19.4.11

carne

«Se tens um coração de ferro, bom proveito.
O meu, fizeram-no de carne,
e sangra todo dia.»
José Saramago [1922-2010], «Os poemas possíveis» [1981]

18.4.11

fóculporto-sporting

Dada a minha complicada relação com tudo o que implique estar parada sem estímulo intelectual durante mais do que dez minutos, eu sabia que não conseguiria assistir a todo o jogo de ontem entre o Fóculporto e o Sporting. Assim sendo, não foi mau de todo ter chegado a tempo de ver apenas a segunda parte e, mesmo assim, com algum sofrimento. Não fosse a belíssima companhia, que sempre me recebe tão bem, e as bocas que íamos trocando e eu, que sou aquela sujeita que aguenta quatro ou cinco dias sem pregar olho, teria adormecido em frente ao televisor num fósforo.

Em suma, ontem relembrei que não devemos negar à partida o interesse de uma aventura à qual nunca nos propusemos. Afianço que é possível juntar numa mesma sala uma sportinguista doente, uma portista bastante convicta e uma sportinguista simpatizante (esta última, como é óbvio, sou eu) e nenhuma de nós sair de lá com o mínimo arranhão. Porque, tal como sucede com o verniz com que se pintam as unhas, não são as camisolas que se envergam que fazem das pessoas gente boa, mas sim o carácter que essas pessoas têm. E, sem falsa modéstia, estavam ali três pessoas em condições, que souberam respeitar-se apesar das suas diferenças e para quem a amizade fala muito mais alto do que qualquer outra coisa.

Consta que para a semana há outro jogo qualquer importante (tão importante que eu nem memorizei qual é) e eu já fui convidada para repetir a dose, embora ainda não tenha aceitado porque estou para ver os efeitos secundários que a noite de ontem terá na minha sanidade mental. Era só mesmo o que me faltava agora, ficar fã destas coisas da bola! Mas aposto que se levar um livro e me puser a ler, ninguém dá por nada. Afinal de contas, eu não percebo nada daquilo e o resto da malta está ali concentradíssima a analisar o jogo, por isso basta-me dizer de vez em quando que «É falta!» e os noventa minutos passam num instantinho. Bom, tudo dependerá dos efeitos secundários. Vamos lá, então, ver se isto não fica pior.

© [m.m. botelho]

17.4.11

nojo

Como diria o outro (ou a outra, já não sei) é oficial: estou naquela fase que a minha querida Isabel previu que haveria de chegar porque, no seu entender, ainda não havia aflorado com a intensidade que era suposto, tendo em conta os contornos do que me tinha acontecido. Disse-me ela variadas vezes que eu ainda não me tinha zangado o suficiente, que eu ainda não me tinha zangado «a sério» com as pessoas e as situações que me fizeram muito mal.

É engraçado que isto suceda logo agora, quando eu me sinto lindamente com a vida, muito satisfeita comigo e muito bem com os meus amigos e família e todos os que gostam de mim. É engraçado que estando eu tão bem, seja precisamente agora que, em relação aos protagonistas do episódio lamentável em que me vi envolvida há uns tempos, eu esteja a desenvolver uma espécie de aversão. É muito mais do que irritação, é aversão. Diria nojo, mesmo. Daí a vontade e a necessidade da distância, de não ouvir sequer os nomes das pessoas em causa, de não querer saber nada de nada que diga respeito a essa gente.

É curioso que eu tenha demorado tanto tempo a chegar aqui, mas isto levou-me a concluir que sou lenta no processamento das emoções negativas e, simultaneamente, impaciente na concretização das emoções positivas. Quero logo resolver o mal para que tudo fique bem e fico tempos infinitos agarrada à utopia de que tudo se vai compor, sem sequer me aperceber de que não há composição possível. Por isso é que demoro imenso tempo - muito mais do que seria desejável - a zangar-me. Acho sempre que é desnecessário. Mas não é. Zangar-me a valer com quem se portou muito mal comigo é absolutamente essencial para resolver e ultrapassar as coisas, porque não há perdões nem superações no que toca a traições [que também foi outra coisa que eu demorei a perceber, irra!].

Se me fosse dado escolher um dia da minha vida para alterar, sei exactamente qual escolheria. Não escolheria aquele em que fui traída, escolheria o dia em que conheci cada um dos traidores. Apagá-los-ia do meu percurso, não quereria sequer conhecê-los. Se pudesse, escolhia que a minha vida nunca se tivesse cruzado com essas vidas. Isto é mais do que aversão, não é? É, pois. Isto é nojo, do mais puro e do mais profundo. Não há dúvidas, portanto, de que estou a entrar na fase que a minha querida Isabel anteviu e disse estar a demorar demasiado. Finalmente!

Obviamente, eu podia ser muito pudica e não o confessar, porque silenciando o que sinto evitava que as pessoas soubessem o que me vai no peito, mas enfim, nunca fui dissimulada e a estas horas já não é novidade para ninguém que eu não gosto das pessoas em causa porque já o disse directamente a quem de direito. Por outro lado, mantendo o silêncio sobre a coisa também evitava ferir as susceptibilidades das ditas pessoas, que até podem vir a ler isto que está na internet à vista de toda a gente, mas que se lixe, que leiam se cá vierem parar, azar o seu, porque eu, a esta altura do campeonato, já me estou nas tintas para as suas susceptibilidades, tal como as referidas criaturas se estiveram nas tintas para as minhas quando decidiram fazer o que fizeram, magoando-me como me magoaram e por aqui me fico. Vai daí, em vez de pudica, prefiro ser honesta e franca e escrevê-lo com as letras todas, leia isto quem vier a ler, porque neste momento me apetece dizê-lo, sem estar a pensar em quem vai ler ou no que quem vai ler vai pensar: tenho nojo daquela gente, repulsa pura e dura, uma repugnância imensa.

Na altura não percebi, mas no dia em que me traíram, saiu-me a sorte grande: começou a sua saída da minha vida, a purga do meu espaço, a limpeza dos meus dias. Já considerei aquele o pior dia da minha vida, mas hoje considero-o um dos melhores. Sem dúvida, um dos melhores. Só lamento que a revelação da podridão que me rodeava não tivesse ocorrido mais cedo mas, felizmente, a verdade é como o azeite e, por isso, vem sempre acima. E, um dia, eu haveria de a ver, caramba. Bem me dizia a minha querida Isabel que um dia eu haveria de a ver.

© [m.m. botelho]

instantâneos [30]

© Erin Hanson
visto aqui

[Nota: «I will remember you» e não «I will miss you». É que, parecendo que não, é completamente diferente.]

© [m.m. botelho]

16.4.11

memórias e saudades

Uma das minhas mais marcantes características é conseguir pôr as pessoas que estão em contacto comigo bem-dispostas. Não sou o «bobo da corte», mas consigo criar momentos de descontracção e risota a partir de simples observações, que não precisam de ser apimentadas nem maldosas, nem de escarnecer de nada nem de ninguém. Geralmente, são observações nonsense, que são as que eu mais gosto. Creio que herdei esta característica do meu Avô materno, ao pé de quem ninguém chorava ou ficava triste. [Obrigada, Avô.]

Talvez seja por isso que é tão fácil que as pessoas me apreciem. Não preciso de recorrer à beleza, nem à inteligência, nem ao saldo da conta bancária para que as pessoas, mal entram em contacto comigo, gostem de me ouvir e de partilhar comigo as suas histórias. Sou capaz de quebrar o mais rígido dos gelos, desenhando sorrisos nos rostos das pessoas mesmo quando o assunto é um funeral. Não sei porque sou assim, nem sei explicar como o faço. É-me inato, é uma característica minha como tantas outras [boas e más].

Há dias disseram-me que eu era uma daquelas pessoas de quem os outros podem não sentir saudades, mas de quem nunca se esquecem. Disseram-me que a propósito de palavras, situações ou lugares, volta e meia eu haveria de lhes surgir na memória, elas haveriam de se lembrar do quanto eu as fiz rir ou de uma observação qualquer que eu tenha feito. Ouvi atentamente e acabei por dar razão à minha interlocutora. O mesmo sucede comigo quando conheço pessoas assim, como eu. É por isso que haverá sempre expressões, lugares e situações que eu associarei a determinadas pessoas, o que me fará lembrar que elas existem algures à face desta Terra, sem que isso signifique que tenho saudades delas. Prefiro que seja assim: memórias sem saudades e sem nostalgia. As memórias reservo-as para os bons momentos, por isso são sempre boas. A saudade é outra coisa, é uma falta, é a angústia proveniente da necessidade de uma partilha naquele exacto momento e a constatação da sua impossibilidade.

Uma noite, numa despedida, disse a alguém que haveria de ter saudades suas durante muito tempo, mas que haveria de passar. Não fazia ideia de que, naquele momento, estava a proferir uma das frases que incluo no grupo das «frases da minha vida». É verdade, temos saudades das pessoas durante muito tempo, mas depois passa. As memórias, que eu reservo para o bom, ficam e, não havendo saudades, não me custa regressar a elas.

Demora-se uma data de tempo a chegar aqui, mas chega-se. É por isso que, depois das saudades passadas, nos é indiferente saber por onde essas pessoas andam, o que fazem, com quem estão, se pensam muito, pouco ou mesmo nada em nós. O que passa a interessar-nos e o que mantemos vivos são as memórias das coisas boas e, mesmo essas, só nos importam quanto nos afloram a propósito de algo que as vai despertar. O resto é ruído e, um dia, o ruído passa a silêncio. Deve ser nessa altura que as saudades que se tinha passam. E o sentimento que se instala é bom, é tranquilo. Rasga-nos um sorriso e liberta-nos para coisas novas, que esperamos melhores. Ter saudades é uma grande chatice. Ter memórias faz de nós gente com história, dá-nos património e, acima de tudo, faz-nos crescer, ainda que não envelheçamos.

[Growing up it's a long hard way, but it's definitely worth it.]

© [m.m. botelho]

instantâneos [29]

visto aqui

15.4.11

equilibrar a balança

Já cheguei àquele estádio da existência em que não faço as coisas 1. pelo efeito que elas têm nos outros; 2. porque os outros me digam que as faça; 3. porque são o que a mim me parece ser o melhor para os outros. A este último ponto não cheguei há muito. Mesmo sem ter muita consciência disso, padecia de uma maleita que poderíamos designar por «de vez em quando, tenho a mania de que sou Deus» e, por isso, às vezes incorria na veleidade de achar que sabia o que era melhor para os outros, principalmente quando os outros me eram muito importantes. Poderia ter resolvido a coisa comprando um cão e fazendo dele a minha cobaia para extravasar esta maleita [«Rufus, senta. Rufus, deita. Rufus, rebola. Rufus, vamos às vacinas que tu precisas de ser vacinado.»], mas não, resolvi-a mesmo tirando a coisa do meu corpinho e da minha cabeça, com muito sangue, suor e lágrimas - e sem almoços grátis.

Não me aborreço, por isso, quando as pessoas que me querem bem continuam a alertar-me para a necessidade de agir por mim e pelo que a mim me faz sentido. Já não é [tão] necessário que o façam, mas nunca é demais ouvi-lo, por isso, mais do que não me aborrecer, até agradeço. Porém, não me façam repetir muitas vezes que quando eu agora faço alguma coisa já não o faço pelos motivos que, às vezes, dantes fazia. É que eu não tenho nada que provar a ninguém, por isso, se digo o que digo é porque é verdade.

Há uma diferença entre «reacção» e «acção». Assim, ainda que possa parecer que eu estou a actuar por «reacção», pode ser que não seja bem assim. Às vezes, estou só mesmo a «agir». A confusão é possível, visto que as acções não são isoladas e vêm no seguimento de acontecimentos, mas há, repito, uma diferença entre «acção» e «reacção» e embora a fronteira seja ténue, há que a ver, porque ela existe.

Nunca fui muito de dizer ou fazer as coisas de ânimo leve e quem me conhece sabe disso. Só que lá chega o dia em que e a consciência de que não há mais nada a fazer senão limpar, cortar, arrancar. A partir do momento em que eu decido fazer isso, já nada me magoa, porque eu não deixo. Se alguém tentar magoar-me, eu devolvo. Não dou mais, nem dou menos, não acrescento uma vírgula, não faço nenhum esclarecimento. Devolvo exactamente como me enviaram. Podem, por isso, tentar atingir-me ou magoar-me, que já não conseguem. Levam troco, o mesmíssimo que me deram, porque da linha que eu tracei com a minha própria mão não passam.

Não estou a ficar uma sacana, muito pelo contrário. Estou só a deixar de dar espaço e importância ao que a não tem na minha vida. Estou, no fundo, a equilibrar uma balança que andou desalinhada demasiado tempo.

Costumava dizer, face à minha incapacidade de disfarçar quando algo me incomodava, que não era nenhum oráculo ou livro secreto, que o que se via era o que eu era. Agora posso acrescentar mais isto: «o que me deres será o que terás». A balança está, finalmente, a ficar equilibrada e nada nem ninguém vai descalibrá-la, porque eu não deixo. Palavra de honra, não deixo mesmo. Já foi tempo e foi demais.

© [m.m. botelho]

14.4.11

abril

Sempre gostei do mês de Abril. É o mês do meu aniversário, é o mês em que a Primavera mais se sente, o mês em que a percepção de que os dias estão mais longos é maior e em que as noites estão mais quentes, é o mês em que se comemora a Liberdade.

Estou a gostar tanto deste Abril! Começou leve, solto, simples, mas a mexer a toda a velocidade. Começou como eu gosto, começou um pouco como eu sou. E eu faço questão de aproveitar cada segundo que ele durar, tal como a vida, que é demasiado preciosa para ser desperdiçada com o que não vale a pena.

Perceber isto não é uma questão de genialidade, porque se há coisa que qualquer tonto sabe é isto: a vida é demasiado preciosa para ser desperdiçada seja de que maneira for. Isto é uma questão de bom-senso e clarividência e são estas duas características que, às vezes, nos escasseiam a todos, enquanto andamos um bocadinho às turras com o mundo. Não vale a pena, é um facto. Alguns, como eu, percebem isso [mais cedo ou mais tarde]. Outros, não e ficam para sempre agarrados ao que não tem significado nem importância, fazendo disso o centro da sua existência. Felizmente, eu tenho Abril. Felizmente, eu sou de Abril.

© [m.m. botelho]

em lume brando

Os 31 começaram atolados em coisas para fazer. Bastante trabalho, muita necessária reorganização no escritório e em casa, um monte de tralhas para arquivar, outras tantas para deitar fora. E não foram só tralhas no sentido literal do termo, mas adiante. A iniciativa a regressar e eu a senti-la, finalmente. O estado de espírito é excelente. A vida a entrar nos eixos. A respiração mais pausada e muito, muito menos ruído à minha volta.

Compreende-se, por isso, que o tempo para a escrita aqui no blogue tenha diminuído um pouco, mas isso não significa, nem um pouco, que tenha deixado de ter vontade, assunto ou motivo para o fazer. Isto está em lume brando, mas vai cozinhando e eu, que sempre fui uma atadinha de primeira no que aos tachos e panelas respeita, estou a revelar-me uma verdadeira chef.

© [m.m. botelho]

7.4.11

instantâneos [28]

do filme «Alice in Wonderland [2010], de Tim Burton
visto aqui

eu

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