10.5.09

as razões de veronica

Silvio Berlusconi não é um homem qualquer, nem no modo de fazer política, nem na aparência, nem no modo como se expressa e muito menos no branco lívido da dentição. Oscila entre o excessivo e o disparatado, entre o indiscreto e o ofuscante, entre o piroso e o inconveniente. Não podia esperar-se que o seu divórcio fosse nada menos do que aparatoso.

Berlusconi faz questão de propagandear aos sete ventos que aprecia mulheres bonitas. Até aqui, nada de anormal nem de novo, não fosse o modo como o faz. Berlusconi é mais do que óbvio, é ostensivo na afirmação do facto, de tal forma que o mundo inteiro dele tem conhecimento e sabe até quem são as suas preferidas.

Veronica suportou tudo isto (e, quem sabe, algo mais) em silêncio durante cerca de trinta anos. Provavelmente, mentalizou-se de que tinha um marido mulherengo e deixou os dias e a tinta dos jornais correrem. É intrigante, por isso, que tenha vindo agora, alegadamente por causa das vinte e cinco beldades que Berlusconi e o seu partido escolheram para integrarem as listas como candidatas ao Parlamento Europeu, dizer que quer divorciar-se. Terá Veronica temido que Silvio se antecipasse a ela nessa intenção? Terá Veronica encontrado um novo amor? Ou estará Veronica, simplesmente, farta do modo como o marido se revela insensível perante a vergonha e humilhação que ela sofre sempre que as eleitas de Silvio têm direito a mais umas parangonas?

Ninguém sabe e, prevê-se, ninguém saberá, até porque após a bombástica revelação tanto o Primeiro-Ministro italiano como a sua (ainda) mulher se remeteram ao silêncio e não parecem muito dispostos a alimentar curiosidades.

Porém, Berlusconi, mais do que todos os adjectivos com que o caracterizei no início deste texto, é imprevisível e o desfecho desta história parece distante e afigura-se rocambolesco. Recostemo-nos, pois, na cadeira porque, como o velho Silvio já nos habituou, os melhores (e mais belos) episódios, com certeza, ainda estão para vir.

[Também publicado em PnetCrónicas.]

© Marta Madalena Botelho

3.5.09

a multidão é perversa

Há momentos da nossa vida que nunca haveremos de esquecer. Não estou a referir-me a datas em que fizemos coisas importantes como, por exemplo, o dia em que acabámos o curso ou nos casámos, mas a acontecimentos que teriam tudo para serem do mais corriqueiro que possa imaginar-se mas que, contra todas as probabilidades, se tornaram marcantes.

Um desses momentos foi a minha primeira aula de Filosofia. Eu tinha quinze anos e à minha frente estava uma das professoras mais brilhantes de quem tive o privilégio de ser aluna e que tinha por hábito não mostrar os dentes nas aulas, muito menos na primeira. Aquela professora tinha por costume – há já vários anos - inaugurar o ano lectivo escolhendo uma vítima a quem colocava uma questão, vítima essa que, invariavelmente, era o desgraçadinho que respondia pelo seu número favorito, o doze.

Naquele ano eu era a tal desgraçadinha. A professora, do alto dos seus metro e oitenta, escreveu no velho quadro de lousa preta uma frase: «a multidão é perversa». Depois, olhando-me sobre os óculos, disse: «Explique, por favor».

Não me lembro exactamente do que pensei, mas sei que me senti ruborescer. Seguiu-se um profundo silêncio apenas entrecortado pelo som abafado das pancadas que a professora dava com o ponteiro no estrado enquanto percorria toda a extensão da sala. Eu bem que engolia em seco, lia e relia a frase escrita no quadro, olhava para o tampo da secretária, para a porta da sala, para as fissuras da parede, mas da minha boca não saiu qualquer som.

Estivemos naquilo uma enormidade de tempo até que, quando faltavam cinco minutos para soar a sineta, a professora perguntou: «Número doze, sabe ou não sabe explicar o sentido daquela frase?». Eu, num misto de alívio e de vergonha, respondi que não, que não sabia. Entre dentes, do estrado soou um «Já podia ter dito», mas ninguém se atreveu sequer a sorrir. No fundo queríamos todos saber o que era isso da Filosofia, o que raio queria dizer «a multidão é perversa» e como se lidava com uma professora que era capaz de nos deixar em suspenso durante quarenta e cinco minutos.

Em duas penadas ficámos elucidados: «Quando inseridas em grupos grandes, principalmente em grupos que lhes permitam manter o anonimato, as pessoas fazem coisas que jamais fariam se estivessem sozinhas ou em grupos pequenos.» Depois perguntou: «Percebeu, número doze?». Eu, a voz quase sumida, lá respondi a medo que sim. A aula terminou com uma exortação que, se mergulhar dentro da minha cabeça, quase consigo ouvir: «Então se percebeu, veja lá se nunca mais se esquece, está bem?».

Eu nunca mais me esqueci, como está bom de ver, e não apenas porque a minha memória para isso contribuiu mas, principalmente, porque a vida se encarregou de mo lembrar inúmeras vezes.

Ainda esta semana me recordei de que a multidão é perversa porque, nas manifestações do 1.º de Maio, num país que ainda há menos de uma semana comemorava a liberdade e a democracia a propósito de uma revolução que teve de excepcional o facto de ser pacífica, um cabeça-de-lista de um partido numas eleições foi insultado e agredido de forma vil e cobarde. Na verdade, como poderia esquecer-me de que a multidão é perversa se, num país que se diz um Estado de Direito, há quem pratique estes actos e ache que daí não vem grande mal ao mundo (porque no fundo ele até merecia umas boas bordoadas pelo que fez) e fique de bem com a sua consciência, no conforto de que está oculto numa turba que lhe garante o anonimato?

De facto, dificilmente poderia esquecer-me de que a perversidade da multidão é o somatório da perversidade de cada um de nós, que continuamos a encolher os ombros e a fingir que não é nada connosco sempre que episódios destes acontecem.

[Banda sonora: The Doors. «People are strange». Do álbum «Strange days». 1967.]

[Também publicado em PnetCrónicas.]

© Marta Madalena Botelho

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