11.11.08

venham mais cinco

o calhambeque | porto | 08.11.2008

A noite de sábado costuma ser sempre produtiva, quer a opção recaia sobre o trabalho ou sobre o lazer. Com meses de intervalo entre hoje e o último dia em que nos cruzámos, os rostos parecem sempre mais preocupados, mais envelhecidos, carregados. Valeu-nos o entusiasmo de quem rompeu barreiras pela primeira vez e repete a história com orgulho para nos encher de boa energia.

A cidade convidava e nós aceitámos o repto: fomos pelas horas dentro com ela, entre cervejas e copos de vinho tinto.

[Os pratos em cima da mesa eram cinco, mas o recibo só refere quatro refeições. No mínimo, curioso. ;)]

© [m.m. botelho]

9.11.08

a má praxe não é praxe

O assunto é recorrente. No início de cada ano lectivo, recoloca-se a questão: deve ou não pôr-se termo às praxes académicas? Falamos, claro, da praxe académica que pode ser sucintamente definida como um conjunto de práticas, usos e tradições a que se sujeitam os estudantes que acabam de ingressar na universidade (vulgo «caloiros») por imposição dos alunos que já lá andam (vulgo «doutores»).

Começo por fazer uma declaração de interesses: fui estudante universitária (em Coimbra), fui «pela praxe», e praxei, mas já que se impõe a verdade absoluta dos factos, importa ainda dizer que apesar de ter sido «pela praxe», nunca fui praxada. Valeu-me a sempre providencial «protecção de sangue» da minha irmã ou, quando não foi isso, a minha distinta lata que me levava ao atrevimento de me fazer passar por «doutora» quando ainda era caloira. Nunca menti dizendo ser o que não era, mas respondi duas ou três vezes com um «O que é que tu achas?» em tom intimidatório a algumas «doutoras» que queriam saber se eu era caloira. Era remédio santo para me deixarem em paz.

Ainda assim, se tivesse sido praxada, não teria alterado a minha posição em face da praxe. Não querendo parecer parcial mas estando consciente desse risco, continuo ainda hoje a defender que a praxe coimbrã é diferente. Em primeiro lugar, em Coimbra há segregação de géneros na praxe: «doutor» só praxa caloiro e «doutora» só praxa caloira. Em segundo lugar, há (ou, pelo menos, no meu tempo havia) um Concílio de Veteranos muitíssimo atento ao que se vai fazendo e que não tem (pelo menos, no meu tempo não tinha) pejo nenhum em punir «doutores» que violem o Código da Praxe. Em terceiro lugar há naquela Academia um profundo respeito pelo caloiro, a quem o «padrinho» ou a «madrinha» devem proteger de todas as tentativas de humilhação, punição desmesurada e abusos. E vigora até a proibição de pintar os caloiros, sob o lema «os caloiros não são palhaços».

Desconfio que se tivesse estudado em Évora, seria anti-praxe. E quem diz Évora, diz Bragança e umas quantas outras cidades onde a praxe não é praxe nem é nada. E por um simples motivo: defendo quem é anti-praxe e eu mesma seria anti-praxe em todas as academias em que não há respeito pela dignidade humana e onde a praxe é vista como o passaporte para humilhar o outro e provocar-lhe sofrimento físico e psicológico. Em face disto, os argumentos sempre prontos da tradição e da integração são facilmente rebatíveis. A verdadeira praxe nada tem que ver com subjugação, humilhação e desrespeito, mas antes com acolhimento, boa-disposição e, acima de tudo, liberdade de adesão ou não sem represálias. Quanto à integração diga-se já que ela não se faz, certamente, recorrendo a indescritíveis rituais de gosto discutível, para não lhe chamar soez, como sejam o rastejar na lama, beber urina, simular orgasmos ou andar pela rua com palavras ordinárias escritas nas camisolas e na cara.

As tradições não podem ser estáticas e o costume não pode ser invocado para legitimar aquilo que nem sequer corresponde aos usos praxísticos, como temos vindo a observar em Portugal. Há cem anos já havia praxe, mas não havia sete noites de Queima nem milhares de litros de cerveja para consumir sem regro e, no entanto, ninguém parece importunado com as alterações que a festa de Maio sofreu, com óbvio sacrifício da tradição. Se assim é, parece-me claro que não pode invocar-se a manutenção da tradição para umas coisa dispensando-a para outras.

A verdade, sem mais, é que o tempo passa e as coisas, felizmente, mudam (o que não é novidade nenhuma, bem sei, pois Camões já o disse com brilhantismo há quase cinco séculos). Não pode comparar-se a pressão existente hoje sobre os estudantes universitários com aquela que existia no tempo em que um Hilário estudante de Medicina conseguia conciliar o curso com os fados e as guitarradas à janela das donzelas. O mercado pressiona, a família pressiona, a economia pressiona, a auto-estima pressiona. O mesmo se diga em relação ao tempo de estudo. Quantos foram os que fizeram o curso «por correspondência», deslocando-se às faculdades apenas para realizar os exames? Inúmeros, como se sabe. E depois de Bolonha, continua a ser assim? Claro que não. A avaliação contínua obriga a abandonar a concepção do ano lectivo em picos de produtividade e estudo (as épocas de frequências) e arrasta consigo um modelo de aplicação a tempo inteiro. Cabe, então, perguntar: e a praxe, o que fez para se adaptar a estas mudanças? A resposta é óbvia: nada.

O assunto dava pano para mangas e não se compadece com o espaço de uma crónica, mas é incontornável dedicar umas palavras à tão falada integração. Longe vão os tempos em que os caloiros eram o fiel retrato do saloio que chegava à cidade universitária montado num burriquito e com uma malinha na mão, ignorante sobre tudo o que se passava fora da sua aldeia e ávido de descobrir um novo mundo que se abria com o ingresso na faculdade. Os caloiros de hoje não precisam de quem os leve a correr a cidade cantando e dançando, não precisam de quem os leve às tascas para apanharam a primeira bebedeira (que aconteceu já nos tempos de liceu) e muito menos precisam de meios de integração que se limitem a desconsiderá-los e a sujeitá-los a tratamentos degradantes. A integração de que tanto se fala deveria passar pela praxe para aqueles a quem ela satisfaça e por alternativas à praxe, com diversas vertentes (cultural, académica, desportiva ou de mero lazer) para aqueles que a ela não queiram aderir (e aqui deixo uma crítica também aos que se proclamam anti-praxe: não basta que nos queixemos do que existe porque não nos agrada, também é necessário criar alternativas e contribuir activamente para a mudança).

Discutir se a praxe deve ou não fazer-se parece-me uma questão de segundo plano. Antes de tudo, julgo, deveria discutir-se a praxe que temos, se ela serve os objectivos a que se propõe, se ela tem de facto as vantagens que se arroga. Depois desta reflexão cumprida, então sim, talvez estejamos em condições de optar por mantê-la ou não, consoante se conclua ou não que a sua existência continua, de facto, a valer a pena.

[Também publicado em PnetMulher]

© Marta Madalena Botelho

4.11.08

genuinamente velho

chien qui fume | porto | 03.11.2008

Os recibos do «Chien» são dos poucos que continuam a ser emitidos por uma máquina registadora, sem dúvida um exemplo de, digamos assim, modernidade no meio daquele balcão onde abundam as antiguidades. A máquina está pousada ao lado da grafonola que não toca, tal como os discos pendurados nas paredes. No «Chien» continua a ser assim: salada de galinha com ananás e bifinhos de porco à Zurique ao lado do sempre eterno Romeu&Julieta ou dos figos com vinho do Porto. De um lado os desenhos rabiscados pelos clientes, do outro o vinil emoldurado. O mais fascinante, contudo, continua a ser aquele telefone genuinamente velho, caquético, a precisar de reforma, cujo toque continua a atordoar os comensais das duas salas.

© [m.m. botelho]

2.11.08

tripas e alface dão uma bela sardinhada!

Ao contrário do que possa pensar-se, a proximidade física que tenhamos em relação às cidades pouco diz da paixão que por elas nutrimos. Recordo, por exemplo, que conheço muitas pessoas que vivem em Coimbra e abominam a cidade e outras que não vivem lá e que afiançam que todos os dias choram copiosamente de saudades pelas águas do Mondego. A cidade é a mesma para toda a gente e, no entanto, enquanto uns a amam perdidamente tal como ela é, outros só queriam poder transformá-la. Vá-se lá compreender o ser humano!

A verdade é que eu poderia muito bem começar este texto com uma afirmação colhida numa das canções dos Madredeus de que eu mais gosto: «adoro Lisboa» ou, então, pôr-me aqui a cantarolar o «Porto Sentido» do Rui Veloso até toda a gente ficar convencida de que a Invicta é a cidade do meu coração. Mas a verdade é que eu não sei se quero comprometer-me com uma escolha entre o Porto e Lisboa. É quase o mesmo que ter de escolher entre os rojões à Minhota, a posta à Mirandesa, os ovos moles de Aveiro, os pastéis de Tentúgal, o leitão da Bairrada, os ensopados alentejanos, o arroz de lingueirão algarvio e o bolo de mel da Madeira: impossível! Se me pedissem para seleccionar uma destas cidades em função dos defeitos da outra, seria o mesmo que me perguntarem se me entristecem mais os graffiti do Bairro Alto ou o abandono dos cinemas portuenses, caso em que a resposta só poderia ser uma: dispensaria de bom grado ambos. A tarefa é hercúlea, mais me vale desistir.

Claro que Porto e Lisboa jamais agradarão a gregos e a troianos ou melhor – talvez seja mais apropriado dizê-lo assim – a alfacinhas e tripeiros. Aliás, nem convém que assim seja, pois uma vez feitas as pazes entre «andrades» e «mouros» quem haveriam os amantes da capital apelidar de «provincianos»? E a quem haveriam os tripeiros de chamar «calões», enchendo a boca toda para dizer em brados que «O Porto trabalha, Coimbra estuda e Lisboa dorme»? Se houvesse consenso entre estas duas «espécies», estava morta a alma portuguesa e nem o Fado nos salvaria. No fundo, no fundo, os portuenses nem se importariam de comer as tripas outra vez só para poderem passar o resto da vida a dizer que fizeram um grande sacrifício pela pátria, do mesmo modo que os lisboetas sempre se sentiriam orgulhosos de cada vez que lhes chamassem mouros só para relembrar ao resto do país que, depois de conquistada, aquela fronteira nunca mais foi transposta pelos muçulmanos.

As questiúnculas entre o Porto e Lisboa fazem parte do espírito da nação, tal como o Eusébio, a Amália e a Nossa Senhora de Fátima e sem elas não seríamos os mesmos e Portugal não teria a menor graça, nem à força de muitos copinhos de três. Este minúsculo país é viciado na adrenalina subjacente à eterna luta entre o Norte e o Sul, entre o azul e o vermelho, entre o «à minha beira» e o «ao pé de mim». Nortenho que se preze faz como eu quando vou a Lisboa: desata a falar com pronúncia, não porque queira deixar bem vincada a sua naturalidade, mas simplesmente porque não consegue disfarçá-la. E se for um lisboeta no Norte haverá de fazer questão de começar cada frase por «oiça», não porque ache que o interlocutor é surdo, mas simplesmente porque já passou a fase do «portanto» e só está a um passinho da fase do «olhe».

O que importa, em ambos os casos, é não deixar margem para dúvidas sobre a valentia de defender a sua dama, seja ela a Antiga, Mui Nobre, Sempre Leal e Invicta Cidade do Porto ou a Mui Nobre e Sempre Leal Cidade de Lisboa (e ainda dizem os senhores do Norte que os peneirentos são os alfacinhas!...). O resto da sardinhada – sim, não são tripas nem jaquinzinhos fritos com arroz de feijão, é mesmo uma sardinhada! – haverá de vir por arrasto, até porque, num país que produz tão bons vinhos como os nossos, seria um desperdício não os acompanhar com o fruto de tanto mar que nos banha a costa.

[Também publicado em PnetMulher]

© Marta Madalena Botelho

26.10.08

deus tem sentido de humor, alguns portugueses é que não.

Durante esta semana foi noticiado que a Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC) recebeu mais de setenta queixas motivadas por um sketch intitulado «Louvado sejas, ó Magalhães», que integrou o episódio 3 do último programa dos Gato Fedorento, «Zé Carlos», no qual alguém envergando uma batina celebra uma cerimónia muito semelhante a uma missa em louvor do Magalhães, que termina com o sacrifício de um dos presentes, todos eles professores. Segundo um comunicado da ERC, as queixas apresentadas a propósito deste sketch, todas em nome individual, centram-se «essencialmente na ofensa, no achincalhamento e na falta de respeito pelos símbolos religiosos católicos, em especial pelos rituais da Eucaristia».

Ainda é recente a memória da suspensão da emissão dos programas de Herman José na R.T.P. por ter parodiado a Última Ceia. A sorte de Manuel Luís Goucha e de Teresa Guilherme foi ainda mais insólita: foram ambos despedidos da Rádio Renascença por terem contado aos microfones daquela estação de rádio uma anedota em que uma das personagens era Deus.

Lamentavelmente, não se pode dizer que seja propriamente novidade em Portugal o que está a suceder aos Gato Fedorento, tal como não pode dizer que o que aconteceu a Herman, Goucha e Teresa Guilherme sejam apenas vagas lembranças. Em Portugal continua a haver quem ainda não consiga distinguir a caricatura da ofensa, a crítica do ultraje, a liberdade de expressão da afronta.

Há quatro aspectos comuns a estas três histórias: (1) são momentos humorísticos (2) de certa forma relacionados com a religião que (3) foram transmitidos em meios de comunicação social e (4) que suscitaram sentimentos de ofensa em alguém. Contudo, há anos a separá-las. Anos que, supostamente, deveriam ter surtido algum efeito no modo como os portugueses reagem ao humor, mas que não surtiram.

Com efeito, continua a haver em Portugal quem ache que há temas absolutamente vedados ao humor. Alguns nacionalistas, por exemplo, acham que cantar o hino nacional com uma letra alterada deveria ser razão mais do que suficiente para encarcerar alguém durante, no mínimo, vinte anos (mas estou certa de que se lhes perguntássemos o nome de quem escreveu a música e a letra de «A Portuguesa», não saberiam dizer). Por seu turno, os adeptos dos clubes de futebol continuam a zangar-se uns com os outros só à conta de umas anedotas que alguém com excesso de tempo livre põe a circular via e-mail. Alguns católicos, por sua vez, acham que importar alguns elementos da sua religião para fazer uma crítica ao governo (sim, por incrível que pareça, tratava-se de uma crítica ao governo e às acções de formação por ele propostas aos professores e não de um achincalhamento da cerimónia da missa) é uma infâmia e uma ofensa gravíssima ao seu sentimento religioso.

Resumindo, em Portugal só se pode fazer piadas sobre alentejanos, mulheres, advogados, homossexuais e a Manuela Moura Guedes. Quase tudo o resto haverá sempre de constituir ofensa para alguém, neste país que, não obstante os hercúleos esforços de alguns perseverantes que teimam em fazer rir este povo sisudo, ainda não é capaz de rir de si mesmo.

O sketch dos Gato Fedorento não contém absolutamente nada que possa considerar-se ofensivo da celebração da missa simplesmente porque não incide sobre nenhum aspecto religioso. Toda a crítica é dirigida às acções de formação do Magalhães, nas quais os professores foram convidados a enaltecer o computador («louvar» foi o verbo utilizado pela imprensa) e a prestar-lhe algo muito semelhante a uma veneração. Embora tenha como inspiração um símbolo religioso católico, o sketch fica-se por aí no que concerne a esse assunto. Tudo o resto é, tão somente... humor, caricatura, boa disposição e crítica mordaz!

O estilo do Gato Fedorento nem sequer é novo. Aliás, há quem diga que este programa esgota o conceito de humor que eles realizam. Não deixa de causar alguma perplexidade, portanto, que haja setenta pessoas a fazer tanto barulho por nada.

Já vai sendo tempo de, em Portugal, se porem de lado certos pruridos que apenas dão azo a polémicas perfeitamente estéreis e de que de nada servem senão para evidenciar que ainda há quem não tenha inteligência suficiente para decompor e interpretar um simples sketch humorístico.

Não consta, contudo, que Jesus tenha vindo à Terra só porque os Gato Fedorento puseram um coro a cantar «Louvado sejas, ó Magalhães», ainda por cima, num Domingo, dia do Senhor! Só há uma conclusão a tirar de tudo isto: Deus tem sentido de humor, alguns portugueses é que não.

[Também publicado em PnetMulher]

© Marta Madalena Botelho

25.10.08

entre o vivo, o não vivo e o morto

entre o vivo


o não vivo


e o morto

entre o vivo, o não vivo e o morto | revista filosófica não-académica

apresentação + concerto the rose buttons [rock sónico/show case]
livraria gato vadio | porto | 25.10.2008 | 22h00

descoberta

A meio da leitura de um dos vários e fascinantes livros que estou presentemente a consultar para a redacção de um texto académico, descubro que de mim se poderia dizer em epitáfio, caso morresse agora, «aqui jaz fulana de tal, nuligesta e nulípara», entre muitas outras coisas.

© [m.m. botelho]

24.10.08

tia aninhas

tia aninhas | porto | 23.10.2008

O arroz de grelos da Tia Aninhas não deve ter rival no Porto inteiro. Enquanto estaciono o carro confesso hesitar entre ganhar coragem e ir novamente ao sushi e o arroz de pato d'«O Carteiro», mas depois lembro-me do incomparável sabor do arroz de grelos da Tia Aninhas e lá vou eu, feita autómato, porta adentro a salivar. A quantidade é absurda, pois daria para matar a fome a três, mas verdade seja dita que pouco sobra na caçarola de barro depois de eu lhe deitar o dente. Não me importa o acompanhamento, ponham-me é em cima da mesa o arroz de grelos, que o resto é conversa.

Espero que a receita se mantenha por muitos e longos anos e que não lhe suceda o mesmo que à máquina registadora que deu lugar ao computador. Os recibos ganharam em definição, mas perderam em encanto. Restam-nos os do «Chien» para nos recordar que ainda há quem não se renda ao «Winrest». Os do «Chien» e todos os antigos do «Tia Aninhas» que eu guardo religiosamente. Assim se prova que nem tudo é mau em ser-se obsessivo-compulsiva.

© [m.m. botelho]

palin, a sopeira

Pergunta: se é mesmo verdade que a senhora Sarah Palin gastou aquela enormidade de dólares (podia ter sido simplesmente dinheiro, mas não, foram dólares) em roupas e cabeleireiros, porque é que continua a ter aquele ar de sopeira?

A vasta experiência que me dá a minha visita anual, em noitada de São João, à roulotte das Farturas Nela, diz-me que, fisicamente, entre ela e a senhora que simpaticamente apregoa «São tão boas que até vais querer rapar a panela!» não há grande diferença.

Já no resto, são como da água para o vinho: a senhora das Farturas Nela gosta mais de pessoas do que de petróleo e não permite que homem nenhum, nem mesmo um pseudo-bispo de uma pseudo-igreja, lhe ponha a mão em cima.

[Também publicado em PnetMulher]

© Marta Madalena Botelho

23.10.08

tão indie, tão indie, tão indie

Em conversa, a irmã mais nova de uma amiga minha, uma jovem daquelas que ainda agora saíram da faculdade e já se acham o supra sumo da sabedoria, daquelas muito senhorecas de seu nariz, muito independentes, muito "positivamente" egoístas, daquelas que sabem sempre muito bem o que querem e não admitem que ninguém, muito menos um gajo, tenha sequer a pretensão de um dia vir a mandar nelas, daquelas que só compram a roupa e os sapatos em lojas alternativas onde se vendem túnicas fabricadas a partir da cannabis e que não sabe sair de casa sem um livro debaixo do braço, nem que seja para ir à mercearia (sim, que ela tem horror a supermercados) comprar um pacote de leite (sim, que ela compra um pacote de leite de cada vez porque vai a pé e tem horror ao consumismo evidenciado por quem, como eu, compra logo às dúzias e dúzias, já para não falar nas imensas condenações que faz ao facto de eu ser uma «assassina ambiental» que leva o carro quando vai às compras), pergunta-me se leio o blogue da Laurinda Alves.
Respondo-lhe que não, que desconhecia inclusive que Laurinda Alves escrevia num blogue, mas que duvido que mesmo que soubesse o site passasse a fazer parte da estreita lista dos que acompanho regularmente (e por regularmente entenda-se uma regularidade muito minha, que abriga debaixo do mesmo chapéu-de-chuva as visitas diárias e as mensais).
Ela replica «fazes tu muito bem», para logo a seguir dizer que ela sim, lê o blogue da Laurinda Alves ("da" Laurinda Alves), mas apenas porque gosta de se rir com a pobreza de espírito da Laurinda Alves (outra vez o "da") que, nas palavras dela, é uma tonta que passa a vida a falar de assuntos perfeitamente fúteis e que por ela (a Laurinda Alves) bem podiam as mulheres limitar-se a serem «máquinas parideiras que de dia dão de mamar aos filhos e à noite mamam os maridos».
Eu respondo com um desinteressado «estou a ver...» enquanto passo os olhos pelo Diário Económico de ontem (o pormenor de ser o de ontem tem toda a importância, embora não pareça) e bebo um pouco de café, na esperança de que o assunto morra por ali antes que seja eu a morrer de tédio perante a sua irrelevância, mas não.
Ainda eu pousava a chávena já ela abria a bocarra para proferir a alarvidade do dia, «não há pachorra para a Laurinda Alves, não me surpreende nada que o Miguel Sousa Tavares lhe batesse», seguida de uma gargalhada daquelas que algumas pessoas dão apenas para tentarem chamar a atenção dos outros, o que às vezes até conseguem, mas tão somente pelos piores motivos. Depois, pergunta-me se não achei graça à observação.
Eu respondo secamente que não, que assim se vê que uma tipa como ela só é muito indie e alternativa e whatever por fora, porque por dentro e nas baboseiras que diz é tão básica e mainstream como qualquer uma das muitas pessoas que ela critica por se deixarem conduzir pelo caminho fácil da maioria e que não pensam pela própria cabeça, já para não falar no facto de ser inadmissível que alguém supostamente tão indie, tão indie, tão indie possa sequer achar que a violência, seja ela de que tipo for, é motivo para chalaças.
Ela dá outra gargalhada que tem tanto de nervosa como de estridente enquanto eu pouso uma moeda de um euro na mesa e me despeço, deixando no ar que é bom que ela perceba que o sentido de humor é algo apenas ao alcance de alguns e que, graças a ela, eu começo a convencer-me de que a inteligência também.

© Marta Madalena Botelho

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