30.4.11

«uma riqueza» e «muitas alegrias»

Sete e meia da manhã, dia de semana. Entro numa pastelaria na companhia de uma Amiga para experimentar uns famosos croissants da terra. Numa mesa, dois rapazes, provavelmente na década dos 20, visivelmente ainda sob o efeito do álcool ingerido madrugada fora.

Dirijo-me de imediato ao WC para lavar as mãos. Enquanto isso, ouço os dois sujeitos a tentar entabular conversa com a minha Amiga que, muito bem disposta, remata o assunto dizendo logo que nós não somos dali, que somos do Algarve. Um deles, aproveita logo para dizer à minha Amiga que a avó dele sempre lhe disse que ele era «uma riqueza». «Uma riqueza», repetia ela às gargalhadas quando me contou isto que eu já não ouvi.

Eu regresso à mesa. A minha Amiga levanta-se e é a vez dela de ir ao WC. Os dois totós desatam, então, a falar daquilo que conheciam sobre o Algarve, enquanto eu vou acenando pacientemente com a cabeça como se estivesse a sorver cada uma das suas palavras, fazendo apelo ao meu «lado Madre Teresa de Calcutá». É então que um dos sujeitos se levanta, vem ao pé de mim e pergunta se somos de Portimão. A minha Amiga, entretanto regressada, responde: «Qual Portimão! Somos de Faro!» e eu, completamente a leste do que ela lhes havia dito mais sobre nós enquanto eu estivera ausente, limito-me a sorrir.

O sujeito diz que Faro é uma terra linda, onde se pode ver isto e aquilo e que já lá esteve algumas vezes a passar férias e mais não sei o quê. A minha Amiga entra na brincadeira e fala-lhe da Ilha. Ele diz logo que já lá esteve. Eu continuo a sorrir, pensando já só nos elogiados croissants que em breve nos serão servidos.

Eis senão quando o tipo que está em pé me pergunta o meu nome. Eu, que não tenho queda para a mentira nem estou habituada a ter de lidar com estes marmelos logo de manhã, respondo «Marta». O outro fulano, sentado na outra mesa, pergunta «Marta quê?». Surpreendida pela questão, esbugalho os olhos e ele acrescenta «Sim, Marta é o primeiro, mas o último, como é o teu último nome?». Eu, feita parva, em vez de dizer «Silva» ou «Costa» ou outra coisa qualquer, digo mesmo «Botelho», enquanto a minha Amiga se ri e acha imensa graça à situação e me pergunta se eu não podia ter inventado um nome qualquer.

Entretanto, entra na pastelaria um amigo dos dois sujeitos e diz-lhes que paguem a conta para irem embora, que ele já ali está e tem o carro mal parado. O tipo que estava sentado pergunta-me se, por acaso, eu não quero dar-lhe o meu número de telemóvel. Eu sorrio e respondo «Claro que não». Ele pergunta se eu quero o dele e leva com a mesma explícita resposta.

É então que o tipo que estava em pé, junto à nossa mesa, se volta para mim e pede que olhe para ele, o que, meio-contrariada, lá faço. E sai-se com esta: «Marta Botelho, eu sou o Nuno [qualquer coisa que eu não percebi]. Fixa o meu nome, Marta Botelho. Sou o Nuno [outra vez o sobrenome que eu não percebi]. Fixa bem o meu nome, Marta Botelho, porque o meu nome ainda te vai dar muitas alegrias».

E foram-se embora. Eu e a minha Amiga ficámos atónitas com a situação [ela, obviamente, aproveitando-se da mesma para troçar de mim às gargalhadas e me lembrar que o rapaz era «uma riqueza», porque a avó dele lhe estava sempre a dizer que ele era «uma riqueza»]. Finalmente, lá vieram os afamados croissants e não houve mais conversa, só mesmo tempo para os devorar, deliciosos que são.

Nunca me tinha acontecido tal, mas bem diz o povo que «há sempre uma vez para tudo». A única coisa que me preocupa verdadeiramente, é que, pelos vistos, o tal «Nuno» ainda me vai dar muitas alegrias e eu nem sequer sei o sobrenome dele. Enfim, resta-me a esperança de que ele, que sabe o meu nome e o meu sobrenome, venha ao meu encontro para me mostrar que alegrias serão essas. Em todo o caso, sempre me fica uma hilariante história para contar aos netos: as coisas que podem acontecer-nos nas pastelarias daquela terra às sete e meia da manhã de um dia de semana.

© [m.m. botelho]

26.4.11

mudar o mundo

Aparece na cozinha, onde se preparava o jantar, de comando da TV na mão e dirige-se para a varanda. Abre a porta e sai. Aponta o comando para o céu e começa a carregar em vários botões. O pai, intrigado, pergunta-lhe: «Filho, o que estás a fazer?», ao que ele responde: «Estou a mudar o mundo, Papá.».

O F., dois anos e nove meses acabados de fazer, já consciente de que o mundo precisa de ser mudado. Claro que rebento de orgulho nestes feitos aparentemente pouco importantes do meu sobrinho-afilhado. Este orgulho não se explica, sente-se, ponto final. A única coisa de que tenho pena é que a mudança não seja tão fácil como ele imagina, porque de resto, ele, tão pequenino, é capaz de transmitir aos crescidos que o mundo necessita de mudança e que ele está empenhadíssimo em fazer a sua parte para que isso aconteça.

© [m.m. botelho]

23.4.11

instantâneos [31]

visto aqui

[E não é preciso acrescentar mais nada, porque nesta frase está dito muito do que renegamos, mas sabemos ser indelével e inteiramente verdade.]

© [m.m. botelho]

22.4.11

memoráveis

Quarta feira, 20 de Abril de 2011 e quinta-feira, 21 de Abril de 2011, foram dos dias mais memoráveis da minha vida. Obrigada a quem os partilhou comigo. Obrigada pelo privilégio.

© [m.m. botelho]

20.4.11

«tenho uma lágrima no canto do olho»

Ao longo dos anos, fui juntando um conjunto de canções a que chamo, muito intimamente, «a listinha». São canções que considero especialmente bem conseguidas e com a dose certa de sex appeal, cujas possibilidades de aplicação me escuso a explicar por me parecerem demasiado óbvias. Entre elas contam-se, para dar apenas alguns exemplos, «Need you tonight», dos INXS, «Sexy boy», dos Air, «Moments in love», dos Art of Noise, «Lullaby», dos The Cure, «I want your sex», do George Michael, «Queer», dos Garbage, «Ride a white horse», da Goldfrapp e «Where life begins», da Madonna.

Há uns tempos, descobri que uma pessoa que eu conheço anda a fazer uma listinha, mas de «músicas de dor de corno», de onde, obviamente, constam aquelas canções onde são relatadas histórias de envolvimentos terminados mas que, para quem canta, nunca terão fim, muitas lágrimas à mistura, de preferência até uns gritinhos de diva de vez em quando («yeah», «oh baby» e coisas do género) e umas pianadas parolas nas introduções, para dar seriedade à coisa (se não tiver um piano, não é verdadeiramente uma «canção de dor de corno»).

Eu, que sou grande adepta de listas (por cores e ordem de importância, com separadores, de todas as formas e feitios possíveis de imaginar), não acho mal, não senhora, mas não empregaria o meu precioso tempo nem a ouvir tais canções, nem a fazer tal lista. O tipo de listinha que eu prefiro fazer está exposto ali em cima. E daqui se conclui que a cada um dá-lhe para onde lhe dá e não vale a pena tecer grandes comentários sobre isso.

[O título do post é de uma canção do Bonga, essa sim sobre um motivo pelo qual vale a pena chorar, mas aviso desde já que lencinhos brancos para enxugar as lágrimas é na porta ao lado: nós estamos fechadas para férias da Páscoa desde segunda-feira passada.]

© [m.m. botelho]

19.4.11

cada um é como cada qual

Pelo que tenho visto por aí fora, o padrão da moda para este Verão é floreado. Flores pequeninas, de várias cores, sobre fundos escuros ou brancos. Em t-shirts, camisas, túnicas. Ora, eu sempre fui fã dos lisos. Os padrões que aprecio são muito poucos: tweed, escocês, riscas na vertical e na horizontal (estas últimas, mais para os cavalheiros) e mais um par deles que não me ocorre agora. Tenho uma infinidade de peças de roupa do mesmo modelo, mudando apenas a cor, mas todas elas lisas. Os padrões mais arrojados deixo-os para os acessórios: lenços, cachecóis, anéis. Raramente perco mais do que três minutos a pensar no que vou vestir e os lisos facilitam imenso a tarefa, porque apenas tenho de pensar nas cores.

Talvez possa dizer-se que sou uma clássica, para outros talvez eu não passe de uma básica. Whatever. O que visto, tal como o que digo e o que faço, sou eu que o decido e tendo em conta o melhor para mim, o que me é mais confortável. Não vou em modas, nem convenções, nem ditames, nem no mainstream, nem no que é suposto. Mas não sou uma desajustada, longe disso. Passo perfeitamente despercebida entre a multidão e convivo pacificamente com ela. Simplesmente, não sou parte dela. Nem no que visto, nem no que digo, nem no que faço e sou cada vez mais assim.

Assim, este Verão, quando os outros andarem de camisa às flores, eu andarei de t-shirt lisa. Conviveremos todos muito saudavelmente, porque embora saiba muito bem o que quero para mim, nunca me dei ao trabalho de o querer impor aos outros (sou um bocadinho egoísta nessa matéria: acho que não compensa a maçada e eu gosto de me poupar a chatices desnecessárias). Esforço-me por respeitar a regra de que cada um é como cada qual. Nos trapos e em tudo o resto.

© [m.m. botelho]

carne

«Se tens um coração de ferro, bom proveito.
O meu, fizeram-no de carne,
e sangra todo dia.»
José Saramago [1922-2010], «Os poemas possíveis» [1981]

18.4.11

fóculporto-sporting

Dada a minha complicada relação com tudo o que implique estar parada sem estímulo intelectual durante mais do que dez minutos, eu sabia que não conseguiria assistir a todo o jogo de ontem entre o Fóculporto e o Sporting. Assim sendo, não foi mau de todo ter chegado a tempo de ver apenas a segunda parte e, mesmo assim, com algum sofrimento. Não fosse a belíssima companhia, que sempre me recebe tão bem, e as bocas que íamos trocando e eu, que sou aquela sujeita que aguenta quatro ou cinco dias sem pregar olho, teria adormecido em frente ao televisor num fósforo.

Em suma, ontem relembrei que não devemos negar à partida o interesse de uma aventura à qual nunca nos propusemos. Afianço que é possível juntar numa mesma sala uma sportinguista doente, uma portista bastante convicta e uma sportinguista simpatizante (esta última, como é óbvio, sou eu) e nenhuma de nós sair de lá com o mínimo arranhão. Porque, tal como sucede com o verniz com que se pintam as unhas, não são as camisolas que se envergam que fazem das pessoas gente boa, mas sim o carácter que essas pessoas têm. E, sem falsa modéstia, estavam ali três pessoas em condições, que souberam respeitar-se apesar das suas diferenças e para quem a amizade fala muito mais alto do que qualquer outra coisa.

Consta que para a semana há outro jogo qualquer importante (tão importante que eu nem memorizei qual é) e eu já fui convidada para repetir a dose, embora ainda não tenha aceitado porque estou para ver os efeitos secundários que a noite de ontem terá na minha sanidade mental. Era só mesmo o que me faltava agora, ficar fã destas coisas da bola! Mas aposto que se levar um livro e me puser a ler, ninguém dá por nada. Afinal de contas, eu não percebo nada daquilo e o resto da malta está ali concentradíssima a analisar o jogo, por isso basta-me dizer de vez em quando que «É falta!» e os noventa minutos passam num instantinho. Bom, tudo dependerá dos efeitos secundários. Vamos lá, então, ver se isto não fica pior.

© [m.m. botelho]

17.4.11

nojo

Como diria o outro (ou a outra, já não sei) é oficial: estou naquela fase que a minha querida Isabel previu que haveria de chegar porque, no seu entender, ainda não havia aflorado com a intensidade que era suposto, tendo em conta os contornos do que me tinha acontecido. Disse-me ela variadas vezes que eu ainda não me tinha zangado o suficiente, que eu ainda não me tinha zangado «a sério» com as pessoas e as situações que me fizeram muito mal.

É engraçado que isto suceda logo agora, quando eu me sinto lindamente com a vida, muito satisfeita comigo e muito bem com os meus amigos e família e todos os que gostam de mim. É engraçado que estando eu tão bem, seja precisamente agora que, em relação aos protagonistas do episódio lamentável em que me vi envolvida há uns tempos, eu esteja a desenvolver uma espécie de aversão. É muito mais do que irritação, é aversão. Diria nojo, mesmo. Daí a vontade e a necessidade da distância, de não ouvir sequer os nomes das pessoas em causa, de não querer saber nada de nada que diga respeito a essa gente.

É curioso que eu tenha demorado tanto tempo a chegar aqui, mas isto levou-me a concluir que sou lenta no processamento das emoções negativas e, simultaneamente, impaciente na concretização das emoções positivas. Quero logo resolver o mal para que tudo fique bem e fico tempos infinitos agarrada à utopia de que tudo se vai compor, sem sequer me aperceber de que não há composição possível. Por isso é que demoro imenso tempo - muito mais do que seria desejável - a zangar-me. Acho sempre que é desnecessário. Mas não é. Zangar-me a valer com quem se portou muito mal comigo é absolutamente essencial para resolver e ultrapassar as coisas, porque não há perdões nem superações no que toca a traições [que também foi outra coisa que eu demorei a perceber, irra!].

Se me fosse dado escolher um dia da minha vida para alterar, sei exactamente qual escolheria. Não escolheria aquele em que fui traída, escolheria o dia em que conheci cada um dos traidores. Apagá-los-ia do meu percurso, não quereria sequer conhecê-los. Se pudesse, escolhia que a minha vida nunca se tivesse cruzado com essas vidas. Isto é mais do que aversão, não é? É, pois. Isto é nojo, do mais puro e do mais profundo. Não há dúvidas, portanto, de que estou a entrar na fase que a minha querida Isabel anteviu e disse estar a demorar demasiado. Finalmente!

Obviamente, eu podia ser muito pudica e não o confessar, porque silenciando o que sinto evitava que as pessoas soubessem o que me vai no peito, mas enfim, nunca fui dissimulada e a estas horas já não é novidade para ninguém que eu não gosto das pessoas em causa porque já o disse directamente a quem de direito. Por outro lado, mantendo o silêncio sobre a coisa também evitava ferir as susceptibilidades das ditas pessoas, que até podem vir a ler isto que está na internet à vista de toda a gente, mas que se lixe, que leiam se cá vierem parar, azar o seu, porque eu, a esta altura do campeonato, já me estou nas tintas para as suas susceptibilidades, tal como as referidas criaturas se estiveram nas tintas para as minhas quando decidiram fazer o que fizeram, magoando-me como me magoaram e por aqui me fico. Vai daí, em vez de pudica, prefiro ser honesta e franca e escrevê-lo com as letras todas, leia isto quem vier a ler, porque neste momento me apetece dizê-lo, sem estar a pensar em quem vai ler ou no que quem vai ler vai pensar: tenho nojo daquela gente, repulsa pura e dura, uma repugnância imensa.

Na altura não percebi, mas no dia em que me traíram, saiu-me a sorte grande: começou a sua saída da minha vida, a purga do meu espaço, a limpeza dos meus dias. Já considerei aquele o pior dia da minha vida, mas hoje considero-o um dos melhores. Sem dúvida, um dos melhores. Só lamento que a revelação da podridão que me rodeava não tivesse ocorrido mais cedo mas, felizmente, a verdade é como o azeite e, por isso, vem sempre acima. E, um dia, eu haveria de a ver, caramba. Bem me dizia a minha querida Isabel que um dia eu haveria de a ver.

© [m.m. botelho]

instantâneos [30]

© Erin Hanson
visto aqui

[Nota: «I will remember you» e não «I will miss you». É que, parecendo que não, é completamente diferente.]

© [m.m. botelho]

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