18.1.11

instantâneos [8]

visto aqui

aprender hoje para aplicar amanhã

Há dias, uma Amiga dizia-me que é absolutamente crente no ser humano e nas suas capacidades. No sábado, em conversa com a minha Irmã, meio a brincar, meio a sério, dizia-me ela, já não sei a que propósito, que para si todos os Homens são os «bons selvagens» de que falava Rousseau e que, portanto, acredita que o íntimo das pessoas é sempre puro.

Depois destas duas observações, assim tão seguidas no tempo, e de já antes ter sido muito espicaçada sobre o assunto por uma outra pessoa, fui forçada a elaborar sobre isto. A resposta, diziam-me, haveria de ser encontrada numa reflexão a partir de mim mesma: «Vá para casa e pense: "Como é que me posiciono perante as coisas menos boas que eu e os outros temos?"».

E eu fui e pensei. Quando voltei a encontrar-me com quem me tinha colocado tal questão disse, convicta: «Posso afirmar que, resumidamente, sou uma crente nos altos propósitos de toda a gente». Com efeito, sou capaz de encontrar [quase] sempre motivos suficientemente nobres para justificar [quase] tudo, tanto o que eu faço ou não faço, como o que os outros fazem ou não fazem. Sim, sou, como todos os outros, cheia de boas intenções! Frases feitas à parte, acredito mesmo que há um radical bom em tudo e todos e que, portanto, há sempre um bom motivo para as coisas acontecerem. De igual modo, creio que as coisas acontecem sempre no tempo certo e que tudo tem um sentido, talvez não imediatamente perceptível, mas que acaba sempre por revelar-se.

Perguntaram-me, então, se eu não estaria a tornar-me uma perita em encontrar «causas de justificação». Perguntaram-me se não penso assim porque é mais confortável imaginar que estamos todos rodeados por bem [ainda que esse bem esteja oculto por demonstrações de mal], isto é, se não penso assim por uma questão de protecção, porque é mais fácil crer que nos movimentamos num mundo idealmente puro do que num cenário de podridão, para o qual baste a inocência pueril e não seja necessário ter capacidades de guerreiro. Diziam-me: «É que se assumirmos que estamos em guerra, somos obrigados a enfrentar o inimigo, mas se formos convictamente pacifistas, temos sempre esse bom argumento para amparar a nossa recusa em guerrear».

Respondi que não. Nem tudo é justificável. Aqueles "quase" entre parênteses rectos lá em cima demonstram isso mesmo. Tenho perfeita consciência de que o bom é algo a que se aspira, mas a que nem sempre se chega. Por isso, sei que aqui e ali todos podem meter a pata na poça na persecução desse bom. Não é que eu seja apática em relação ao que eu e os outros temos de menos bom. Não é que eu ache que os erros são inevitáveis e não lhes dê importância, ou não dê importância aos seus efeitos. Nada disso. O que eu não faço é ignorar que todos estamos sujeitos a cometê-los. Ora, uma coisa são os erros, outra coisa são as maldades. Se me magoam porque querem, deliberadamente, prejudicar-me ou fazer-me mal, não há causa de justificação que valha. Porém, se me magoam porque – hélas! – tem de ser, porque há cursos de vida a seguir, porque há decisões a tomar, porque a existência não é uma coisa estática e ninguém está isolado numa ilha ou protegido por uma redoma à prova de bala e, por isso, estamos todos sujeitos a vermo-nos envolvidos em situações que nem sempre dependem directamente da nossa actuação, tenho a decência de o compreender e de o aceitar, mesmo nos casos em que a minha mágoa poderia ser diminuída. E compreendo-o porque, como diz uma outra grande Amiga minha, «às vezes as pessoas querem, mas não conseguem». Às vezes, os estilhaços atingem-nos e não era essa a intenção de quem os originou, mas as pessoas não conseguem fazer as coisas de outro modo. No fundo, acredito na bondade, mas estou ciente das limitações da sua concretização a tempo inteiro.

Assim, procuro buscar nos embaraços em que a vida me coloca um sentido de aprendizagem. Faço sempre por aprender com os resultados das minhas acções e com os das acções alheias, principalmente quando esses resultados não são propriamente confortáveis. Vejo-os, em suma, como oportunidades que a vida nos dá de nos confrontarmos com as dificuldades para aprendermos a lidar com elas, porque a partir do momento em que o tivermos feito, passamos a perceber muito melhor esse adágio popular tão sábio e tão útil para o crescimento individual de cada um e de aplicação universal a todas as circunstâncias: «homem prevenido vale por dois».

A minha ideia é aprender hoje para aplicar amanhã e oportunidades para pôr a teoria em prática, estou certa, não faltarão. Não sei se a vida é uma guerra, mas sei que tem, pelo meio, umas quantas batalhas. Nelas, de nada vale termos a força de um exército valente se o general que o comanda não for um perspicaz estratega.

© [m.m. botelho]

17.1.11

instantâneos [7]

visto aqui

nanossegundo

Às vezes, sucede que, num segundo [num nanossegundo, talvez], algo do que nos liga ao Outro se quebra, se esfuma, se volatiliza e lhe perdemos o rasto. Não sabemos, em concreto, o que é, mas apressados e seguros, na nossa mania de darmos nomes às coisas, apelidamo-lo de muitas maneiras, cada um a seu modo, dependendo do tipo de ligação que temos com o Outro: encantamento, admiração, deslumbre, fascínio, paixão, arrebatamento. Seja o que for e chame-se lá como se chamar, certo é que sofreu uma alteração. Bastou um segundo [um nanossegundo, talvez].

Confrontados com o sucedido, damos voltas à cabeça para tentar perceber o que era aquilo que se transmutou algures no percurso, como se chamava, o que lhe aconteceu exactamente e porque raio é que aconteceu. Temos muitas perguntas, buscamos muitas respostas e enredamo-nos em profundas elaborações sobre tudo isto.

Depois, para alguns, chega o dia em que já mais nenhuma pergunta importa senão esta: «É possível recuperá-lo?». De entre esses alguns, os mais afortunados começam a ouvir dentro de si uma voz, a princípio ténue, que vai ganhando corpo e volume até que lhes rasga o peito e lhes diz, limpidamente: «Só o saberás se o tentares». Em raros casos, da dúvida nasce a acção: os mais audazes tentam mesmo.

São audazes, não são loucos. Loucos são aqueles que os julgam.

© [m.m. botelho]

16.1.11

o pássaro

fonte: visto aqui

Hope is the thing with feathers
That perches in the soul,
And sings the tune - without the words,
And never stops at all,

And sweetest in the gale is heard;
And sore must be the storm
That could abash the little bird
That kept so many warm.

I've heard it in the chillest land,
And on the strangest sea;
Yet, never, in extremity,
It asked a crumb of me.


Emily Dickinson [1830-1886]

14.1.11

pormenores

Apercebemo-nos de que uma querida Amiga que estamos a receber em casa durante o fim-de-semana conhece muitíssimo bem alguns pormenores da nossa personalidade quando, estando ambas em divisões opostas da casa e sem qualquer contacto visual entre nós, ocorre o seguinte diálogo:

Eu - De que lado te dá mais jeito que arrume as tuas toalhas no toalheiro?
Ela - Isso é-me completamente indiferente. Tu é que dás importância a essas coisas.
Eu - Bom, sendo assim, vou arrumar as minhas toalhas do lado...
Ambas, em simultâneo - ... direito.

E sorrimos.

© [m.m. botelho]

13.1.11

mudar | pensar

Mudar é deixar de pensar muito para passar a pensar muito bem.

© [m.m. botelho]

12.1.11

apelo

do filme ‎«Manhattan» [1979], realizado por Woody Allen
fonte: visto aqui

Ao quarto dia de 2011, uma Amiga disse-me isto: «É um apelo, Marta. E sobre um apelo não se pensa». De então para cá, a frase ressoa em mim todos os dias. Ora, se assim é, é porque ela veio bulir com alguma coisa que não mais se desinquietou.

Começo a crer que 2011 vai ser o ano de todas as ousadias. Assim tenha eu a indispensável coragem para dar todos os passos.

© [m.m. botelho]

11.1.11

provérbio irlandês

fonte: web

Há uns dias, em conversa ao telefone com uma Amiga, descobri que tenho alguma dificuldade em dizer muito rápido a expressão "provérbio irlandês" (ou me sai "puvérbio irlandês" ou "provérbio ilandês"). Depois de tanto esforço para articular devidamente as palavras, vim a descobrir que, afinal, o provérbio em causa é... sueco.

Um destes dias, sou capaz de escrever sobre o quão exigente, mas gratificante é pô-lo em prática. Melhor ainda: sobre o quão necessário é pô-lo em prática, porque, entre outras coisas, faz de nós pessoas melhores. Sim, um destes dias, sou bem capaz de escrever sobre isso.

© [m.m. botelho]

31.12.10

adeus 2010

Não vale a pena escrever muitas linhas sobre este ano que foi, provavelmente, o mais angustiante da minha existência. A única coisa que desejo é que 2010 acabe e que venha de lá um ano novo, qual folha em branco, pronto para ser vivido e me permitir ser feliz como eu mereço.

Estas são as minhas últimas resoluções de 2010: nesta passagem de ano, não vou obrigar-me a comer uvas-passas porque não aprecio; vou pedir apenas um desejo porque todos os outros estão implícitos nele; e não vou ficar à espera de nada porque vou fazer acontecer tudo.

Para 2011, só tenho, para já, uma resolução: quero viajar. O resto é o que sempre quis, agora apenas com muito mais vontade.

Que seja um grande, grande 2011.

© [m.m. botelho]

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