicou-me que levaria consigo aquele livro, pois já o havia lido até à página 64 e gostaria de o terminar. E acrescentou que, não obstante a linguagem obscena, estava a achá-lo cativante e inteligente.
Foi assim que, com este gesto, a minha memória ficou meticulosamente limpa, não restando qualquer ponta de pó sobre a recordação desse lado sempre surpreendente da minha Mãe.

© [m.m. botelho]

19.8.08

manifesta velocidade excessiva

majestic | porto | 12.01.2008

12 de Janeiro de 2008 foi um sábado. Uma daquelas tardes de Inverno a convidar a ficar em casa e nós resolvemos sair. Eu levava vestido o meu sobretudo bege e um cachecol preto. Tu ias de casaco e ténis pretos. Nessa tarde, depois de tomarmos café [já sem cigarros] no Majestic, passeámos pela baixa. Eu comprei três dvd de filmes do Nanni Moretti para vermos em casa. Pus-me agora a fazer contas. De então para cá passaram exactamente sete meses e sete dias e nós ainda não vimos nenhum desses dvd. Acho que diz alguma coisa acerca desta nossa vida em manifesta velocidade excessiva.

© [m.m. botelho]

18.8.08

o carro em transgressão

reflexo | viana do castelo | 18.08.2008

O carro (indevidamente) estacionado num lugar privativo. Uma noite muito mais fria do que o que a minha t-shirt podia enfrentar. Um passeio junto ao rio com direito a revelações sobre uma adolescência transgressiva. Uma breve dissertação sobre o facto de todas as adolescências serem transgressivas, cada uma à sua maneira. Algumas considerações sobre as luzes, os cheiros, os sons de uma noite de Verão ventosa e, contudo, povoada. A partilha de um cigarro a caminho do carro em transgressão. Algumas gargalhadas perante o tópico «o meu carro não passou da adolescência». Desta vez, escapou.

© [m.m. botelho]

17.8.08

wall-e

wall-e | andrew stanton | 2008 | 17.08.2008

Poucas palavras para invocar o essencial. Apenas dois nomes, Wall-E e Eva, duas siglas que escondem o tanto que fica por dizer. Uma história de amor contada quase em silêncio. Não esquecer:o melhor modo de dizer o amor é o gesto.

© [m.m. botelho]

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