15.1.09

as minhas aventuras nos tribunais portugueses [3]

O juiz - Mas eles dormiam na mesma cama?
A testemunha - Dormiam, sim.
O juiz - E como é que a senhora sabe isso?
A testemunha - Porque vi.
O juiz - Ai viu?
A testemunha - Vi, sim. Eu cheguei a ir a casa deles e eles estarem na cama. Eu tinha chave, entrava, deixava as coisas e saía.
O juiz - E eles na cama?
A testemunha - Exactamente, e eles na cama.
O juiz - Mas ele podiam dormir juntos e não fazer sexo...
A testemunha - Faziam sexo, faziam, que eu sei que faziam.
O juiz - Ai sabe? Como é que sabe? Não me diga que também viu!
A testemunha - Ver nunca vi, mas eu sei que faziam e se o senhor doutor juiz quiser saber [baixando o tom de voz para surdina] eu até lhe explico porque é que ela nunca quis ter filhos dele!
O juiz - Não, deixe estar, não é preciso. Eu já estou convicto de que a senhora efectivamente pode afiançar que eles dormiam juntos e faziam sexo um com o outro, não precisa de contar mais nada. Afinal de contas, não queremos estar aqui a devassar a intimidade das pessoas...

© Marta Madalena Botelho

14.1.09

tempos modernos

Através dessa maravilhosa plataforma que é o Facebook, uma espécie de Hi5 para gente crescida - com menos imagens, perfis não personalizáveis (o que os torna muito menos expostos à piroseira) e aos quais não é possível adicionar música - fico a saber que um dos meus amigos «went from being "in a relationship" to "single"». E assim percebi que, indubitavelmente, eis-nos chegados aos tempos modernos: o melhor modo de evitar que os amigos nos perguntem pelas pessoas com quem estivemos/vivemos em estado de graça mas entretanto deixámos de estar/viver, causando situações embaraçosas pelas quais certamente já todos passámos, é comunicar isso mesmo em todas as redes sociais de que façamos parte. Avisar por e-mail ou sms também serve, claro, mas, convenhamos, está longe de ser tão... moderno.

© [m.m. botelho]

11.1.09

«caso esmeralda»: quase nada é o que parece.

O apelidado «caso Esmeralda» sempre me pareceu sobremaneira interessante e por diversos motivos. Foi logo demasiado evidente, desde que as primeiras notícias começaram a vir a público, que o assunto faria correr rios de tinta e - ou não fossemos nós o país do fado - de lágrimas e gritos de revolta. Suavizando a coisa, digamos apenas que era inevitável que o povo português – esse que é sempre tão solidário (apesar da crise), esse que se apressa a emitir opiniões (apesar do parco domínio dos temas), esse que de sábio e de louco tem sempre um pouco (mesmo que não tenha coisa nenhuma) - fizesse do assunto uma novela... à portuguesa. Ora, se fosse um cozido, os ingredientes seriam carnes de todas as variedades e legumes a acompanhar; mas tratando-se do romancear da realidade, fica-se por um argumento distorcido, bem ao estilo do luso provérbio «quem conta um conto acrescenta um ponto».

Ao longo do mês de Janeiro de 2007, recebi na caixa de correio electrónico, seguramente, uma mão cheia de e-mails solicitando a subscrição de uma petição promovida por um grupo de intelectuais, na sua maioria ligados ao Direito da Família, à Psicologia e à Sociologia, que seria remetida ao Supremo Tribunal de Justiça, juntamente com o pedido de habeas corpus para a imediata libertação do «pai afectivo» da menor Esmeralda (1). Provavelmente, o mesmo sucedeu a muitas outras pessoas. Em face do pedido, procurei informar-me sobre os fundamentos de tal movimento e apurar se as razões que o fundamentavam, já que, tal como sucederia com qualquer outra petição, só após concluir que estava em concordância com o teor da mesma é que a assinaria. Em resultado da minha superficial "investigação", cedo concluí que não estava e cedo percebi, também, que a realidade andava longe de ser o que aparentava nos jornais, nas revistas e na televisão.

Ao contrário do que muitos pensam e foi veiculado, o pai biológico da Esmeralda não apareceu do nada em 2007 reclamando a entrega da filha. Na verdade, este é um processo que se arrasta pelos tribunais há cerca de sete anos e no qual todas as decisões judiciais foram no mesmo sentido, o da entrega da menor aos cuidados do pai biológico. E compreende-se bem porquê, bastando para tanto invocar e datar alguns acontecimentos. Ora, vejamos.

A menor nasceu em Fevereiro de 2002, mas somente em Julho do mesmo ano é que o pai biológico foi inquirido no âmbito do processo de investigação da paternidade. Importa referir que Baltazar Nunes compareceu regularmente após a citação e que manifestou de imediato a disponibilidade para assumir a paternidade da menor, exigindo, contudo, que fossem realizados testes hematológicos a ambos para que essa paternidade fosse certificada cientificamente, já que a mãe da Esmeralda se prostituía. O resultado dos testes foi obtido em Janeiro de 2003 e a paternidade foi confirmada. No dia 24 de Fevereiro de 2003, Baltazar Nunes foi notificado do resultado e perfilhou imediatamente a menor. Apenas três dias depois requereu a regulação do poder paternal da filha, pois legalmente a criança estava sob a tutela da mãe biológica, já que o documento assinado pela mesma em que declarava entregá-la ao casal de «pais afectivos» não tem qualquer validade. Com base nesse pedido do pai biológico foi instaurado o processo administrativo para regulação do exercício do poder paternal.

Em Julho de 2004 foi prolactada a primeira sentença que atribuiu a guarda e o poder paternal da menor a Baltazar Nunes. Seguiram-se várias queixas do pai biológico ao Ministério Público, uma vez que os «pais afectivos» não lhe entregavam a Esmeralda e o seu paradeiro era desconhecido. Em Janeiro do ano seguinte, deu entrada no Tribunal Constitucional o sobejamente conhecido recurso do casal reclamando a sua audição como parte legítima no processo de regulação do poder paternal. Entretanto, vários mandados de entrega da menor foram emitidos, todos eles incumpridos, pois os «pais afectivos» mudaram várias vezes de endereço, tentando com isso evitar as notificações dos Tribunais, consubstanciando os seus comportamentos um crime de sequestro (ou, como entendeu o S.T.J., de subtracção de menor). Foi por esse mesmo crime que o sargento Luís Gomes começou a ser julgado em Dezembro de 2006, quando sobre o caso recaiu a atenção da imprensa. No âmbito desse julgamento, o Tribunal determinou a prisão preventiva devido ao risco de continuação de actividade criminosa (o sequestro mantinha-se desde 2004) (2). Pela prática desse crime foi o sargento condenado numa pena de prisão efectiva de seis anos (3).

Sucintamente, o que judicialmente se seguiu foram tentativas sucessivas de, por intermédio do Tribunal, alcançar consenso entre o pai biológico e os «pais afectivos», todas elas malogradas, o que deixou claro que teria de ser o Tribunal a determinar a quem seria confiada a Esmeralda. Finalmente, em Janeiro de 2009, após diversos relatórios que confirmam o bem-estar da Esmeralda com o pai Baltazar Nunes, surgiu a decisão de a entregar aos seus cuidados de forma definitiva (4) (5).

Pelo meio ficou, ainda, o aproveitamento da mãe biológica da Esmeralda para obter o visto de residência por ter uma filha de um pai português. Foi, portanto, graças à perfilhação de Esmeralda por Baltazar Nunes que a mãe biológica da menor conseguiu ficar em Portugal, mas sobre isto a mesma não fala. O pormenor é revelador do carácter da mãe de Esmeralda, cuja opinião, só porque é favorável à entrega da menor aos «pais afectivos», parece muito considerada. Todavia, este não deixa de ser um dado paralelo ao caso, pelo que me limito a estas considerações.

Gosto de acreditar que se todas as pessoas soubessem o verdadeiro desenrolar dos acontecimentos deste caso poucos seriam os que defenderiam a tese de que a Esmeralda deveria ser entregue aos «pais afectivos». Perante estes dados é inevitável concluir que o que este casal fez, em suma, foi retirar à Esmeralda a possibilidade de conviver com o pai biológico, senão desde o momento da perfilhação (que ocorreu quando a menor tinha apenas um ano e doze dias de idade), ao menos desde Julho de 2004, ou seja, a data da primeira sentença. A situação de «afectividade» que os jornais tanto invocam foi, nada mais, nada menos do que criada por este casal de modo artificial e ao arrepio das decisões judiciais e da vontade do pai biológico. Para a opinião pública passou a opinião de que Baltasar Nunes nunca se havia interessado pela filha, quando na realidade apenas três dias mediaram entre a confirmação da sua paternidade e o início das suas inúmeras tentativas para que a criança lhe fosse confiada. Facilmente se antevê quem haverá de ter passado tais informações falsas para a imprensa: os únicos que daí poderiam obter benefício.

A versão que chegou aos Tribunais é, pois, bastante diferente da "verdade" que entrou pela porta dos portugueses. Independentemente de acreditarmos ou não que os «pais afectivos» fizeram o que fizeram por amor ou por qualquer outro motivo igualmente nobre, o que importa apurar é se o poderiam ter feito, ou seja, se o fizeram no interesse da criança. E aqui surgem, necessariamente, as maiores reservas.

A biologia não é determinante para criar um ambiente saudável para a educação de uma criança. A adopção prova-o irrefutavelmente, os milhares de crianças cuja educação é feita por instituições ou mesmo parentes afastados também. Contudo, não é pelo facto de não ser determinante que a biologia pode ou deve ser afastada. O que pretenderam fazer os «pais afectivos» foi privar a Esmeralda dos seus vínculos biológicos quando não existia qualquer motivo para isso. Ademais, tudo fazendo contra as decisões judiciais, ganhando tempo para cimentar uma relação afectiva sabendo já que não deveriam fazê-lo. Perante isto, sinceramente, eu tenho sérias dúvidas em reconhecer que agiram no «supremo interesse da criança».

Os «pais afectivos» tudo fizeram para que o tempo jogasse a seu favor, o que veio a acontecer, pelo menos no que respeita à opinião pública que, a reboque das petições para a sua libertação, crucificou injustamente o sistema judicial português sem qualquer motivo para tal. Porém, é evidente que, mais do que favorecer os «pais afectivos», o tempo prejudicou a Esmeralda. Estava bom de ver que um dia a menor haveria de ser localizada e o desfecho só poderia ser este – mais tarde ou mais cedo.

Observado o caso ao microscópio, seria bom que dele se extraíssem as devidas consequências e se compreendesse que as histórias têm sempre duas versões e nem sempre a mais ouvida é a mais verdadeira, ou seja, que nem sempre as coisas são o que parecem. Aliás, bem vistas as coisas, no «caso Esmeralda» quase nada é.

_______________

Notas:
(1) O acórdão do STJ, de 01.02.2007, que indeferiu o pedido de habeas corpus pode ser integralmente lido aqui.
(2) Curiosamente, ninguém pareceu reflectir sobre a razão pela qual a mulher do sargento, Adelina Lagarto, não está a ser julgada pela prática deste crime no âmbito do mesmo processo, mas a resposta é simples: graças a manobras de mudanças de endereços, uma vez mais, o Tribunal não conseguiu citá-la. Já Luís Gomes, por ser militar, não podia escapar tão facilmente (a lei considera o seu domicílio o local onde desempenha as suas funções, tornando relativamente fácil a sua citação).
(3) O acórdão do Tribunal colectivo de 1.ª instância, de 16.01.2007, pode ser lido integralmente aqui. Desta decisão foi interposto recurso pelo próprio Ministério Público, pugnando pela diminuição da medida da pena para quatro anos. O Tribunal da Relação de Coimbra decidiu aplicar uma pena de prisão de três anos, suspensa por igual período. O Supremo Tribunal de Justiça viria a alterar a qualificação jurídica do crime para subtracção de menor, aplicando uma pena de prisão de dois anos, suspensa por igual período, subordinando a suspensão ao cumprimento de vários deveres relacionados com a menor. O sargento foi ainda condenado no pagamento de uma indemnização a Baltazar Nunes, no valor de €30.000,00 (o acórdão do STJ, de 10.01.2008, pode ser integralmente lido aqui).
(4) A decisão do Tribunal de Torres Vedras, de 08.01.2008, pode ser integralmente lida aqui.
(5) Uma cronologia mais completa pode ser consultada aqui.

[Também publicado em PNETjuris, PNETcrónicas e na edição impressa do jornal «Póvoa Semanário» de 24.01.2009.]

© Marta Madalena Botelho

28.12.08

com chave de ouro

A partir de hoje restam apenas três dias de 2008, que é como quem diz, de ano velho. Logo a seguir, seremos todos presenteados com um pacote de 365 dias novinhos em folha, a estrear, a que chamaremos 2009. Diz-se por aí que será um ano de crise económica, de crise de valores, de crise no futebol, de crise na justiça, de crise na religião, de crise em tudo o que é canto. Esperemos, sinceramente, que, pelo menos, se salvem os éclairs da Leitaria da Quinta do Paço de que falei na crónica passada!

Na verdade, ninguém sabe como será o ano que aí vem, embora não faltem astrólogas e quejandos a anunciarem nas páginas dos jornais que detêm o precioso segredo do futuro. Não detêm, claro, mas a liberdade de expressão e as necessidades financeiras da imprensa escrita obrigam-nos a levarmos tanto com a verdade como com a mentira e, por isso, mais não resta do que cogitar sobre as universidades onde tal gente terá tirado o curso que lhes valeu o título de «professor»...

Tal como estes indivíduos com um especial fascínio por bolas de cristal, nenhum outro comum mortal é senhor do que haverá de vir. Em suma, andamos todos às apalpadelas à vida – uns mais, outros menos, claro – mas todos numa evidente salutar ignorância. Digo salutar porque, a este propósito, recordo-me de ouvir um professor (mas daqueles a sério, com doutoramento e tudo) dizer, em referência aos exames genéticos que permitem determinar a esperança de média de vida em função de factores hereditários, que, invariavelmente, ninguém é feliz a partir do dia em que conhece a data da sua morte, ou, pelo menos, o período de tempo em que a mesma pode estar iminente.

Transpondo, sem mais, o raciocínio, seríamos levados a crer que, de igual modo, seríamos todos profundamente infelizes logo a partir do dia 1 de Janeiro se soubéssemos o que vai acontecer no resto do ano, o que me parece um excelente motivo para não recorrer aos serviços da Maya, mas cada um sabe de si.

Voltando ao que importa, o factor surpresa parece, portanto, determinante para que nos sintamos entusiasmados para, além de estrear um novo ano, estrearmos cada um dos dias que o compõem. Talvez seja por isso, por causa dessa ausência de factor surpresa que, frequentemente, os últimos dias de Dezembro são dias negligenciados. Aqui entre nós: eu, no lugar do dia 31 de Dezembro, sentir-me-ia profundamente desanimada se, ano após ano, me visse descurada por causa do dia seguinte.

Convém não esquecer que o último dia do ano também o integra e, mais do que isso, que também é um dia, ou seja, uma dádiva, e que deve ser vivido com a mesma paixão, a mesma entrega e o mesmo sentimento de gratidão de todos os outros dias do ano. Lá porque é a chave que encerra o chamado «ano velho», não é necessariamente uma chave de latão.
Em suma, tenho de concluir que as palavras do meu insigne professor não se aplicam a tudo: lá porque já sabemos que o dia em que 2008 haverá de morrer é a próxima quarta-feira, ou seja, que poucos ou nenhuns cartuchos de factor surpresa restarão para queimar nesse dia, tal não deve ser sinónimo de desinteresse e, muito menos, de infelicidade.

Pela minha parte, tenciono, desta vez, encarar o último dia do ano com a mesmíssima alegria com que encarei o primeiro, independentemente de tudo. Afinal de contas, só haverá um dia 31 de Dezembro de 2008 e eu continuarei a ser uma privilegiada por vivê-lo, a cada segundo, até ao último dos segundos.

E faço votos, também para que todos sejamos capazes de encerrar 2008 como ele merece ser encerrado: não com chave de latão, mas com chave de ouro.

E que seja um muito feliz 2009!

[Também publicado emPnetMulher]

© Marta Madalena Botelho

21.12.08

a perfeição do mundo imperfeito

Consta que o Natal é época de excessos alimentares. As mesas costumam estar fartas, os apetites abertos e o convívio incentiva à gula e à digestão. Digo «consta» porque faço parte daquele grupo de pessoas a quem as mesas recheadas e tudo e mais alguma coisa causam sensação de enfartamento imediato, quase como que desincentivando a boca de comer aquilo que o estômago não quer ter a trabalheira de digerir. No fundo, tudo se resume a uma questão de preguiça e ao facto de me entusiasmar muito mais uma boa conversa à lareira na noite de Natal do que a calda de açúcar dos sonhos.

Seja Natal ou não, a verdade é que nunca tive grande queda para os doces. Não vou daqui ali por chocolate, por exemplo. Aliás, bem vistas as coisas, só gosto de um tipo de chocolate (o preto, de leite) e, mesmo desse, não como muito. Do mesmo modo, passo muito bem sem sobremesas, gelados e bolos. Mas é claro que, de vez em quando, me apetece uma fatia de pão-de-ló de Ovar, um travesseiro da Piriquita, um pastel de Belém, uma fatia de pudim Abade de Priscos ou de bolo de chocolate da minha mãe (simplesmente, o melhor do mundo), mas isso são desejos momentâneos e nem por isso muito frequentes.

Ora, por falar em doces, eu acho que nunca aqui escrevi acerca dos éclairs da Leitaria da Quinta do Paço. Mesmo que o tenha feito, todas as palavras são parcas para expressar o sabor daquelas pequenas preciosidades gastronómicas. Do chantilly que os recheia ao chocolate semi-amargo que os cobre, tudo nos éclairs da Leitaria da Quinta do Paço é perfeito e delicioso. Quem nunca provou, faça o favor de ir à Praça Guilherme Gomes Fernandes, no Porto, e experimentar. Também há de caramelo e de morango, mas eu sou uma conservadora, prefiro os tradicionais: não há como os de chocolate, perante os quais eu sucumbo a cada passo.

É verdade: não consigo passar por ali a horas em que a pastelaria esteja aberta sem me render a um éclair. A massa é deliciosa, o chantilly é divinal e a cobertura de chocolate é de comer e chorar por mais, se bem que, as mais das vezes, eu não a coma toda, ao contrário da maioria dos clientes, que até os dedos lambem para não desperdiçar nem um bocadinho!
E tudo isto a propósito do Natal. Sim, do Natal, porque a minha primeira intenção era escrever uma crónica sobre o assunto, neste que é o último domingo antes da data. Pensei falar sobre as ruas da baixa do Porto apinhadas de gente de mãos vazias, das montras atulhadas de coisas que ninguém compra, das reduções e saldos em tempo de festa, das expressões preocupadas de quem tem de fazer contas à vida e das caras de espanto perante os preços que parecem sempre altos. Em suma, o tema, encapotado, era a crise (ai a crise!).

E foi a crise tudo o que me rodeou ontem durante o périplo pelas lojas das redondezas até que entrei na Leitaria da Quinta do Paço e pedi um éclair de chocolate. O resto, é fácil de imaginar: sininhos, anjinhos e música celestial. Por momentos, viajei até ao Paraíso e por lá fiquei até saborear o último pedacinho de éclair. A experiência é indescritível, não há volta a dar-lhe.

Quando voltei à rua, os rostos até pareciam menos carrancudos, o ar menos gelado e a maçada das compras de Natal menos penosa. Tudo com muito menor importância, portanto. E lá comprei o que tinha de comprar para uma mão cheia de pessoas que adoro. A caminho de casa cheguei à conclusão de que, na sua imperfeição, o mundo é perfeito. Afinal de contas, a azáfama natalícia só dura umas semanas, enquanto os éclairs da Leitaria da Quinta do Paço estão lá durante todo o ano.

Já agora, Feliz Natal.

[Também publicado em PnetMulher]

© Marta Madalena Botelho

18.12.08

as minhas aventuras nos tribunais portugueses [2]

O juiz - Qual é a sua profissão?
A testemunha - Eu não tenho emprego. Sou desempregada.
O juiz - Desempregado é um estado, é uma situação, não é uma profissão. A senhora há-de ter uma profissão, não? O que é que a senhora fazia antes de ficar desempregada?
A testemunha - Eu nunca trabalhei. Entre 1996 e 2005 estudei Psicologia, mas depois tive de abandonar o curso a meio para olhar pelo meu pai.
O juiz - Entre 1996 e 2005? Durante nove anos?
A testemunha - Exacto.
O juiz - E não acabou o curso?
A testemunha - Tive de interromper para olhar pelo meu pai.

[...]

A testemunha [adiante, no depoimento] - Eu sei que ele é um psicopata. Eu sei que é porque eu andei a estudar isso e eu sei. Quando eu estudei isso eu percebi imediatamente que ele tinha todas as características. Foi quando eu descobri que ele era psicopata. Aliás, o dia em que eu descobri que ele era psicopata foi o mesmo dia em que descobri que eu sou sobredotada...

© Marta Madalena Botelho

as minhas aventuras nos tribunais portugueses [1]

O juíz - Vai ficar em pé, em frente a essa cadeira e vai falar para esse microfone. Vai responder a umas perguntas sobre a sua identificação pessoal. Diga-me o seu nome completo.
A testemunha - Fulano.
O juiz - O seu estado civil?
A testemunha - Estado civil? Eh... Normal.
O juiz - Não existe o estado civil "normal". O senhor só pode ser solteiro, casado, viúvo ou divorciado.
A testemunha - Ah, sou casado.
O juiz - Hum... É casado e acha isso normal?... Hum...

© Marta Madalena Botelho

14.12.08

a montanha partiu o rato

Após meses e meses de resistência, o Ministério da Educação resolveu assumir alguns dos seus erros e aceitou rever a sua posição na matéria da implementação da avaliação dos docentes. A Plataforma Sindical clamou vitória e nós, pais, alunos ou simples portugueses que estão fartinhos até à ponta dos cabelos de ouvir vezes sem conta as mesmas notícias a abrir os noticiários da rádio e da televisão rejubilámos todos, pensando que finalmente sucederia o tão aclamado diálogo e que o Ministério da Educação iria finalmente aceitar ouvir as propostas dos professores.

A verdade é que, ao aceitar voltar a discutir a questão, a Ministra Maria de Lurdes Rodrigues reconheceu três aspectos: (1) que o modelo proposto pelo Ministério era demasiado complexo, moroso e burocrático, (2) que existiam conflitos entre os avaliadores e os avaliados e que (3) mais do que propor, tinha imposto. Os sindicatos, por sua vez, não ficaram satisfeitos. Depois da reunião desta semana, ficou mais do que claro que a sua intenção não era rever o modelo de avaliação, mas sim exterminá-lo.

Isso mesmo ficou bem patente na proposta que a Plataforma Sindical apresentou na reunião, que consistia num modelo de auto-avaliação baseado na assiduidade, que cada professor apresentaria junto do Conselho Pedagógico da escola, órgão a que incumbiria acompanhar o seu cumprimento.

Ora, um modelo como este é risível. Depois de meses e meses de luta em que os professores clamavam em brados que não temiam a avaliação, vêm esses mesmos professores apresentar uma proposta de auto-avaliação. Até os mais distraídos sabem que a auto-avaliação, em rigor, não é avaliação alguma. Em suma, o que esta atitude acaba de demonstrar é que, afinal, a Ministra da Educação não estava assim tão longe da verdade quando dizia que o descontentamento dos professores se devia exclusivamente ao facto de não quererem ser avaliados. Se é por medo da avaliação ou não, ficámos todos sem saber, mas que não querem ser avaliados passou a ser claro como água.

Se, até aqui, a opinião pública sempre foi acompanhando a posição dos professores, não creio que continue a fazê-lo, pelo simples facto de que é convicção de muitos que o projecto de reforma em curso é fundamental para a melhoria da qualidade do ensino em Portugal. O importante é a formação dos indivíduos, pois é para isso que servem as escolas e não apenas para garantir a realização profissional de todos os que sentem a vocação de ensinar ou o ordenado de funcionário público de alguns no final do mês.

Não está já em causa a avaliação, que todos reconhecem necessária, mas tão somente o modo como haverá de ser feita e os requisitos a que obedecerá. Se os professores não aceitam o modelo de avaliação proposto pelo Ministério da Educação, terão necessariamente de propor outro, mas essa proposta terá de consistir num modelo de verdadeira avaliação e não numa forma camuflada de a evitar, como sucede com a auto-avaliação.

O braço-de-ferro que os sindicatos insistem em manter com o Governo não tem qualquer razão de ser e a sua manutenção revela-se prejudicial para todos, principalmente para os professores, que nitidamente perdem o terreno entretanto ganho perante a opinião pública e se afastam do reforço que poderia ser garantido pela oposição político-parlamentar, com quem demonstraram não estar em consonância. Na «guerra» de que falaram os sindicatos talvez o resultado venha a ser favorável ao Governo, o que ninguém deveria arriscar pagar para ver...

De tudo isto resta uma conclusão, a de que a montanha pariu o rato. O modelo de avaliação apresentado pelos professores é, afinal, um modelo de «não-avaliação» e isso, francamente, não é alternativa.

[Também publicado em PnetMulher]

© Marta Madalena Botelho

8.12.08

lembras-te?

nouvelle vague | c.a.e. são mamede | guimarães | 08.12.2007

A sala absolutamente apinhada. Gente, gente, gente e mais gente em redor. Um constante burburinho, o som das costas irrequietas nas cadeiras e dos obturadores das máquinas fotográficas.



«in a manner of speaking
I just want to say
that I could never forget the way
you told me everything
by saying nothing»


De repente, a sala absolutamente vazia. Apenas o escuro em redor. Os teus braços, o calor dos teus braços. Não precisaste que eu te dissesse as palavras.

© [m.m. botelho]

no início da noite

nora do zé da curva | guimarães | 08.12.2007

Há um ano. Lombinhos de porco preto. Migas. Arroz branco. Feijão preto. Farofa. Ananás. Mousse de chocolate. Café. Um par de cigarros. E os teus olhos sempre tão bonitos.

© [m.m. botelho]

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» O âmbito do direito de autor e os direitos conexos incidem a sua protecção sobre duas realidades: a tutela das obras e o reconhecimento dos respectivos direitos aos seus autores.
» O direito de autor protege as criações intelectuais do domínio literário, científico e artístico, por qualquer modo exteriorizadas.
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