30.7.09

ortograficamente incorrecto

Daquilo que me tem sido dado a ler, creio que o jornal i tem melhorado bastante desde o seu lançamento, quer no que respeita à pertinência, diversidade e actualidade das notícias, quer no que toca à qualidade escrita dessas notícias. Todavia, volta e meia os artigos são publicados com erros ortográficos, por vezes até nos títulos, mas como se não chegasse isso para conferir uma marca de desleixo à publicação, tudo se agrava quando os mesmos erros são repetidos.
É o caso do termo «discriminação», que na versão online do jornal aparece frequentemente escrita com «e», como aconteceu numa entrevista a Gabriel Olim publicada hoje («Gays que não se assumam devem ser processados»).

[clicar para ver melhor]

Ora, o termo «descriminação» existe (refere-se a deixar de considerar determinado acto como um ilícito criminal, "des-criminar") e por isso não é corrigido pelos correctores ortográficos automáticos, mas tem um significado bem diverso de «discriminação».
Já vai sendo tempo de este erro ser banido, mais que não seja, da imprensa escrita, onde o mínimo que se espera é que os artigos sejam... ortograficamente correctos.

© Marta Madalena Botelho

24.7.09

desinformação

O «Jornal de Negócios», na sua versão online, publicou ontem uma notícia («Paulo Azevedo abandona jantar devido a atraso do primeiro-ministro») que dava conta de que Paulo Azevedo, presidente da Sonae SGPS e filho do empresário Belmiro de Azevedo, abandonara um jantar de negócios. De acordo com o título da notícia, o abandono teria sido motivado pelo atraso do Primeiro-Ministro.
Se assim fosse, na minha perspectiva o gesto só seria de louvar, já que a cultura do atraso deveria ser erradicada de todo o Portugal, com maior urgência nas áreas da saúde, justiça e dos negócios. Por vezes, abandonar os eventos é a única forma de protesto em face das demoras e é pena que não se recorra a essa atitude mais vezes.
Sucede que da leitura da notícia não se conclui o que é afirmado no título. Segundo as declarações de Paulo Azevedo que foram transcritas no corpo do artigo, o empresário só poderia estar presente até às 23h00. Quer isto dizer que sempre se ausentaria do jantar se ele se prolongasse até depois dessa hora, independentemente do atraso de José Sócrates ou mesmo do atraso do decurso do evento. Em suma, o motivo do abandono de Paulo Azevedo não foi o atraso do Primeiro-Ministro, mas sim uma impossibilidade de agenda.
Perante a notícia do «Jornal de Negócios», o leitor fica sem saber qual o objectivo de um título que induz em erro, mas de uma coisa passa a ter a certeza: ler as parangonas exige redobradas cautelas e muito do que é escrito na imprensa é, afinal, desinformação.

[Também publicado em PnetCrónicas.]

© Marta Madalena Botelho

20.7.09

uma mulher na lua

Quando era adolescente, passei muitas horas da minha vida a ouvir e a cantar «Man on the moon», dos R.E.M.. Na altura acreditava que um dia alguém poria uma mulher na Lua, só para equilibrar as coisas, porque afinal de contas o fato de astronauta que se ajusta para um corpo masculino também se ajusta para um feminino. Entretanto, deixei de ser adolescente, há muito tempo que não ouvia esta canção e não consta que nos últimos quarenta anos (nem antes) eles tenham posto uma mulher na Lua.
Quando penso nisso fico triste, porque tudo poderia ter sido diferente. Uma mulher nunca daria calinadas na gramática ao pousar o pé na Lua, como fez o Armstrong há quarenta anos quando se esqueceu de dizer o artigo definido antes do «man». Se eles tivessem posto uma mulher na Lua, a estas horas eu poderia estar simplesmente a ouvir esta canção dos R.E.M. e a recordar-me dos meus bons velhos tempos do liceu, em vez de me pôr a fazer a análise morfológica da frase do Armstrong. Mas não, tinha de ser um homem. Ainda por cima, um que não dominava por aí além a gramática das frases que ficam para a História.


REM. «Man on the moon».
Do álbum «Automatic for the people» [1992].

© Marta Madalena Botelho

«para o infinito e mais além»

Há quarenta anos um homem aterrava na Lua. Com ele, a Humanidade inteira pisava o solo inanimado de todos os sonhos.

A 16 de Julho de 1969, a equipa constituída pelos astronautas Neil Armstrong, Buzz Aldrin e Michael Collins partiu em missão espacial a bordo da nave «Apollo 11». Quatro dias depois, a 20 de Julho, Armstrong era o primeiro ser humano a pousar o pé na Lua. O momento foi encarado como um ponto de viragem do domínio do Homem sobre o espaço, mas mais do que isso, sobre o desconhecido.

A paisagem revelada pelas filmagens e fotografias é de um desolamento completo. A poeira cobre uma extensão a perder de vista, entrecortada aqui e ali por crateras. Tudo é de um cinzento uniforme e quente, excessivamente quente. A luz, recebida apenas do sol, é escassa. Nenhum atributo, portanto, que lhe dê ar de ser um sítio muito hospitaleiro. A Lua é, provavelmente, o local mais adverso já visitado pelo Homem e é, simultaneamente, o que maior fascínio exerce sobre ele.

Durante milénios, concedemos à Lua lugar cimeiro entre os astros. Era ela quem regia os períodos de fertilidade das mulheres e da Terra, a gestação, o parto, a personalidade, a agricultura, as marés, a pesca e, segundo alguns, até o modo como os cabelos e as unhas crescem. Afundado na sua pequenez, encolhido nas suas limitações, o Homem venerou a Lua a partir da Terra. Observou-a, estudou-a, interrogou-se sobre ela, mas nunca foi capaz de lhe tocar. Por isso, independente e mais importante do que todas as suspeições sobre a veracidade do facto de um par de astronautas ter pisado, realmente, o solo lunar, é o impacto que o acontecimento teve na Humanidade e o seu significado.

A partir de então a barreira era apenas o infinito, ou seja, nenhuma. O Homem sentiu ter superado os seus limites físicos, todas as distâncias, a própria imaginação. Depois do domínio da Terra e do Ar, restava o Espaço. Depois do Espaço, não restava nada. Ou melhor, restava tudo, porque tudo era possível.

A chegada à Lua transportou o mundo que conhecíamos para uma nova dimensão e revelou-nos a capacidade - que até então desconhecíamos - de chegarmos ao local de todos os sonhos. Foi só o começo da aventura. Dali partimos, como dizia o desenho animado Buzz Lightyear - mesmo que seja matematicamente impossível - «para o infinito e mais além».

[Também publicado em PNETcrónicas.]

© Marta Madalena Botelho

10.7.09

(ainda) michael jackson: para lá do grotesco

O texto que segue é uma espécie de comentário ao comentário do Manuel S. Fonseca ao meu comentário à crónica que ele escreveu. Pareceu confuso? Não é. Eu escrevi uma crónica, o Manuel escreveu outra, eu comentei a crónica do Manuel (é só espreitar no fundo da página da crónica), o Manuel respondeu com este texto, e assim chegámos aqui.

O texto-resposta do Manuel trouxe-me à memória um episódio do meu passado. Certa vez, em conversa sobre correcções dentárias, alguém me pediu encarecidamente que, caso alguma vez eu viesse a usar um aparelho ortodôntico, corrigisse tudo o que entendesse, excepto o desalinho que apresenta um dos meus incisivos centrais inferiores. Quando perguntei porquê, respondeu-me que aquele pormenor, aquela imperfeição, era belo e que, por isso, não deveria ser apagado. Na altura esforcei-me por acreditar que as palavras eram movidas pelo afecto que vivíamos à época (entretanto extinto), mas sei-o bem (já na altura como agora o sabia) que não. Tratava-se, precisamente, de uma verbalização dessa consciência de que há pormenores – imperfeições – que nos tornam humanos, como diz o Manuel S. Fonseca na sua última crónica. E tudo porque a perfeição não é da nossa natureza e é bom que estejamos todos cientes disso.

Seja como for, nunca corrigi o tal desalinho. Acho graça ao pormenor, do mesmo modo que me habituei a descobrir beleza nas marcas da varicela, nas sardas, nas manchas senis que a idade imprime na pele. E não sei se já disse aqui, mas tenho um fraquinho por narizes imponentes. Daqui se conclui que eu não ando distante da interpretação de que uma boa parte da beleza dos homens reside na sua imperfeição. É também essa imperfeição que torna cada um de nós distinto dos demais e se há coisa que eu aprecio tanto como a liberdade é a autenticidade.

Haverá muitos modos de abordar a imperfeição, haverá muitos tons, haverá muitos contextos, haverá muitos pontos de partida. Subscrevo, por isso e em absoluto, a ideia adiantada pelo Manuel de que, ao lerem a crónica de Henri-Lévy, todas as pessoas lerão a mesma coisa, mas não da mesma forma. Talvez a nossa divergência de interpretação do texto de Henri-Lévy venha daí - o que me parece uma crítica, ao Manuel parece um louvor; o que me parece uma conotação negativa, ao Manuel parece positiva; o que me parece um mau final, ao Manuel parece uma chave-de-ouro. Como é consabido, não há uma única lente para ver o mundo, pelo que todas as representações serão admissíveis. Resta a cada um defender a sua dama.

O que me perturbou na leitura da crónica de Henri-Lévy foi o modo como toma por adquiridos factos que, além de carecerem de fontes, foram sistematicamente desmentidos. Dou a mão à palmatória: é muito provável que eu dê demasiado relevo aos factos e ao rigor e que isso se note bastante. Peço, pois, que nesse aspecto me seja concedido o desconto devido a quem padece de uma degeneração profissional. Admito que me importo imenso com a verdade, porque a concebo como uma relevante parte da ideia de justiça e a justiça é-me muito cara. Se isso me leva a pôr em causa o que é posto em causa (ou seja, desmentido) é porque estou acostumada a ver sempre duas versões da mesma história, o que quase nunca é bom, já que indicia que uma das partes está a mentir e eu não tenho uma relação lá muito amistosa com a mentira (e às vezes em meu prejuízo). São, digamos, os meus «ossos do ofício». Ademais, esta ideia é adensada pela minha firme convicção de que Wilde (e logo Wilde!) poderia igualmente ter dito «É monstruoso ver como, nas nossas costas, as pessoas dizem de nós coisas inteira e absolutamente falsas», porque se há domínio em que, por excelência, é frequentíssimo assistir a observações pouco rigorosas (tanto para o bem como para o mal), é o da apreciação do Outro. Todos sabemos que uma palavra (um boato, se preferirmos) pode construir ou destruir uma reputação num ápice.

Claro que alguém com esta perspectiva crua das coisas dificilmente poderia ter uma visão hagiográfica de Michael Jackson, pelo que neste ponto rebato o que afirmou o Manuel. Não creio ter-lhe cantado quaisquer loas, a não ser que assim se considere a minha referência ao seu papel na história da música ocidental e ao seu talento como intérprete/bailarino/inovador/universal. O que escrevi mantenho, porque nisso Michael Jackson é mesmo o que eu disse que ele era: ímpar e genial, já que não usei outro adjectivo para o qualificar que não estes. Quanto a mais, pouco me importam os pecadilhos de Jackson, se fez ou não sexo para conceber os filhos, se tomava ou não drogas para anestesiar a dor física, se fez duas ou mil operações plásticas. Procuro respeitar a palavra das pessoas (neste caso, de Jackson), principalmente quando não há provas substanciais de que estejam a mentir. O que me importa (e incomoda), e muito, é esta tendência (demasiado) humana de nos atermos (demasiado) ao estranho, ao misterioso, à imperfeição. Ainda que tenha de gastar fortunas em incenso, dificilmente a compreenderei. Continuo a achar que o grotesco tem o seu papel a desempenhar, mas que está longe de ser o protagonista da história.

[Também publicado em PnetCrónicas.]

© Marta Madalena Botelho

8.7.09

digno de tablóides no seu melhor

Bernard Henri-Lévy publicou hoje, no jornal "i", uma crónica intitulada «As três estações da via-sacra de Michael Jackson». O artigo, ao invés de filosófico e reflexivo, como tem pretensão de considerar-se, é digno de tablóides no seu melhor.

Praticamente toda a informação nele contida é falsa. E como sabemos que é falsa? Em primeiro lugar, porque foi veiculada por um certo tipo de comunicação social que jamais primou pela lisura e pela objectividade. Depois, porque nunca foram sequer indiciadas as fontes de tais informações (como poderiam, se as mesmas são falsas?). Por último, porque foram sistematicamente negadas pelo próprio Michael Jackson em vida.

Estes "boatos" que distorcem a realidade foram ainda negados por outras pessoas envolvidas, como, por exemplo, os médicos do cantor. Com efeito, não há sequer um médico (ou uma clínica) no mundo que confirme e tenha provas de ter realizado uma operação cirúrgica a Michael Jackson para além das duas - ao nariz e de reconstrução aquando do incidente que lhe provocou queimaduras graves durante a gravação de um anúncio da «Pepsi» - que o próprio sempre admitiu ter feito.

O tão falado facto de o tom de pele do cantor ter mudado ao longo da vida não tem nada de extraordinário, ao contrário do que a crónica de Henri-Lévy, tal como tantos outros artigos mal-intencionados, pretende dar a entender. A razão afecta 2% da população mundial e chama-se Vitiligo, é uma doença de pele não-contagiosa que se caracteriza pela perda da pigmentação da pele e tanto Jackson como os seus médicos afirmaram que o cantor padecia dela. Michael Jackson tentou ocultar a doença durante um longo período da sua vida e fê-lo enquanto a maior extensão da sua pele não estava ainda despigmentada. A partir de certa altura, praticamente todo o rosto foi afectado pela despigmentação, o que levou Jackson a optar pela maquilhagem (indispensável para proteger quem tem a doença) de tom mais claro. Isto justifica também o tom "de porcelana", característico dos doentes com Vitiligo, bem como as máscaras, já que a doença aumenta em larga escala o risco de cancro de pele.

É também por isso que as acusações de ódio racial de que Jackson foi alvo são apenas uma tentativa de denegrir a sua imagem, já que, inegavelmente, ele fez mais pelos negros na história da música do que anos e anos de blues e jazz. Os mais atentos certamente não precisarão de recordar «They don’t care about us» (curiosamente, uma canção também usada para distorcer as verdadeiras intenções do cantor) para confirmar o enorme comprometimento de Jackson com diversas questões sociais controversas.

A referência à câmara de oxigénio onde, supostamente, o cantor dormia só pode ser considerada leviana, já que foi desmentida pelo próprio (como se o ridículo não bastasse já para a pôr em causa!). Quanto ao formato do rosto e às mudanças que o mesmo foi evidenciando ao longo do tempo, compare-se com o de sua mãe e talvez as diferenças não sejam assim tão grandes (mesmo no que toca ao nariz).

Outro aspecto incompreensível da crónica de Henri-Lévy é a afirmação que Jackson tinha horror ao ser humano. Ele, como nenhuma outra figura pública da sua dimensão (haverá alguma, além de Madonna?), sempre se quis rodeado de gente. Escolheu as crianças porque não o criticavam, porque não o viam como objecto a explorar para fazer dinheiro às custas de fotografias ou como um bom alvo para uma difamação através de um artigo de jornal. Escolheu o seu mundo (Neverland) porque só ali se sentia em paz, longe dos olhares curiosos e maldosos que em tudo o que fazia buscavam oportunidade para o acusar, criticar, atingir. Quem poderá censurá-lo por isso?

Sobre a concepção dos filhos, todos parecem saber mais do que o próprio Jackson e a mãe das crianças. Mesmo não tendo que o fazer (chega a ser ofensivo pôr a questão em causa), ambos afirmaram repetidamente que as crianças foram concebidas naturalmente, através de relações sexuais. De resto, não consta que o cantor tivesse algum problema nesse aspecto, atendendo a que foi casado duas vezes e outros relacionamentos mais ou menos sérios lhe foram conhecidos.

Em suma, de uma ponta à outra, a crónica de Henri-Lévy está baseada em inverdades e afirmações nunca confirmadas, em menções infundadas, em considerações que roçam o insulto, daquelas que o hábito de ler em certo tipo de "imprensa" já quase nos anestesiou a indignação, mas que não deixam de ser chocantemente lamentáveis quando publicadas noutros suportes e subscritas por certos nomes.

Michael Jackson, como todos os seres ímpares e geniais, será sempre um bom tópico de reflexão sobre o ser humano, especialmente no que respeita à possibilidade de ultrapassar a própria dimensão da materialidade e da temporalidade e de se tornar eterno. Por isso, a maior evidência do tremendo erro em que incorreu a crónica de Henri-Lévy é a frase com que a mesma termina. Afirmar que alguém como Michael Jackson morre só pode ser visto como ingenuidade. Uma ingenuidade de certo modo só equiparável à crença em todas as incorrecções em que o resto do texto se ancorou.

[Ver e ouvir: Michael Jackson. «They don't care about us». 1996. Versão não censurada (contém cenas de violência).]

[Também publicado em PnetCrónicas.]

© Marta Madalena Botelho

7.7.09

a mim também me incomoda

cartoon de José Bandeira no DN de 03/07/2009 sobre este assunto

3.7.09

fidelidade

Certo dia, por acaso, enquanto espreitava a grande janela da internet, ela encontra um blogue. Não sabe porquê, mas não resiste a lê-lo de fio a pavio. Na barra lateral procura, ansiosa, um endereço de correio electrónico e naquela noite escreve ao autor explicando-lhe como desenvolveu uma afinidade intelectual consigo. Ele responde, usando o mesmo tom de fascínio pelo e-mail dela: a prosa tão igual, tantos pontos em comum, tantos gostos similares! Segue-se uma intensa troca de e-mails repletos de palavreado inflamado e recheado de segundos sentidos.
Passado algum tempo, ele sugere que se encontrem ao final da tarde, num café pacato, mas trendy, ou, em alternativa, nos jardins de um museu. Bebem cafés, comprometem-se um com o outro sem dizer palavra, desejam-se. Pouco tempo depois, cautelosamente, escolhem um hotel - local neutro, para que as memórias sejam apenas ténues e se desvaneçam com o tempo. Vão para a cama um com o outro e gostam.
Ensaiam ambos uma despedida necessariamente rápida - ao estilo do cinema francês - o que tem muito maior impacto porque, pelo menos, um deles é casado. Reparam agora que, sobre isso, do outro nada sabem, mas com os lençóis ainda amarrotados sobre a cama não lhes parece o momento adequado para questões do género. Talvez por e-mail a pergunta venha a surgir, depois.
Em direcções opostas da mesma rua, um faz o caminho para casa a pé, o outro apanha um táxi. Ambos dão por si a reparar nas luzes da cidade onde entretanto anoiteceu.
Nos dias que se seguem, a afinidade diminui, o entusiasmo esmorece, o encanto some-se, os e-mails rareiam. Há um rosto do outro lado do monitor e algumas ideias pré-concebidas estavam a anos-luz da realidade. Agora há a consciência disso, que antes era uma mera possibilidade que se acreditava remota. Lembram-se que certo dia foram para a cama um com o outro, mas hoje parece-lhes terem gostado menos do que lhes pareceu na altura.
Um dia, as visitas aos blogues um do outro passam de escassas a nenhuma. Mesmo assim, ele não apaga o link do blogue dela, ela não apaga o link do blogue dele. Foram para a cama, talvez não tenham gostado assim tanto, mas não apagam dos respectivos blogues o link do blogue do outro.

De certo modo, é isto a fidelidade na blogosfera. Aliás, talvez seja mesmo só isto.

© [m.m. botelho]

2.7.09

demencial

Que, em Portugal, a elevação verbal não era propriamente o forte nos debates parlamentares, já se sabia à saciedade. O único reduto do bom senso parecia ser o da linguagem corporal dos deputados e do governo, mas a partir de hoje até isso mudou.
Em pleno debate quinzenal sobre o estado da nação, após a interpelação feita por Jerónimo de Sousa sobre a situação das Minas de Aljustrel, e durante a resposta do Primeiro-Ministro, após Bernardino Soares, à margem dos microfones, ter dito que Pinho teria ido à vila alentejana «dar um cheque», o Ministro da Economia, Manuel Pinho, dirigindo-se à bancada parlamentar do Partido Comunista, imitou, fazendo uso dos dois dedos indicadores e da sua própria cabeça, dois chavelhos apontados na direcção do líder parlamentar do PCP.
Os que acompanhavam o debate em directo e são mais incrédulos, como eu, ainda tentaram admitir que Manuel Pinho estava a imitar um Teletubbie ou a dizer que o que lhe apetecia mesmo era comer espetadas, mas dando-se o caso de não haver crianças na câmara da Assembleia da República e ser ainda hora do lanche, parece pouco provável que assim fosse.
O momento foi captado em fotografia (a que ilustra este texto é de Nuno Ferreira Santos para o Público) e em vídeo e rapidamente difundido pela internet e não deixa muita margem para dúvidas. Resta perguntar o que terá passado pela cabeça do Ministro da Economia, para além dos evidentes chavelhos. Um momento, no mínimo, demencial.

[Também publicado em PnetCrónicas.]

© Marta Madalena Botelho

eu

[m.m.b.]
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