10.9.08

quanto tempo (2)

chien qui fume | porto | 10.09.2008

O tempo do teu corpo se dobrar sobre a cadeira. O tempo do teu gesto acender um cigarro. O tempo da tua perna se cruzar sobre a outra. O tempo da tua língua humedecer os teus lábios. O tempo das tuas mãos abraçarem uma chávena. O tempo dos teus ombros se lançarem para trás. O tempo dos teus pés brincarem com os meus. O tempo dos teus olhos caírem sobre os meus cabelos. O tempo dos teus dedos tamborilarem sobre a mesa. O tempo dos teus braços se enredarem no meu cheiro. O tempo do teu desejo se prender e render ao meu.

© [m.m. botelho]

quanto tempo (1)

leitaria quinta do paço | porto | 10.09.2008

Quanto tempo demora um parquímetro a emitir um recibo? Quanto tempo demora uma criança a atravessar a rua? Quanto tempo demora uma roda a descrever uma volta inteira? Quanto tempo demora abrir um livro de banda desenhada? Quanto tempo demora manchar com café uma página? Quanto tempo demora uma gaivota a sobrevoar um telhado? Quanto tempo demora desapertar um atacador? Quanto tempo demora uma nuvem a fundir-se noutra? Quanto tempo demora uma chave a abrir uma fechadura? Quanto tempo demora um passo a seguir outro? Quanto tempo demora a noite a cair sobre nós?

© [m.m. botelho]

9.9.08

dupla personalidade

Ninguém vai exigir que eu explique pois, na verdade, creio que ninguém terá o interesse bastante em saber porquê. Mas, ainda que eu tivesse de explicar porquê, não saberia como fazê-lo. Se tivesse de justificar com a primeira ideia que me ocorre diria: não resisti.
Não resisti a espreitar as diferenças que o site Web Pages As Graphs poderia encontrar entre o viagens interditas e o voo-inclinado, os dois blogues onde escrevo. Embora sem certezas, eu não ficaria surpreendida se o resultado fosse algo diferente, uma vez que o cariz dos dois espaços é bem diverso. O que eu nunca imaginei é que a diferença pudesse ser tão grande.



Pus-me a pensar que talvez estes desenhos não passem de indícios da existência de duas personalidades dentro de mim: uma mais complexa, impenetrável, proibida; outra mais liberta, em constante movimento, quantas vezes acelerado e vertiginoso. Em ambos os blogues e em ambas as imagens sou eu e apenas eu: viagem interdita em voo inclinado.

Post scriptum: as cores e a construção das imagens com pontinhos está explicada ao fundo da página Web Pages as Graphs e nada tem que ver com o conteúdo escrito dos blogues propriamente dito, mas com a linguagem HTML utilizada para o aspecto gráfico daqueles. Este texto não passa, por isso, de um mero exercício de fantasia, construído a partir da coincidência entre o modo como eu mesma vejo os dois blogues e o modo como eles foram representados. A coincidência, essa sim, foi a parte inesperada de tudo isto. E aquele ponto preto solitário num imenso mar branco não poderia dizer mais do que o que diz.

© [m.m. botelho]

8.9.08

«deixa-me cometer esse erro.»

Alguns de nós tentam escapar-lhe e, com maior ou menor esforço, lá vão conseguindo. Outros, porém, rendem-se como se de uma evidência se tratasse. Será que a idade é mesmo a justificação para que o desejo de ter filhos desperte ou aumente? Já todos sabemos que, como escreveu o António Variações e cantaram os Humanos, «a culpa é da vontade» e que sem vontade não há idade que lhe valha. Então, será que a idade nos muda a vontade?
Eu não sei, não tenho certezas de nada, mas desde ontem que ando a matutar nisso, depois deste inesperado diálogo:

- Mas estás a pensar nisso a sério?
- Em quê? Ter filhos?
- Sim, em ter filhos.
- Estou, estou. Não é coisa que tenha de fazer já, mas é algo que quero fazer. Já tenho 28 anos e a idade tem-me feito pensar mais nisso a sério.
- Espera lá. Tu só és vinte e poucos dias mais velho do que eu. Eu também tenho 28 anos e não sinto nada disso, por isso não me venhas com coisas: a idade não tem influência! Se, ao menos fosse eu com essa conversa, a escudar-me atrás da contagem decrescente do relógio biológico das mulheres, ainda percebia. Agora tu, que podes ter filhos até aos noventa anos... Apanhaste-me de surpresa!
- Ó, vá lá. Deixa-me querer ter filhos aos 28 anos. Deixa-me cometer esse erro. Eu ainda sou novo, ainda tenho muitos erros para cometer pela vida fora.
- Não sei se deixo. Mas prometo pensar nisso.


Sim, meu caro amigo. Este texto é, claramente, uma provocação.

© Marta Madalena Botelho

7.9.08

(manu)[e]screver

Gosto muito de escrever. Do acto de escrever, propriamente dito. De pegar na caneta e no papel e traçar letras. Por isso, também gosto muito de canetas e papéis. E de lápis. Gosto tanto de canetas, papéis e lápis que acho que posso dizer que são os meus objectos favoritos. Isto se é que se pode dizer que se tem objectos favoritos sem parecer muito ridículo.

Guardo meia dúzia de canetas e pequenos cadernos de anotações com muito carinho no meu coração e na minha memória. Alguns deles ocupam esse espaço não apenas porque me fascinam, mas também por causa das pessoas que mos ofertaram. Guardá-los religiosamente é quase como guardar um pouco dessas pessoas. Como se, de cada vez que pego neles e lhes dou uso, garatujando nem que seja a maior das tontarias ou a frase mais desprovida de sentido, estivesse a tocar nessas pessoas, a senti-las mesmo ali ao pé, ao alcance da minha mão. Como se, escrevendo, agitasse a minha relação com elas e juntas andássemos para aí aos traços, que é como quem diz às voltas com as palavras, aos rodopios, numa roda de emoções e caracteres. Mas o Tempo e a Distância – e a modorra que nos impede de os diminuir – têm-se encarregado de manter a caneta dentro do copo
que repousa sobre a secretária e os caderninhos brancos imaculados, as folhas muito certinhas e alinhadas, sem sinais de terem sido tocados. O que (não) escrevo são as nossas conversas, aquelas conversas que não temos porque deixaram de ter sentido, porque as palavras entre nós deixaram de ter o mesmo significado e a transmissão da informação passou a ter ruído, prejudicando a mensagem. Aos poucos, fomos deixando de ter assunto, do mesmo modo que a tinta se acaba nas cargas das canetas.

Cada vez mais uso o teclado do computador em vez das minhas próprias mãos para escrever. Julgo até que a minha caligrafia é cada vez menos acessível à leitura dos outros. Logo a minha caligrafia, tão esmerada na escola primária, por meio da qual granjeei tantos elogios, agora simplesmente esguia e impetuosa, demasiado indefinida, sempre vestida de preto, quase defunta.

Nesta chamada «sociedade da tecnologia e informação» tudo tem de ser normalizado, estilizado, uniformizado, até o desenho das letras. Os cadernos e as canetas caíram em desuso, e em desuso caiu também o hábito de guardar dentro de grandes caixas de papelão as cartas e os postais que em tempos recebemos e que tinham cor, cheiro e textura, cada um deles diferente, único e irrepetível.

Fica tanto por manuscrever. Fica tanto por dizer.

[Também publicado em PNETmulher.]

© Marta Madalena Botelho

6.9.08

providencial

al forno | porto | 2008.09.06

Mesmo completamente às escuras e em cima da hora, tudo sucede providencialmente. A reserva. O percurso. O estacionamento. A mesa bem posicionada. O menu. A sangria. A refeição. A sala à meia-luz.
Quando nos concentramos no Universo, o Universo concentra-se em nós. E tudo se concentra, acontece e importa ao redor da nossa mesa.

© [m.m. botelho]

31.8.08

porto-fantasma

A pouco e pouco, o Porto vai assistindo ao encerramento ou descaracterização das suas salas de cinema. Dizem que, em grande parte, e no que respeita de modo particular à Baixa, é mais uma consequência da desertificação daquela zona da cidade. Apenas alguns escolhem, deliberadamente, viver onde as casas estão degradadas, as ruas esburacadas, os acessos são difíceis e tortuosos, os bens de primeira necessidade estão distantes e arrumar o carro é quase impossível.

Entre os que se debruçam sobre as causas e as soluções para este estado de coisas, há quem abra a boca muitas vezes para invocar esse milagroso elixir que curaria a Baixa de todos os seus males: a «requalificação da malha social». Porém, a desertificação não é justificação para tudo.

No Porto há um profundo desinteresse público e privado pela conservação dos espaços físicos - imóveis e vias públicas. A cidade envelhece a olhos vistos e, às vezes, chega mesmo a cair de podre (quando não somos nós a cair nos seus buracos). Os interesses monetários e a especulação imobiliária falam mais alto. Por isso, no Porto sacrifica-se o que existe em função do que poderá vir a existir (e que, as mais das vezes, nunca chega a existir). Investir no que já está edificado parece não mobilizar os detentores do capital. Por sua vez, recuperar e reconstruir não são escolhas para os proprietários, para quem os valores ridículos das rendas justificam suficientemente a falta de iniciativa.

A somar a isso, é cada vez mais evidente uma quase absoluta indiferença dos habitantes em relação a fenómenos que conduzem à diminuição da qualidade de vida. Talvez falte a consciência de que o encerramento de espaços culturais é, efectivamente, sinónimo de diminuição de qualidade de vida. Perante tal cenário, somente um silêncio demasiado perturbador.

Pior do que uma cidade que vai morrendo aos poucos, é uma cidade que não denuncia os seus homicidas. O Porto, lamentavelmente, cala e consente. Só as madeiras rangem um pouco por toda a parte, nesta cidade-fantasma.

[Também publicado em PNETmulher.]

© Marta Madalena Botelho

29.8.08

nitin sawhney


Nitin Sawhney. «Letting go».
Do álbum «Beyond Skin» [1999].

inspiração

Pela minha parte, caro Mr. Finn, digo que há apenas duas fontes de inspiração para a escrita: uma valentíssima dor-de-corno ou um grande amor. A primeira, porque nos esmaga e nos obriga a expulsar o que nos tolhe corpo e alma. O segundo, porque nos preenche e nos obriga a libertar o que nos inunda cérebro e coração. O facto de ambos os estados fornecerem extenso material só traz vantagens. Sendo que, regra geral, passamos de um estado ao outro sucessivamente, não há períodos de falta de inspiração. O que há é uma tremenda falta de coragem para admitir que dor e euforia são duas faces da mesma moeda e que, na vida, tudo se paga.

© [m.m. botelho]

26.8.08

manhas de meliante

parque carlos alberto | porto | 24.08.2008

Atravesso as Praças Parada Leitão e Teixeira Gomes e desço as escadas que me levam ao parque de estacionamento. Procuro apressadamente nos bolsos o cartão de pagamento que trouxe do «Piolho». Não o encontro, mas eu tenho a certeza de que fui eu quem o guardou, julgo que nos bolsos. Verifico uma vez mais. Não, definitivamente não fui eu que guardei o cartão. Por momentos, questiono se não estarei a começar a evidenciar sinais de demência. Sendo assim, terei de pagar a taxa com moedas. Tu sorris para mim e agitas dois cartões entre os dedos. Afinal de contas, não estou assim tão tontinha: sempre era eu quem tinha guardado o cartão.
Tens manhas de meliante, tu. Podias muito bem ser carteirista de profissão. Certamente tiraste-me o cartão do bolso sem que eu me apercebesse.
Não sei bem por que fiquei surpreendida com a tua arte de dedos leves. Afinal de contas, foi também sem que eu desse por ela que, numa madrugada de nevoeiro, me roubaste o coração.

© [m.m. botelho]

eu

[m.m.b.]
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» O âmbito do direito de autor e os direitos conexos incidem a sua protecção sobre duas realidades: a tutela das obras e o reconhecimento dos respectivos direitos aos seus autores.
» O direito de autor protege as criações intelectuais do domínio literário, científico e artístico, por qualquer modo exteriorizadas.
» Obras originais são as criações intelectuais do domínio literário, científico e artístico, qualquer que seja o seu género, forma de expressão, mérito, modo de comunicação ou objecto.
» Uma obra encontra-se protegida, logo que é criada e fixada sob qualquer tipo de forma tangível de modo directo ou com a ajuda de uma máquina.
» A protecção das obras não está sujeita a formalização alguma. O direito de autor constitui-se pelo simples facto da criação, independentemente da sua divulgação, publicação, utilização ou registo.
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» A obra não depende do conhecimento pelo público. Ela existe independente da sua divulgação, publicação, utilização ou exploração, apenas se lhe impondo, para beneficiar de protecção, que seja exteriorizada sob qualquer modo.
» O direito de autor pertence ao criador intelectual da obra, salvo disposição expressa em contrário.