16.9.11

intransmissível

Chegar a casa depois de um jantar tardio, descalçar os sapatos, despir a roupa, escovar os dentes, pensar apenas em enfiar-me debaixo dos lençóis. Sem o esperar, receber um sms pedindo-me que não me deite sem ver o e-mail. Ligar o computador só para saber porquê e encontrar um mensagem que dizia apenas isto:

«Moça
Me espere amanhã
Levo o meu coração
Pronto p'ra te entregar
Moça
Moça eu te prometo
Eu me viro do avesso
Só p'ra te abraçar
Moça
Sei que já não é pura
Teu passado é tão forte
Pode até machucar
Moça
Dobre as mangas do tempo
Jogue o teu sentimento
Todo em minhas mãos

Eu quero me enrolar
Nos teus cabelos
Abraçar
Teu corpo inteiro
Morrer de amor
De amor me perder»


As palavras são do Caetano Veloso, a dedicatória era para mim, o que eu senti fica cá dentro. Para fora vai apenas este registo do momento e esta frase [em palavras minhas]: «Estou à tua espera.».

© [m.m. botelho]

14.9.11

amy

Hoje, 14.09.2011, se fosse viva, Amy Winehouse faria 28 anos. Hoje, 14.09.2011, foi revelado o dueto que a cantora gravou com o norte-americano Tony Bennett. A canção chama-se «Body and Soul» e ilustra bem o talento, a singularidade e a qualidade irrepreensível de tudo o que Amy Winehouse deixou gravado.


Amy Winehouse & Tony Bennett. «Body and Soul».
Inédito [2011].

A canção foi gravada em Londres, Março de 2011 e os direitos irão reverter integralmente a favor da «Amy Winehouse Foundation», criada pela família da cantora, para ajudar jovens que tenham problemas com o consumo de drogas.

[Adenda: Agora reparo que , no vídeo, Amy Winehouse está a usar uma «Arygle Longline sweater» de gola em V, pertencente à colecção que a mesma produziu para a Fred Perry. Encantador.]

© [m.m. botelho]

7.9.11

my body is not a cage

Ao ler isto que a Ana escreveu, não consegui deixar de ter presente que, para mim, tudo o que não seja indiferença tem uma conotação positiva ou negativa. Por isso, em situações como a descrita no post da Ana, opto por trabalhar interiormente o que sinto, até atingir o estado de indiferença (como se nunca houvesse conhecido a pessoa, como se nada soubesse sobre aquela pessoa).

Para atingir este estado, ajuda-me muito focar-me em mim e só em mim sempre que me dou conta de que estou a despender energias desnecessárias com quem não devo. Se isso acontecer, nada como tomar consciência do facto, recentrar-me em mim e lembrar-me de que tudo tem um retorno e que, portanto, produzir (ainda que apenas com o pensamento) energias negativas ou que me desgastem, tem um preço que serei eu mesma a pagar, para além de ser uma inutilidade de todo o tamanho.

Não permito que as pessoas se transformem em fantasmas ou espectros, muito menos as guardo em gavetas. Se não as quero ao pé de mim, envio-as e às suas energias de volta para o Universo. Só quero junto a mim o que for meu, o que não for, que retorne para onde veio.

Os esqueletos no armário atrapalham. Mais tarde ou mais cedo, atrapalham, porque há um dia em que, graças ao hábito, vamos abrir novamente o armário para guardar lá outro esqueleto e o armário rebenta pelas costuras, lançando sobre nós os esqueletos armazenados ao longo do tempo todos de uma só vez.

Eu prefiro lidar com um assunto de cada vez, resolver as coisas o mais rápida e eficientemente possível enquanto têm uma dimensão que justifique que perca algum tempo em torno delas e depois limito-me a seguir com a minha vida em frente e a procurar o caminho para ser feliz, sem espectros, sem fantasmas a perseguir-me.

Agora, que a frase dos Arcade Fire («just because you've forgotten, that don't mean you're forgiven») é uma grande frase, lá disso não há dúvida, mas é uma frase de ligação, uma frase que prende, uma frase que reflecte a vontade de alimentar uma cadeia (ainda por cima, negativa), uma frase que mantém um canal (negativo), ainda que invisível, entre as duas pessoas.

Ao invés, em idênticas situações, prefiro usar uma frase muito mais simples: «o Universo equilibra». Sim, é verdade: o Universo, à sua maneira, com as suas voltas e reviravoltas, no seu tempo e no seu lugar, equilibra. Há quem lhe chame «Deus a escrever direito por linhas tortas». Chamemos-lhe o que quisermos, mas que acontece, acontece. Basta estar atento aos sinais, porque «o Universo equilibra» e novos e indubitavelmente melhores destinos surgem diante dos nossos olhos. Sem espectros a assombrar nada, só uma imensa luz e uma enorme tranquilidade a servirem-nos de guia.

© [m.m. botelho]

5.9.11

senso comum

1.Don't be seduced by popular culture. It prevents you from thinking for yourself.
1. Não te deixes seduzir pela cultura popular. Impede-te de pensar por ti mesmo.

2. Don't fall in love with money. It will make you greedy and shallow.
2. Não te apaixones pelo dinheiro. Tornar-te-á ganancioso e superficial.

3. Don't use destructive language. It hurts others as well as yourself.
3. Não uses linguagem destrutiva. Magoa os outros e magoa-te a ti mesmo.

4. Don't judge other people. It's better to work on your own faults.
4. Não julgues as outras pessoas. É melhor trabalhares para corrigir as tuas próprias falhas.

5. Don't let anger get out of control. It can break relationships and ruin lives.
5. Não deixes a raiva sair do controle. Pode pôr fim a relações e arruinar vidas.

6. Keep a positive outlook on life. It's the first step to joy.
6. Mantém uma visão positiva da vida. É o primeiro passo para a alegria.

7. Bring out the best in other people. It's better to build up than to tear down.
7. Faz com que se revele o melhor das outras pessoas. É melhor construir do que demolir.

8. Have impeccable integrity. It brings peace of mind and a reputation of honor.
8. Tem uma integridade impecável. Traz paz de espírito e uma reputação de honra.

9. Help those in need. It really is better to give than to receive.
9. Ajuda os necessitados. É, realmente, melhor dar do que receber.

10. Do everything in love. It is the only way to find true peace and fulfillment.
10. Faz tudo com amor. É a única maneira de encontrar a verdadeira paz e a satisfação plena.
Hal Urban. «The 10 Commandments of Common Sense:
Wisdom from the Scriptures for People of all Beliefs»
[2007]. [tradução minha]

Nota: Mais citações do género, mas de inspiração exclusivamente budista, para acompanhar e meditar aqui, em princípio, diariamente; senão, conforme o meu tempo e dedicação e a minha disponibilidade para publicar.

© [m.m. botelho]

4.9.11

«uma breve confissão»


A Caruma. «Nossa Senhora do SIS».
Do álbum «A Caruma» [2010].

«Esta mente de que tens medo
nunca foi nenhum brinquedo.
Queres-me toda ou só "assim-assim"? [...]
Estes olhos não são património!
Estas pernas não são património!
Os ciúmes idiotas, as conquistas, as derrotas:
medo, é medo, muito medo de falhar!»


Adorei toda a letra desta canção, mas especialmente esta parte que aqui destaco. Tão verdade, às vezes, meu Deus, tão verdade!

© [m.m. botelho]

3.9.11

"em que é que está a pensar?"

Acerca do post anterior, perguntaram-me em conversa em que é que eu estava a pensar, concretamente, quando o escrevi. Respondi que aquilo em que eu estava a pensar não interessa ao leitor, pois a este apenas interessa aquilo em que ele próprio pensar aquando da leitura.

Isto é o mesmo que dizer que este blogue é um repositório de reflexões minhas, que partem de mim e são para mim. Não escrevo a antecipar o que os que vão ler vão sentir, pensar ou achar sobre aquilo que eu escrevi. Escrevo para mim [já aqui o disse, mas repito]. Sendo assim, é óbvio que as coisas que aqui são ditas podem ter uma interpretação e um significado para mim e outros para o leitor. E isso, que importa?

Este blogue raramente é uma plataforma de diálogo, se é que alguma vez o foi, a não ser para pessoas a quem eu aviso previamente e, regra geral, para falar de experiências boas que passámos juntos. Este blogue não tem como propósito entabular conversações, enviar mensagens, dar conselhos, "cagar leis" sobre a vida e o mundo para ninguém, a não ser para mim mesma. Raramente escrevo sobre os outros, porque eu é que sou o meu mais interessante objecto de análise. Isto talvez se chame narcisismo, mas neste momento estou muito pouco interessada em classificações de escola e muito mais interessada noutros aspectos e noutros assuntos.

Aqui, escrevo sobre mim, sobre o que eu sinto, sobre o que eu penso, sobre o que eu faço, sobre o que eu desejo. Não vale a pena ler os meus textos como se fossem algo mais do que isto: não passam de solilóquios meus. Também já disse aqui que, na vida, sou uma mera aprendiz sem pretensões de chegar a mestre e isso mantém-se. Não tenho vocação para ensinar a ninguém coisa alguma, só tenho vocação para partilhar com os outros as conclusões a que eu vou chegando, as quais têm a importância que se lhes quiser dar.

O que interessa ter em mente quando se lê qualquer post deste blogue é a frase que está lá em baixo, da autoria do filósofo canadiano Marshall McLuhan (que, curiosamente, morreu no mesmo ano em que eu nasci) e que diz assim: «I don't necessarily agree with everything I say». Porque esta frase não está lá em baixo, permanentemente visível, por acaso: está lá porque reflecte a minha inteira noção de que a mudança pode ocorrer na minha vida, de que o que penso não é estático, de que sei que às vezes tenho de repetir muitas vezes a mesma ideia para acreditar um pouco mais nela, porque a vida em sociedade assim obriga. Até esta frase, portanto, pode ter muitas interpretações.

Voltando ao post anterior. Quem o ler haverá de pensar no que quiser, naquilo que lhe fizer ressonância. Pode pensar em acontecimentos como a guerra, o Holocausto, a morte da Mãe, a perda de um Filho, a traição de um marido, a cobardia de um colega de trabalho, um fracasso pessoal, no que quiser! Aquilo em que eu pensei quando o escrevi, repito, é o que menos importa. Porque aquilo em que eu pensei apenas a mim diz respeito, apenas à minha vida se aplica e não é propósito deste blogue que a minha vida sirva de espelho a ninguém para que nele se reveja ou nele espreite para me tentar encontrar. Não é pela leitura de um blogue que se conhece o seu autor ou, sequer, fica a saber-se como ele pensa ou age em determinadas circunstâncias.

Se se lerem os blogues com isto presente, não haverá a tentação de fazer perguntas como a que me foi feita, nem haverá a tentação de se achar que se compreende o que está escrito exactamente como foi escrito, pois o que é lido nunca é igual ao que é escrito e ter consciência disto é apenas sinal de inteligência.

Por isso é que, pela minha parte, leio os blogues que leio pelo prazer de ler o que está bem escrito, sem pretensões de desconstrução, de análise, de compreensão daquilo que o autor queria dizer, estava a viver ou a sentir. Não me interessa isso: interessa-me o que o autor me disse, o que as suas palavras despertaram em mim e como as posso aplicar a mim e à minha vida e nada mais.

Não sei se é assim que os blogues devem ser lidos, só sei que é assim que eu os leio. E cada um lê o que quer, como quer, onde quer. O que posso afirmar é que por aqui, só haverá "explicações" adicionais quando eu entender e se eu entender [porque, por exemplo, preciso de reflectir melhor sobre um determinado assunto]. Aqui não se encontram lições de vida porque aqui não há mestres, só há uma aprendiz. E, ainda por cima, só há uma aprendiz ávida de conhecimento, descoberta e aperfeiçoamento, o que lhe deixa muito pouco tempo escrever posts longos, como os que eu escrevo, a pensar nos outros ou para que os outros deles tirem qualquer vantagem. Se tirarem, óptimo para eles. Se não tirarem, é porque não tinham de ou não podiam tirar.

© [m.m. botelho]

31.8.11

havemos de rir?

fonte: visto aqui

Ou então, não. Se calhar, há coisas, por muitos anos que passem, por muito silêncio que se instale, por muita insignificância que se lhes atribua, das quais não seremos capazes de rir. Nem mesmo se pertencermos àquele grupo de pessoas cujo objecto de humor preferido é a sua própria vida, como é o meu caso. Simplesmente, porque há coisas que não são risíveis. E não vale a pena fazer malabarismos quanto a factos incontornáveis: não são risíveis, não têm piada, não têm a capacidade de nos desenhar sequer um sorriso no rosto, quanto mais uma gargalhada. Não são risíveis e ponto final.

© [m.m. botelho]

Notas: 1. A imagem que ilustra este post não está aqui por acaso, obviamente. 2. Já a inspiração para o título deste post fui buscá-la à peça de teatro «Havemos de rir?», da autoria da escritora portuguesa Maria Judite de Carvalho [1921-1998].

22.8.11

o que faz as noites

A noite de sexta-feira e a de sábado passados foram, provavelmente, as duas noites mais quentes e mais agradáveis do ano até agora. Para mim, foram duas noites excepcionais. Hoje [é uma da manhã de segunda-feira], chove e até já trovejou. Quem comparar a noite anterior com esta, quase não acredita que aconteceram em dias seguidos.

Sucede que o que faz as noites não é a meteorologia, mas a companhia. Daí as minhas, independentemente dos graus que o termómetro marcou, terem sido todas absolutamente excepcionais.

© [m.m. botelho]

19.8.11

"guê érre"

Esta manhã, ligo para casa da minha Mãe e ouço o meu sobrinho-afilhado a palrar imenso. Pergunto o que está a fazer e a minha Mãe responde-me que ele está a ler uma receita de biscoitos a partir de um livro de culinária. Está a ler-lhe impecavelmente os ingredientes [não falhou nenhum], sendo que insiste particularmente para que a Avó não se esqueça da canela. Diz o número de ovos necessários e as medidas quase todas certas. Sabe ler "300", mas não sabe que "gr." é a abreviatura de gramas, por isso lê "300 guê érre de farinha".

São três anos feitos há pouco mais de um mês, mas isto já é assim há uma data de tempo. Lê receitas, notícias e rótulos das embalagens todas que apanhar à mão. Este rapaz deixa-nos de queixo caído. Completamente.

© [m.m. botelho]

18.8.11

«te quero livre»


Marisa Monte. «A sua».
Do álbum compacto «Marisa Monte» [2001].

«Eu te quero livre também, como o tempo vai e o vento vem.»
É extraordinário quando quer nos quer, nos quer livres. É simplesmente extraordinário, caramba! :)

© [m.m. botelho]

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» O direito de autor protege as criações intelectuais do domínio literário, científico e artístico, por qualquer modo exteriorizadas.
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