6.4.11

negociação vs. imaginação

«O amor move-se na área da obrigatória negociação, por isso é que é exigente. Já a paixão move-se na área da deliciosa imaginação, por isso é que as calças de cabedal, que você não suporta em ninguém, a ele lhe ficam a matar.»
Júlio Machado Vaz, «O amor é», 05.04.2011 [citado de memória]

5.4.11

odette e odile

Ontem à noite vi, finalmente, o filme «Black Swan». Depois de também ter visto «The King's Speech», não percebo como é que foi este e não o filme de Darren Aronofsky a ganhar o Oscar de melhor filme, mas, enfim, a Academia lá terá tido as suas razões.

Em «The King's Speech» os diálogos são muito intensos. Em «Black Swan» passa-se justamente o contrário. As palavras são escassas, as sequências de diálogos são curtas. O filme vive muito das imagens, da música, da leitura que o próprio espectador tem de fazer daquilo que vai vendo e ouvindo, como se as palavras, não estando lá, tivessem de ser lá postas por nós.

A personagem Beth, interpretada por Winona Ryder, é muito mais importante e desestabilizadora do que à primeira vista parece. Ela encarna tudo aquilo que Nina, a personagem de Natalie Portman, deseja e repele, em simultâneo. Ela é, na vida real, Odette (o Cisne Branco) e Odile (o Cisne Negro), a conjugação dos dois lados que Nina só consegue soltar no palco e que no dia-a-dia se recusa a encarar.

Uma vez mais, trata-se do confronto de cada um de nós com dois dos muitos lados que todos temos. Se em «The King's Speech» somos alertados para a necessidade de desenvolver a capacidade de resiliência, em «Black Swan» somos confrontados com a importância do reconhecimento da existência do nosso lado menos bom (o nosso Cisne Negro) a par do nosso lado bom (o nosso Cisne Branco).

O filme termina com a personagem Nina dizendo a frase «I was perfect». Talvez ela tenha razão quando o afirma: só quando aceitamos a existência dos dois cisnes dentro de nós é que atingimos o estado de equilíbrio. Talvez esse equilíbrio seja, no fundo, a perfeição que todos buscamos.

© [m.m. botelho]

4.4.11

instantâneos [27]

visto aqui

«note to self»

Bem vistas as coisas, todos os posts deste blogue poderiam, como o post anterior, ser antecedidos pela expressão «note to self», porque todos eles são escritos por mim, sobre mim e para mim.

A maior parte dos blogues de cariz pessoal, como este, são compostos por exercícios de reflexão do próprio (outros há que têm outros propósitos, mas sobre isso não me pronuncio, até porque não devo). Porque é que é alguns de nós não o fazemos simplesmente para a gaveta e o fazemos num blogue? Não sei responder pelos outros, mas eu faço-o porque a sensação de enviar para o éter da internet algumas das minhas reflexões me ajuda no processo de libertação de algumas coisas que me "atormentam", como se escrever em vez de simplesmente pensar e escrever aqui e não num mero papel levasse as coisas para longe de mim, para fora do meu alcance, para uma dimensão virtual fora do meu controlo. Como se tudo o que aqui é escrito continuasse meu, mas já não sob o meu controle.

Há quem diga que isto de ter um blogue tem o seu quê de narcísico. Até pode ser que tenha. Eu não escrevo para os outros nem para ser lida pelos outros, mas seja narcísico ou não, ajuda-me. É por isso que eu, que durante tanto tempo achei este blogue uma tontaria pegada, gosto, cada dia que passa, um pouco mais dele.

© [m.m. botelho]

não tenhas pressa, só não desistas

«Forget your personal tragedy. We are all bitched from the start and you especially have to be hurt like hell before you can write seriously. But when you get the damned hurt use it — don't cheat with it. Be as faithful to it as a scientist — but don't think anything is of any importance because it happens to you or anyone belonging to you
Ernest Hemingway [1899-1961], numa carta dirigida a F. Scott Fitzgerald [1896-1940]
[negritos meus] [fonte: visto aqui]

[Note to self: Não tenhas pressa. Praticamente ninguém faz nada de jeito antes dos 30, porque até lá andamos quase todos a brincar aos crescidos sem o sermos. Não tenhas pressa. O que queres fazer haverá de te sair de dentro com a força de um tsunami e haverá de corresponder ao que desejas, não menos do que isso. Deixa que a vida te dê a experiência e a sabedoria indispensáveis, a matéria-prima, o princípio e o fim. Não tenhas pressa, só não desistas. Nunca desistas do que queres para ti e nunca deixes de acreditar que haverás de o alcançar. E repete isto todos os dias. Todos os dias da tua vida.]

ironias do des(a)tino

É frequente ouvir algumas pessoas tecerem juízos de valor sobre comportamentos alheios. Os assuntos podem até nem lhes dizer respeito, mas, ainda assim, acham que, do alto da sua sabedoria de vão-de-escada, lhes assiste o direito de aprovar ou reprovar o que os outros fazem e de os aconselhar assim ou assado. Os mais ousados, cuja sabedoria continua a ser de vão-de-escada mas usa uns fatinhos mais aprumados e põe água de colónia ao fim-de-semana, atrevem-se mesmo a fazer iluminadas interpretações sobre os motivos que levam as pessoas a fazer o que fazem ou a não fazer o que não fazem. Geralmente, concluem que os outros são sempre uns grandes palermas e que eles é que estão certos, que os outros andam sempre a fugir dos desafios da vida em vez de os enfrentarem, que os outros optam sempre pela solução menos trabalhosa em vez de arriscarem. São tão tolos, tão tolos, que até ousam saber o melhor para a vida dos outros e dar-lhes conselhos e, nos casos mais graves de tolice, até fazer comparações sobre o que desconhecem. E fazem-no porque acham que sabem tudo sobre tudo. Fazem-no porque acham que, se as coisas fossem consigo, teriam tudo sob controlo e saberiam sempre como agir e o que dizer, o que é o certo e o errado, onde é que a espada da Justiça tem de cortar para cortar bem. A verdade é que, as mais das vezes, os que tanto analisam a vida alheia e tão lampeiros são a julgar e condenar os outros, nem o que vai na sua cabecinha são capazes de entender. Andam tão ocupados a tentar perceber os outros que se esquecem de se perceber a si mesmos.

Curiosamente, é também frequente ver que as mesmas pessoas que criticaram os comportamentos alheios, acabam, mais tarde ou mais cedo, por adoptá-los, ainda que com contornos diferentes, que cada vida é uma história. E, ao fazerem-no, estão a sentar-se não no banco dos réus onde os outros que eles julgaram serão agora os seus juízes (os outros, se forem inteligentes, estão-se nas tintas para o julgamento), mas antes nos bancos da escola que é a vida, onde aprenderão preciosas lições. Uma chatice, pois, mas as lições de vida são absolutamente indispensáveis para mostrar aos que se acham muito inteligentes, perspicazes, seguros e bons ajuizadores que eles, tal como todos os outros seres humanos, afinal também fazem grandes disparates e se enganam e, às vezes, de que maneira! E quanto a isto não há volta a dar-lhe: a força da gravidade é um facto e quem cospe para o ar tem necessariamente de levar com a saliva de volta, em cheio, na testa, como o desgraçado Newton levou com a maçã enquanto pensava sabe-se lá em quê.

Se é verdade que, como dizia Oscar Wilde, «a vida imita a arte», também é verdade que às vezes as vidas imitam outras vidas. Quando estamos a fazer aquele exercício de nos pormos nos sapatos dos outros, aquele exercício que todos achamos que fazemos e fazemos bem (e que quase ninguém é capaz sequer de fazer, quanto mais de fazer bem), apontamos o dedinho ao parceiro, juramo-nos incapazes de fazer e dizer certas coisas, usamos palavras definitivas e implacáveis como «imperdoável» ou «nunca mais» e até levamos a mãozinha à boca quando pensamos no que os outros fizeram. «Eu, jamais!», dizemos, «Eu, nunca!». A grande maçada é que, às vezes, a vida prega-nos partidas, porque ainda o demo não esfregou um olho e já nós damos por nós a fazer a mesmíssima coisa que avidamente criticámos nos outros. Lá está: a vida imita a arte, mas a vida também imita a vida.

Nesses momentos, em que revelamos ao mundo que o que andamos a fazer é o mesmo que há pouco criticávamos nos outros, transformamo-nos em algo muito divertido de se ver de fora: desnorteados, tontinhos, incoerentes, à deriva, inconsistentes, dizendo uma coisa na segunda-feira e o seu contrário na quinta, quebrando todas as promessas e todos os «jamais», fazendo o que jurámos nunca fazer e proclamando as grandes intenções para o futuro, adiantando resoluções sobre tudo e sobre nada. Resoluções essas que, como o tempo se encarrega de demonstrar, são sol de pouca dura: não passa um mês (podia dizer uma semana, mas apetece-me ser generosa no espaço de tempo a referir) e já a banda toca outro pasodoble.

É por isso que o povo diz e com razão que «quem muito fala, pouco acerta» e que a minha Avó materna me repete, há décadas, que «só se sabe o que se diz e só se lê o que está escrito». Para viver sabiamente o melhor, mesmo, é, para não correr o risco de não se saber o que se está a dizer, estar caladinho. Porque tudo o que dissermos, desde as críticas aos conselhos, passando pelas juras, as promessas, os «jamais» e os cantares de galo e a esperteza saloia, haverão de transformar-se em enormes gotas quando a saliva que cuspimos para o ar iniciar o seu movimento descendente e ela inicia-o sempre. Então, haveremos de dar por nós, testa a escorrer de cuspo, a olhar para os pés cravados de balas que nós mesmos disparámos, comprometidos com o que dissemos quando, na realidade, não sabíamos o que estávamos a dizer. E a sentença que aplicámos ao outro, teremos coragem de a aplicar a nós? Era lindo, era, mas a maior parte de nós não tem porque, já se sabe, «ninguém é bom juiz em causa própria».

É claro que podemos sempre mudar de ideias e dizer o contrário do anteriormente dito a cada dia que passa, porque nós podemos tudo, sempre. Todavia, se as ideias não tiverem sido ditas, só nós é que daremos conta das nossas contradições, não os outros e, portanto, as nossas incoerências ficarão sempre só nossas. Existem, o que não é nada bom, mas pelo menos não são visíveis, não estão expostas, não serão motivo da troça de ninguém.

Não foi à toa que os romanos, creio, criaram três máximas que se encadeiam umas nas outras: 1. se pensares, não digas; 2. se disseres, não escrevas; 3. se escreveres, não assines. Foi precisamente para nos alertar que, porque a vida dá muitas voltas, nos devemos poupar à exibição das nossas incoerências e das nossas vacilações, porque todos as temos, mas só uns é que são totós ao ponto de as confessar publicamente. No fundo, é fazer o velho exercício do «pensar primeiro e falar depois», que é como quem diz falar só se valer a pena, se for para manter o que foi dito, se for para manter a face, se se tiver a certeza de que a situação, ainda que só seja eterna enquanto durar (a devida vénia ao Vinicius), que pelo menos dure um tempinho considerável que lhe dê ao menos a aparência de séria.

A essas incoerências expostas, a essa lastimosa revelação ao mundo de que o tabuleiro de jogo virou e nós perdemos as fichas (e com que rapidez ele vira e nós as perdemos!), a essas testas cheias de saliva cuspida para o ar, a esses tiros no pé disparados pelo próprio achando que fazia grande coisa, a tudo isso há quem chame «ironias do destino». Eu, que mesmo depois de estar tudo inventado desde a Babilónia Antiga tenho esta minha mania de tentar ser autêntica, prefiro chamar-lhes «ironias do desatino». Para mim, é só mesmo isso que são.

© [m.m. botelho]

2.4.11

a benesse da justificação

Concordo em absoluto com o que é dito no «instantâneo» do post que antecede este. É por isso que eu ainda vou concedendo a benesse da justificação às pessoas que dão os chamados "pontapés na vida", mas são novas, inexperientes e imaturas e, portanto, embora pensem que sim, não sabem bem o que estão a fazer (já todos andámos lá, não há quem possa atirar a primeira pedra). Todavia, já não consigo concedê-la a quem já viveu umas quantas experiências e tem idade e maturidade para saber distinguir o que é verdadeiramente importante e irrepetível do que é um disparate, um capricho ou um devaneio. Por isso, se no primeiro caso ainda atribuo a burrice ao cheiro a leite, no segundo só posso atribuí-la à estupidez.

À medida que vamos ficando mais velhos e vamos adoptando um discurso paternalista em relação aos outros, principalmente se mais jovens do que nós, convém que ajamos em coerência com esse tom de quem sabe muito porque já viveu muito. Caso contrário, os mais novos podem até ouvir, mas dificilmente levarão a sério o que lhes é dito. E aquilo que se leva uma vida inteira a conquistar, perde-se num segundo: a admiração. E depois da admiração perdida, resta muito pouco. Resta o respeito, se o outro (o jovem que ainda não viveu nada e devia sorver cada palavra do que lhe é dito por quem tem a autoridade dos anos, de preferência fazendo vénias a cada frase proferida) for de boa cêpa, senão, nem isso. Perde-se tudo e é uma maçada.

Eu tenho sérias dúvidas se alguma vez se recupera seja o que for, mas isso sou eu, 31 anos, meia vida ainda não vivida, quiçá algum cheiro a leite ainda a aflorar dos colarinhos. Daqui a uns anos, talvez volte aqui com outra perspectiva, outras conclusões, outras certezas. Dando a vida as voltas que dá, qui sapit?

© [m.m. botelho]

instantâneos [26]

visto aqui

1.4.11

fazer 31 anos é magnífico

Se calhar, só eu e Deus sabemos o quanto eu quis livrar-me de 2010. Recordo-me bem da passagem de ano de 2009-2010 e foi muito, muito boa. Estava muito feliz, foi uma grande noite na companhia de pessoas que eu amava muito e por quem era amada. Os primeiros telefonemas, foram para outros da mesma condição com quem, infelizmente, não pude estar ao vivo. Bati com tachos e panelas na varanda, atordoando o Porto. Dei abraços e beijos. Lavei a loiça do jantar e depois saímos para dançar. Lembro-me da animação do sítio, das palavras sussurradas ao ouvido, do isqueiro preto no bolso a acender os cigarros de toda a gente.

Também me recordo bem do dia em que fiz 30 anos. A manhã foi passada em Lisboa, a tarde em Sintra. Lembro-me do que vesti nesse dia: jeans, camisa azul escura, camisola de algodão vermelha, casaco e botas verde-tropa. Fartei-me de passear por Sintra. Andei imenso, subi ladeiras, desci a pé uma estrada pejada de automóveis que contornei com a testa a transpirar, mas com a satisfação de ter calcorreado aquilo tudo a pé. Parei na Piriquita e, depois de esperar numa fila considerável, comprei travesseiros, queijadas e uma garrafa de água lisa. Depois, fui de carro para o Parque da Pena. Comi um travesseiro ainda no carro, estacionado no parque, entre os carvalhos. As portas abertas, o calor de um dia de Primavera, um braço esticado para fora do carro e, na ponta, um cigarro. Bebi água lisa. Lembro-me muito bem da primeira frase que disse quando entrei no Parque da Pena: disse o mesmo que dizia sempre que entrava num sítio onde ainda não tinha estado. Lembro-me dos minutos de descanso junto ao bar do Palácio da Pena e do telefonema para reservar a mesa no Restô, «uma das que ficam voltadas para a janela, por favor». Lembro-me do menu: mousse de queijos, cogumelos Portobello gratinados, veado à Vila Viçosa, picanha com chocolate, uma garrafa de água lisa e natural, uma garrafa de EA tinto de 2008, tarte de framboesa para a sobremesa, dois cafés e um par de cigarros no terraço que dá para o bar. Lembro-me de tudo muito bem. Feliz ou infelizmente - confesso que já não sei - tenho uma memória do caraças.

Mas a verdade é que eu queria muito livrar-me dos 30. Gostei muito do dia em que fiz 30 anos, tanto, que ainda me lembro exactamente do que fiz e dos telefonemas que recebi, dos mimos que me deram, mas não gostei do facto de fazer 30 anos. Não sei porquê, não me interessa. Agora não quero pensar nisso. Não sei se alguma vez quererei.

Hoje, estou finalmente em 2011 e finalmente nos 31! Sinto um misto de alívio, leveza, felicidade, alegria e emoção. Fazer 31 anos é, neste momento, para mim, simplesmente maravilhoso! É grandioso! É libertador! Sinto-me feliz, caramba! Sinto-me bem! Sinto que é um novo ciclo que começa. Um ciclo que se iniciou no dia 1 de Janeiro, mas que arranca definitivamente no dia 1 de Abril. Um ciclo que se iniciou com a chegada de 2011, mas que arranca definitivamente com os meus 31 anos.

Os 30 foram, na globalidade, bastante maus, tal como 2010 foi um ano, na generalidade, também mau. Sim, foi quase tudo péssimo, mas eu não quero mais pensar nem em 2010 nem nos 30. Quero olhar para tudo o que me aconteceu enquanto os dois (ano e aniversário) se sobrepuseram como se tivesse acontecido numa outra encarnação. Quero começar de novo e, para isso, nada melhor do que um aniversário. Hoje não irei a Lisboa, nem a Sintra, nem jantarei no Restô numa mesa voltada para a janela, mas serei igualmente feliz. Vou voltar a vestir jeans, mas tudo o resto será diferente. Não será melhor, nem pior, será só diferente. De uma diferença pacífica, de uma diferença desejada. De uma diferença que me faz sentir que hoje é um novo começo. Não sei dizer isto de outra forma: fazer 31 anos é magnífico. E eu precisava tanto disto, meu Deus, como, provavelmente, só eu e Tu sabemos.

© [m.m. botelho]

trinta e um

[m.m. botelho]

Finalmente: trinta e um.

[E que melhor presente do que um texto escrito com o coração pela minha Mana, que quis o acaso nascesse no mesmo dia que eu (ou eu no mesmo dia que ela, que quando eu nasci, ela já cá andava)? Sou uma mulher de muita sorte por ter alguém como a minha Mana na minha vida. Não, isto é sorte: é fortuna, nas duas acepções do termo. É fortuna e é imensa.]

© [m.m. botelho]

eu

[m.m. botelho] || Marta Madalena Botelho
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» O direito de autor protege as criações intelectuais do domínio literário, científico e artístico, por qualquer modo exteriorizadas.
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