21.2.11

ouriço-cacheiro

«A little Consideration, a little
Thought for Others, makes all the diference.»
De um livro do «Winnie, The Pooh», que dizem que é para crianças.

Hoje, se eu pudesse, se me fosse dado escolher, queria ser como o ouriço-cacheiro, que se enrosca em si mesmo até que o perigo se afaste. Se eu pudesse, gostaria de não ter de lidar com uma série de coisas que, de repente, me invadiram a vida e a viraram de pernas para o ar. Tudo coisas que, por muito sentido que possam fazer para os outros, não fazem qualquer sentido para mim. Tudo coisas que, por mais voltas que dê à minha cabeça, por mais uso que faça da minha reconhecidamente descomunal inteligência (sim, já passei a fase da falsa modéstia há muito) não consigo entender, por mais que atente nas explicações que foram dadas e que ouvi com toda a abertura.

O que sinto, neste momento da minha vida - e isto não é auto-comiseração nenhuma, é uma simples constatação, que as coisas são para serem ditas quando se tem ovários para as dizer - é que fui um dano colateral de uma guerra que nem sequer era minha. O que sinto é que fui arrastada para um lodo que me era absolutamente alheio e que engoliu o que não era suposto ser engolido, porque eu não tinha nada que ver com ele. Podem dizer-me até à exaustão que as pessoas se limitaram a viver as suas vidas, que eu, dentro dos meus (chamem-lhe espartilhantes, que é para o lado que eu durmo melhor) princípios e valores, não consigo aceitar que se vivam vidas destruindo outras vidas. Há sempre, pelo menos, duas maneiras de fazer as coisas: a certa e a errada. E, às vezes, no melhor pano cai a nódoa, que é como quem diz, até o mais esforçado dos seres faz as coisas do pior modo possível.

Sei que cada um de nós é o único responsável pela sua própria felicidade. Sei e concordo, mas também tenho a destreza de ver que cada um de nós pode ser causa de infelicidade para os outros. E, convenhamos, cada um de nós até pode fazer tudo pela sua felicidade, que se outros vierem espalhar cinzano no que foi semeado, não há cá milagres que salvem a colheita.

Ao longo de anos, sempre fui exemplar para com todos os envolvidos nesta guerra da qual sou um dano colateral. Nunca os traí, nunca lhes fui desleal, sempre me empenhei no melhor para eles, sempre lhes tive o maior respeito, consideração e amor. Em suma, sempre fiz tudo o que podia para não ser causa da sua infelicidade. Posso até não ter feito muito pela sua felicidade, mas se há coisa que não fiz foi ser causa da sua infelicidade.

O que tive em troca, contudo, não foi o mesmo. Podem até não ter feito muito pela minha felicidade, mas a dado passo tiveram um papel determinante na minha infelicidade. E isso, ser causa de infelicidade do outro, é uma trampa que não se faz a ninguém, muito menos a quem sempre nos tratou bem, nos deu o melhor que tinha e nos amou.

Ah, se eu pudesse, queria ser como o ouriço-cacheiro, que se fecha em si mesmo e não permite que os outros o magoem! Se eu pudesse, queria ter a possibilidade de não permitir que alguém pudesse causar-me dor. Sucede que não posso, que ninguém pode.

Por muito defendidos que sejamos, por muito leais e amantíssimos que sejamos para não despertar a fúria das energias cósmicas, ninguém pode proteger-se dos outros quando os outros optam mesmo por nos sacrificar no seu altar das oblações ao próprio umbigo. Ninguém consegue comandar a vida dos outros de forma a que as suas escolhas, os seus actos, as suas palavras não sejam para nós causa de infelicidade. E não me venham com a conversa de que as pessoas só nos magoam se nós quisermos, porque isso é uma grandessíssima treta. As pessoas magoam-nos se quiserem magoar-nos - ponto - e é fácil perceber porquê: porque todos nos movimentamos num universo de afectos, já que o que nos une é o amor e o respeito que temos uns pelos outros, nada mais. E sendo que a condição humana é amar para ligar, está criado o cenário para que todos aqueles que amamos possam magoar-nos e para que possamos magoar todos aqueles que nos amam.

Isto não é, portanto, uma questão de "empowerment". Isto é, tão-somente, a vida dos homens, pura e dura, em todo o seu esplendor. Quem não vive isolado, quem cria laços de afecto, deixa de ter a possibilidade de controlar a sua própria dor, porque ela passa a poder ser causada por aqueles com quem esses laços são estabelecidos. Não é possível criar laços sem dar esse flanco. Não é possível evitar que assim seja de maneira nenhuma.

O que sobra, então? Sobra a consciência que cada um tem de ter de que, não sendo necessariamente motivo de felicidade para o outro, pode ser motivo da sua infelicidade. Sobra a crença de que aqueles que amamos e a quem estamos ligados terão a amabilidade de não ser causa da nossa infelicidade. Sobra a nossa dignidade de não querermos ser causa da infelicidade alheia.

Não se trata de diabolizar as pessoas. Trata-se de reconhecer a cada um de nós um poder que tem, de facto, um poder que adquire a partir do momento em que cria laços com o outro. Se pudéssemos ser todos ouriços-cacheiros, estaríamos todos muito tranquilos na nossa protecção espinhosa e aí cada um podia fazer trinta por uma linha porque estávamos todos cada um por si. Mas nós só podemos ser humanos, logo, tremendamente desprotegidos pelos afectos que nós mesmos alimentamos.

Se eu pudesse, se me fosse dado escolher, queria ser um ouriço-cacheiro para que ninguém tivesse o poder de me magoar, para que me bastasse encolher-me para afastar o perigo. É que esta condição de não poder ser ilha e ter de criar laços com os outros, esta condição demasiado humana de ficar sujeito ao impacto que o que os outros fazem tem na nossa vida é tremendamente angustiante e às vezes apetece mesmo fazer uma pausa desta contingência.

Confúcio disse que a vida é simples, nós é que temos a mania de a complicar. Em parte, isto é bem verdade: tudo pode ser simples, se todos estivermos conscientes de que podemos ser causa de infelicidade para os outros e, portanto, devemos a todo o custo evitá-lo. Porém, tudo se complica quando cada um desata a viver a sua própria vida, sem olhar a mais nada e, por arrasto, lixa a vida do outro, que se torna um dano colateral das suas acções. Aí é que tudo fica uma novela mexicana sem ponta por onde se lhe pegue: uns a chorarem para um lado, outros a chorarem para o outro, uns a gritarem «Ai, que sacanice que me fizeram!», outros a dizerem «Realmente, fui um grande sacana, mas eu cá tive as minhas razões.». E depois o enredo da novela ganha vida própria, assume contornos de grande ecrã e história de ficção que contada ninguém acredita, nada volta a entrar nos eixos, por muito que se queira, e fica tudo uma grande embrulhada da qual ninguém sai ileso.

Suponho que, aos ouriços-cacheiros, seja relativamente fácil esquecer. Suponho que, uma vez afastado o perigo, não reste mais nada que atormente, mas aos humanos, depois de passada a tempestade, resta sempre a memória. E a memória reaviva sensações que quando são más são terríveis, nos petrificam e, por muito nobre que seja o nosso coração e muito férrea que seja a nossa vontade, nos impedem de deixar de sentir um aperto na garganta quando elas afloram. Mais um motivo para invejar a sorte dos ouriços-cacheiros.

Às vezes, viver a nossa própria vida tem um impacto brutal na vida dos outros. Às vezes, as nossas opções e actos têm a virtualidade de destruir pedaços importantes das estruturas alheias. Isto não significa que devemos deixar de optar e agir, embora às vezes não fosse mau não fazer tudo o que nos dá na real gana, ainda que tenhamos as nossas íntimas razões que nos reconfortam muito na hora de nos justificarmos. Significa apenas que temos de estar conscientes de que aquele impacto ocorrerá, de que aquela destruição terá lugar. Significa, também, que teremos de passar o resto da vida a deitar a cabeça na almofada com a perfeita noção de que um dia tivemos um papel determinante para que assim fosse, porque, tal como temos memória do que nos fizeram, de bom e de mau, sempre teremos memória do que fizemos, de bom e de mau. E ainda há a história do olhar para o nosso próprio retrato e ver que não difere muito do de Dorian Gray, mas isso é só para os mariquinhas pé-de-salsa como eu, que apreciam romances poéticos e fatalistas.

Pela minha parte, acredito que é possível cada um viver a sua vida sem lixar a vida do parceiro. Acredito nisso porque, aos trinta anos, deito a cabeça na almofada com a satisfação de ainda não o ter feito e não me acho nada de especial por isso: só me acho minimamente decente. E se já me aguentei trinta anos, acalento a esperança de aguentar outros trinta, porque sou muito ciosa do meu carácter e deposito grande esperança em mim.

Porém, mais do que isso, o que eu gostava mesmo era de poder deitar a cabeça na almofada sem esta sensação horrenda que é a de que já houve quem, para viver a sua vida, tenha lixado a minha com estrondo. Gostava de não ter de lidar com esta angústia de ter sido estupidamente magoada por quem menos esperava. Gostava de não ter de lidar com a memória de uma dor que poderia, em grande parte, ter sido evitada. Gostava de não ter de olhar para quem me magoou e, sem nenhum esforço para isso, me recordar que o fez, tenha sido lá pelos motivos que tenha sido. É que, com muita pena minha, quando dói, os motivos de cada um não são analgésico e ainda está por inventar o palavreado que provoque amnésia.

Sei que tudo isto é absolutamente irrealista. Sei que o que estou a dizer é que gostava de não levar abanões, de não "crescer" pela dor, de não me fortalecer pela angústia e pela porradinha da vida. Sei que isto é assumir que o que eu gostava era que tudo fosse simples e tranquilo, maravilhoso e idílico, durante a minha passagem pela Terra. A verdade é que há dias em que gostava mesmo. Gostava mesmo que aqueles com quem criei laços não me obrigassem a sofrer desalmadamente, durante uma data de tempo que leva uma eternidade a passar e me desgasta emocionalmente com custos enormes para mim, só para viverem as suas ricas vidinhas, porque creio piamente que poderíamos ser todos muito felizes sem termos de nos andar a estropiar uns aos outros. Gostava mesmo de só ter de sofrer por causa de pessoas em quem não investi, a quem não me dediquei e a quem não votei afectos. Gostava mesmo que as minhas feridas não tivessem nomes, que fossem todas de gente anónima a quem nunca dei abraços e com quem nunca me sentei à mesa. Gostava, admito, porque seria tudo muito mais bonito de se ver, ninguém ficava mal na fotografia e eu não teria estas tristes historietas mirabolantes para contar aos netinhos quando for muito velha. Gostava, palavra de honra que gostava mesmo que, em dias como o de hoje, me fosse dado escolher ser um ouriço-cacheiro.

Como não é, vou ali fazer-me à vida, que ela continua e eu não quero perder pitada de tudo de bom que ainda está para me acontecer. Porque eu mereço: tenho as contas acertadas por uns bons anos.

© [m.m. botelho]

17.2.11

instantâneos [16]

visto aqui

até logo

«Tenho de ir-me embora», disse, e expliquei, talvez de modo até bastante atabalhoado, por que não posso ficar ali, onde estou, por que preciso de uma pausa. Do outro lado da linha disseram-me compreender a minha dificuldade em gerir as coisas como estão e perceber porque é que ela existe. Assim nos despedimo-nos, pela segunda vez nas nossas vidas.

Da primeira vez, eu disse que, habitualmente, me despedia dizendo «até logo», porque fazia questão de demonstrar a vontade de existência do contacto seguinte, mas que, naquelas circunstâncias, não sabia o que dizer, visto que não sabia se alguma vez haveria de voltar a querer o encontro. E o meu costumeiro «até logo» foi substituído por um pesadíssimo «adeus», palavra que evitei sempre por achar definitiva.

Desta vez, não precisei de dizer absolutamente nada. Do outro lado, um desejo de boa viagem, uma sugestão de envio de postais de vez em quando, a afirmação da disponibilidade para os ler e da certeza de que o encontro se daria certamente, nos lugares de sempre, assim eu o quisesse, quando eu o quisesse. No remate, um «até logo», que sei que não foi circunstancial, porque não é habitual. Um «até logo» como quem diz «vou despedir-me de ti como tu sempre te despedes, porque desta vez sou eu quem quer demonstrar a vontade da existência do contacto seguinte». Uma despedida tranquila e compreendida por ambas as partes. E dois «até logo», ditos ambos com a ternura de quem quer que haja um «logo», ainda que não saiba quando esse «logo» será.

© [m.m. botelho]

15.2.11

gaguez

O filme que escolhi ver ontem foi «O discurso do Rei». O critério foi o do horário de início: este era o que começava primeiro, circunstância que, no final de um dia de trabalho fora de casa, pode mesmo ser determinante.

«O discurso do Rei» é um invulgar filme sobre a fragilidade humana, sobre o combate contra o medo, sobre a tensão entre o querer e o dever, sobre a importância da autoconfiança e o papel que o afecto pode desempenhar no seu reforço.

Bertie, segundo filho do Rei Jorge V de Inglaterra, padece de gaguez. A mulher empenha-se na sua cura e, por recomendação, entra em contacto com Lionel Logue, um terapeuta da fala com métodos pouco ortodoxos. A partir daqui, a acção foca-se na relação entre os dois homens. Quando o irmão abdica para poder casar-se com a mulher que ama, Bertie vê-se a braços com o seu maior medo: ter de proferir os eloquentes discursos que se esperam de um Rei. E não pode evitar o confronto.

Lamentavelmente, o argumento explora apenas superficialmente a faceta de actor frustrado de Lionel. Julgo que, de certa forma, constitui uma oposição à situação vivida por Bertie. Lionel, um apaixonado por Shakespeare, gostaria de ter sido actor de teatro, mas nunca conseguiu pisar os grandes palcos. Bertie, um frustrado amante de modelismo forçado pelo pai a ser coleccionador de selos, não quer ser Rei, mas as circunstâncias conduzem-no ao trono. Isto acontece com todos nós em determinadas dimensões da nossa vida: há coisas que não queremos e que nos acontecem e coisas que desejamos e que nem sempre conseguimos alcançar. Teria sido estimulante assistir a uma abordagem mais profunda deste aspecto.

Mas «O discurso do Rei» cumpre a sua função ao desperta-nos para a noção de que, tal como Bertie, todos termos a nossa própria gaguez e de que todos podemos ultrapassá-la. É um filme sobre obstáculos, receios e dificuldades, mas também é um filme sobre soluções. Veio em boa altura, na minha vida. Veio na altura ideal.

© [m.m. botelho]

eu disse que ia repetir

Eu bem disse que tinha gostado e que ia repetir. Ontem à noite, voltei a ir ao cinema sozinha. Era noite de S. Valentim. A maior parte das pessoas que estavam na sala estava acompanhada. Não vi absolutamente ninguém sozinho, para além de mim. Curiosamente, na sala, muitos casais de pessoas mais velhas, com idade para serem meus pais.

Fiquei sentada na terceira fila a contar do fim, entalada entre dois casais daquela geração. Fui a última a chegar, os meus vizinhos já estavam sentados, mas cheguei até antes da hora (agora, eu raramente me atraso para os meus compromissos com hora marcada: faz parte dos meus muitos progressos como ser humano). Quando me viram inclinar para entrar na fila, olharam-me como se eu fosse um extraterrestre. Se calhar, não estavam à espera de ver uma personagem como eu a chegar àquele lugar, mas eu até estava com uma aparência muito banal: sozinha, um saco de compras na mão esquerda, uma garrafa de água na direita e o tiracolo da mala atravessado no peito (com o casaco que estava a usar, estilo militar, gosto de usar a mala assim). A senhora que estava à minha direita, uma louraça espampanante, retirou a mala e o casaco para eu poder sentar-me. Agradeci e ela sorriu simpaticamente. O sujeito do lado esquerdo, endireitou-se na cadeira e pôs os óculos para me ver melhor. Mal o olhei, só sei que tinha bigode e que um duche antes do cinema não lhe teria feito mal nenhum.

Eu sentei-me, desliguei o telemóvel, tirei o casaco e abri a garrafa de água, para não estar a fazer barulho durante o filme. Como sempre, cruzei a perna esquerda sobre a direita. E depois não me lembro de mais nada. Concentrei-me no momento e pus os olhos na tela onde passavam os trailers. Acho que sorri. Não, não acho. Tenho a certeza de que sorri. Senti-me bem. Senti-me feliz, satisfeita comigo mesma. Sim, só posso mesmo ter sorrido.

© [m.m. botelho]

14.2.11

resistências e desligamentos: para mais tarde recordar

Por vezes, durante algum tempo após determinados acontecimentos terem lugar na nossa vida, continuamos a atribuir às pessoas com eles relacionadas um papel especial e inigualável no nosso percurso e quase forçamos, dentro da nossa maravilhosa e inocente cabecinha, a existência de uma importância para essas pessoas, de um lugar que lhes é devido, de um valor que lhes é inerente, ainda que não saibamos explicar por que razão teriam essa importância, esse lugar ou esse valor. A reboque disto, ficamos presos à ideia de que aquelas pessoas detêm ainda o poder de nos avaliarem e que tudo o que elas pensem ou digam sobre nós tem de assumir grande relevo. Como que lhes concedemos o poder de nos julgarem, de tecerem considerações sobre o que fazemos e, mais grave, sobre o que somos e como somos. Ficamos a cismar sobre isso e achamos que as pessoas têm sempre razão, mesmo quando não têm, e permitimos que as suas opiniões tenham efeito em nós, que nos atormentem, que nos sejam muito caras.

Possivelmente, fazemos isto porque o desligamento, em particular o desligamento absoluto que (porque somos uns tontos idealistas que nem parecemos deste mundo) achamos desnecessário, é tremendamente penoso e tendemos a evitar a dor que daí advirá. Em consequência, oferecemos uma resistência enorme à aceitação de que os desligamentos sejam definitivos, indispensáveis, um facto, uma evidência, uma realidade clarividente, pura e dura para toda a gente de bom-senso, grupo no qual, obviamente, não nos incluímos porque estamos muito ocupados a tentar arranjar justificações para legitimar a nossa resistência.

Porém, em certos casos, mais cedo ou mais tarde, damo-nos conta de que, à tal dor do desligamento que achamos desnecessário, à tal dor que a tanto custo queríamos evitar mas não conseguimos, se juntou outra, porventura mais pungente, com a qual nos confrontamos quando olhamos para o que temos com essas pessoas e percebemos que é apenas a cristalização consequente do facto de nada termos feito ou, então, que é apenas a cristalização consequente do facto de alguém, no pleno exercício dos direitos que lhe assistem, não ter aproveitado todas as possíveis oportunidades que, ainda que de forma mais ou menos desajeitada, foram criadas. Em suma, damo-nos conta de que o que temos com essas pessoas não passa do que nós lhes demos (porque lhe atribuíamos importância, lugar, valor) e do que elas, do alto do poder de que nós mesmos as investimos sem qualquer justificação, avaliam (as mais das vezes, de forma errada), pois do outro lado não houve retorno (nem tinha de haver). E quando nos apercebemos de que não houve, não há nem haverá retorno, vamos dar com os burrinhos na água.

A grande vantagem de dar com os burrinhos na água é que, como não é lá muito agradável, somos obrigados (por nós mesmos) a perguntar (a nós mesmos) qual é, afinal, a razão que justifique a atribuição de tal importância, lugar, valor e poder a essas pessoas. Quando damos com os burrinhos na água temos de os ir lá buscar e o banho obriga-nos a acordar para a realidade e para a necessidade de explicarmos a nós próprios porque raio é que fazemos o que fazemos, o que inclui os motivos pelos quais atribuímos determinado estatuto a alguém. Às vezes, não somos capazes de articular uma resposta, não sabemos porquê, não invocamos uma única razão especial. E percebemos, então, que esse estatuto só existe porque nós o criámos dentro da nossa maravilhosa e inocente cabecinha, porque nem a pessoa o pediu, nem lhe era devido, nem sequer é justificado. E tudo o que era deixa de ter sentido.

Com sorte, no meio da angústia, lá encontramos o norte e encaramos o facto de que temos de iniciar uma nova etapa. Começamos, então, a expurgar da nossa maravilhosa e inocente cabecinha o que não tem sentido que lá esteja (a importância, o lugar, o valor e o poder que erroneamente atribuímos a determinadas pessoas), sob pena de bloquearmos o caminho da nossa própria estratégia de sobrevivência e nos desgastarmos infinitamente em trabalhos em que nos metemos porque queremos e sem os quais passaríamos muito bem.

Percebemos, então, que é tudo uma questão de "empowerment" e que, portanto, essas pessoas, uma vez desprovidas do que lhes atribuímos, não passam de pessoas com as quais nos cruzámos e que, em tempos idos, desempenharam um determinado papel na nossa vida. Percebemos, sem retirar qualquer importância a esse papel, que ele só existiu num determinado contexto e porque nós lho atribuímos e, ainda, que só depende de nós que assim deixe de ser.

Percebemos, finalmente, que, por muito difícil que seja, há que fazer os desligamentos absolutos. Há que cortar as pontas que ficaram soltas, porque já não há nada onde elas se prendam, mas também porque não há teias ilusórias e invisíveis, "empowerment" ou mecanismos de resistência que segurem ou liguem o que as pessoas já não querem que exista, aliás, melhor dizendo, o que não existe mesmo, a não ser na nossa visão idílica das coisas e na nossa obstinação pela manutenção de cenários esgotados. Se assim não fizermos, cairemos numa situação contraproducente à prossecução dos nossos objectivos de crescimento individual. Andaremos a desperdiçar as nossas energias atribuindo importância ao que e a quem a não tem.

Com efeito, nem todas as histórias da nossa vida podem ter o final que nós gostaríamos de lhes dar, mas antes o final possível. Não é o fim do mundo, é só um dos vários desligamentos que teremos de fazer ao longo da nossa vida. Há que aceitar que, nas relações com o outro, nem tudo depende de nós, da nossa vontade, da nossa iniciativa, do nosso desejo, da nossa intenção e que, portanto, não faz sentido alimentar dentro de nós a ilusão da desnecessidade do desligamento quando o outro pensa de modo completamente diferente do nosso em relação a isso, e que muito menos vale a pena continuar a atribuir às pessoas uma dimensão que já não lhes é devida, porque algo mudou no trajecto que vinha sendo cumprido. Do mesmo modo que há que ver que, no que respeita ao modo como nós conduzimos a nossa vida, tudo depende de nós, da nossa vontade, da nossa iniciativa, do nosso desejo, da nossa intenção, que cada um deve a si mesmo o mais e o melhor possível e que isso, definitivamente, não se compadece com o desperdício que é andar atrás dos burrinhos para os tirar da água. Se não percebermos isto, só há uma constatação possível: os burrinhos seremos nós.

[Vês, miúda dos caracóis cada vez mais curtos, como tudo o que tu me dizes faz ressonância cá dentro? É por isso que eu não abdico de te ter na minha vida.
E tu, miúda dos caracóis um pouco mais compridos e mais claros, vês como escuto tudo quanto tu te fartas de repetir? É por isso que te estimo como estimo: muito.
Este texto fica aqui, por escrito, para que eu possa relê-lo de cada vez que me deixar cair na tentação de não questionar certas coisas na minha vida. E também para que vós, minhas queridas, possais poupar o vosso latim a dizer pela enésima vez as mesmas ideias. Da próxima vez (que espero que não exista, mas à cautela...), não me mandeis só beber um copo de água e pensar. Mandai-me também ler isto que eu mesma escrevi, isto que eu mesma concluí. Só me fará bem.]

© [m.m. botelho]

instantâneos [15]

visto aqui

12.2.11

parecer e ser

«Quem observa de fora as regras, mas não o amor que as governa, vê-se muitas vezes demasiado predisposto a qualificar os outros como "prisioneiros".»
Iris Murdoch, «O mar, o mar» [2005], p. 72

Há uns tempos, pediram-me que enunciasse objectos que constituíssem bons presentes para alguém me oferecer. Referi os que me ocorreram de imediato, sem grandes cogitações ou esforço de memória: livros, canetas, marcadores de livros, cadernos ou blocos bonitos, um iPod, uma Lomo, um cachimbo, um ou outro DVD de filmes em que se aprenda alguma coisa para a vida. «Já reparaste que todas essas coisas implicam que estejas sozinha para poderes usufruir delas?», perguntaram. Não, não tinha reparado, mas se nunca reparei é porque não acho que assim seja. É possível ler um livro ou ver um filme com a cabeça recostada no peito de outra pessoa, é possível escrever quando alguém dorme no nosso colo, é possível dividir os headphones de um iPod, é possível fumar cachimbo a dois e uma máquina fotográfica tem muito melhor uso se a empregarmos para eternizar momentos partilhados.

À vista desarmada, posso até parecer muito metida comigo mesma, muito absorta em grandes racionalizações internas, muito no meu casulo, muito cá de casa. Porém, um olhar mais atento que contemple um leque de possibilidades que vão além do óbvio topa que nem tudo é o que parece. É um risco, por isso, que as pessoas, por muito tempo que hajam partilhado com alguém, partam do pressuposto de que são capazes de traçar um perfil do outro e saber que ele é assim ou assado. Não é que até não sejamos, em parte, o que parecemos e, portanto, o que os outros vêem. A questão é que podemos ser - e, na maior parte dos casos, somos - muitíssimo mais do que isso.

© [m.m. botelho]

11.2.11

instantâneos [14]


do filme «Vicky Cristina Barcelona» [2008], de Woody Allen
visto aqui

«perder quem não se pode perder»

«Com a morte, também o amor devia acabar. acto contínuo, o nosso coração devia esvaziar-se de qualquer sentimento que até ali nutrira pela pessoa que deixou de existir. pensamos, existe ainda, está dentro de nós, ilusão que criamos para que se torne todavia mais humilhante a perda e para que nos abata de uma vez por todas com piedade. e não é compreensível que assim aconteça. com a morte, tudo o que respeita a quem morreu devia ser erradicado, para que aos vivos o fardo não se torne desumano. esse é o limite, a desumanidade de se perder quem não se pode perder. foi como se me dissessem, senhor silva, vamos levar-lhe os braços e as pernas, vamos levar-lhe os olhos e perderá a voz, talvez lhe deixemos os pulmões, mas teremos de levar o coração, e lamentamos muito, mas não lhe será permitida qualquer felicidade de agora em diante.»
valter hugo mãe, «a máquina de fazer espanhóis» [2010] [negrito meu]

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