11.2.11

«love is not a victory march»


Jeff Buckley. «Hallelujah».
Do álbum «Grace» [1994].

instantâneos [13]


da série «Grey's Anatomy» [temporada 2, episódio 15]
visto aqui

luz

Parece-me vergonhoso que tantas vezes se diga «com a verdade me enganas», e que não se veja por aí ninguém a reconhecer que «com a mentira me iluminas».

Bem, na realidade, nem é preciso que seja uma mentira. Basta que seja uma tirada qualquer que permita não assumir a verdade.

[Eu sei, eu sei: sou uma inflexível.]

© [m.m. botelho]

10.2.11

intuições

«O pior cego é o que não quer ver.»
[ditado popular]

Julgo que, pelo menos desde os meus vinte e poucos anos, comecei a aperceber-me de que, às vezes, percepcionava que determinados acontecimentos teriam lugar na minha vida. Não se tratava de quaisquer dotes paranormais, visões ou algo do género. O que me assaltava eram pensamentos de que determinadas coisas estavam a acontecer, coisas não explicitamente reveladas. Não sabia o que eram e abominava a ideia de que eu fosse capaz de ter pressentimentos. Ouvia dizer muitas vezes que as mulheres são muito mais sensíveis a certos aspectos do que os homens. Regra geral, isto era dito como se tal característica fosse negativa, uma reminiscência de tempos idos em que tudo eram apresentado como se só as mulheres fossem feiticeiras, sendo que isso era algo muito mau, expurgável apenas pelo fogo propalado nas pilhas montadas e acesas pela Inquisição. Talvez por isso tenha sedimentado em mim a ideia de que ser intuitivo era mau, algo que deveria contrariar ou, mais do que isso, negar absolutamente.

Assim, neguei sempre as minhas intuições. Quando ouvia falar no assunto, dizia-me completamente desprovida de tal característica feminina. Repetia constantemente para mim mesma que só existe o real realinho, o que é palpável e visível, o cientificamente explicável. Isto acabou por condicionar até o modo como vivia a minha religiosidade. O tema religião interessava-me muito, a tal ponto de ter lido integralmente a Bíblia entre os dezassete e os vinte e três anos, feito que até hoje não conheci quem, não sendo padre, teólogo ou afim tenha cumprido. Li integralmente o Catecismo da Igreja Católica, sei a doutrina de trás para a frente e, quando isso deixou de me bastar, passei a ler livros de História e de Sociologia das religiões e até o Direito Canónico captou de forma especial a minha atenção. Não obstante tudo isto, era incapaz de sentir uma ligação especial às entidades da religião que praticava. Não rezava - raramente rezei em toda a minha vida - e nunca sequer tentei estabelecer a comunhão espiritual que se espera que os católicos tenham com Deus, Cristo, a Virgem Maria e os Santos. Não tinha essa necessidade. Na realidade, nunca encarei a minha religiosidade como um domínio espiritual. Quando me questionava se teria fé, acaba por concluir um pouco apressadamente que sim, que tinha, só porque era suposto que a tivesse, e não me permitia ponderar que talvez eu fechasse deliberadamente o meu íntimo a tal sensação, não fosse isso fazer de mim uma má católica. Refugiava-me no confortável dito de que a fé não se explica e mentalizava-me que a tinha, mesmo que não me permitisse senti-la, sabendo que não me permitia porque não queria. Não me era, nunca me foi importante senti-la e nem sequer nutria admiração por quem era muito fervoroso.

Para mim, era bastante simples e pacífico: eu não era intuitiva e, por isso, também não era espiritual. Era do mundo do lado de cá, da Terra. Apreciava tremendamente a reconfortante ideia da doutrina católica de que não existe reencarnação e de que não existe qualquer comunicação entre vivos e mortos. Encarei sempre com uma calma perturbadora para os demais a morte das pessoas do meu universo. A propósito disto, ocorre-me agora que nunca chorei num funeral. Não chorei sequer quando o meu Avô, que eu amava profundamente, morreu. Vi a minha família, os nossos amigos e os nossos vizinhos chorarem a perda do meu Avô e eu nem no instante em que soube da sua morte fui capaz de o fazer. Não passou um dia em que eu tenha estado com o meu Avô em que não lhe tenha dado um beijo. Nos dias em que estava zangada com ele - tinha com ele uma relação tão sui generis que até me era permitido zangar-me com ele, dizer-lhe coisas que mais ninguém ousava dizer, tratá-lo por "tu" quando nem sequer a minha Mãe o fazia, confrontá-lo com tudo e mais alguma coisa, como se não houvesse entre nós distâncias impostas pela idade, pelo estatuto familiar ou por qualquer outra coisa -, dava-lhe um beijo e dizia-lhe «Não é que tu mereças.» e depois piscava-lhe o olho. Nem eu nem ninguém temos dúvidas de que eu gostava imenso dele. Gostava tanto dele que, mesmo quando estava aborrecida com ele, lhe dava beijos e, no entanto, depois de ele ter morrido, não mais lhe toquei a não ser para lhe beijar rapidamente a testa fria antes de selarem definitivamente a urna. Dizia para mim mesma que o meu Avô já não estava ali, por isso não o chorava, por isso não lhe tocava. Olhava para ele e dizia para mim mesma que ele agora estava noutra dimensão, uma dimensão na qual eu jamais poderia entrar enquanto fosse viva e por isso, porque havia uma separação intransponível entre nós, não valia a pena chorar nem beijar o que, para mim, era apenas o seu cadáver. E senti sempre isto perante todas as mortes: elas eram a passagem para um longe tão longe que não valia de nada aos vivos emocionarem-se por causa disso, porque os vivos eram do lado de cá e os mortos eram do lado de lá e entre um lugar e o outro havia um fosso de incomunicabilidade. A morte não tinha, portanto, nada de espiritual, nada de transcendente, nada de acessível fosse de que forma fosse.

Na verdade, eu tinha pavor em relação ao que não se entende nem se pode entender. Sempre gostei de tudo muito bem explicado e muito bem percebido. Aquilo que eu não percebia e não conseguia explicar não existia. Era por isso que, em mim, não existia a espiritualidade, a reencarnação e a intuição. Não nego que isso torna a minha religiosidade bastante pobre, do mesmo modo que não nego que recusar a existência da minha intuição em determinadas situações da minha vida fez de mim bastante cega. Intuía as coisas, mas como não percebia porque é que as intuía, negava que as intuísse. Quando, depois, as minhas intuições se tornavam o real realinho, ali à vista de toda a gente, eu repetia para mim mesma que tinha sido uma coincidência, que eu não era intuitiva, que o que tinha acontecido tinha sido uma conclusão óbvia do que antecedera e que o facto de tudo se ter passado como eu intuíra que estava a passar-se não era senão um acaso.

Não era. Não é um acaso, não são coincidências, são intuições. Talvez eu as tenha em maior número do que gostaria, mas devo aceitar que as tenho. E mais do que aceitar que as tenho, devo fazer uso delas. Acredito que se, ao longo da minha vida, tivesse feito esse uso, me tivesse poupado a alguns dissabores. Muitas das negações das minhas intuições conduziram a um estado de verdadeira cegueira, mas de uma cegueira perfeitamente consciente, logo, dolorosa.

Só o Peter Pan é que pode dar-se ao luxo de nunca dizer adeus, porque dizer adeus significa ir embora e ir embora significa esquecer. Nós, gente de carne e osso, não podemos dar-nos ao luxo de não dizer o que tem de ser dito, não fazer o que tem de ser feito, não lidar com o que está a acontecer. Por isso, quando intuímos que algo está a acontecer, melhor é que sejamos suficientemente inteligentes para assumirmos que aquilo já faz parte da nossa realidade e que, portanto, mais cedo ou mais tarde haveremos de ter de lidar com ela. As verdadeiras intuições podem não ser explicáveis, mas não é por isso que deixam de existir. Assim, talvez não seja lá muito perspicaz relegá-las para o plano do acaso. Se eu não quero estar alerta, mas algo me desperta, não pode ser por acaso. Não sei por que é, nem isso não interessa. Interessa é que estou desperta, que (pres)sinto e, se puder fazer alguma coisa com o que (pres)sinto, devo fazer. Por mim mesma.

Há sempre, pelo menos, uma coisa que podemos fazer com o que (pres)sentimos: tomar consciência de que o (pres)sentimos, aceitar que o (pres)sentimos e que, se assim é, por algum motivo é, motivo esse que, geralmente, até nem tarda a revelar-se. Só assim conseguiremos evitar que num instantinho, aos nossos próprios olhos, passemos de bestiais a bestas: de bestiais porque tivemos a capacidade de intuir, a bestas porque o negámos absurdamente.

© [m.m. botelho]

instantâneos [12]


do filme «Darbareye Elly» [2009], de Asghar Farhadi
visto aqui

«don't struggle like that or I will only love you more»


The Cure, «Lullaby».
Do álbum «Disintegration» [1989].

9.2.11

beijos escritos

Consta que, nos primórdios da descoberta pelo povo desse interessante objecto que é o telemóvel, isto é, quando a coisa se tornou de tal modo comum que mais do que cinco dos conhecidos de cada um de nós passaram a ser ostensivos possuidores do dito bicho, se vulgarizou a troca de mensagens curtas, vulgo sms. Visto que as operadoras estabeleceram como limite máximo de caracteres para cada sms o interessante número de 140 (que deve ser mítico, já que é o mesmo estabelecido para os mais modernos tweets), e visto que os primitivos aparelhos apenas permitiam o envio de um sms de cada vez, o povo rapidamente percebeu que poderia poupar trabalho e uns tostões se abreviasse certas palavras. E assim se propagou a castradora moda de suprimir as vogais.

Um dos desgraçados termos que passou a ser alvo das abreviaturas foi a palavra "beijos" que, provavelmente por, regra geral, ser a última palavra a ser escrita, rapidamente deu lugar a um curtíssimo "bjs". Uma pena.

Escrever "beijos" jamais será igual a dá-los. Por muito escritos que estejam, não há letras que substituam o contacto entre a pele do destinatário e os lábios do remetente da mensagem. Logo, escrever "beijos" já é, por si só, limitado nos efeitos. Abreviar o termo torna a coisa ainda mais escassa. Não são dados, mas também já nem sequer são escritos: são tão-somente abreviados, compactados em três caracteres, muito apertadinhos, muito pequeninos, muito desenxabidos.

Por isso, sempre fui muito resistente ao uso desta pseudo-expressão, em particular. A princípio, porque "bjs" me sabia a pouco. Depois, progressivamente, fui desenvolvendo uma aversão à abreviatura porque passei a vê-la como um gesto de quem não está muito preocupado no modo como se despede, de alguém que beija mas de fugida, à pressa, desleixadamente e se há momento confrangedor e desagradável é o da despedida apressada, o do beijo atirado à sorte, o do acenar de costas voltadas.

Felizmente, à medida que eu e os meus fomos acrescentando anos à idade, deixámos de usar esta abreviatura, quero crer, porque passámos a ser mais sensíveis ao modo como terminamos os "encontros via sms", porque passámos a dar mais importância ao remate dos contactos que estabelecemos, porque passámos a ser mais atenciosos com os destinatários dos nossos escritos.

Por isso, não é senão com estranheza que vejo que há quem, tendo mais do que quinze anos, insista em utilizar a abreviatura. Pior do que isso: que há quem, tendo mais do que quinze anos, use a abreviatura nos sms que manda de borla, nos e-mails, nos comentários de blogues ou do Facebook, ou seja, em circunstâncias onde deixou de justificar-se a poupança de caracteres. Sendo que não se aplica o critério da racionalidade económica, só pode explicar-se o "bjs" por preguiça, por conformismo ou por desleixo, tudo coisas que, se ainda vamos tolerando nos adolescentes, já não temos tanta pachorra para aceitar na malta mais crescidinha.

Pela minha parte, nos escritos que me são dirigidos, prefiro mil vezes que não escrevam nada do que escrevam "bjs". Ao fim e ao cabo, o efeito é o mesmo: é tão insípida uma mensagem selada com aquela abreviatura como uma mensagem em que o remetente nada diz. Porque um "bjs" não é uma despedida, não é um beijo, não é nada, é uma trapalhada metida à pressa que eu, nesta fase da vida, não só dispenso bem como rejeito veementemente.

Ainda que seja por escrito, gosto de ser beijada com cuidado, com ternura, com atenção. É que, mesmo por escrito, não me beija quem quer, beija apenas quem eu deixo e, para isso, tem de beijar nada mais, nada menos do que muito, muito bem.

© [m.m. botelho]

instantâneos [11]

visto aqui

8.2.11

desejar muito

«Sempre senti que estávamos os dois no mesmo barco, partilhando uma mesma aventura. Líamos os mesmos livros e discutíamo-los: livros infantis, histórias de aventuras, mais tarde romances, história, biografias, poesia, Shakespeare. Apreciávamos e desejávamos muito a companhia um do outro. Uma verdadeira prova, isso era: mais do que devoção, admiração, paixão. Se desejamos muito a companhia de outra pessoa, é porque a amamos.»
Iris Murdoch, «O mar, o mar» [2005], p. 40

Pergunto: e o contrário, será verdade? Isto é, se não desejamos muito a companhia de outra pessoa, é porque não a amamos? Ou podemos não desejar estar, não querer estar, não conseguir estar, decidir não estar precisamente porque a amamos?

© [m.m. botelho]

3.2.11

a corrida

fonte: visto aqui

Está ali, parado, de corda na mão, na linha de partida. Espera que a corrida comece. Sucede que a corrida não pode começar enquanto não vier alguém que agarre na outra ponta da corda. É uma corrida a dois, a corda é o que os liga, é o que lhes permite comunicar, dizer «estou cansado» ou «tenho sede», para que cada um saiba quando é que o outro precisa de abrandar o passo ou de se abeirar de uma fonte para beber. Enquanto a corda permanecer ali, estendida sobre a terra, a corrida não começa, não pode começar.

Sucedem-se as estações. É Inverno, hoje. Faz frio, um vento gelado que lhe percorre o corpo como uma língua húmida. Vestiu grossas camisolas, um casaco espesso, luvas, um gorro, tudo o que se lembrou, tudo o que ajudasse a suportar a espera. De vez em quando, tira as luvas, olha para as mãos e vê os golpes que se foram desenhando, a pele ressequida, a carne roxa sob as unhas. Mexe-se para aquecer, dá pulos, faz malabarismos. As horas passam. Ninguém vem.

Durante todo este tempo, nunca um café que o aquecesse, nunca um raio de sol que diferenciasse os dias, nunca um passo sequer na corrida. A corrida não começou, não podia começar.

Olha em volta, nada acontece. Olha para dentro e sente o frio quase nos ossos, como um berbequim que foi perfurando as roupas. Olha para as horas e sente o desalento. Cada raiar do dia arrancou-lhe um pouco de paciência, um pouco de empenho, um pouco de sentido, um pouco de estima por si mesmo, até um pouco de vontade, se bem que nunca um pouco de intenção.
Sabe-se ridículo, ali naquela espera. Intui-se assim.

Como se tivessem vida própria, as mãos gretadas começam a recusar agarrar a corda. Não tem forças para as fechar, tolhidas que estão pelo longo tempo. «Já esperei tanto», pensa, «não deverei esperar um pouco mais?», mas não se trata já de esperar, antes de aceitar. Aceitar que, por muito que o tivesse desejado, por muito que o tenho dito, por muito que se tenha empenhado, por muito que tenha esperado, ninguém veio pegar na outra ponta da corda, ninguém quis correr, ninguém quis absolutamente nada.

Sabe que, perante isto, tem de escolher entre preservar tudo o que fez e correr o risco de morrer de frio ou deixar tombar a ponta da corda que segura e sobreviver à intempérie. «Eu aguento um pouco mais», repete, mas sabe que não aguenta, sabe que tem limites, sabe que chegou o dia em que não pode mais permitir-se definhar na linha de partida.

Larga a corda. No limite, larga a corda. Já não sente o corpo, mas, pelo menos, está vivo. No limite, mas vivo. Por momentos, não sabe o que fazer. Angustia-se, pergunta-se se terá desistido, chora. Extenuado, senta-se e descansa. Após o repouso, recomeça a sentir os pés, as pernas, o tronco, os braços, as mãos que abre e fecha vigorosamente. Sabe, então, que não desistiu. Sabe que, ao invés, teve a coragem de se fazer escapar a uma mais do que provável morte ao vento gélido. Escolheu salvar-se. Escolheu-se. E, sozinho, começa a caminhar ao longo da linha de partida.

© [m.m. botelho]

eu

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