15.2.11

eu disse que ia repetir

Eu bem disse que tinha gostado e que ia repetir. Ontem à noite, voltei a ir ao cinema sozinha. Era noite de S. Valentim. A maior parte das pessoas que estavam na sala estava acompanhada. Não vi absolutamente ninguém sozinho, para além de mim. Curiosamente, na sala, muitos casais de pessoas mais velhas, com idade para serem meus pais.

Fiquei sentada na terceira fila a contar do fim, entalada entre dois casais daquela geração. Fui a última a chegar, os meus vizinhos já estavam sentados, mas cheguei até antes da hora (agora, eu raramente me atraso para os meus compromissos com hora marcada: faz parte dos meus muitos progressos como ser humano). Quando me viram inclinar para entrar na fila, olharam-me como se eu fosse um extraterrestre. Se calhar, não estavam à espera de ver uma personagem como eu a chegar àquele lugar, mas eu até estava com uma aparência muito banal: sozinha, um saco de compras na mão esquerda, uma garrafa de água na direita e o tiracolo da mala atravessado no peito (com o casaco que estava a usar, estilo militar, gosto de usar a mala assim). A senhora que estava à minha direita, uma louraça espampanante, retirou a mala e o casaco para eu poder sentar-me. Agradeci e ela sorriu simpaticamente. O sujeito do lado esquerdo, endireitou-se na cadeira e pôs os óculos para me ver melhor. Mal o olhei, só sei que tinha bigode e que um duche antes do cinema não lhe teria feito mal nenhum.

Eu sentei-me, desliguei o telemóvel, tirei o casaco e abri a garrafa de água, para não estar a fazer barulho durante o filme. Como sempre, cruzei a perna esquerda sobre a direita. E depois não me lembro de mais nada. Concentrei-me no momento e pus os olhos na tela onde passavam os trailers. Acho que sorri. Não, não acho. Tenho a certeza de que sorri. Senti-me bem. Senti-me feliz, satisfeita comigo mesma. Sim, só posso mesmo ter sorrido.

© [m.m. botelho]

14.2.11

resistências e desligamentos: para mais tarde recordar

Por vezes, durante algum tempo após determinados acontecimentos terem lugar na nossa vida, continuamos a atribuir às pessoas com eles relacionadas um papel especial e inigualável no nosso percurso e quase forçamos, dentro da nossa maravilhosa e inocente cabecinha, a existência de uma importância para essas pessoas, de um lugar que lhes é devido, de um valor que lhes é inerente, ainda que não saibamos explicar por que razão teriam essa importância, esse lugar ou esse valor. A reboque disto, ficamos presos à ideia de que aquelas pessoas detêm ainda o poder de nos avaliarem e que tudo o que elas pensem ou digam sobre nós tem de assumir grande relevo. Como que lhes concedemos o poder de nos julgarem, de tecerem considerações sobre o que fazemos e, mais grave, sobre o que somos e como somos. Ficamos a cismar sobre isso e achamos que as pessoas têm sempre razão, mesmo quando não têm, e permitimos que as suas opiniões tenham efeito em nós, que nos atormentem, que nos sejam muito caras.

Possivelmente, fazemos isto porque o desligamento, em particular o desligamento absoluto que (porque somos uns tontos idealistas que nem parecemos deste mundo) achamos desnecessário, é tremendamente penoso e tendemos a evitar a dor que daí advirá. Em consequência, oferecemos uma resistência enorme à aceitação de que os desligamentos sejam definitivos, indispensáveis, um facto, uma evidência, uma realidade clarividente, pura e dura para toda a gente de bom-senso, grupo no qual, obviamente, não nos incluímos porque estamos muito ocupados a tentar arranjar justificações para legitimar a nossa resistência.

Porém, em certos casos, mais cedo ou mais tarde, damo-nos conta de que, à tal dor do desligamento que achamos desnecessário, à tal dor que a tanto custo queríamos evitar mas não conseguimos, se juntou outra, porventura mais pungente, com a qual nos confrontamos quando olhamos para o que temos com essas pessoas e percebemos que é apenas a cristalização consequente do facto de nada termos feito ou, então, que é apenas a cristalização consequente do facto de alguém, no pleno exercício dos direitos que lhe assistem, não ter aproveitado todas as possíveis oportunidades que, ainda que de forma mais ou menos desajeitada, foram criadas. Em suma, damo-nos conta de que o que temos com essas pessoas não passa do que nós lhes demos (porque lhe atribuíamos importância, lugar, valor) e do que elas, do alto do poder de que nós mesmos as investimos sem qualquer justificação, avaliam (as mais das vezes, de forma errada), pois do outro lado não houve retorno (nem tinha de haver). E quando nos apercebemos de que não houve, não há nem haverá retorno, vamos dar com os burrinhos na água.

A grande vantagem de dar com os burrinhos na água é que, como não é lá muito agradável, somos obrigados (por nós mesmos) a perguntar (a nós mesmos) qual é, afinal, a razão que justifique a atribuição de tal importância, lugar, valor e poder a essas pessoas. Quando damos com os burrinhos na água temos de os ir lá buscar e o banho obriga-nos a acordar para a realidade e para a necessidade de explicarmos a nós próprios porque raio é que fazemos o que fazemos, o que inclui os motivos pelos quais atribuímos determinado estatuto a alguém. Às vezes, não somos capazes de articular uma resposta, não sabemos porquê, não invocamos uma única razão especial. E percebemos, então, que esse estatuto só existe porque nós o criámos dentro da nossa maravilhosa e inocente cabecinha, porque nem a pessoa o pediu, nem lhe era devido, nem sequer é justificado. E tudo o que era deixa de ter sentido.

Com sorte, no meio da angústia, lá encontramos o norte e encaramos o facto de que temos de iniciar uma nova etapa. Começamos, então, a expurgar da nossa maravilhosa e inocente cabecinha o que não tem sentido que lá esteja (a importância, o lugar, o valor e o poder que erroneamente atribuímos a determinadas pessoas), sob pena de bloquearmos o caminho da nossa própria estratégia de sobrevivência e nos desgastarmos infinitamente em trabalhos em que nos metemos porque queremos e sem os quais passaríamos muito bem.

Percebemos, então, que é tudo uma questão de "empowerment" e que, portanto, essas pessoas, uma vez desprovidas do que lhes atribuímos, não passam de pessoas com as quais nos cruzámos e que, em tempos idos, desempenharam um determinado papel na nossa vida. Percebemos, sem retirar qualquer importância a esse papel, que ele só existiu num determinado contexto e porque nós lho atribuímos e, ainda, que só depende de nós que assim deixe de ser.

Percebemos, finalmente, que, por muito difícil que seja, há que fazer os desligamentos absolutos. Há que cortar as pontas que ficaram soltas, porque já não há nada onde elas se prendam, mas também porque não há teias ilusórias e invisíveis, "empowerment" ou mecanismos de resistência que segurem ou liguem o que as pessoas já não querem que exista, aliás, melhor dizendo, o que não existe mesmo, a não ser na nossa visão idílica das coisas e na nossa obstinação pela manutenção de cenários esgotados. Se assim não fizermos, cairemos numa situação contraproducente à prossecução dos nossos objectivos de crescimento individual. Andaremos a desperdiçar as nossas energias atribuindo importância ao que e a quem a não tem.

Com efeito, nem todas as histórias da nossa vida podem ter o final que nós gostaríamos de lhes dar, mas antes o final possível. Não é o fim do mundo, é só um dos vários desligamentos que teremos de fazer ao longo da nossa vida. Há que aceitar que, nas relações com o outro, nem tudo depende de nós, da nossa vontade, da nossa iniciativa, do nosso desejo, da nossa intenção e que, portanto, não faz sentido alimentar dentro de nós a ilusão da desnecessidade do desligamento quando o outro pensa de modo completamente diferente do nosso em relação a isso, e que muito menos vale a pena continuar a atribuir às pessoas uma dimensão que já não lhes é devida, porque algo mudou no trajecto que vinha sendo cumprido. Do mesmo modo que há que ver que, no que respeita ao modo como nós conduzimos a nossa vida, tudo depende de nós, da nossa vontade, da nossa iniciativa, do nosso desejo, da nossa intenção, que cada um deve a si mesmo o mais e o melhor possível e que isso, definitivamente, não se compadece com o desperdício que é andar atrás dos burrinhos para os tirar da água. Se não percebermos isto, só há uma constatação possível: os burrinhos seremos nós.

[Vês, miúda dos caracóis cada vez mais curtos, como tudo o que tu me dizes faz ressonância cá dentro? É por isso que eu não abdico de te ter na minha vida.
E tu, miúda dos caracóis um pouco mais compridos e mais claros, vês como escuto tudo quanto tu te fartas de repetir? É por isso que te estimo como estimo: muito.
Este texto fica aqui, por escrito, para que eu possa relê-lo de cada vez que me deixar cair na tentação de não questionar certas coisas na minha vida. E também para que vós, minhas queridas, possais poupar o vosso latim a dizer pela enésima vez as mesmas ideias. Da próxima vez (que espero que não exista, mas à cautela...), não me mandeis só beber um copo de água e pensar. Mandai-me também ler isto que eu mesma escrevi, isto que eu mesma concluí. Só me fará bem.]

© [m.m. botelho]

instantâneos [15]

visto aqui

12.2.11

parecer e ser

«Quem observa de fora as regras, mas não o amor que as governa, vê-se muitas vezes demasiado predisposto a qualificar os outros como "prisioneiros".»
Iris Murdoch, «O mar, o mar» [2005], p. 72

Há uns tempos, pediram-me que enunciasse objectos que constituíssem bons presentes para alguém me oferecer. Referi os que me ocorreram de imediato, sem grandes cogitações ou esforço de memória: livros, canetas, marcadores de livros, cadernos ou blocos bonitos, um iPod, uma Lomo, um cachimbo, um ou outro DVD de filmes em que se aprenda alguma coisa para a vida. «Já reparaste que todas essas coisas implicam que estejas sozinha para poderes usufruir delas?», perguntaram. Não, não tinha reparado, mas se nunca reparei é porque não acho que assim seja. É possível ler um livro ou ver um filme com a cabeça recostada no peito de outra pessoa, é possível escrever quando alguém dorme no nosso colo, é possível dividir os headphones de um iPod, é possível fumar cachimbo a dois e uma máquina fotográfica tem muito melhor uso se a empregarmos para eternizar momentos partilhados.

À vista desarmada, posso até parecer muito metida comigo mesma, muito absorta em grandes racionalizações internas, muito no meu casulo, muito cá de casa. Porém, um olhar mais atento que contemple um leque de possibilidades que vão além do óbvio topa que nem tudo é o que parece. É um risco, por isso, que as pessoas, por muito tempo que hajam partilhado com alguém, partam do pressuposto de que são capazes de traçar um perfil do outro e saber que ele é assim ou assado. Não é que até não sejamos, em parte, o que parecemos e, portanto, o que os outros vêem. A questão é que podemos ser - e, na maior parte dos casos, somos - muitíssimo mais do que isso.

© [m.m. botelho]

11.2.11

instantâneos [14]


do filme «Vicky Cristina Barcelona» [2008], de Woody Allen
visto aqui

«perder quem não se pode perder»

«Com a morte, também o amor devia acabar. acto contínuo, o nosso coração devia esvaziar-se de qualquer sentimento que até ali nutrira pela pessoa que deixou de existir. pensamos, existe ainda, está dentro de nós, ilusão que criamos para que se torne todavia mais humilhante a perda e para que nos abata de uma vez por todas com piedade. e não é compreensível que assim aconteça. com a morte, tudo o que respeita a quem morreu devia ser erradicado, para que aos vivos o fardo não se torne desumano. esse é o limite, a desumanidade de se perder quem não se pode perder. foi como se me dissessem, senhor silva, vamos levar-lhe os braços e as pernas, vamos levar-lhe os olhos e perderá a voz, talvez lhe deixemos os pulmões, mas teremos de levar o coração, e lamentamos muito, mas não lhe será permitida qualquer felicidade de agora em diante.»
valter hugo mãe, «a máquina de fazer espanhóis» [2010] [negrito meu]

«love is not a victory march»


Jeff Buckley. «Hallelujah».
Do álbum «Grace» [1994].

instantâneos [13]


da série «Grey's Anatomy» [temporada 2, episódio 15]
visto aqui

luz

Parece-me vergonhoso que tantas vezes se diga «com a verdade me enganas», e que não se veja por aí ninguém a reconhecer que «com a mentira me iluminas».

Bem, na realidade, nem é preciso que seja uma mentira. Basta que seja uma tirada qualquer que permita não assumir a verdade.

[Eu sei, eu sei: sou uma inflexível.]

© [m.m. botelho]

10.2.11

intuições

«O pior cego é o que não quer ver.»
[ditado popular]

Julgo que, pelo menos desde os meus vinte e poucos anos, comecei a aperceber-me de que, às vezes, percepcionava que determinados acontecimentos teriam lugar na minha vida. Não se tratava de quaisquer dotes paranormais, visões ou algo do género. O que me assaltava eram pensamentos de que determinadas coisas estavam a acontecer, coisas não explicitamente reveladas. Não sabia o que eram e abominava a ideia de que eu fosse capaz de ter pressentimentos. Ouvia dizer muitas vezes que as mulheres são muito mais sensíveis a certos aspectos do que os homens. Regra geral, isto era dito como se tal característica fosse negativa, uma reminiscência de tempos idos em que tudo eram apresentado como se só as mulheres fossem feiticeiras, sendo que isso era algo muito mau, expurgável apenas pelo fogo propalado nas pilhas montadas e acesas pela Inquisição. Talvez por isso tenha sedimentado em mim a ideia de que ser intuitivo era mau, algo que deveria contrariar ou, mais do que isso, negar absolutamente.

Assim, neguei sempre as minhas intuições. Quando ouvia falar no assunto, dizia-me completamente desprovida de tal característica feminina. Repetia constantemente para mim mesma que só existe o real realinho, o que é palpável e visível, o cientificamente explicável. Isto acabou por condicionar até o modo como vivia a minha religiosidade. O tema religião interessava-me muito, a tal ponto de ter lido integralmente a Bíblia entre os dezassete e os vinte e três anos, feito que até hoje não conheci quem, não sendo padre, teólogo ou afim tenha cumprido. Li integralmente o Catecismo da Igreja Católica, sei a doutrina de trás para a frente e, quando isso deixou de me bastar, passei a ler livros de História e de Sociologia das religiões e até o Direito Canónico captou de forma especial a minha atenção. Não obstante tudo isto, era incapaz de sentir uma ligação especial às entidades da religião que praticava. Não rezava - raramente rezei em toda a minha vida - e nunca sequer tentei estabelecer a comunhão espiritual que se espera que os católicos tenham com Deus, Cristo, a Virgem Maria e os Santos. Não tinha essa necessidade. Na realidade, nunca encarei a minha religiosidade como um domínio espiritual. Quando me questionava se teria fé, acaba por concluir um pouco apressadamente que sim, que tinha, só porque era suposto que a tivesse, e não me permitia ponderar que talvez eu fechasse deliberadamente o meu íntimo a tal sensação, não fosse isso fazer de mim uma má católica. Refugiava-me no confortável dito de que a fé não se explica e mentalizava-me que a tinha, mesmo que não me permitisse senti-la, sabendo que não me permitia porque não queria. Não me era, nunca me foi importante senti-la e nem sequer nutria admiração por quem era muito fervoroso.

Para mim, era bastante simples e pacífico: eu não era intuitiva e, por isso, também não era espiritual. Era do mundo do lado de cá, da Terra. Apreciava tremendamente a reconfortante ideia da doutrina católica de que não existe reencarnação e de que não existe qualquer comunicação entre vivos e mortos. Encarei sempre com uma calma perturbadora para os demais a morte das pessoas do meu universo. A propósito disto, ocorre-me agora que nunca chorei num funeral. Não chorei sequer quando o meu Avô, que eu amava profundamente, morreu. Vi a minha família, os nossos amigos e os nossos vizinhos chorarem a perda do meu Avô e eu nem no instante em que soube da sua morte fui capaz de o fazer. Não passou um dia em que eu tenha estado com o meu Avô em que não lhe tenha dado um beijo. Nos dias em que estava zangada com ele - tinha com ele uma relação tão sui generis que até me era permitido zangar-me com ele, dizer-lhe coisas que mais ninguém ousava dizer, tratá-lo por "tu" quando nem sequer a minha Mãe o fazia, confrontá-lo com tudo e mais alguma coisa, como se não houvesse entre nós distâncias impostas pela idade, pelo estatuto familiar ou por qualquer outra coisa -, dava-lhe um beijo e dizia-lhe «Não é que tu mereças.» e depois piscava-lhe o olho. Nem eu nem ninguém temos dúvidas de que eu gostava imenso dele. Gostava tanto dele que, mesmo quando estava aborrecida com ele, lhe dava beijos e, no entanto, depois de ele ter morrido, não mais lhe toquei a não ser para lhe beijar rapidamente a testa fria antes de selarem definitivamente a urna. Dizia para mim mesma que o meu Avô já não estava ali, por isso não o chorava, por isso não lhe tocava. Olhava para ele e dizia para mim mesma que ele agora estava noutra dimensão, uma dimensão na qual eu jamais poderia entrar enquanto fosse viva e por isso, porque havia uma separação intransponível entre nós, não valia a pena chorar nem beijar o que, para mim, era apenas o seu cadáver. E senti sempre isto perante todas as mortes: elas eram a passagem para um longe tão longe que não valia de nada aos vivos emocionarem-se por causa disso, porque os vivos eram do lado de cá e os mortos eram do lado de lá e entre um lugar e o outro havia um fosso de incomunicabilidade. A morte não tinha, portanto, nada de espiritual, nada de transcendente, nada de acessível fosse de que forma fosse.

Na verdade, eu tinha pavor em relação ao que não se entende nem se pode entender. Sempre gostei de tudo muito bem explicado e muito bem percebido. Aquilo que eu não percebia e não conseguia explicar não existia. Era por isso que, em mim, não existia a espiritualidade, a reencarnação e a intuição. Não nego que isso torna a minha religiosidade bastante pobre, do mesmo modo que não nego que recusar a existência da minha intuição em determinadas situações da minha vida fez de mim bastante cega. Intuía as coisas, mas como não percebia porque é que as intuía, negava que as intuísse. Quando, depois, as minhas intuições se tornavam o real realinho, ali à vista de toda a gente, eu repetia para mim mesma que tinha sido uma coincidência, que eu não era intuitiva, que o que tinha acontecido tinha sido uma conclusão óbvia do que antecedera e que o facto de tudo se ter passado como eu intuíra que estava a passar-se não era senão um acaso.

Não era. Não é um acaso, não são coincidências, são intuições. Talvez eu as tenha em maior número do que gostaria, mas devo aceitar que as tenho. E mais do que aceitar que as tenho, devo fazer uso delas. Acredito que se, ao longo da minha vida, tivesse feito esse uso, me tivesse poupado a alguns dissabores. Muitas das negações das minhas intuições conduziram a um estado de verdadeira cegueira, mas de uma cegueira perfeitamente consciente, logo, dolorosa.

Só o Peter Pan é que pode dar-se ao luxo de nunca dizer adeus, porque dizer adeus significa ir embora e ir embora significa esquecer. Nós, gente de carne e osso, não podemos dar-nos ao luxo de não dizer o que tem de ser dito, não fazer o que tem de ser feito, não lidar com o que está a acontecer. Por isso, quando intuímos que algo está a acontecer, melhor é que sejamos suficientemente inteligentes para assumirmos que aquilo já faz parte da nossa realidade e que, portanto, mais cedo ou mais tarde haveremos de ter de lidar com ela. As verdadeiras intuições podem não ser explicáveis, mas não é por isso que deixam de existir. Assim, talvez não seja lá muito perspicaz relegá-las para o plano do acaso. Se eu não quero estar alerta, mas algo me desperta, não pode ser por acaso. Não sei por que é, nem isso não interessa. Interessa é que estou desperta, que (pres)sinto e, se puder fazer alguma coisa com o que (pres)sinto, devo fazer. Por mim mesma.

Há sempre, pelo menos, uma coisa que podemos fazer com o que (pres)sentimos: tomar consciência de que o (pres)sentimos, aceitar que o (pres)sentimos e que, se assim é, por algum motivo é, motivo esse que, geralmente, até nem tarda a revelar-se. Só assim conseguiremos evitar que num instantinho, aos nossos próprios olhos, passemos de bestiais a bestas: de bestiais porque tivemos a capacidade de intuir, a bestas porque o negámos absurdamente.

© [m.m. botelho]

eu

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