30.11.08

debaixo do teu chapéu-de-chuva

rainha da foz | porto | 30.11.2007

Chovia. Com muita sorte à mistura, arrumei o carro mesmo ali ao pé, numa transversal sempre movimentada onde encontrar um lugar de estacionamento só pode mesmo ser prenúncio de grande fortuna.
Não sei se já disse que chovia. A chuva complica tudo: o trânsito, a deslocação das pessoas a pé, as cargas e descargas. À conta dela, encharquei as calças pretas que eu trazia vestidas. E foi à conta dela também que tu me abrigaste debaixo do teu chapéu-de-chuva.

© [m.m. botelho]

been there, done that.

Conheço uma mão cheia de pessoas maravilhosas que estão presentemente livres ou, pelo menos, aparentemente livres. Em boa verdade, no coração ainda guardam réstias de amores passados de cujo fim não se recompuseram e na memória têm demasiado presentes os retratos daqueles a quem tanto quiseram. Trata-se de pessoas que partilhavam relações afectivas estáveis que terminaram contra a sua vontade.

Uma grande amiga minha costuma dizer que só se cura um amor com outro amor. Claro que essa grande amiga minha é suspeita, pois faz parte do lote daqueles que estão à espera de se cruzar com outra pessoa para fechar o capítulo amoroso anterior, mas, ainda assim, jura a pés juntos que não há outra maneira de superar a coisa senão esta: uma nova paixão, de preferência, daquelas de caixão à cova.

Provavelmente, já quase toda a gente com mais de doze anos chegou a esta conclusão: não há fórmulas mágicas para pôr termo dentro de nós ao que já acabou cá fora. E tal como não há fórmulas mágicas, também não há verdades universais que se apliquem a todos os que estão descoroçoados por causa do fim de uma relação.

Os recursos utilizados para esquecer um amor são múltiplos. Há quem opte por uns meses de recolhimento em casa, por uma determinada dedicação ao trabalho, por saídas para copos e conversa com os amigos todas as noites, por viagens, por uma remodelação do guarda-roupa, por finalmente ler Les misérables, por trabalhar os bíceps e os tríceps, por ver todos os filmes da saga Star Wars, por ir fazer voluntariado durante um ano e por tantas e tantas outras coisas, desde que sejam suficientemente absorventes para impedirem que o pensamento se concentre no objecto do afecto não correspondido. Além destes há, também, os que prosseguem calmamente a sua vida nos exactos termos de outrora, embora escondendo as fotografias e outras coisas nas gavetas e evitando ir aqui e ali para não ver, não ouvir, não saber e, em consequência, não sentir.

Isto tudo até ao dia em que, inesperadamente, se apaixonam outra vez. A partir de então, o fim do mundo passa de amanhã para dali a mil anos, o choro dá lugar ao riso e todos os compromissos que preenchiam a agenda e que eram prioritários passam a ser perfeitamente dispensáveis, adiáveis ou mesmo desmarcáveis. É precisamente nesse instante que, como diz a minha grande amiga, se cura um amor com outro amor.

Dedicarmo-nos a cinquenta mil coisas para tentar não pensar em alguém que amamos e com quem já não partilhamos esse amor não tem nada de mal, podendo mesmo ser muito produtivo se se tratar de actividades que venham aumentar o nosso conhecimento, a nossa auto-estima e a nossa qualidade de vida, já para não falar nas supremas vantagens que o exercício físico pode trazer para o sucesso da nossa posterior vida afectiva e não só... Totalmente errado é ficar fechado sobre si mesmo, achar que nunca mais se vai encontrar uma pessoa como aquela, fazer o destrutivo jogo da atribuição da culpa ou ter atitudes que possam conduzir à irreversível destruição do que restou, como, por exemplo, boas memórias ou uma relação de amizade.

O fim não desejado de uma relação não é o fim do mundo, embora pareça. Também não é irremediável, mesmo que de repente o chão nos tenha escapado debaixo dos pés. E muito menos é um estado definitivo de solidão, a não ser que nós deixemos. O truque está em, com certa dose de parcimónia, deixarmos a vida seguir o seu curso. O resto vem por acréscimo e pode ser bom. Aliás, quase sempre é muito melhor. Posso afiançar que, às vezes, acontece mesmo: been there, done that.

[Também publicado emPnetMulher]

© Marta Madalena Botelho

29.11.08

«fortunate son»


Cat Power. «Fortunate son» (cover).
Do álbum «Dark end of the street» [2008].

26.11.08

americano

23.11.08

quem for capaz de entender, entenda.

Dizem por aí à boca cheia que Manuela Ferreira Leite tem um problema de expressão. Ao que parece, a presidente do PSD terá pouco jeito para as palavras, mas não se trata de qualquer problema de dicção nem de dislexia e, ao que consta, Ferreira Leite não dá erros de ortografia. O busílis, dizem, é a escolha dos termos.

O problema de um grande número de pessoas deste país tem um nome: ausência de sentido crítico. Regra geral, quem não está habituado a fazer a análise das situações e a propor alternativas, limitando-se a seguir cegamente ou a discordar radicalmente do que os outros dizem, tem uma certa dificuldade em interpretar afirmações que distem um pouco do óbvio. Quem não opta pelos discursos básico ou cínico – os mais comuns entre nós –, habilita-se a que lhe aponham o rótulo de "infeliz" a torto e a direito. Em certos casos, a coisa vai mais além e vêm de lá umas vozes superiores e iluminadas que, como José Saramago, sentenciam que «a Doutora Ferreira Leite é bastante idiota» (sic). Claro que só pode passar-se impunemente perante a opinião pública com afirmações deste calibre caso se verifiquem, cumulativamente, duas circunstâncias: se o declarante já tiver ganho um prémio Nobel e se tudo se passar num país de brandos costumes. Por isso, mesmo que viva em Portugal: se ainda não foi agraciado com o mencionado galardão, aconselha-se tento na língua.

No seguimento das vozes que cedo se indignaram com as afirmações de Manuela Ferreira Leite sobre a democracia e as reformas, muitos foram os que precipitadamente começaram a fazer uso do seu tempo de antena, dos seus espaços de opinião em jornais e dos seus blogues para se indignarem também. As vozes eram tão afinadas que quase faziam inveja aos coros de anjos celestiais. Falou-se em suspensão da democracia, em apologia à ditadura, em momentos de infelicidade e, finalmente, no tal problema de expressão. Ferreira Leite, com a inteligência que a caracteriza, remeteu-se ao silêncio. A mensagem subliminar desta atitude é só uma: quem tiver ouvidos, ouça e, diria eu, quem for capaz de entender, entenda.

Para compreender o que foi dito é imprescindível contextualizar politicamente a afirmação, ou seja, não ignorar que o país está a braços com um sem número de acções reivindicativas na área da educação, tanto por parte dos pais, como dos professores, como da oposição ao Governo em bloco. E tudo porquê? Graças à reforma do sistema educativo que o Governo quer levar a cabo. E o que fazem a Ministra da Educação e o Primeiro-Ministro? Autoritariamente, ignoram ambos as reivindicações e as alternativas propostas e insistem em tópicos como o modelo de avaliação dos professores e o novo estatuto do aluno. Ou seja, em suma e em síntese, para procederem a uma reforma, impõem a sua visão das coisas, as suas políticas, a sua vontade.

Ao que parece, toda a gente reclama da postura do Governo e, segundo consta, não vem grande mal ao mundo por isso. O Carmo e Trindade só ameaçam cair, pois, quando quem reclama é Manuela Ferreira Leite, porque em vez de pegar em cartazes e ir para a rua fazer manifestações como (legitimamente) faz a maioria dos portugueses, opta por um estilo diferente de crítica. Eu arriscaria dizer que é bem mais do que evidente que a afirmação de Ferreira Leite se referia ao comportamento autoritário e arrogante de José Sócrates e dos seus ministros na implementação das reformas que, como toda a gente vê, não parece ser lá muito compatível com a democracia. Actualmente, os holofotes debruçam-se sobre a Educação, mas pensemos, por exemplo, na reforma da Justiça e no modo como a redução das férias judiciais e o mapa judiciário acabaram por ser impostos ao arrepio da contestação de todos os quadrantes jurídicos deste país ou, ainda, na reforma da Saúde e no encerramento de tantos centros de atendimento a utentes entre gritos de revolta de tanta gente e aí teremos outras situações em que o Governo socialista se limitou a levar a sua avante, ignorando os contributos e manifestações de desagrado dos destinatários do seu ímpeto reformista.

Não posso, por isso, deixar de atribuir alguma ingenuidade àqueles que procuraram obter dividendos políticos através de interpretações falaciosas das declarações da presidente do PSD, pois, ao tentar imputar-lhe qualquer tentativa de apologia ao termino da democracia, apenas demonstraram o quão ridículos podem ser. Ler para lá das palavras é essencial e a língua portuguesa ficaria infinitamente mais pobre se não pudesse ser colorida com recursos estilísticos, como é o caso da ironia. Para pobreza, em Portugal, já basta a que afecta as nossas carteiras, para não falar na intelectual e na de espírito que afecta tanta gente e que episódios como este vão revelando...

[Também publicado em PnetMulher]

© Marta Madalena Botelho

21.11.08

excepção à estopada

genoma | matt ridley | gradiva | 2001

Regra geral, os livros que tenho de ler por imposição profissional são uma grande estopada mas, now and then, sucede que um ou outro acaba por constituir grata surpresa e me prende. Com Genoma. Autobiografia de uma espécie em 23 capítulos, de Matt Ridley, assim foi. É uma obra recheada de informações interessantes, algumas hilariantes, outras quase inacreditáveis, tudo sem perder de vista o rigor científico, num discurso muito bem estruturado, sintético, cativante, revelador e, pasme-se, compreensível. Vinte e três capítulos recheados de descobertas sobre mim mesma: nada será como dantes.

© Marta Madalena Botelho

16.11.08

mudam-se os tempos, mudam-se as vontades. mudam-se as gerações, mudam-se as habilidades!

Faço parte daquele grupo de gente que aos trinta anos parece que tem vinte. Não por causa do aspecto físico, já que as evidências de umas quantas directas ou noites mal dormidas porque demasiado bem passadas não me permitem manter um ar assim tão jovem e inocente quanto o que se tem aos vinte anos, mas sim no que respeita à independência. Eu explico.

Aos vinte anos eu vivia sozinha numa cidade distante daquela onde vivia a minha família. Aos vinte anos eu tinha a carteira confortavelmente forrada de notas para prover às minhas necessidades mais prementes (consumos culturais e de lazer, essencialmente, que aos vinte anos queremos ver, ouvir experimentar e descobrir tudo mesmo que não percebamos absolutamente nada), necessidades essas que era eu quem definia. Mas aos vinte anos eu tinha quem me lavasse e engomasse a roupa, me preparasse as refeições, tratasse do meu seguro de saúde, pagasse as minhas propinas, levasse o carro à revisão. Era um ser autónomo numa considerável parte da minha vida, mas pouco dado a independências nas matérias ditas "chatas".

Aos (quase) trinta anos, tal como aos vinte, vivo sozinha e continuo a ser eu a definir as minhas necessidades (embora agora o dinheiro com que as satisfaço seja fruto do meu próprio trabalho e não de uma saudosa mesada). Já não preciso de quem cozinhe o que vou comer ou pague as minhas propinas, mas há ainda um campo de coincidência entre alguns aspectos nas duas idades, relativas a pormenores que não é suposto que existam aos vinte, mas é praticamente obrigatório que ocorram aos trinta.

Falo, por exemplo, de coisas tão simples como desentupir uma sanita. Por muito complicado que pareça, acreditem, é algo bastante acessível. Na maior parte dos casos, basta bombear três ou quatro vezes com um desentupidor no orifício da sanita e ela volta a funcionar como nos seus melhores dias. O exemplo não é inocente, claro: aconteceu cá por casa esta semana.

Como menina desenrascada que me prezo de ser, assim que dei pelo inesperado ocorrido, respirei fundo e pensei imediatamente em procurar a solução no remédio santo para todos os males das gentes solteiras e que vivem sozinhas, esse maravilhoso mundo da internet. Aí fiquei a saber que me bastaria aplicar umas quantas colheres de um composto de hidróxido de sódio (a que também se dá o nome de soda cáustica) na sanita, regar tudo com um litro de água a ferver e esperar trinta minutos. Depois seria só lavar abundantemente com água bem quente e o problema estaria resolvido.

Fui espreitar no armário dos produtos químicos, mas da soda cáustica nem sinal. Lá tive de fazer uma passagem pelo supermercado para comprar uma embalagem do composto químico e um par de luvas de borracha, atento o meu tremendo (desa)jeito para tarefas que impliquem precisão. Mal cheguei a casa, enfiei orgulhosamente as luvas, despejei a soda cáustica pela sanita abaixo e atirei-lhe com um litro de água a escaldar. Depois fechei o tampo, a porta da casa-de-banho e fui empregar o tempo noutra coisa qualquer. Quando o telemóvel me avisou que já tinham passado trinta minutos, fui espreitar a minha sanita. Sucede que, depois de uns quantos litros de água a ferver como me recomendava a informação recolhida na internet, a sanita continuava entupida. Repeti o procedimento várias vezes, mas de todas elas sem resultados. Acabei por desistir.

O que é que, numa situação destas, faz uma daquelas pessoas que aos trinta anos parece que tem vinte? Telefona à mãe, claro, e pede-lhe socorro, auxílio, que a venha salvar das garras da tarefa hercúlea que lhe atormenta o corpo e a alma e que, de preferência, não demore mais do que cinco minutos a chegar. Se tivermos sorte, a nossa mãe atenderá o nosso suplicante rogo. Umas horas depois, a minha mãe chegou. Mal viu o triste espectáculo da minha sanita perguntou o que lhe pareceu mais óbvio: «Já experimentaste bombear com o desentupidor?». A seguir à minha envergonhada resposta negativa, tive de engolir em seco um «Bom, parece-me que é básico, não, Marta?». Claro, é «básico» para quem o sabe ou para quem já passou por situação semelhante, não para mim, uma novata nestas coisas cujo único entupimento com o qual está familiarizada é o das fossas nasais...

Escusado será dizer que em três tempos a sanita ficou perfeitamente operacional. Depois de me despedir da minha super-mãe-salvadora-que-tem-sempre-solução-para-tudo, pus-me a pensar no quanto ainda sou dependente dos seus sábios gestos. A verdade é que continuo a recorrer a ela quando tenho febre, quanto tenho uma nódoa na roupa, quando o esquentador não dispara, quando o carro não arranca, quando me cai um botão das calças ou quando é preciso ir tratar das papeladas dos impostos. E quem diz nestas situações, diz em muitas outras. Aos trinta anos, a minha mãe sabia fazer tudo isto e muito mais sozinha, sem precisar da ajuda de ninguém. Aos trinta anos, a minha mãe parecia ter trinta anos e não vinte, como eu.

O mais surpreendente no meio de tudo isto é que eu não sou caso único e se pensar nos amigos da minha idade, muitos deles continuam tão dependentes das mães e dos pais como eu. Não sei se isto significa que a minha geração cresceu mais devagar, se significa que cresceu em sentido diferente, embora queira muito convencer-me de que a segunda alternativa é a correcta. Julgo, porém, que dependências destas nada têm de mal, desde que não se mantenham para sempre e sirvam de lição para ocasiões futuras. Pela minha parte posso garantir que nunca mais me esquecerei de como se desentope uma sanita e me ofereço para explicar a quem não souber.

[Também publicado em PnetMulher]

© Marta Madalena Botelho

12.11.08

implicância

piolho d'ouro | porto | 11.11.2008

A noite estava fria, as montanhas de papéis e as capas de apontamentos e fotocópias acumulavam-se em cima das secretárias, mas até o mais heróico dos servos do estudo e do trabalho tem de comer. A tentação da francesinha do «Piolho» foi vencida e o prego no pão fez as honras da casa com muito mérito.

Sem esperar, descobri que o barulho sempre ensurdecedor do «Piolho» pode tornar-se a mais agradável das melodias quando tudo o que ouvimos há dias é o som das teclas a afundarem-se debaixo dos dedos ou da caneta a riscar o papel. No fundo, eu até gosto daqueles hinos que os caloiros cantam enquanto se embebedam muito para além do que a dec(ad)ência permite. Se os mando cantar mais baixo é só por implicância: eu queria era voltar a ter a vida despreocupada daquele tempo.

© [m.m. botelho]

11.11.08

armazém do chá

parque carlos alberto | porto | 08.11.2008

Aqui entre nós que ninguém nos lê, agora que já atinas com o nome da casa, sugerir ir lá beber um ou dois ou três ou quatro copos perdeu metade da piada.

[Ai que mentira tão grande: se tu lá estiveres, não há outro sítio onde eu queira estar.]

© [m.m. botelho]

venham mais cinco

o calhambeque | porto | 08.11.2008

A noite de sábado costuma ser sempre produtiva, quer a opção recaia sobre o trabalho ou sobre o lazer. Com meses de intervalo entre hoje e o último dia em que nos cruzámos, os rostos parecem sempre mais preocupados, mais envelhecidos, carregados. Valeu-nos o entusiasmo de quem rompeu barreiras pela primeira vez e repete a história com orgulho para nos encher de boa energia.

A cidade convidava e nós aceitámos o repto: fomos pelas horas dentro com ela, entre cervejas e copos de vinho tinto.

[Os pratos em cima da mesa eram cinco, mas o recibo só refere quatro refeições. No mínimo, curioso. ;)]

© [m.m. botelho]

9.11.08

a má praxe não é praxe

O assunto é recorrente. No início de cada ano lectivo, recoloca-se a questão: deve ou não pôr-se termo às praxes académicas? Falamos, claro, da praxe académica que pode ser sucintamente definida como um conjunto de práticas, usos e tradições a que se sujeitam os estudantes que acabam de ingressar na universidade (vulgo «caloiros») por imposição dos alunos que já lá andam (vulgo «doutores»).

Começo por fazer uma declaração de interesses: fui estudante universitária (em Coimbra), fui «pela praxe», e praxei, mas já que se impõe a verdade absoluta dos factos, importa ainda dizer que apesar de ter sido «pela praxe», nunca fui praxada. Valeu-me a sempre providencial «protecção de sangue» da minha irmã ou, quando não foi isso, a minha distinta lata que me levava ao atrevimento de me fazer passar por «doutora» quando ainda era caloira. Nunca menti dizendo ser o que não era, mas respondi duas ou três vezes com um «O que é que tu achas?» em tom intimidatório a algumas «doutoras» que queriam saber se eu era caloira. Era remédio santo para me deixarem em paz.

Ainda assim, se tivesse sido praxada, não teria alterado a minha posição em face da praxe. Não querendo parecer parcial mas estando consciente desse risco, continuo ainda hoje a defender que a praxe coimbrã é diferente. Em primeiro lugar, em Coimbra há segregação de géneros na praxe: «doutor» só praxa caloiro e «doutora» só praxa caloira. Em segundo lugar, há (ou, pelo menos, no meu tempo havia) um Concílio de Veteranos muitíssimo atento ao que se vai fazendo e que não tem (pelo menos, no meu tempo não tinha) pejo nenhum em punir «doutores» que violem o Código da Praxe. Em terceiro lugar há naquela Academia um profundo respeito pelo caloiro, a quem o «padrinho» ou a «madrinha» devem proteger de todas as tentativas de humilhação, punição desmesurada e abusos. E vigora até a proibição de pintar os caloiros, sob o lema «os caloiros não são palhaços».

Desconfio que se tivesse estudado em Évora, seria anti-praxe. E quem diz Évora, diz Bragança e umas quantas outras cidades onde a praxe não é praxe nem é nada. E por um simples motivo: defendo quem é anti-praxe e eu mesma seria anti-praxe em todas as academias em que não há respeito pela dignidade humana e onde a praxe é vista como o passaporte para humilhar o outro e provocar-lhe sofrimento físico e psicológico. Em face disto, os argumentos sempre prontos da tradição e da integração são facilmente rebatíveis. A verdadeira praxe nada tem que ver com subjugação, humilhação e desrespeito, mas antes com acolhimento, boa-disposição e, acima de tudo, liberdade de adesão ou não sem represálias. Quanto à integração diga-se já que ela não se faz, certamente, recorrendo a indescritíveis rituais de gosto discutível, para não lhe chamar soez, como sejam o rastejar na lama, beber urina, simular orgasmos ou andar pela rua com palavras ordinárias escritas nas camisolas e na cara.

As tradições não podem ser estáticas e o costume não pode ser invocado para legitimar aquilo que nem sequer corresponde aos usos praxísticos, como temos vindo a observar em Portugal. Há cem anos já havia praxe, mas não havia sete noites de Queima nem milhares de litros de cerveja para consumir sem regro e, no entanto, ninguém parece importunado com as alterações que a festa de Maio sofreu, com óbvio sacrifício da tradição. Se assim é, parece-me claro que não pode invocar-se a manutenção da tradição para umas coisa dispensando-a para outras.

A verdade, sem mais, é que o tempo passa e as coisas, felizmente, mudam (o que não é novidade nenhuma, bem sei, pois Camões já o disse com brilhantismo há quase cinco séculos). Não pode comparar-se a pressão existente hoje sobre os estudantes universitários com aquela que existia no tempo em que um Hilário estudante de Medicina conseguia conciliar o curso com os fados e as guitarradas à janela das donzelas. O mercado pressiona, a família pressiona, a economia pressiona, a auto-estima pressiona. O mesmo se diga em relação ao tempo de estudo. Quantos foram os que fizeram o curso «por correspondência», deslocando-se às faculdades apenas para realizar os exames? Inúmeros, como se sabe. E depois de Bolonha, continua a ser assim? Claro que não. A avaliação contínua obriga a abandonar a concepção do ano lectivo em picos de produtividade e estudo (as épocas de frequências) e arrasta consigo um modelo de aplicação a tempo inteiro. Cabe, então, perguntar: e a praxe, o que fez para se adaptar a estas mudanças? A resposta é óbvia: nada.

O assunto dava pano para mangas e não se compadece com o espaço de uma crónica, mas é incontornável dedicar umas palavras à tão falada integração. Longe vão os tempos em que os caloiros eram o fiel retrato do saloio que chegava à cidade universitária montado num burriquito e com uma malinha na mão, ignorante sobre tudo o que se passava fora da sua aldeia e ávido de descobrir um novo mundo que se abria com o ingresso na faculdade. Os caloiros de hoje não precisam de quem os leve a correr a cidade cantando e dançando, não precisam de quem os leve às tascas para apanharam a primeira bebedeira (que aconteceu já nos tempos de liceu) e muito menos precisam de meios de integração que se limitem a desconsiderá-los e a sujeitá-los a tratamentos degradantes. A integração de que tanto se fala deveria passar pela praxe para aqueles a quem ela satisfaça e por alternativas à praxe, com diversas vertentes (cultural, académica, desportiva ou de mero lazer) para aqueles que a ela não queiram aderir (e aqui deixo uma crítica também aos que se proclamam anti-praxe: não basta que nos queixemos do que existe porque não nos agrada, também é necessário criar alternativas e contribuir activamente para a mudança).

Discutir se a praxe deve ou não fazer-se parece-me uma questão de segundo plano. Antes de tudo, julgo, deveria discutir-se a praxe que temos, se ela serve os objectivos a que se propõe, se ela tem de facto as vantagens que se arroga. Depois desta reflexão cumprida, então sim, talvez estejamos em condições de optar por mantê-la ou não, consoante se conclua ou não que a sua existência continua, de facto, a valer a pena.

[Também publicado em PnetMulher]

© Marta Madalena Botelho

4.11.08

genuinamente velho

chien qui fume | porto | 03.11.2008

Os recibos do «Chien» são dos poucos que continuam a ser emitidos por uma máquina registadora, sem dúvida um exemplo de, digamos assim, modernidade no meio daquele balcão onde abundam as antiguidades. A máquina está pousada ao lado da grafonola que não toca, tal como os discos pendurados nas paredes. No «Chien» continua a ser assim: salada de galinha com ananás e bifinhos de porco à Zurique ao lado do sempre eterno Romeu&Julieta ou dos figos com vinho do Porto. De um lado os desenhos rabiscados pelos clientes, do outro o vinil emoldurado. O mais fascinante, contudo, continua a ser aquele telefone genuinamente velho, caquético, a precisar de reforma, cujo toque continua a atordoar os comensais das duas salas.

© [m.m. botelho]

2.11.08

tripas e alface dão uma bela sardinhada!

Ao contrário do que possa pensar-se, a proximidade física que tenhamos em relação às cidades pouco diz da paixão que por elas nutrimos. Recordo, por exemplo, que conheço muitas pessoas que vivem em Coimbra e abominam a cidade e outras que não vivem lá e que afiançam que todos os dias choram copiosamente de saudades pelas águas do Mondego. A cidade é a mesma para toda a gente e, no entanto, enquanto uns a amam perdidamente tal como ela é, outros só queriam poder transformá-la. Vá-se lá compreender o ser humano!

A verdade é que eu poderia muito bem começar este texto com uma afirmação colhida numa das canções dos Madredeus de que eu mais gosto: «adoro Lisboa» ou, então, pôr-me aqui a cantarolar o «Porto Sentido» do Rui Veloso até toda a gente ficar convencida de que a Invicta é a cidade do meu coração. Mas a verdade é que eu não sei se quero comprometer-me com uma escolha entre o Porto e Lisboa. É quase o mesmo que ter de escolher entre os rojões à Minhota, a posta à Mirandesa, os ovos moles de Aveiro, os pastéis de Tentúgal, o leitão da Bairrada, os ensopados alentejanos, o arroz de lingueirão algarvio e o bolo de mel da Madeira: impossível! Se me pedissem para seleccionar uma destas cidades em função dos defeitos da outra, seria o mesmo que me perguntarem se me entristecem mais os graffiti do Bairro Alto ou o abandono dos cinemas portuenses, caso em que a resposta só poderia ser uma: dispensaria de bom grado ambos. A tarefa é hercúlea, mais me vale desistir.

Claro que Porto e Lisboa jamais agradarão a gregos e a troianos ou melhor – talvez seja mais apropriado dizê-lo assim – a alfacinhas e tripeiros. Aliás, nem convém que assim seja, pois uma vez feitas as pazes entre «andrades» e «mouros» quem haveriam os amantes da capital apelidar de «provincianos»? E a quem haveriam os tripeiros de chamar «calões», enchendo a boca toda para dizer em brados que «O Porto trabalha, Coimbra estuda e Lisboa dorme»? Se houvesse consenso entre estas duas «espécies», estava morta a alma portuguesa e nem o Fado nos salvaria. No fundo, no fundo, os portuenses nem se importariam de comer as tripas outra vez só para poderem passar o resto da vida a dizer que fizeram um grande sacrifício pela pátria, do mesmo modo que os lisboetas sempre se sentiriam orgulhosos de cada vez que lhes chamassem mouros só para relembrar ao resto do país que, depois de conquistada, aquela fronteira nunca mais foi transposta pelos muçulmanos.

As questiúnculas entre o Porto e Lisboa fazem parte do espírito da nação, tal como o Eusébio, a Amália e a Nossa Senhora de Fátima e sem elas não seríamos os mesmos e Portugal não teria a menor graça, nem à força de muitos copinhos de três. Este minúsculo país é viciado na adrenalina subjacente à eterna luta entre o Norte e o Sul, entre o azul e o vermelho, entre o «à minha beira» e o «ao pé de mim». Nortenho que se preze faz como eu quando vou a Lisboa: desata a falar com pronúncia, não porque queira deixar bem vincada a sua naturalidade, mas simplesmente porque não consegue disfarçá-la. E se for um lisboeta no Norte haverá de fazer questão de começar cada frase por «oiça», não porque ache que o interlocutor é surdo, mas simplesmente porque já passou a fase do «portanto» e só está a um passinho da fase do «olhe».

O que importa, em ambos os casos, é não deixar margem para dúvidas sobre a valentia de defender a sua dama, seja ela a Antiga, Mui Nobre, Sempre Leal e Invicta Cidade do Porto ou a Mui Nobre e Sempre Leal Cidade de Lisboa (e ainda dizem os senhores do Norte que os peneirentos são os alfacinhas!...). O resto da sardinhada – sim, não são tripas nem jaquinzinhos fritos com arroz de feijão, é mesmo uma sardinhada! – haverá de vir por arrasto, até porque, num país que produz tão bons vinhos como os nossos, seria um desperdício não os acompanhar com o fruto de tanto mar que nos banha a costa.

[Também publicado em PnetMulher]

© Marta Madalena Botelho

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» O âmbito do direito de autor e os direitos conexos incidem a sua protecção sobre duas realidades: a tutela das obras e o reconhecimento dos respectivos direitos aos seus autores.
» O direito de autor protege as criações intelectuais do domínio literário, científico e artístico, por qualquer modo exteriorizadas.
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» A obra não depende do conhecimento pelo público. Ela existe independente da sua divulgação, publicação, utilização ou exploração, apenas se lhe impondo, para beneficiar de protecção, que seja exteriorizada sob qualquer modo.
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