4.4.11

não tenhas pressa, só não desistas

«Forget your personal tragedy. We are all bitched from the start and you especially have to be hurt like hell before you can write seriously. But when you get the damned hurt use it — don't cheat with it. Be as faithful to it as a scientist — but don't think anything is of any importance because it happens to you or anyone belonging to you
Ernest Hemingway [1899-1961], numa carta dirigida a F. Scott Fitzgerald [1896-1940]
[negritos meus] [fonte: visto aqui]

[Note to self: Não tenhas pressa. Praticamente ninguém faz nada de jeito antes dos 30, porque até lá andamos quase todos a brincar aos crescidos sem o sermos. Não tenhas pressa. O que queres fazer haverá de te sair de dentro com a força de um tsunami e haverá de corresponder ao que desejas, não menos do que isso. Deixa que a vida te dê a experiência e a sabedoria indispensáveis, a matéria-prima, o princípio e o fim. Não tenhas pressa, só não desistas. Nunca desistas do que queres para ti e nunca deixes de acreditar que haverás de o alcançar. E repete isto todos os dias. Todos os dias da tua vida.]

ironias do des(a)tino

É frequente ouvir algumas pessoas tecerem juízos de valor sobre comportamentos alheios. Os assuntos podem até nem lhes dizer respeito, mas, ainda assim, acham que, do alto da sua sabedoria de vão-de-escada, lhes assiste o direito de aprovar ou reprovar o que os outros fazem e de os aconselhar assim ou assado. Os mais ousados, cuja sabedoria continua a ser de vão-de-escada mas usa uns fatinhos mais aprumados e põe água de colónia ao fim-de-semana, atrevem-se mesmo a fazer iluminadas interpretações sobre os motivos que levam as pessoas a fazer o que fazem ou a não fazer o que não fazem. Geralmente, concluem que os outros são sempre uns grandes palermas e que eles é que estão certos, que os outros andam sempre a fugir dos desafios da vida em vez de os enfrentarem, que os outros optam sempre pela solução menos trabalhosa em vez de arriscarem. São tão tolos, tão tolos, que até ousam saber o melhor para a vida dos outros e dar-lhes conselhos e, nos casos mais graves de tolice, até fazer comparações sobre o que desconhecem. E fazem-no porque acham que sabem tudo sobre tudo. Fazem-no porque acham que, se as coisas fossem consigo, teriam tudo sob controlo e saberiam sempre como agir e o que dizer, o que é o certo e o errado, onde é que a espada da Justiça tem de cortar para cortar bem. A verdade é que, as mais das vezes, os que tanto analisam a vida alheia e tão lampeiros são a julgar e condenar os outros, nem o que vai na sua cabecinha são capazes de entender. Andam tão ocupados a tentar perceber os outros que se esquecem de se perceber a si mesmos.

Curiosamente, é também frequente ver que as mesmas pessoas que criticaram os comportamentos alheios, acabam, mais tarde ou mais cedo, por adoptá-los, ainda que com contornos diferentes, que cada vida é uma história. E, ao fazerem-no, estão a sentar-se não no banco dos réus onde os outros que eles julgaram serão agora os seus juízes (os outros, se forem inteligentes, estão-se nas tintas para o julgamento), mas antes nos bancos da escola que é a vida, onde aprenderão preciosas lições. Uma chatice, pois, mas as lições de vida são absolutamente indispensáveis para mostrar aos que se acham muito inteligentes, perspicazes, seguros e bons ajuizadores que eles, tal como todos os outros seres humanos, afinal também fazem grandes disparates e se enganam e, às vezes, de que maneira! E quanto a isto não há volta a dar-lhe: a força da gravidade é um facto e quem cospe para o ar tem necessariamente de levar com a saliva de volta, em cheio, na testa, como o desgraçado Newton levou com a maçã enquanto pensava sabe-se lá em quê.

Se é verdade que, como dizia Oscar Wilde, «a vida imita a arte», também é verdade que às vezes as vidas imitam outras vidas. Quando estamos a fazer aquele exercício de nos pormos nos sapatos dos outros, aquele exercício que todos achamos que fazemos e fazemos bem (e que quase ninguém é capaz sequer de fazer, quanto mais de fazer bem), apontamos o dedinho ao parceiro, juramo-nos incapazes de fazer e dizer certas coisas, usamos palavras definitivas e implacáveis como «imperdoável» ou «nunca mais» e até levamos a mãozinha à boca quando pensamos no que os outros fizeram. «Eu, jamais!», dizemos, «Eu, nunca!». A grande maçada é que, às vezes, a vida prega-nos partidas, porque ainda o demo não esfregou um olho e já nós damos por nós a fazer a mesmíssima coisa que avidamente criticámos nos outros. Lá está: a vida imita a arte, mas a vida também imita a vida.

Nesses momentos, em que revelamos ao mundo que o que andamos a fazer é o mesmo que há pouco criticávamos nos outros, transformamo-nos em algo muito divertido de se ver de fora: desnorteados, tontinhos, incoerentes, à deriva, inconsistentes, dizendo uma coisa na segunda-feira e o seu contrário na quinta, quebrando todas as promessas e todos os «jamais», fazendo o que jurámos nunca fazer e proclamando as grandes intenções para o futuro, adiantando resoluções sobre tudo e sobre nada. Resoluções essas que, como o tempo se encarrega de demonstrar, são sol de pouca dura: não passa um mês (podia dizer uma semana, mas apetece-me ser generosa no espaço de tempo a referir) e já a banda toca outro pasodoble.

É por isso que o povo diz e com razão que «quem muito fala, pouco acerta» e que a minha Avó materna me repete, há décadas, que «só se sabe o que se diz e só se lê o que está escrito». Para viver sabiamente o melhor, mesmo, é, para não correr o risco de não se saber o que se está a dizer, estar caladinho. Porque tudo o que dissermos, desde as críticas aos conselhos, passando pelas juras, as promessas, os «jamais» e os cantares de galo e a esperteza saloia, haverão de transformar-se em enormes gotas quando a saliva que cuspimos para o ar iniciar o seu movimento descendente e ela inicia-o sempre. Então, haveremos de dar por nós, testa a escorrer de cuspo, a olhar para os pés cravados de balas que nós mesmos disparámos, comprometidos com o que dissemos quando, na realidade, não sabíamos o que estávamos a dizer. E a sentença que aplicámos ao outro, teremos coragem de a aplicar a nós? Era lindo, era, mas a maior parte de nós não tem porque, já se sabe, «ninguém é bom juiz em causa própria».

É claro que podemos sempre mudar de ideias e dizer o contrário do anteriormente dito a cada dia que passa, porque nós podemos tudo, sempre. Todavia, se as ideias não tiverem sido ditas, só nós é que daremos conta das nossas contradições, não os outros e, portanto, as nossas incoerências ficarão sempre só nossas. Existem, o que não é nada bom, mas pelo menos não são visíveis, não estão expostas, não serão motivo da troça de ninguém.

Não foi à toa que os romanos, creio, criaram três máximas que se encadeiam umas nas outras: 1. se pensares, não digas; 2. se disseres, não escrevas; 3. se escreveres, não assines. Foi precisamente para nos alertar que, porque a vida dá muitas voltas, nos devemos poupar à exibição das nossas incoerências e das nossas vacilações, porque todos as temos, mas só uns é que são totós ao ponto de as confessar publicamente. No fundo, é fazer o velho exercício do «pensar primeiro e falar depois», que é como quem diz falar só se valer a pena, se for para manter o que foi dito, se for para manter a face, se se tiver a certeza de que a situação, ainda que só seja eterna enquanto durar (a devida vénia ao Vinicius), que pelo menos dure um tempinho considerável que lhe dê ao menos a aparência de séria.

A essas incoerências expostas, a essa lastimosa revelação ao mundo de que o tabuleiro de jogo virou e nós perdemos as fichas (e com que rapidez ele vira e nós as perdemos!), a essas testas cheias de saliva cuspida para o ar, a esses tiros no pé disparados pelo próprio achando que fazia grande coisa, a tudo isso há quem chame «ironias do destino». Eu, que mesmo depois de estar tudo inventado desde a Babilónia Antiga tenho esta minha mania de tentar ser autêntica, prefiro chamar-lhes «ironias do desatino». Para mim, é só mesmo isso que são.

© [m.m. botelho]

2.4.11

a benesse da justificação

Concordo em absoluto com o que é dito no «instantâneo» do post que antecede este. É por isso que eu ainda vou concedendo a benesse da justificação às pessoas que dão os chamados "pontapés na vida", mas são novas, inexperientes e imaturas e, portanto, embora pensem que sim, não sabem bem o que estão a fazer (já todos andámos lá, não há quem possa atirar a primeira pedra). Todavia, já não consigo concedê-la a quem já viveu umas quantas experiências e tem idade e maturidade para saber distinguir o que é verdadeiramente importante e irrepetível do que é um disparate, um capricho ou um devaneio. Por isso, se no primeiro caso ainda atribuo a burrice ao cheiro a leite, no segundo só posso atribuí-la à estupidez.

À medida que vamos ficando mais velhos e vamos adoptando um discurso paternalista em relação aos outros, principalmente se mais jovens do que nós, convém que ajamos em coerência com esse tom de quem sabe muito porque já viveu muito. Caso contrário, os mais novos podem até ouvir, mas dificilmente levarão a sério o que lhes é dito. E aquilo que se leva uma vida inteira a conquistar, perde-se num segundo: a admiração. E depois da admiração perdida, resta muito pouco. Resta o respeito, se o outro (o jovem que ainda não viveu nada e devia sorver cada palavra do que lhe é dito por quem tem a autoridade dos anos, de preferência fazendo vénias a cada frase proferida) for de boa cêpa, senão, nem isso. Perde-se tudo e é uma maçada.

Eu tenho sérias dúvidas se alguma vez se recupera seja o que for, mas isso sou eu, 31 anos, meia vida ainda não vivida, quiçá algum cheiro a leite ainda a aflorar dos colarinhos. Daqui a uns anos, talvez volte aqui com outra perspectiva, outras conclusões, outras certezas. Dando a vida as voltas que dá, qui sapit?

© [m.m. botelho]

instantâneos [26]

visto aqui

1.4.11

fazer 31 anos é magnífico

Se calhar, só eu e Deus sabemos o quanto eu quis livrar-me de 2010. Recordo-me bem da passagem de ano de 2009-2010 e foi muito, muito boa. Estava muito feliz, foi uma grande noite na companhia de pessoas que eu amava muito e por quem era amada. Os primeiros telefonemas, foram para outros da mesma condição com quem, infelizmente, não pude estar ao vivo. Bati com tachos e panelas na varanda, atordoando o Porto. Dei abraços e beijos. Lavei a loiça do jantar e depois saímos para dançar. Lembro-me da animação do sítio, das palavras sussurradas ao ouvido, do isqueiro preto no bolso a acender os cigarros de toda a gente.

Também me recordo bem do dia em que fiz 30 anos. A manhã foi passada em Lisboa, a tarde em Sintra. Lembro-me do que vesti nesse dia: jeans, camisa azul escura, camisola de algodão vermelha, casaco e botas verde-tropa. Fartei-me de passear por Sintra. Andei imenso, subi ladeiras, desci a pé uma estrada pejada de automóveis que contornei com a testa a transpirar, mas com a satisfação de ter calcorreado aquilo tudo a pé. Parei na Piriquita e, depois de esperar numa fila considerável, comprei travesseiros, queijadas e uma garrafa de água lisa. Depois, fui de carro para o Parque da Pena. Comi um travesseiro ainda no carro, estacionado no parque, entre os carvalhos. As portas abertas, o calor de um dia de Primavera, um braço esticado para fora do carro e, na ponta, um cigarro. Bebi água lisa. Lembro-me muito bem da primeira frase que disse quando entrei no Parque da Pena: disse o mesmo que dizia sempre que entrava num sítio onde ainda não tinha estado. Lembro-me dos minutos de descanso junto ao bar do Palácio da Pena e do telefonema para reservar a mesa no Restô, «uma das que ficam voltadas para a janela, por favor». Lembro-me do menu: mousse de queijos, cogumelos Portobello gratinados, veado à Vila Viçosa, picanha com chocolate, uma garrafa de água lisa e natural, uma garrafa de EA tinto de 2008, tarte de framboesa para a sobremesa, dois cafés e um par de cigarros no terraço que dá para o bar. Lembro-me de tudo muito bem. Feliz ou infelizmente - confesso que já não sei - tenho uma memória do caraças.

Mas a verdade é que eu queria muito livrar-me dos 30. Gostei muito do dia em que fiz 30 anos, tanto, que ainda me lembro exactamente do que fiz e dos telefonemas que recebi, dos mimos que me deram, mas não gostei do facto de fazer 30 anos. Não sei porquê, não me interessa. Agora não quero pensar nisso. Não sei se alguma vez quererei.

Hoje, estou finalmente em 2011 e finalmente nos 31! Sinto um misto de alívio, leveza, felicidade, alegria e emoção. Fazer 31 anos é, neste momento, para mim, simplesmente maravilhoso! É grandioso! É libertador! Sinto-me feliz, caramba! Sinto-me bem! Sinto que é um novo ciclo que começa. Um ciclo que se iniciou no dia 1 de Janeiro, mas que arranca definitivamente no dia 1 de Abril. Um ciclo que se iniciou com a chegada de 2011, mas que arranca definitivamente com os meus 31 anos.

Os 30 foram, na globalidade, bastante maus, tal como 2010 foi um ano, na generalidade, também mau. Sim, foi quase tudo péssimo, mas eu não quero mais pensar nem em 2010 nem nos 30. Quero olhar para tudo o que me aconteceu enquanto os dois (ano e aniversário) se sobrepuseram como se tivesse acontecido numa outra encarnação. Quero começar de novo e, para isso, nada melhor do que um aniversário. Hoje não irei a Lisboa, nem a Sintra, nem jantarei no Restô numa mesa voltada para a janela, mas serei igualmente feliz. Vou voltar a vestir jeans, mas tudo o resto será diferente. Não será melhor, nem pior, será só diferente. De uma diferença pacífica, de uma diferença desejada. De uma diferença que me faz sentir que hoje é um novo começo. Não sei dizer isto de outra forma: fazer 31 anos é magnífico. E eu precisava tanto disto, meu Deus, como, provavelmente, só eu e Tu sabemos.

© [m.m. botelho]

trinta e um

[m.m. botelho]

Finalmente: trinta e um.

[E que melhor presente do que um texto escrito com o coração pela minha Mana, que quis o acaso nascesse no mesmo dia que eu (ou eu no mesmo dia que ela, que quando eu nasci, ela já cá andava)? Sou uma mulher de muita sorte por ter alguém como a minha Mana na minha vida. Não, isto é sorte: é fortuna, nas duas acepções do termo. É fortuna e é imensa.]

© [m.m. botelho]

31.3.11

flores silvestres

Terça-feira, 29 de Março, 21 horas. Entro no elevador e, atrás de mim, entra um casal. A senhora pergunta se eu vou sair no piso 0. Respondo que sim. Ela pergunta ao marido se é no piso 0 que eles também vão sair e ele confirma com a cabeça. De seguida, a senhora justifica-se perante mim dizendo que é o cansaço, que está no prédio desde as 14 horas por causa de uma consulta de um Advogado e que nem sequer lanchou. Pede desculpa pela pergunta que adjectiva de disparatada. Eu returco que não tem de quê e sorrio.

O elevador pára no piso 0. Eu sou a primeira a sair e despeço-me dizendo «boa noite». A senhora responde o mesmo e acrescenta «Tudo de bom para si, que me bastaram 30 segundos consigo naquele elevador para perceber que é uma pessoa muito educada». Eu agradeço e retribuo.

Enquanto procuro na mala a chave do carro, penso que ainda vale a pena marcar a diferença com pequenos gestos de amabilidade e lembro-me de que, podem até ser em menor quantidade e pouca gente dar por elas, mas mesmo entre as ervas daninhas crescem flores silvestres, algumas até pequeninas, frágeis, solitárias, mas crescem.

© [m.m. botelho]

25.3.11

instantâneos [25]

© Francisco Carvalho [2011]
Rua Miguel Bombarda. Porto. Portugal.
visto aqui

traições, perdões e superações

«Não me venham com coisas. As pessoas não perdoam ou superam traições. Simplesmente aprendem a não questionar o passado, não analisar o presente e não planear o futuro.»

Até ao momento em que somos confrontados com uma traição, seja ela de que cariz for, achamos sempre que somos capazes de ultrapassar a coisa e gerir o futuro como se nada se houvesse passado, em nome do sentimento traído (seja ele o Amor, a Amizade, o Companheirismo, etc.).

Depois do confronto com a traição, há os que percebem imediatamente que a superação é impossível e que nada será como dantes, porque algo foi permanentemente alterado e não pode ser refeito e partem imediatamente para outra, arrumando o livro na prateleira e riscando as pessoas do mapa; e há os que querem tanto perdoar e superar o sucedido que fazem das tripas coração para o conseguir. Esses são os que tentam, desalmadamente, fazer tudo o que está ao seu alcance e até o que não está, para agarrarem o que restou do sentimento e dar-lhe uma dimensão idêntica à que tinha antes da traição. Nesse processo, desgastam-se tremendamente, porque é como se estivessem a tentar transformar cascalho em ouro sabendo, de antemão, que não possuem a pedra filosofal. Estuporam-se primeiro psicológica, depois fisicamente, até que chegam ao estádio em que não dormem, não comem, não riem e não conseguem trabalhar porque a desolação da revelação da impossibilidade da recuperação do cenário anterior à traição se torna uma evidência tão grande e uma realidade tão indesmentível, que só resta escorregar parede abaixo, enterrar a cabeça entre os joelhos e aceitar que é impossível, que não há volta a dar-lhe, que há algo que se perdeu, que se estragou, que é irrecuperável e que, para complicar a coisa, às vezes nem se sabe bem o que é, embora quase sempre lhe possamos chamar «confiança». Depois, é fazer o que tiver de ser feito, que é como quem diz arejar a cabeça, limpar o dia-a-dia do que está a mais, arrumar as tralhas na maleta e começar a trilhar novo rumo.

Ora, são experiências destas que nos dão a lucidez para reflectir, concluir e escrever observações como a que a Ana do «Caroço de Tangerina» escreveu.

Até há uns meses, eu fazia parte do grupo dos que acham que são capazes de ultrapassar a traição e gerir o futuro como se nada se houvesse passado, em nome do sentimento traído. Já hoje, faço parte do outro grupo e tenho o discurso totalmente oposto. É que até há uns meses, eu sabia que a traição existia como possibilidade nos relacionamentos humanos (já que também fui menina das minhas diabruras, embora apenas um par, uma delas absolutamente inconsequente e ambas perfeitamente justificáveis pela imaturidade física e, principalmente, emocional), mas nunca tinha estado na posição daquele que tem de enfrentar e lidar com a traição. Logo, tinha apenas uma pálida ideia da dificuldade que seria gerir a situação e, por isso, acreditava piamente que uma traição era passível de ser perdoada, superada e esquecida, embora admitisse que havia traições e traições e que nem tudo era igualmente resolúvel ou aceitável (depende de quem trai, com quem trai, como trai, durante quanto tempo trai e em circustâncias trai). No fundo, porque nunca tinha estado no papel daquele que é confrontado com a traição, fazia uma errónea leitura do que é que as pessoas conseguem fazer perante e depois dela porque tenho sempre a mania de achar que, à primeira vista, é tudo muito mais fácil do que na verdade é.

Hoje, eu concordo com a Ana, sem tirar nem pôr. Porém, nisto, como em tudo o resto, é possível que a doutrina divirja e, assim sendo, entendimentos diversos aceitam-se e respeitam-se, até porque cada um faz as coisas como sabe e como pode e nem todos sabemos e podemos o mesmo. Felizmente para a Humanidade, nestas coisas de lidar com a traição há de tudo, como na farmácia. O que não convém que haja é meias-tintas, que é para a coisa, volta e meia, não aflorar ao pensamento e abalar as estruturas do que se foi reerguendo a tanto custo. Ora, é essa separação das águas, essa total reabilitação do outro, essa reposição da fé e da confiança naquele que nos atraiçoou, tarefa de tal modo hercúlea e penosa, que a maior parte de nós, quando tem uma lâmina de considerável tamanho cravada nas costas, não consegue fazer. Acho que se percebe perfeitamente porquê: porque um lanho destes dói para caraças e consta que não há analgésico, antidepressivo ou ansiolítico que diminua a dor por aí além, isto é, ajuda, mas não resolve. O que dava jeito, mesmo, era que alguém inventasse o «spray do esquecimento», porque o Homem, esse, já não tem solução: imperfeito foi criado, e assim permanecerá, traindo até ao último dos seus suspiros, crente, certamente, no ditado que diz que «entre mortos e feridos, alguém há-de escapar».

© [m.m. botelho]

instantâneos [24]

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