26.8.10

escora

Costuma dizer-se que é nos momentos mais difíceis que ficamos a saber quem são os amigos, quem nos quer bem desde o coração, quem «está» de verdade e quem «só estava por estar». Não é tão frequente dizer-se isto, mas também é uma evidência: é nos momentos mais difíceis que ficamos a saber o quanto nos amamos, aquilo de que somos efectivamente capazes e as forças que realmente temos. Alguns descobrem que é menos do que pensavam, enquanto outros chegam à conclusão de que é mais, muito mais do que sequer imaginavam.

Já o pude constatar mais do que uma vez e, por isso, posso afirmá-lo sem hesitações: sou uma das felizardas que se incluem neste segundo grupo, uma das afortunadas que não só sobrevivem como ficam em pé depois dos terramotos. O que, não sendo absolutamente extraordinário, [me] revela algo maravilhoso e - porque não? - notável: eu é que sou a minha grande escora.

© [m.m. botelho]

24.8.10

ring ring

Dez da noite. Toca o telefone. Eu atendo. Do outro lado, a voz mais deliciosa do mundo a chamar por mim. Eu respondo, perguntando-lhe se está bom. Diz-me que sim. Como de costume, espero que um adulto surja do outro lado para me dar conta do real motivo da chamada, mas não surge. Pergunto-lhe se foi ele que ligou e ele responde que sim. Pergunto-lhe onde está a mamã e ele diz que está ali e corre a chamá-la. Chegado à outra ponta da casa, a mãe mira-o de telemóvel na mão e intriga-se. Pega no aparelho e vê que está estabelecida uma ligação. Pede-lhe o telemóvel, que ele faculta sem qualquer resistência. A mãe fala comigo. Diz-me que S. Exa., o seu querido bebé, fez, moto proprio e pela primeira vez, uma chamada telefónica, sem que ela ou o pai se tenham apercebido. Tem dois anos, dois meses e dois dias, o que é uma bela fórmula para memorizar o dia em que o meu querido sobrinho e afilhado nos demonstrou mais uma das suas inesperadas habilidades: sabe usar um telemóvel e entabula conversas como gente grande. Não, isto não é treta de tia e madrinha babada. É apenas a constatação de que o F. é uma criatura excepcional e surpreendente. Todos os dias.

© [m.m. botelho]

20.8.10

bênção

As vozes tranquilas, de pessoas igualmente tranquilas, terão sempre a capacidade de pacificar. Ouvi-las é um privilégio e uma bênção, especialmente em alguns estados de maior inquietude. Gestos destes não se agradecem, reconhecem-se pondo em prática o que se ouviu. Porque é assim que se mostra a alguém que foi capaz de nos tocar o coração e o fazer abrandar até ao ritmo sereno do qual tanto precisávamos.

© [m.m. botelho]

19.8.10

you can try, but it won't


The Beatles. «Can't buy me love».
Do álbum «A hard day's night» [1964].

17.8.10

constatação

Nos filmes, como na vida: todos os sacanas, todos os cretinos, todos os filhos da puta e todos os sem-carácter acabam por morrer. E muito mais depressa se forem tudo isto num só. Bang.

© [m.m. botelho]

16.8.10

dicionário

[clicar para aumentar]

Quando não tenho outro à mão ou preciso apenas, por exemplo, de uma sugestão de um sinónimo, recorro ao dicionário electrónico da Priberam. Na barra lateral direita da página aparece um quadro com as últimas palavras pesquisadas pelos utilizadores, que eu costumo espreitar e através do qual já aprendi alguns termos que até desconhecia. Entre os vocábulos pesquisados hoje aparece a palavra «amor», o que achei curioso.

A busca poderá ter sido feita por alguém que o sente, mas se vê incapaz de o definir. Até aqui, nada de especial. Acontece a todos, suponho, sentirmos o que não sabemos descrever, explicar, até compreender, mas admito que me comoveu que alguém tenha imaginado que um dicionário o poderia ajudar a fazê-lo. Nunca tinha pensado nisso, mas um dicionário pode até ser um bom ponto de partida para o entendimento. Isto, claro, se tivermos conseguido a parte mais difícil da coisa: um nome para dar ao que nos vai no peito.

© [m.m. botelho]

14.8.10

«will time make us wise?»


Lhasa de Sela. «Is anything wrong».
Do álbum «Rising» [2009].

is anything wrong?
oh love, is anything right?
and how will we know
will time make us wise?

13.8.10

canhotos

[A imagem é um achado da Inês Meneses, via Facebook.]

Importa assinalar a data de hoje - Dia Mundial do Canhoto -, porque embora se estime que os canhotos constituem somente 10% da população mundial, alguns deles são meus amigos e até a minha irmã é canhota. Ao contrário do que é comum pensar-se sobre os canhotos, a caligrafia da minha irmã é limpa, regular, mais desenhada do que a minha e indubitavelmente muito mais acessível à leitura, o que só prova que ter preconceitos, por mais insignificantes que possam parecer, é sempre, sempre ridículo.

© [m.m. botelho]

estrela-cadente

Nunca acreditei convictamente em fenómenos de sorte ou de azar. Tenho muita resistência em crer que atirar uma moeda para a Fontana di Trevi garanta um regresso a Roma, que oferecer dinheiro ao São João assegure um amante apaixonado, que depositar um óbulo qualquer na estátua em frente à Igreja de Santo António de Lisboa determine um pedido de casamento. Do mesmo modo, não vejo como particularmente assustadora uma sexta-feira 13, como a de hoje, um gato preto que atravesse o meu caminho ou uma escada sob a qual eu tenha de passar.

Se por outro motivo não for, que seja porque o desenrolar da vida demonstra à saciedade que nem todos tornam a Roma, nem todos encontram a cara-metade, nem todos sobem ao altar ou ao registo civil e quase todos escapam ilesos às sextas-feiras 13, porque uma sexta-feira 13 é um dia tão aziago para morrer ou sofrer um acidente como outro qualquer.

Já o mesmo não se passa com as estrelas-cadentes. Não sei se por serem um fenómeno mais raro, se por serem algo que depende do acaso e não de nós, se por serem tão rápidas e fugazes, mas o facto é que tenho simpatia pela ideia de que devemos pedir um desejo quando vemos uma estrela-cadente, naquele preciso momento em que ela rasga o céu, naquele segundo ou nem isso em que ela se torna visível aos nossos olhos e nos faz sentir especiais porque conseguimos avistá-la. Esta é, que me lembre agora, a excepção à minha regra do desinteresse pela sorte e o azar obtidos em função de gestos ou datas.

Esta madrugada, a Terra esteve no centro da passagem das Perseidas, pequenos meteoritos que, ao atravessar a atmosfera, dão origem ao que correntemente designamos estrelas-cadentes.

Por volta das duas da manhã (ainda não completas, mas perto disso), lá aconteceu que, na varanda de minha casa, olhei para o céu e vi uma fugaz estrela em movimento descendente aparecer e desaparecer no escuro. E de imediato pedi um desejo, em duas palavras, duas pequeninas palavras que me parecem concentrar o rumo que seria desejável que todas as vidas tivessem, ainda aquela estrela-cadente não se tinha perdido na noite.

Uma noite, o acaso, uma estrela-cadente, um desejo e, enfim, a confirmação de que aquela minha regra da descrença também tem a sua excepção. Porque nem tudo o que existe debaixo dos céus é racionalmente explicável, mesmo para alguém que, como eu, assume que não se importaria nada que fosse.

© [m.m. botelho]

instantâneos [3]


[Podemos sempre gravar por cima, mas a qualidade de som jamais será a mesma.]

© [m.m. botelho]

9.8.10

«save you»


Kings of Convenience. «I don't know what can save you from».
Do álbum «Quiet Is The New Loud» [2004].

7.8.10

coração partido

Vale a pena ler este texto de Miguel Vale de Almeida, sobre «o problema do coração partido», que me trouxe à memória outro, que eu mesma escrevi em Julho de 2007 e que começa assim: «Ainda não sei se é possível remendar um coração partido». A dúvida persiste, é um facto, mas também a conclusão: continuo a acreditar que «é melhor um coração remendado dentro do peito do que um coração moribundo a vaguear por aí».
Fixo-me nesta crença. Pior do que um coração partido é uma vida desperdiçada, tanto mais se for a nossa. E segue-se em frente. Segue-se sempre em frente, ainda que haja dias em que nos parece que não.

© [m.m. botelho]

3.8.10

maior do que as circunstâncias

fonte: visto aqui

Esta é uma daquelas mensagens que devemos ter sempre em mente, apesar de "nós" sermos "nós e as nossas circunstâncias". Porque é fundamental estar à altura e não sair dos episódios mais pequeninos do que éramos antes de eles acontecerem.

© [m.m. botelho]

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