3.7.09

fidelidade

Certo dia, por acaso, enquanto espreitava a grande janela da internet, ela encontra um blogue. Não sabe porquê, mas não resiste a lê-lo de fio a pavio. Na barra lateral procura, ansiosa, um endereço de correio electrónico e naquela noite escreve ao autor explicando-lhe como desenvolveu uma afinidade intelectual consigo. Ele responde, usando o mesmo tom de fascínio pelo e-mail dela: a prosa tão igual, tantos pontos em comum, tantos gostos similares! Segue-se uma intensa troca de e-mails repletos de palavreado inflamado e recheado de segundos sentidos.
Passado algum tempo, ele sugere que se encontrem ao final da tarde, num café pacato, mas trendy, ou, em alternativa, nos jardins de um museu. Bebem cafés, comprometem-se um com o outro sem dizer palavra, desejam-se. Pouco tempo depois, cautelosamente, escolhem um hotel - local neutro, para que as memórias sejam apenas ténues e se desvaneçam com o tempo. Vão para a cama um com o outro e gostam.
Ensaiam ambos uma despedida necessariamente rápida - ao estilo do cinema francês - o que tem muito maior impacto porque, pelo menos, um deles é casado. Reparam agora que, sobre isso, do outro nada sabem, mas com os lençóis ainda amarrotados sobre a cama não lhes parece o momento adequado para questões do género. Talvez por e-mail a pergunta venha a surgir, depois.
Em direcções opostas da mesma rua, um faz o caminho para casa a pé, o outro apanha um táxi. Ambos dão por si a reparar nas luzes da cidade onde entretanto anoiteceu.
Nos dias que se seguem, a afinidade diminui, o entusiasmo esmorece, o encanto some-se, os e-mails rareiam. Há um rosto do outro lado do monitor e algumas ideias pré-concebidas estavam a anos-luz da realidade. Agora há a consciência disso, que antes era uma mera possibilidade que se acreditava remota. Lembram-se que certo dia foram para a cama um com o outro, mas hoje parece-lhes terem gostado menos do que lhes pareceu na altura.
Um dia, as visitas aos blogues um do outro passam de escassas a nenhuma. Mesmo assim, ele não apaga o link do blogue dela, ela não apaga o link do blogue dele. Foram para a cama, talvez não tenham gostado assim tanto, mas não apagam dos respectivos blogues o link do blogue do outro.

De certo modo, é isto a fidelidade na blogosfera. Aliás, talvez seja mesmo só isto.

© [m.m. botelho]

2.7.09

demencial

Que, em Portugal, a elevação verbal não era propriamente o forte nos debates parlamentares, já se sabia à saciedade. O único reduto do bom senso parecia ser o da linguagem corporal dos deputados e do governo, mas a partir de hoje até isso mudou.
Em pleno debate quinzenal sobre o estado da nação, após a interpelação feita por Jerónimo de Sousa sobre a situação das Minas de Aljustrel, e durante a resposta do Primeiro-Ministro, após Bernardino Soares, à margem dos microfones, ter dito que Pinho teria ido à vila alentejana «dar um cheque», o Ministro da Economia, Manuel Pinho, dirigindo-se à bancada parlamentar do Partido Comunista, imitou, fazendo uso dos dois dedos indicadores e da sua própria cabeça, dois chavelhos apontados na direcção do líder parlamentar do PCP.
Os que acompanhavam o debate em directo e são mais incrédulos, como eu, ainda tentaram admitir que Manuel Pinho estava a imitar um Teletubbie ou a dizer que o que lhe apetecia mesmo era comer espetadas, mas dando-se o caso de não haver crianças na câmara da Assembleia da República e ser ainda hora do lanche, parece pouco provável que assim fosse.
O momento foi captado em fotografia (a que ilustra este texto é de Nuno Ferreira Santos para o Público) e em vídeo e rapidamente difundido pela internet e não deixa muita margem para dúvidas. Resta perguntar o que terá passado pela cabeça do Ministro da Economia, para além dos evidentes chavelhos. Um momento, no mínimo, demencial.

[Também publicado em PnetCrónicas.]

© Marta Madalena Botelho

22.6.09

cristiano ronaldo não é português

Noventa e quatro parece ter sido o número que mais andou nas bocas do mundo na passada semana e tudo por causa de Cristiano Ronaldo. A quantia paga pelo Real Madrid deixou uns boquiabertos, alguns orgulhosos e outros tantos invejosos. Se é muito ou pouco dinheiro depende da perspectiva.

Não sei por que carga de água é frequente achar-se que todo o português adora futebol e, por isso, defende as cores da sua selecção e vibra com os campeonatos, jogadores, treinadores e adjuntos com a mesma intensidade, isto é, imenso. Já nem as mulheres, dantes salvaguardadas desta visão linear das coisas, estão a salvo. Agora até delas se espera que saibam quem é o guarda-redes da Académica, o árbitro do jogo contra a Suécia e o nome do estádio em que vai disputar-se a final da taça EUFA.

Sucede que, daquilo que me é dado a conhecer, há muitos portugueses – e portuguesas, claro! – que não fazem sequer a mais pálida ideia das regras do jogo. Outros há, como eu, que até sabem as regras (e que até já praticaram a modalidade!), mas de bom grado trocam um jogo de futebol, mesmo que recheado de estrelas ou uma final de uma importante competição, por hora e meia de uma boa soneca. Regra geral, estas confissões em público dão logo direito a ser fulminado por diversos olhares vindos de todas as direcções, sendo certo e sabido que o momento do insulto acontece quando a/o pobre fulminada/o confessa achar todas as manifestações de nacionalismo folclórico, a começar pelas relacionadas com a bola, uma grande treta. Já me aconteceu, por isso sei bem do que estou a falar. Não fosse eu senhora de bons reflexos e pés rápidos e quem sabe o meu carro não teria um risco de uma ponta à outra à conta de uma observação do género.

Há quem diga que, de acordo com as regras do bom nacionalismo, português que é português deveria rejubilar intensamente com o facto de Cristiano Ronaldo ter sido o jogador mais caro de sempre. Aliás, há até quem diga que cada português deveria sentir-se ele próprio merecedor de alguns euros dos noventa e quatro milhões que o Real Madrid pagou pelo jogador porque, afinal de contas, Ronaldo é português, é "nosso", logo, o seu valor também.

Parece-me que não é preciso ir daqui a Badajoz (a alusão à cidade espanhola é pura provocação) para perceber o quão iludidos estão. A não ser que Ronaldo nunca se esqueça de que é português para contrariar isso com todas as forças, não estou mesmo a ver em que é que a nacionalidade tenha ajudado.

É óbvio que se há factor que conduziu Cristiano Ronaldo ao elevado patamar onde está, esse factor é com certeza a sua tendência para contrariar esta bonomia tão lusa. No fundo, tudo o que ele faz é esforçar-se por ser o mínimo português possível. Atrever-me-ia até a dizer que, provavelmente, nem sequer gosta de fado! Porém, a grande diferença está nisto: está consciente das suas capacidades e não está à espera que os outros façam aquilo que só depende dele. Isto é ser português? Não, pelo contrário!

Conforme o ponto de vista, noventa e quatro milhões de euros pode ser muito ou pouco dinheiro pela compra de um jogador como ele. Para mim, por exemplo, Ronaldo está a ser mal pago. Bem vistas as coisas, o seu esforço é redobrado, o que, em consequência, deveria ser pago a dobrar. Além de ter de se empenhar em ser um excepcional jogador, todos os dias tem de contrariar os seus genes portugueses, o que deve ser altamente desgastante, senão mesmo heróico!

É uma evidência: mais do que os pés e a criatividade de Cristiano Ronaldo, a sua capacidade de ser pouco português é que o levou onde ele chegou. Isso vale muitíssimo mais do que noventa e quatro milhões de euros. Isso vale muito mais do que qualquer clube de futebol poderia comprar. Isso é impagável.

[Também publicado em PnetCrónicas.]

© Marta Madalena Botelho

18.6.09

«juridiquês»

Chegou-me às mãos, por correio electrónico um texto de fina lavra, atribuído à oratória de um causídico. Nestes tempos em que se discute a existência, a necessidade e a prevalência do «juridiquês», pareceu-me oportuno partilhá-lo por aqui.

«Diz a lenda que um advogado ao chegar em casa, ouviu um barulho estranho vindo do seu quintal. Lá chegado, constatou que um ladrão tentava levar os seus patos de criação.
O Advogado aproximou-se, vagarosamente, do indivíduo e, surpreendendo-o ao tentar pular o muro com seus amados patos, disse-lhe:
- Oh, bucéfalo anácrono! Não te interpelo pelo valor intrínseco dos bípedes palmípedes, mas sim pelo acto vil e sorrateiro de profanares o recôndido da minha habitação, levando meus ovíparos à sorrelfa e à socapa. Se fazes isso por necessidade, transijo; mas se é para zombares da minha elevada prosopopéia de cidadão digno e honrado, dar-te-ei com a minha bengala fosfórica bem no alto da tua sinagoga, e fá-lo-ei com tal ímpeto que te reduzirei à quinquagésima potência que o
vulgo denomina "nada".

Então, o ladrão, confuso, diz:
- Senhor Doutor, eu levo ou deixo os patos?»

Resta saber se seriam estes os «tiques de linguagem para criar sofismas de Advogado» a que o Governador do Banco de Portugal, Dr. Vítor Constâncio, se referia na passada segunda-feira, durante a sua audição perante a Comissão Parlamentar de Inquérito ao Sistema Bancário («caso BPN»)...

© Marta Madalena Botelho

9.6.09

um nome não faz a diferença

placa toponímica da Praça Dr. Oliveira Salazar, em Odemira, existente há largos anos.
[fotografia de Luís Bonifácio]

CComo muitos, também eu achei inusitada a escolha do dia 25 de Abril para a inauguração da Praça António de Oliveira Salazar em Santa Comba Dão. Com tantos dias no calendário foi, dir-se-ia, provocatório fazer coincidir uma homenagem a Salazar com o dia em quem se cumpriam 35 anos sobre o princípio do fim de uma era tão negativamente marcada pelo seu espectro.

Porém, coincidências de datas à parte, devo dizer que não me perturba minimamente que Santa Comba Dão tenha atribuído a uma praça o nome de um filho da terra. Há que compreender as razões que levaram a isso e, para tanto, convém não esquecer que Salazar não foi só o odioso presidente do Conselho que instaurou uma ditadura antiliberal e anticomunista em Portugal, mas também um conterrâneo daquelas gentes (já que nasceu no Vimieiro, uma freguesia do concelho de Santa Comba Dão) e, ainda, um brilhante professor de Direito e um notável académico na sua área (formou-se com 19 valores em Direito, em Coimbra, onde foi regente da cadeira de Economia e Finanças Públicas e se doutorou com apenas 29 anos). Embora a memória colectiva e mais recente tenda a realçar apenas o que Salazar tinha de negativo - e era tanto! - é redutor e mesmo injusto ignorar isto, correndo-se o risco de, como dizem os ingleses, deitar fora o bebé com a água do banho.

Posso até compreender que se apelide o gesto dos santacombadenses de provinciano, embora me pareça muito mais tacanho e vergonhoso promover a general alguém que foi julgado e condenado (e só posteriormente amnistiado) por ter sido líder de uma organização terrorista responsável por ataques bombistas que mataram dezassete pessoas. Muito mais provinciano me parece que essa mesma pessoa tenha adquirido o estatuto de personagem de grande relevo histórico, com honras de aparição em tudo quanto são filmes e documentários sobre a revolução dos cravos como se do único elemento do MFA ainda vivo se tratasse...

Retomando o tema: ao contrário de alguns, não creio que atribuir o nome Salazar a uma praça seja sintoma de que se vivem tempos "salazaristas" em Portugal, embora reconheça que, aqui e ali sempre se poderiam descortinar alguns traços "salazarentos" nos tempos que correm (recordemos o não muito distante autoritarismo de uma certa directora regional de educação do Norte que, sem apelo nem agravo instaurou um procedimento disciplinar a um professor a propósito de uma piada e, ainda, os dois momentos de grande elevação parlamentar em que um primeiro-ministro respondeu a um deputado «não seja ridículo» e a outro «esteja mas é caladinho»).

Em todo o caso, afigura-se tão legítimo existir uma Praça Salazar em Santa Comba Dão como uma Praça Marquês de Pombal em Lisboa. Se o primeiro foi inegavelmente um ditador, o segundo, ao assumir o papel de «mão invisível» do Absolutismo em Portugal, não o foi menos.

No fundo, impõe-se perceber porque é que tais praças foram nomeadas Salazar e Marquês de Pombal, se para exaltar os ditadores, se para homenagear algumas qualidades que (queira-se ou não, goste-se ou não) ambos terão demonstrado. A mim parece claro que foi pelo segundo motivo e, se assim é, o rigor impõe que se o diga, tal como o respeito pelos valores democráticos exigem que se aceite que a realidade é tão rica quanto o pensamento dos homens e que nela há lugar tanto para os que exaltam os defeitos de Salazar como para os que lhe exaltam as virtudes. Façamo-lo e não serão nunca os nomes das praças deste país a fazer a diferença, mas sim, sempre e só, os seus cidadãos.

[Também publicado em PnetCrónicas.]

© Marta Madalena Botelho

8.6.09

gosto tanto deste vídeo...


... realizado por Marco Morandi.
Dustin O'Halloran. «Opus 23».
Do álbum «Piano Solos Vol. 2» [2006].

7.6.09

os (des)curados

A novela começou no dia 2 de Maio, um sábado soalheiro, com a publicação de uma reportagem no jornal «Público», onde o presidente do Colégio de Psiquiatria da Ordem dos Médicos, José Marques Teixeira, afirmou que um psiquiatra poderia dar resposta a um homossexual que lhe pedisse ajuda médica para mudar de orientação sexual. Em síntese, dizia que era possível alterar, no sentido de curar, a orientação sexual de alguém.

No seguimento desta notícia, várias organizações solicitaram ao bastonário da Ordem dos Médicos que se pronunciasse sobre o assunto. O psiquiatra Daniel Sampaio, por sua vez, escreveu, uma semana mais tarde, uma crónica na revista Pública tecendo ferozes críticas às palavras de José Marques Teixeira e deu início a uma petição, exigindo também uma clarificação por parte da cúpula da Ordem e do Colégio da Especialidade de Psiquiatria sobre o que fora noticiado.

Uns dias mais tarde, a 14 de Maio, o bastonário respondeu por escrito às organizações dizendo, entre outras coisas, que a orientação sexual não é uma doença (1). A seguir, o bastonário defende a liberdade de qualquer pessoa para aceitar ou negar a sua orientação sexual e procurar o auxílio de um médico quando a sua sexualidade lhe causar sofrimento. O médico deveria, então, ajudá-lo a definir a orientação que pretende. Luís Nunes remata dizendo que a alteração da orientação sexual de um doente não constitui uma violação ética. Esqueceu-se foi de discorrer sobre o facto de ser possível fazê-lo.

A mim o assunto parece-me tão simples quanto isto: sequer equacionar que se possa reverter, tratar, curar (ou qualquer outra expressão com significado semelhante) a orientação sexual homossexual implica pressupor que se trata de uma doença. Aliás, considerar a elaboração de um plano terapêutico e de um acompanhamento médico com o único propósito de modificar a orientação sexual de alguém, como fez o bastonário, é tratar essa característica como se fosse uma patologia. Todavia, já há muito se concluiu que não é doença, não é patologia, logo, não é curável nem passível de nenhuma intervenção como aquela que é subentendida das palavras do bastonário e do presidente do Colégio de Psiquiatria da Ordem dos Médicos, cuja posição não pode senão causar a maior das estupefacções.

Já a ignorância, essa, é susceptível de tratamento. Dizem que com umas leituras e com um bocadinho de decência intelectual a coisa vai. É só mesmo uma questão de querer.

Marta Botelho

(1) «A APA (American Psychiatric Association) retirou a homossexualidade do seu «Manual de Diagnóstico e Estatística de Distúrbios Mentais» (DSM) em 1973, depois de rever estudos e provas que revelavam que a homossexualidade não se enquadra nos critérios utilizados na categorização de doenças mentais. Psicólogos e sexólogos chegaram à conclusão de que a homossexualidade é uma variante sexual normal.» (v. SILVA, Rita – «O que é a homossexualidade», in Homofobia: Causas e Consequências. Versão electrónica em http://homofobia.com.sapo.pt).

[Sugestão: ler ao som de «Fuck You», de Lily Allen, do álbum «It's not me, it's you» (2009).]


[Também publicado em PnetCrónicas.]

© Marta Madalena Botelho

10.5.09

as razões de veronica

Silvio Berlusconi não é um homem qualquer, nem no modo de fazer política, nem na aparência, nem no modo como se expressa e muito menos no branco lívido da dentição. Oscila entre o excessivo e o disparatado, entre o indiscreto e o ofuscante, entre o piroso e o inconveniente. Não podia esperar-se que o seu divórcio fosse nada menos do que aparatoso.

Berlusconi faz questão de propagandear aos sete ventos que aprecia mulheres bonitas. Até aqui, nada de anormal nem de novo, não fosse o modo como o faz. Berlusconi é mais do que óbvio, é ostensivo na afirmação do facto, de tal forma que o mundo inteiro dele tem conhecimento e sabe até quem são as suas preferidas.

Veronica suportou tudo isto (e, quem sabe, algo mais) em silêncio durante cerca de trinta anos. Provavelmente, mentalizou-se de que tinha um marido mulherengo e deixou os dias e a tinta dos jornais correrem. É intrigante, por isso, que tenha vindo agora, alegadamente por causa das vinte e cinco beldades que Berlusconi e o seu partido escolheram para integrarem as listas como candidatas ao Parlamento Europeu, dizer que quer divorciar-se. Terá Veronica temido que Silvio se antecipasse a ela nessa intenção? Terá Veronica encontrado um novo amor? Ou estará Veronica, simplesmente, farta do modo como o marido se revela insensível perante a vergonha e humilhação que ela sofre sempre que as eleitas de Silvio têm direito a mais umas parangonas?

Ninguém sabe e, prevê-se, ninguém saberá, até porque após a bombástica revelação tanto o Primeiro-Ministro italiano como a sua (ainda) mulher se remeteram ao silêncio e não parecem muito dispostos a alimentar curiosidades.

Porém, Berlusconi, mais do que todos os adjectivos com que o caracterizei no início deste texto, é imprevisível e o desfecho desta história parece distante e afigura-se rocambolesco. Recostemo-nos, pois, na cadeira porque, como o velho Silvio já nos habituou, os melhores (e mais belos) episódios, com certeza, ainda estão para vir.

[Também publicado em PnetCrónicas.]

© Marta Madalena Botelho

3.5.09

a multidão é perversa

Há momentos da nossa vida que nunca haveremos de esquecer. Não estou a referir-me a datas em que fizemos coisas importantes como, por exemplo, o dia em que acabámos o curso ou nos casámos, mas a acontecimentos que teriam tudo para serem do mais corriqueiro que possa imaginar-se mas que, contra todas as probabilidades, se tornaram marcantes.

Um desses momentos foi a minha primeira aula de Filosofia. Eu tinha quinze anos e à minha frente estava uma das professoras mais brilhantes de quem tive o privilégio de ser aluna e que tinha por hábito não mostrar os dentes nas aulas, muito menos na primeira. Aquela professora tinha por costume – há já vários anos - inaugurar o ano lectivo escolhendo uma vítima a quem colocava uma questão, vítima essa que, invariavelmente, era o desgraçadinho que respondia pelo seu número favorito, o doze.

Naquele ano eu era a tal desgraçadinha. A professora, do alto dos seus metro e oitenta, escreveu no velho quadro de lousa preta uma frase: «a multidão é perversa». Depois, olhando-me sobre os óculos, disse: «Explique, por favor».

Não me lembro exactamente do que pensei, mas sei que me senti ruborescer. Seguiu-se um profundo silêncio apenas entrecortado pelo som abafado das pancadas que a professora dava com o ponteiro no estrado enquanto percorria toda a extensão da sala. Eu bem que engolia em seco, lia e relia a frase escrita no quadro, olhava para o tampo da secretária, para a porta da sala, para as fissuras da parede, mas da minha boca não saiu qualquer som.

Estivemos naquilo uma enormidade de tempo até que, quando faltavam cinco minutos para soar a sineta, a professora perguntou: «Número doze, sabe ou não sabe explicar o sentido daquela frase?». Eu, num misto de alívio e de vergonha, respondi que não, que não sabia. Entre dentes, do estrado soou um «Já podia ter dito», mas ninguém se atreveu sequer a sorrir. No fundo queríamos todos saber o que era isso da Filosofia, o que raio queria dizer «a multidão é perversa» e como se lidava com uma professora que era capaz de nos deixar em suspenso durante quarenta e cinco minutos.

Em duas penadas ficámos elucidados: «Quando inseridas em grupos grandes, principalmente em grupos que lhes permitam manter o anonimato, as pessoas fazem coisas que jamais fariam se estivessem sozinhas ou em grupos pequenos.» Depois perguntou: «Percebeu, número doze?». Eu, a voz quase sumida, lá respondi a medo que sim. A aula terminou com uma exortação que, se mergulhar dentro da minha cabeça, quase consigo ouvir: «Então se percebeu, veja lá se nunca mais se esquece, está bem?».

Eu nunca mais me esqueci, como está bom de ver, e não apenas porque a minha memória para isso contribuiu mas, principalmente, porque a vida se encarregou de mo lembrar inúmeras vezes.

Ainda esta semana me recordei de que a multidão é perversa porque, nas manifestações do 1.º de Maio, num país que ainda há menos de uma semana comemorava a liberdade e a democracia a propósito de uma revolução que teve de excepcional o facto de ser pacífica, um cabeça-de-lista de um partido numas eleições foi insultado e agredido de forma vil e cobarde. Na verdade, como poderia esquecer-me de que a multidão é perversa se, num país que se diz um Estado de Direito, há quem pratique estes actos e ache que daí não vem grande mal ao mundo (porque no fundo ele até merecia umas boas bordoadas pelo que fez) e fique de bem com a sua consciência, no conforto de que está oculto numa turba que lhe garante o anonimato?

De facto, dificilmente poderia esquecer-me de que a perversidade da multidão é o somatório da perversidade de cada um de nós, que continuamos a encolher os ombros e a fingir que não é nada connosco sempre que episódios destes acontecem.

[Banda sonora: The Doors. «People are strange». Do álbum «Strange days». 1967.]

[Também publicado em PnetCrónicas.]

© Marta Madalena Botelho

26.4.09

foste embora num cravo vermelho

NNaquela noite não vieste para casa. Nem naquela noite, nem nesta. Bebi, comi, dormi, acordei, tomei banho, saí para o trabalho, voltei para casa, sempre à tua espera. Tudo fiz, estes três dias, à tua espera, sempre à tua espera. Mas tu não voltaste, nem para casa, nem para lado nenhum onde eu esteja.

A revolução foi na madrugada de ontem. A vida lá fora continua agora num sereno reboliço. Ouvi dizer que no Alentejo já falam em tomar propriedades e ocupar moradias vagas, cheias de poeira sobre lençóis brancos e fiapos de sol a espreitar das frinchas das persianas e que ninguém acha estranho que assim seja. Alheado de tudo isto, hoje fiquei em casa. Cheguei mesmo a pensar que valeu a pena ter sido pobre toda a vida para viver estes dias com alguma calma. Pela primeira vez na vida dei por mim a dar graças, não sei a quê ou a quem, por viver numa casa que não é minha e por ir a pé todos os dias para o trabalho. Não tenho nada que me possam tirar, já não tenho nada que me possam tirar.

Disseram-me que te viram ontem no Largo do Carmo em cima de uma chaimite, abraçada a um homem. Disseram-me que estavam ambos a fumar o mesmo cigarro. Nós costumávamos fumar o mesmo cigarro, à varanda, nas noites quentes de Estio. Eu abraçava-te, a minha mão na tua cintura, a tua mão sobre a minha, o cheiro dos teus cabelos misturado com o do tabaco, o fumo a escapar-se por entre os teus dentes e a preencher de névoa a negridão do céu da nossa varanda. Eu de olhos pousados em ti, inebriado de ti, dos teus caracóis, do fio de ouro que te afagava o pescoço, do pingente onde brilhavam discretamente as nossas iniciais entrançadas. Eu perdido no teu perfil, no teu nariz pequenino, eu encontrado nas nossas mãos juntas na tua cintura.

Disseram-me que rias muito, que gritavas, que aplaudias, que ele te olhava com admiração, que se beijaram muitas vezes. Talvez um preso político, talvez um estudante, talvez o dono de uma loja. Ninguém soube dizer-me quem ele é. Não é que faça qualquer diferença que eu saiba quem ele é. Faz-me diferença é aquela porta muda e queda. E os teus brincos de filigrana em cima da cómoda do nosso quarto. Dizias muitas vezes que aqueles brincos eram a coisa mais valiosa que tinhas. Faz-me diferença o leite a azedar em cima da mesa, o teu avental pendurado atrás da porta, abanado pelo vento. Faz-me diferença os teus chinelos debaixo da nossa cama, pousados um sobre o outro, descalçados à pressa na última manhã em que te vi. E o frasco de perfume quase vazio no armário da casa de banho.

No Carmo já não está ninguém a gritar, a aplaudir e a rir muito. Já só se vêem militares. Nas poucas imagens que vi na televisão do café não apareceste. Esperava ver-te de cravo vermelho ao peito, ou preso na orelha, um cravo vermelho nas imagens a preto e branco que a televisão do café irradiava. Mas não, tudo a preto e branco, nada de cravos vermelhos presos na orelha.

Disseram-me que não voltas, que fugiste com ele. Mas tu não fugiste, eu sei. Tu nunca te deixaste prender. Dormíamos na mesma cama, mas tão separados quanto é possível que duas pessoas que não se amam estejam. Nunca gostaste do arroz que eu sempre fiz com tanto empenho. Sabia há muito que não poderias, portanto, amar-me. E eu sempre achei que o teu arroz sabia a arroz, que tinha o mesmo sabor dos demais. E não tinha.

Tantas coisas que eu achei sempre iguais às demais e não eram. Até aquela madrugada em que te esperei eu julguei ser como as demais. E não foi. Tu não voltaste e eu deixei-me afundar em copos de um vinho mau, de um vinho francamente mau. Esta espera não é como as demais, porque tu não voltas. Disseram-me que não voltas e eu sei que não voltarás. Foste embora naquela risada, naquele grito, naquele aplauso, naquele cravo vermelho que eu em vão procurei nas imagens da televisão. Foste embora e eu não te vi ir, como nunca fui capaz de te ver enquanto estavas aqui.

[Também publicado em PNETcrónica.]

© Marta Madalena Botelho

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