15.2.13

política, semântica, amor.

«O que surpreende na frase de Francisco José Viegas (FJV) não é, pois, a má-educação (de resto, assumida pelo próprio como "evidente"), mas a falta de decoro. É que por muito que possamos ser solidários com a posição defendida, ninguém deixará de notar que, do ponto de vista político, e fazendo a comparação (porque tudo isto vem à tona — coincidência ou não — no Dia de S. Valentim), FJV se mostra um ex- namorado um tanto ressabiado, daqueles que depressa "parte para outr@", sem fazer o luto da praxe à anterior relação, ao que se sabe, bastante amorosa.»

Um excerto de «Francisco José Viegas, serão mágoas de amor?», a minha crónica de estreia, ontem, no «P3».

© [m.m. botelho]

12.2.13

«faltará procura dentro do teu ser» [?/.]


«somos a fachada de uma coisa morta
e a vida como que a bater à nossa porta
quando formos velhos, se um dia formos velhos
quem irá querer saber quem tinha razão
de olhos na falésia espera pelo vento
ele dá-te a direcção

ninguém é quem queria ser
eu queria ser
ninguém é quem queria ser
eu queria ser ninguém

a idade é oca e não pode ser motivo
estás a ver o mundo feito um velho arquivo
eu caminho e canto pela estrada fora
e o que era mentira pode ser verdade agora
se o cifrão sustenta a química da vida
porque tens ainda medo de morrer
faltará dinheiro
faltará cultura
faltará procura dentro do teu ser

ninguém é quem queria ser
eu queria ser
ninguém é quem queria ser
eu queria ser ninguém

diz-me se ainda esperas encontrar o sentido
mesmo sendo avesso a vê-lo em ti vestido
não tens de olhar sem gosto
nem de gostar sem ver
ninguém é quem queria ser

ninguém é quem queria ser
eu queria ser
ninguém é quem queria ser
eu queria ser ninguém»


«Foge Foge Bandido», projecto de Manel Cruz. «Ninguém é quem queria ser».
Do álbum «O amor dá-me tesão/Não fui eu que estraguei» [2008].

Bom Carnaval, hoje e sempre.
Amen.
[Porque não é preciso dizer mais nada.]

© [m.m. botelho]

10.2.13

instantâneos [53]


«Hampstead, London» [1956]
© Bill Brandt [1956]. MoMA Collection.
[visto aqui]

«tens tanto a aprender»

Há duas semanas, mais dia, menos dia, eu explicava ao meu sobrinho-afilhado-maravilha por que razão ele deveria beber leite e não água (a sua bebida favorita) ao lanche.

Eu - «Quando temos sede, bebemos água, mas quando precisamos de alimentar-nos, devemos beber leite. Ora, se estamos a lanchar e o lanche é uma refeição, devemos alimentar-nos, por isso, é melhor bebermos leite. Bebemos água não para nos alimentarmos, mas para nos hidratarmos e para matarmos a sede, compreendes?»
F. - «Sim. [passam uns segundos] Mas o Pedro, o Abrunhosa, diz que o corpo... o corpo é que mata a sede.»

Não soube o que lhe responder imediatamente. Tentei explicar-lhe que, nas canções, o Pedro usa linguagem poética e que a poesia é uma forma mais elaborada e simbólica de expressão, diferente da que eu estava a usar na minha explicação sobre a água. O F. levantou os olhos, olhou para mim, fez que "sim" com a cabeça, eu sem saber muito bem como lhe explicar o que é a poesia e o simbolismo, eu a sorrir pelo cuidado dele em explicar-me que "o Pedro" era "o Abrunhosa", eu a pensar naquela frase, "o corpo é que mata a sede", eu uma vez mais surpreendida pela memória e capacidade de raciocínio do F..

Até então, eu não sabia, mas o Pedro, o Abrunhosa, diz mesmo numa canção que "o corpo mata a sede". E assim se demonstra, para lá de qualquer dúvida, que aquele miúdo de quatro anos pode ensinar umas coisas, poéticas e simbólicas (ainda por cima!) a esta miúda de trinta e dois. É mesmo como diz o Pedro, na mesma canção: «tens tanto a aprender».

© [m.m. botelho]

eu

[m.m.b.]
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