18.12.08

as minhas aventuras nos tribunais portugueses [1]

O juíz - Vai ficar em pé, em frente a essa cadeira e vai falar para esse microfone. Vai responder a umas perguntas sobre a sua identificação pessoal. Diga-me o seu nome completo.
A testemunha - Fulano.
O juiz - O seu estado civil?
A testemunha - Estado civil? Eh... Normal.
O juiz - Não existe o estado civil "normal". O senhor só pode ser solteiro, casado, viúvo ou divorciado.
A testemunha - Ah, sou casado.
O juiz - Hum... É casado e acha isso normal?... Hum...

© Marta Madalena Botelho

14.12.08

a montanha partiu o rato

Após meses e meses de resistência, o Ministério da Educação resolveu assumir alguns dos seus erros e aceitou rever a sua posição na matéria da implementação da avaliação dos docentes. A Plataforma Sindical clamou vitória e nós, pais, alunos ou simples portugueses que estão fartinhos até à ponta dos cabelos de ouvir vezes sem conta as mesmas notícias a abrir os noticiários da rádio e da televisão rejubilámos todos, pensando que finalmente sucederia o tão aclamado diálogo e que o Ministério da Educação iria finalmente aceitar ouvir as propostas dos professores.

A verdade é que, ao aceitar voltar a discutir a questão, a Ministra Maria de Lurdes Rodrigues reconheceu três aspectos: (1) que o modelo proposto pelo Ministério era demasiado complexo, moroso e burocrático, (2) que existiam conflitos entre os avaliadores e os avaliados e que (3) mais do que propor, tinha imposto. Os sindicatos, por sua vez, não ficaram satisfeitos. Depois da reunião desta semana, ficou mais do que claro que a sua intenção não era rever o modelo de avaliação, mas sim exterminá-lo.

Isso mesmo ficou bem patente na proposta que a Plataforma Sindical apresentou na reunião, que consistia num modelo de auto-avaliação baseado na assiduidade, que cada professor apresentaria junto do Conselho Pedagógico da escola, órgão a que incumbiria acompanhar o seu cumprimento.

Ora, um modelo como este é risível. Depois de meses e meses de luta em que os professores clamavam em brados que não temiam a avaliação, vêm esses mesmos professores apresentar uma proposta de auto-avaliação. Até os mais distraídos sabem que a auto-avaliação, em rigor, não é avaliação alguma. Em suma, o que esta atitude acaba de demonstrar é que, afinal, a Ministra da Educação não estava assim tão longe da verdade quando dizia que o descontentamento dos professores se devia exclusivamente ao facto de não quererem ser avaliados. Se é por medo da avaliação ou não, ficámos todos sem saber, mas que não querem ser avaliados passou a ser claro como água.

Se, até aqui, a opinião pública sempre foi acompanhando a posição dos professores, não creio que continue a fazê-lo, pelo simples facto de que é convicção de muitos que o projecto de reforma em curso é fundamental para a melhoria da qualidade do ensino em Portugal. O importante é a formação dos indivíduos, pois é para isso que servem as escolas e não apenas para garantir a realização profissional de todos os que sentem a vocação de ensinar ou o ordenado de funcionário público de alguns no final do mês.

Não está já em causa a avaliação, que todos reconhecem necessária, mas tão somente o modo como haverá de ser feita e os requisitos a que obedecerá. Se os professores não aceitam o modelo de avaliação proposto pelo Ministério da Educação, terão necessariamente de propor outro, mas essa proposta terá de consistir num modelo de verdadeira avaliação e não numa forma camuflada de a evitar, como sucede com a auto-avaliação.

O braço-de-ferro que os sindicatos insistem em manter com o Governo não tem qualquer razão de ser e a sua manutenção revela-se prejudicial para todos, principalmente para os professores, que nitidamente perdem o terreno entretanto ganho perante a opinião pública e se afastam do reforço que poderia ser garantido pela oposição político-parlamentar, com quem demonstraram não estar em consonância. Na «guerra» de que falaram os sindicatos talvez o resultado venha a ser favorável ao Governo, o que ninguém deveria arriscar pagar para ver...

De tudo isto resta uma conclusão, a de que a montanha pariu o rato. O modelo de avaliação apresentado pelos professores é, afinal, um modelo de «não-avaliação» e isso, francamente, não é alternativa.

[Também publicado em PnetMulher]

© Marta Madalena Botelho

8.12.08

lembras-te?

nouvelle vague | c.a.e. são mamede | guimarães | 08.12.2007

A sala absolutamente apinhada. Gente, gente, gente e mais gente em redor. Um constante burburinho, o som das costas irrequietas nas cadeiras e dos obturadores das máquinas fotográficas.



«in a manner of speaking
I just want to say
that I could never forget the way
you told me everything
by saying nothing»


De repente, a sala absolutamente vazia. Apenas o escuro em redor. Os teus braços, o calor dos teus braços. Não precisaste que eu te dissesse as palavras.

© [m.m. botelho]

no início da noite

nora do zé da curva | guimarães | 08.12.2007

Há um ano. Lombinhos de porco preto. Migas. Arroz branco. Feijão preto. Farofa. Ananás. Mousse de chocolate. Café. Um par de cigarros. E os teus olhos sempre tão bonitos.

© [m.m. botelho]

7.12.08

já que falamos de sexo, falemos também de SIDA.

A Senhora Ministra da Saúde anunciou esta semana que os testes para detectar a contaminação com o vírus HIV vão passar a ser gratuitos no Serviço Nacional de Saúde. Como tantas outras, trata-se de mais uma medida que, embora positiva, não deixa de ser demagógica, daquelas que parece que tem um grande efeito mas não tem efeito nenhum ou, pelo menos, não o que o Governo lhe pretende imprimir e despudoradamente apregoa. Contudo, antes testes gratuitos do que nenhuns testes, «do mal, o menor». Mas não chega e não pode servir de pretexto para que o Governo finja que está tudo bem e se esquive à sua responsabilidade no controlo do alastramento da doença. Com isto não estou a querer dizer que não se faz nada, mas sim que o que se faz é pouco ou não tão profícuo como desejável. Ou seja, não ponho a tónica no que se faz, mas sim na ausência de resultados.

Pela minha parte, ficaria mil vezes mais feliz se o Governo anunciasse que, finalmente, tinha decidido apostar verdadeiramente na prevenção através de aulas de educação sexual para toda – repito, toda – a população.

Basta recuar uma geração em relação à minha para ver que as pessoas que andam hoje entre os cinquenta e os sessenta anos iniciaram a sua vida sexual de forma desprotegida e desse modo mantêm a sua prática sexual. Naquele tempo, dizem, ninguém falava em SIDA e, portanto, não havia grandes precauções a tomar a não ser as devidas cautelas para que não acontecesse uma gravidez indesejada. De resto, o único cuidado a ter era na escolha do parceiro, que convinha que tivesse um ar minimamente limpinho. Daí se conclui que, hoje como então, há quem continue a acreditar que a transmissão de doenças como a SIDA não afecta senão os homossexuais, os toxicodependentes e os heterossexuais que praticam sexo desprotegido com prostitutas.

O tema assume contornos ainda mais constrangedores entre os casais. As mulheres acham que não têm o direito de pedir aos seus maridos que façam testes, sob pena de eles legitimamente se sentirem ofendidos por elas se atreverem a pôr em causa a sua fidelidade sexual. E se julgam que não têm o direito de exigir aos maridos a simples realização de um teste, muito menos acham que podem pedir-lhes que utilizem preservativo, mesmo quando sabem que os maridos têm relações extraconjugais (e sabem-no tantas e tantas vezes). No que respeita aos homens, o panorama não difere muito. Digamos que nenhum pai de família devidamente aprumado se atreve a pedir à sua mulher, mãe dos seus filhos, que faça o teste (pois se nem sexo oral – senhores, trata-se da boca que lhes beija a descendência herdeira! -, quanto mais um teste de HIV...). Entre os casais não há cá dessas coisas. E sendo portugueses, não há que temer: a Nossa Senhora de Fátima protege os bons pais e mães de família desse tipo de maleitas como a SIDA e outras do género. Certamente, não se dão ao trabalho de olhar para as estatísticas, caso contrário perceberiam que nem só de drogados e de gays vivem elas e que, portanto, os números engordam graças a alguém. *

Os jovens portugueses precisam de educação sexual, sem dúvida. Mas convém não esquecer que não são só eles, é um país inteiro de gente que continua a achar que Portugal é «um cantinho do céu» e que, assim sendo, está devidamente protegido, acautelado, vacinado mesmo se não houver protecção, cautela, vacina. Quem assim pensa são os mesmos portugueses a quem a notícia desta semana agrada, mas não aquece nem arrefece. No fundo, todos acreditamos que por vergonha, por acharem desnecessário ou por qualquer outra razão, não serão muitos os que vão querer fazer o teste no S.N.S. e, sendo assim, não se vai gastar muito dinheiro de impostos com isto (afinal, tudo o que interessa).

Distribuir testes é giro, é moderno, é sinal de preocupação. Claro que sim, dizemos nós todos contentes, apoiando a medida e achando que em 2008 já se fez tudo o que havia para fazer em relação ao assunto do qual só nos lembraremos no próximo dia mundial de luta contra a SIDA, ou seja, a 1 de Dezembro de 2009. Pelo caminho, esquecemos que quanto mais tarde começarmos a prevenir, mais tarde conseguiremos controlar os efeitos. Isto, é claro, se conseguirmos.

* Particularmente elucidativo é o relatório que o Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge divulgou em Junho de 2008, especialmente pp. 7 e 8.

[Também publicado em PnetMulher]

© Marta Madalena Botelho

4.12.08

dustin


Dustin O'Halloran. «Opus 37».
Do álbum «Piano Solos. Vol. 2» [2006].

2.12.08

ready for the future to arrive

«on the morning when I woke up without you for the first time
I was cold so I put on a sweater and I turned up the heat
and the walls began to close in and I felt so sad and frightened
I practically ran from the living room out into the street

and the wind began to blow and the trees began to pant
and the world in its cold way started coming alive
and I stood there like a business man waiting for the train
and I got ready for the future to arrive

and I sang
oh, what do I do? what do I do? what do I do?
what do I do without you?»



The Mountain Goats. «Woke up new».
Do álbum «Get lonely» [2006].

Um complemento, digamos assim, ao texto anterior.

30.11.08

debaixo do teu chapéu-de-chuva

rainha da foz | porto | 30.11.2007

Chovia. Com muita sorte à mistura, arrumei o carro mesmo ali ao pé, numa transversal sempre movimentada onde encontrar um lugar de estacionamento só pode mesmo ser prenúncio de grande fortuna.
Não sei se já disse que chovia. A chuva complica tudo: o trânsito, a deslocação das pessoas a pé, as cargas e descargas. À conta dela, encharquei as calças pretas que eu trazia vestidas. E foi à conta dela também que tu me abrigaste debaixo do teu chapéu-de-chuva.

© [m.m. botelho]

been there, done that.

Conheço uma mão cheia de pessoas maravilhosas que estão presentemente livres ou, pelo menos, aparentemente livres. Em boa verdade, no coração ainda guardam réstias de amores passados de cujo fim não se recompuseram e na memória têm demasiado presentes os retratos daqueles a quem tanto quiseram. Trata-se de pessoas que partilhavam relações afectivas estáveis que terminaram contra a sua vontade.

Uma grande amiga minha costuma dizer que só se cura um amor com outro amor. Claro que essa grande amiga minha é suspeita, pois faz parte do lote daqueles que estão à espera de se cruzar com outra pessoa para fechar o capítulo amoroso anterior, mas, ainda assim, jura a pés juntos que não há outra maneira de superar a coisa senão esta: uma nova paixão, de preferência, daquelas de caixão à cova.

Provavelmente, já quase toda a gente com mais de doze anos chegou a esta conclusão: não há fórmulas mágicas para pôr termo dentro de nós ao que já acabou cá fora. E tal como não há fórmulas mágicas, também não há verdades universais que se apliquem a todos os que estão descoroçoados por causa do fim de uma relação.

Os recursos utilizados para esquecer um amor são múltiplos. Há quem opte por uns meses de recolhimento em casa, por uma determinada dedicação ao trabalho, por saídas para copos e conversa com os amigos todas as noites, por viagens, por uma remodelação do guarda-roupa, por finalmente ler Les misérables, por trabalhar os bíceps e os tríceps, por ver todos os filmes da saga Star Wars, por ir fazer voluntariado durante um ano e por tantas e tantas outras coisas, desde que sejam suficientemente absorventes para impedirem que o pensamento se concentre no objecto do afecto não correspondido. Além destes há, também, os que prosseguem calmamente a sua vida nos exactos termos de outrora, embora escondendo as fotografias e outras coisas nas gavetas e evitando ir aqui e ali para não ver, não ouvir, não saber e, em consequência, não sentir.

Isto tudo até ao dia em que, inesperadamente, se apaixonam outra vez. A partir de então, o fim do mundo passa de amanhã para dali a mil anos, o choro dá lugar ao riso e todos os compromissos que preenchiam a agenda e que eram prioritários passam a ser perfeitamente dispensáveis, adiáveis ou mesmo desmarcáveis. É precisamente nesse instante que, como diz a minha grande amiga, se cura um amor com outro amor.

Dedicarmo-nos a cinquenta mil coisas para tentar não pensar em alguém que amamos e com quem já não partilhamos esse amor não tem nada de mal, podendo mesmo ser muito produtivo se se tratar de actividades que venham aumentar o nosso conhecimento, a nossa auto-estima e a nossa qualidade de vida, já para não falar nas supremas vantagens que o exercício físico pode trazer para o sucesso da nossa posterior vida afectiva e não só... Totalmente errado é ficar fechado sobre si mesmo, achar que nunca mais se vai encontrar uma pessoa como aquela, fazer o destrutivo jogo da atribuição da culpa ou ter atitudes que possam conduzir à irreversível destruição do que restou, como, por exemplo, boas memórias ou uma relação de amizade.

O fim não desejado de uma relação não é o fim do mundo, embora pareça. Também não é irremediável, mesmo que de repente o chão nos tenha escapado debaixo dos pés. E muito menos é um estado definitivo de solidão, a não ser que nós deixemos. O truque está em, com certa dose de parcimónia, deixarmos a vida seguir o seu curso. O resto vem por acréscimo e pode ser bom. Aliás, quase sempre é muito melhor. Posso afiançar que, às vezes, acontece mesmo: been there, done that.

[Também publicado emPnetMulher]

© Marta Madalena Botelho

29.11.08

«fortunate son»


Cat Power. «Fortunate son» (cover).
Do álbum «Dark end of the street» [2008].

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