30.11.11

tom sawyer

© «Google»
[o doodle da «Google» de 30.11.2011]

A 30 de Novembro de 1835 nascia Samuel Langhorne Clemens, que adoptou o pseudónimo de Mark Twain. Até o «Google» o homenageou, com um doodle onde estão representadas as personagens "Tom Sawyer" e "Huckleberry Finn".

O primeiro livro - digno de assim ser chamado - que me lembro de ter lido foi, precisamente, «As aventuras de Tom Sawyer». À época, passava também na televisão uma série sobre o sobrinho da Tia Polly.

Tom Sawyer foi uma personagem que nunca esqueci. Lembro-me dos seus castigos, principalmente do de pintar a cerca, da sua ousadia de fumar cachimbo às escondidas, das descidas perigosas do rio em jangadas construídas com muito mais fé do que jeito, da liberdade que reclamava por não querer usar sapatos, das maçãs que roubava nas árvores por que passava.

Cada um à sua medida, pelo menos eu, à minha maneira, quis ser, fui e continuo a ser "Tom Sawyer". Provavelmente por isso o livro me tenha ficado na memória e o tenho lido várias vezes (três vezes seguidas mal entrei em contacto com ele).

Bom, quem nunca se escondeu atrás de muro para atirar pedrinhas aos gatos que atire a primeira pedra. Eu, está visto porquê, não posso atirar. E parabéns ao seu criador.

© [m.m. botelho]

instantâneos [41]

© Fábio Candeias
[visto aqui]

25.11.11

os mortos não jogam às cartas

A Senhora que me apelidou de "lasca" foi ontem a sepultar. Não é que não soubessemos todos que estava muito doente há algum tempo e que o desfecho não fosse previsível, mas uma morte é sempre o que é: uma perda irrecuperável, onde, como cantam os «Xutos & Pontapés», "não há tempo".

A família desta Senhora tem o seu jazigo-capela construído ao lado do jazigo-capela da minha família. O meu Avô costumava brincar com o marido dela e dizer que, quando morressem ambos, visto serem "vizinhos", sempre poderiam entreter-se e jogar às cartas.

Não sei se a Senhora D. M. saberá jogar às cartas. Todavia, como herdei do meu Avô esta mania de brincar com tudo, até com a morte, ontem disse à minha Mãe que, pelo sim, pelo não, o melhor era hoje levar para o nosso jazigo-capela um baralho de cartas.

Claro que o que o meu Avô dizia era um disparate, porque os mortos não jogam às cartas, mas tanto a minha Mãe como a minha Avó, que estava a ouvir a conversa, se lembraram imediatamente do que o meu Avô costumava dizer e sorriram.

É por isso que, da próxima vez que eu for ao cemitério, me vou abeirar do jazigo-capela da família da Senhora D. M. e dizer, em voz baixa, junto à grande porta de vidro: «Olá, D. M.. Aqui estou eu, a "lasca"! Vim visitá-la.», piscando o olho na sua direcção. Quem sabe a D. M., onde quer que esteja, não sorri também? Pelo sim, pelo não.

© [m.m. botelho]

23.11.11

isto não parece, mas também é um texto sobre moda

Embora isto me custe horrores a admitir, consta que eu e o Professor Doutor Marcelo Rebelo de Sousa teremos, alegadamente, alguns pontos em comum: somos ambos juristas, somos adeptos do Sporting de Braga, dormimos poucas horas por noite, dizemos bastantes disparates quando nos pomos a falar sobre Direito Penal, lemos bastante e gostamos de usar gravatas azuis.

Agora que o quadro ficou profundamente negro, posso desmentir os factos enunciados em segundo, quarto e sexto lugares, visto que eu nem sei muito bem o que é ser adepta de um clube mas gosto muito do Sporting Clube de Portugal, digo bastante menos tolices do que o Professor Marcelo quando falo de Direito Penal (sigo a regra básica de não falar do que não domino) e não gosto nem uso gravata, seja de que cor for, até porque não assenta bem no meu estilo de rapariga jovem e urbana "hype", "cool", "fashion", "whatever you want to call it because I don't give a damn", como facilmente se compreenderá.

Isto tudo para dizer que durmo pouco e, consequentemente, como não consigo estar mais do que dois ou três minutos parada e na mesma posição a não ser que esteja a dormir (Freud que explique que eu agora não tenho tempo), tenho bastante tendência para ocupar as horas em que o Senhor Morfeu não me quer por sua conta a ler, a estudar, a investigar e a fazer o que me dá na real gana, visto que só há uma TV em minha casa, só tem quatro canais e eu não tenho pachorra para estar sentada ou deitada a olhar para ela (geralmente, quando a tenho ligada, estou também a ler ou no computador) e evito ligá-la depois da meia-noite e meia, a não ser ao sábado, se algum filme da «Sessão Dupla» da RTP2 me interessar e eu estiver por casa (isto eu explico, não é preciso Freud: chama-se "autodisciplina", que é uma coisa que custa imenso, mas tem de ser).

Assim sendo, em algumas dessas horas em que não estou a dormir, passo os olhos por uma variedade enorme de tipos de escrita, entre as quais blogues, claro, e não cesso de me espantar com uma relativamente recente tipologia - vou chamar-lhe assim - de blogues que surgiu e que são os das "dicas para a poupança e para a organização das casas e dos locais de trabalho", tudo com vista a combater a crise e a ter mais uns trocos no bolso, por poucos que sejam, no final do mês.

E não cesso de me espantar com a quantidade de aparentes "novidades" que por ali vejo serem referidas, como grandes descobertas de poupança, em pleno século XXI, como se ainda fosse possível descobrir alguma coisa no século XXI, ainda para mais relacionada com a economia e o capitalismo e afins, mas está bem. Passo a exemplificar:
- comprar garrafões de água e reencher em casa as garrafas que se levam para o trabalho ou se usam nas malas fica mais barato do que comprar garrafas pequenas de água;
- comprar pão e fazer sanduíches em casa para o lanche fica mais barato do que ir lanchar ao café, do que comprar o lanche nas máquinas ou do que comer "barritas", bolachas e outros produtos pré-embalados que se compram no supermercado;
- usar os transportes públicos ou andar de bicicleta fica mais barato do que usar o carro;
- usar esferográficas de recarga fica mais barato do que usar canetas não recarregáveis;
e por aí fora, que o rol de exemplos poderia nunca mais ter fim, desde juntar uma caneca de água ao detergente líquido da máquina de lavar roupa para o fazer render até beber um enorme copo de água antes das refeições para ter menos fome, logo, comer menos, logo, poupar dinheiro na comida.

Todas estas "sugestões" me espantam, por dois motivos: ou porque são coisas que eu já faço há anos e que me foram incutidas desde sempre e não porque "veio a crise"; ou porque são coisas simplesmente absurdas e que não revelam intuito de poupança, mas uma avidez cega de não gastar dinheiro, seja a que custo for.

Acho graça (estou a ser irónica, claro) ao facto de haver tantos artigos em revistas, jornais e blogues com ideias que certamente jamais me ocorreriam (e eu sou muito imaginativa!) sobre "poupança". É que a maior parte dessas ideias são as chamadas ideias do "8", porque são impulsionadas pela crise, já que no resto do tempo, o português gosta de viver no "80", ou seja, como se nunca fosse existir um período menos farto na economia (eu devo ter sido a única alma que estudou Economia e Finanças neste país, eu, que nem sequer sou economista, e por isso devo ser a única que sabe que estes períodos são... cíclicos!). Ora, como a vida do português é vivida sempre no "80", quando chega a necessidade, é preciso ir para o "8", isto é, tomar medidas drásticas, "adicionar água ao detergente da máquina de lavar a roupa" (!) e disparates do género.

Pessoas que foram educadas como eu fui educada, sempre viveram com tudo o que precisaram, mas apenas com o que precisaram. Isto significa que sempre tiveram tudo, mas apenas na exacta medida das suas necessidades, tendo-lhes sido incutida a ideia de que o que não era necessário não deveria ser comprado e o dinheiro teria de ser poupado para alturas em que as coisas viessem a ser necessárias, mas não houvesse liquidez para as comprar. É por isso que uns têm de alterar radicalmente os seus hábitos de vida por causa da crise e outros não. E eu, felizmente, sou das que não tem de os alterar por aí além.

Continuo a comprar o que me é preciso, mas só o que me é preciso. Não poupo mais por estar em crise, poupo exactamente o mesmo que poupava, simplesmente porque eu sempre poupei o máximo que podia poupar (após feitos os gastos exclusivamente necessários aos meus confortos e às minhas necessidades).

Não posso dizer que não sinto os efeitos da crise. É óbvio que sinto, já que consigo poupar menos do que o que poupava e que, porque na minha profissão, dependo da procura e, simplificando a coisa, sou uma prestadora de serviços que, em muitas situações, não são serviços essenciais, a procura diminuiu, afectando os meus dividendos. Todavia, não precisei de alterar comportamentos meus por causa da crise, apenas tive de me adaptar à alteração de factores externos que escapam ao meu controle. Adaptar, que é como quem diz, aceitar, e ponderar e passar a desempenhar outras tarefas que me proporcionem outras fontes de rendimento.

Admito que me choca ler os comentários de pessoas dizendo que ideias como as que citei acima são óptimas e que vão já po-las em prática. Só me ocorre perguntar-lhes se a massa cerebral com que foram presenteadas lhes serve para alguma coisa, se nem para concluir que é mais barato reencher garrafas de água com água do garrafão do que comprar garrafas pequenas lhes serviu até que veio um iluminado e o escreveu num blogue. Imagino a alegria daquela gente quando vier o derradeiro messias anunciar-lhes que se reencherem as garrafas com água da torneira (que é potável!) fica ainda mais barato. Se calhar, nesse dia não comentam: têm uma apoplexia causada pela descoberta e finam-se logo ali. Espero é que se tenham informado previamente sobre o preço dos féretros. É que dizem por aí que até a corriqueira madeira de pinho está pela hora da morte. O melhor, mesmo, é começar a usar a técnica de reenchimento também para os esquifes. Usa-se só para o ofício fúnebre e depois, pelo sim, pelo não, enterra-se só o cadáver e guarda-se a urna em casa, não vá morrer mais alguém e ter-se outra despesa em que, literalmente, "se vai enterrar dinheiro sem retorno". Ah! Se eu comentasse nos blogues de poupança é que era!

Enfim, tudo isto para dizer que a maioria dos portugueses tem características nas quais não me revejo nada, nadinha e que me entristecem muito quando sou confrontada com elas e que a forma como os portugueses lidam com o dinheiro é uma delas pois, como já dizia a minha sábia bisavó Teodosa, «o dinheiro não tem ciência ganhá-lo, mas gastá-lo» e «o dinheiro não é de quem o ganha, mas de quem o poupa».

[Isto não é um post, é um lençol de palavreado. E pensar que tudo começou com uma comparação com o Professor Doutor Marcelo Rebelo de Sousa. Me-do.]

© [m.m. botelho]

«é muito difícil fazer um casal»

Pedro Lomba – «Casou bastantes vezes. Quantas?»
Vasco Pulido Valente – «Ah, não quero falar sobre isso.»
Pedro Lomba – «Não quer falar nem sobre mulheres?»
Vasco Pulido Valente – «Gostei sempre muito de mulheres em geral e em particular. Nunca tive problemas. Quer dizer, divorciei-me de algumas. Toda a gente se separa. A maior parte, devo dizer-lhe, não foi por minha iniciativa. [...] A única coisa que lhe posso dizer é que é muito difícil fazer um casal. Não basta as pessoas encontrarem-se, dormirem juntas, viverem juntas. É preciso outra coisa e isso é muito difícil de encontrar. Um entendimento tácito, um delight no outro, é muito difícil
Excerto da entrevista de Pedro Lomba a
Vasco Pulido Valente, feita a propósito dos 70 anos deste último,
publicada em 21.11.2011 no suplemento «P2», do «Público» [negritos meus].

21.11.11

como, por exemplo, a de coveira

Sabes que estás perto de alcançar um elevadíssimo estado de paciência e autossacrifício quando estás consciente de que terás uma semana q.b. atribulada [porque a tua agenda to "grita" de cada vez que a abres] e há alguém que, depois de te ter enchido os ouvidos com coisas que não interessam a ninguém em "repeat mode" numa reunião que poderia ter demorado 15 minutos mas demorou duas horas [e só terminou porque tu te levantaste da cadeira e vieste para as escadas numa óbvia mensagem de «está na hora de te pores a andar daqui para fora»], se despede de ti sorrindo e dizendo «bom fim-de-semana» como quem diz «gostei muito deste bocadinho».

É nesse momento que não consegues conter as lágrimas e choras abundantemente e te ocorre, por breves momentos, que talvez devesses ter escolhido outra profissão como, por exemplo, a de coveira, porque talvez mais valha estar rodeada de mortos que nada dizem, do que de pessoas que te desejam «bom fim-de-semana» com toda a descontracção do mundo... à segunda-feira.

© [m.m. botelho]

19.11.11

o que para uns é evidente, para outros é insondável

«S
ó não perde amigos
quem não se interessa pelas amizades».
Escrito pelo perspicaz Eremita no «Ouriquense».

Uma questão de sensibilidade. E de bom-senso, claro.

© [m.m. botelho]

16.11.11

simplesmente

Houve um tempo em que as pessoas parvas me irritavam profundamente. Depois, passaram a irritar-me ainda mais profundamente as pessoas que se fazem de parvas (mas não o são). Agora, nem umas, nem outras me irritam. Ambas, simplesmente, me metem dó.

© [m.m. botelho]

10.11.11

«quando são maus é porque são bons»

Quase vinte e cinco minutos depois de estar a tentar convencer-me a comprar um gadget que faz biliões de coisas e de eu ter desconstruído todos os seus argumentos com grande facilidade usando apenas três contra-argumentos, que são estes:
1. o gadget que eu ia à loja comprar (muito mais barato, claro) desempenhava as funções que eu queria (não biliões, mas as que eu queria) na exacta medida da minha necessidade;
2. eu não precisava da função "x" naquele gadget que estava a ser-me impingido porque já tinha outro gadget que a fazia;
3. apesar de gadgetfreak eu só faço bons negócios, já que, como qualquer gadgetfreak que se preze eu sei quando é que vai sair a nova versão daquele gadget e também sei se posso comprá-lo online por metade do preço da comercialização das lojas portuguesas;
a funcionária da loja vira-se para mim e enceta o seguinte diálogo:

Ela - Ok, já vi que não vou conseguir convencê-la. Posso fazer-lhe uma pergunta?
Eu - Além dessa que acabou de fazer?
Eu - Sim, além desta (e sorri; eu consinto com a cabeça).
Ela - A senhora é Advogada?
Eu - Sou, sim.
Ela - Logo vi.
Eu - E viu como?
Ela - Porque é osso duro de roer. É má.
Eu - Má, eu? Olhe, que não, olhe que não.
Ela - É má, por isso é que é boa.
Eu - Se explicasse o que acabou de dizer, eu cá não me importava nada.
Ela - Eu explico. Olhe, infelizmente, já precisei de Advogados duas vezes na vida. A primeira vez foi quando fui despedida da loja onde trabalhava antes desta e a segunda foi por causa de um acidente de viação que tive. Por isso, os meus conhecidos pedem-me muitas vezes conselhos quando precisam e têm de escolher um Advogado e o que eu lhes digo sempre é: escolhe um que seja mau, porque quando são maus é porque são bons. É o que eu costumo dizer às pessoas.
Eu - Olhe, não sei se hei-de considerar isso como um elogio. É que eu não acho que seja má.
Ela - Quando eu digo "maus" é daqueles que são duros de roer, daqueles que dão luta. Claro que é um elogio. Ganhou-me por 1-0. Não vai levar o que eu lhe queria vender, mas o que veio cá comprar. Tem dúvidas de que é um elogio?
Eu - Tirarei as dúvidas por completo quando me aparecer alguém no escritório que me diga que vai recomendado pela Senhora.
Ela - 2-0! Pronto! Ganhou-me por 2-0! Eu não digo que se vê logo? Eu bem digo!

Moral da história: Não te metas com uma Advogada gadgetfreak que é boa porque é má, porque acabas a perder 2-0. Ou isso, ou outra coisa qualquer que agora não me ocorre, mas alguma moral isto deve ter.

© [m.m. botelho]

a muralha da china e um grão de café

No que concerne às questões amorosas, o mundo poderia muito bem dividir-se entre os que dizem "as pessoas" e os que dizem "nós" quando falam do assunto, mesmo que não estejam a falar de si ou do que aconteceu consigo.

Há os que proclamam já ter amado muito, mas dizem sempre que "nessas situações, as pessoas isto" ou "as pessoas aquilo" e, depois, há os que admitem que não amaram tanto ou tantas vezes como isso mas dizem, com toda a naturalidade, "nenhum de nós gosta de sofrer por amor" ou "todos nós sofremos horrivelmente quando nos acontece isto ou aquilo".

O mundo poderia perfeitamente dividir-se entre uns e outros. É que entre uns e outros existe uma diferença abissal, tão grande como a Muralha da China no que diz respeito ao saber abraçar com as palavras e, provavelmente, tão pequena como um grão de café no que toca ao entendimento do que está em jogo. Sim, pela minha parte, não duvido que ambos compreendam, creio apenas que acolhem o tema e se expressam sobre ele de forma absolutamente diferente e é por isso que o mundo poderia perfeitamente dividir-se entre uns e outros.

© [m.m. botelho]

5.11.11

uma possibilidade de definição [2]

visto aqui

2.11.11

instantâneos [40]

© deep inhalation [2009]
[visto aqui]

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