28.2.11

tarefa hercúlea

Para quem, como eu, gosta de cuidar, forçar-se a não cuidar é uma tarefa hercúlea. Certamente, é-me muito mais difícil a mim ter de não cuidar do que àqueles de quem eu não cuido passar sem o meu cuidado. Não é suposto ter de contrariar os bons impulsos, ter de calar as boas palavras, ter de sepultar os bons sentimentos, ter de abandonar a ternura. Não é suposto e, por isso, ver-me forçada a fazê-lo é-me tremendamente penoso. No fundo, trata-se de contrariar uma das minhas características mais vincadas, tão intrínseca que pode dizer-se que está na minha natureza. É simplesmente horrível ter de empreender esforços para aniquilar algo de bom que reside em mim por não ter como pô-lo em prática.

É uma das aprendizagens que preciso de fazer neste momento e não me sinto confortável com essa necessidade, mas hei-de encontrar um meio de o conseguir. Sinto e sei que sou suficientemente tenaz para enfrentar e superar todos os desafios com que me deparo, por mais estranhos que me sejam. O que não farei é tomar a via fácil de transmutar o bom no mau, o amor no ódio, o cuidado no desprezo. Não é novidade para ninguém que eu faço sempre as coisas da maneira mais difícil. Esta não será excepção.

© [m.m. botelho]

mais transparente e fiável

fonte: visto aqui

O Facebook ideal não se bastaria com a possibilidade de criar redes de "amigos". Permitiria, igualmente, catalogar certos indivíduos como "inimigos". No mínimo, cada utilizador deveria poder distinguir entre "bons amigos", "pseudo-amigos que só nos enviam e a quem só enviamos sms no anos e no Natal", "conhecidos", "tipos que gostam de fingir que são nossos amigos, mas não são", "sujeitos que já foram nossos amigos, mas que se portaram mal connosco", "gente que não vale um chavelho e por isso não interessa nem ao Menino Jesus", "malta que até era em condições, mas depois se estragou", etc.. Se assim fosse, ficaríamos todos a saber o que realmente pensam sobre nós e o que nós realmente pensamos sobre os outros. Seria tudo muito mais transparente e fiável. Deveria ser assim no Facebook, porque, afinal de contas, é assim na vida real.

© [m.m. botelho]

o bom equipamento


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«Para sobreviver, perdidos nas montanhas ou na neve, são fundamentais a boa preparação e levar consigo um bom equipamento. Mas, na hora da verdade, o que com frequência separa os vivos dos mortos não é o que levam na mochila, mas sim o que levam na mente.»
Luis Rojas Marcos, «Superar a adversidade: o poder da resiliência» [2011], p. 18

«I had enough»

«Careless love and acting tough
it wasn't my style, I had enough.
I don't think that we can really be friends.»



Camera Obscura, «Careless love».
Do álbum «My Maudlin Career» [2009].

tribunal de afectos

Ao longo de anos, acompanhei entusiasticamente a noite dos Oscares: o desfile na passadeira vermelha, os momentos humorísticos da cerimónia e a antecipação dos vencedores, embora não raras vezes me tenha desiludido com as decisões.

Este ano, não vou assistir à cerimónia dos Oscares. As minhas escolhas do melhor e do pior no cinema sou eu quem as faço, sem precisar do aval da Academia. Trata-se de escolhas pessoais, do que mais me agrada e do que mais me desilude. Isto nada tem de universal, por isso, serem esses ou não os galardoados nada altera. É uma questão que aprecio no meu tribunal privativo das preferências, sem necessidade de processos rígidos ou sequer fundamentação.

É assim nos filmes e é assim na vida. No meu tribunal de afectos, eu sou a juiz e não preciso de factos nem de provas para chegar a conclusões e sentenças. Bastam-me as emoções.

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a melhor semana

fonte: visto aqui

Esta foi a minha melhor semana desde meados de Julho. A mais constante, a mais tranquila. Isto é produto de algumas alterações que decidi levar a cabo na minha vida no fim-de-semana passado. Decidi afastar-me de tudo quanto é nefasto para mim. Decidi deixar de me colocar em situações que me são desagradáveis. Decidi deixar de alimentar registos que se vinham mantendo há algum tempo e que, além de injustificados, eram injustos. Decidi deixar de alimentar egos com as minhas boas energias. Decidi deixar de me esgotar em questões com as quais nada quero ter mais que ver. Decidi deixar de fazer movimentos na direcção de quem os desperdiça. Decidi poupar-me a assistir a episódios que, aos meus olhos, chegaram ao ponto de serem qualificados como degradantes. Decidi deixar de compactuar com comportamentos que considero prejudiciais para os envolvidos e, por tabela, para os que os rodeiam. Decidi pôr um redondo e bem desenhado ponto final em tudo isso. Decidi reforçar-me, investir em mim, cuidar de mim. Tomei as últimas resoluções que faltavam para limpar definitivamente a minha vida do lodo e do ruído. Bani da minha vida o que a conspurcava e sei que foi a melhor coisinha que fiz nos últimos tempos.

Esta foi a minha melhor semana desde meados de Julho. A mais constante, a mais tranquila. Aquela em que senti mais paz. Aquela em que mais olhei por mim, que é por quem tenho de olhar. A minha melhor semana desde meados de Julho. Sem qualquer sombra dúvida.

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26.2.11

dona e senhora

Sábado. Um livro lido na varanda, estirada na espreguiçadeira, sob o sol. Por companhia, as gaivotas. De quando em vez, limonada. As prerrogativas de ser dona e senhora dos meus dias e do meu espaço. Os privilégios de quem começa a acertar novamente agulhas com a vida. E a serenidade de quem, quando repousa a cabeça, dorme já tranquilamente.

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instantâneos [19]

da série «Dexter» [temporada 5, episódio 7]
visto aqui

A frase contida nestas imagens tem tudo o que ver com o que escrevi aqui. Põe o enfoque na oportunidade de recriação, de reconstrução e de aprendizagem que é cada uma das nossas tragédias pessoais. Cada um fá-lo como sabe e como pode, mas se o que se busca é a evolução, a via só pode mesmo ser essa.

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(in)felicidade perfeita

«Todos descobrem, mais tarde ou mais cedo na vida, que a felicidade perfeita não é realizável, mas poucos se detêm a pensar na consideração oposta: que também uma infelicidade perfeita é, igualmente, não realizável.

Os momentos que se opõem à realização de ambos os estados-limites são da mesma natureza: derivam da nossa condição humana, que é inimiga de tudo o que é infinito. Opõe-se-lhe o nosso sempre insuficiente conhecimento do futuro; e a isto se chama, num caso esperança; no outro, incerteza do amanhã. Opõe-se-lhe a certeza da morte, que impõe um limite a qualquer alegria, mas também a qualquer dor. Opõem-se-lhe as inevitáveis preocupações materiais, que assim como poluem qualquer felicidade duradoura, também distraem assiduamente a nossa atenção da desgraça que paira sobre nós, e tornam fragmentária e, por isso mesmo, suportável, a consciência dela.»
Primo Levi, «Se isto é um homem» [1947]

25.2.11

pilares estruturais

«Um bom lema para viver: procura sempre não te matares.»
George Carlin, «Brain droppings» [1998]

Perante certas palavras, atitudes e opções, pergunto-me se não haverá gente que cultiva uma certa atracção pelo abismo. É indubitável que há quem tenha uma extraordinária habilidade para arrasar com as coisas boas que a vida lhe proporcionou, gente que, de um dia para o outro, manda pelos ares os seus pilares estruturais. Pergunto-me se o farão por falta de inteligência, por falta de maturidade, por um estado de insanidade temporária ou permanente ou se será antes por incapacidade de distinguir o que é essencial do que é acessório (o que também pode ser visto como uma consequência de ambas as primeiras hipóteses).

É suposto que as pessoas crescidas saibam destrinçar o que é bom do que é mau para si mesmas. É suposto que as pessoas crescidas sejam capazes de antever que, ao explodirem com as suas próprias estruturas, mais tarde ou mais cedo haverão de cair no mais escuro e lamacento dos poços, criado pelo rebentamento das terras. É suposto que as pessoas crescidas sejam suficientemente perspicazes para perceber que há coisas que não têm preço e que, portanto, há preços que, por muito que estejam dispostas a pagá-los, jamais compensarão aquilo que puseram à venda. Quando o que se pôs à venda era estrutural, a perda desse estrutural nunca será compensada.

Admito que, para chegarem a esta conclusão, algumas pessoas tenham mesmo de celebrar pelo menos um destes maus negócios durante a vida, isto é, que não aprendam com o que a experiência e os alertas dos outros lhes revela, mas tenham elas mesmas de bater com a cabeça na parede para ficarem a saber o quanto dói. Eu, pecadora, me confesso. O que já não entendo tão bem é que, depois de o fazerem, fiquem cheias de autocomiseração e que não aceitem os auxílios que os outros pilares estruturais que lhes restam lhes oferecem para que consigam sair do poço que elas mesmas cavaram e em que elas mesmas se meteram. Fazê-lo só demonstra que não se aprendeu nada com o que aconteceu. É que é suposto que, depois de arrasar um pilar estrutural, se passe a saber distinguir o que é estrutural do que não é, ou seja, que, ao tomar-se consciência de que aquilo que se destruiu era estrutural, se tome consciência do que demais existe na vida de cada um que também o é. Por um motivo bastante básico: é que só aí, nesses outros pilares, será possível encontrar as forças necessárias para elevar novamente a construção.

Por isso, quando vejo que há quem prefira ficar no escuro em vez de pegar nas velas acesas que lhe são estendidas com afecto e preocupação, concluo que se trata de pessoas que não foram capazes de tirar as devidas lições daquilo que lhes aconteceu. Isto leva-me a questionar se essas pessoas não terão mesmo uma atracção pelo abismo, que é o mesmo que dizer pela autodestruição.

Se, num determinado momento, fomos estúpidos ao ponto de arrasar com um dos pilares da nossa vida, é suposto que não continuemos por aí fora, a estourar com os restantes. É suposto que dar com a cabeça na parede nos acorde, nos doa, nos dê objectividade para percebermos o que fizemos de mal a nós mesmos e o que devemos fazer para parar o vórtice de autoflagelação. Em suma, é suposto que dar com a cabeça na parede nos alerte para a necessidade de não prosseguirmos, existência fora, fazendo as mesmas coisas, destruindo as nossas próprias estruturas, desvalorizando o que de bom nos cerca e nos escora. E é, ainda, suposto que cresçamos uns palmos, que ganhemos força nas pernas e que demos o salto do poço, que arrumemos de uma vez por todas com tudo o que nos prejudica, nos enfraquece, nos desgasta e nos puxa para o abismo. É suposto, portanto, que se empreenda uma espécie de purga.

Enquanto isso não acontecer, ninguém estará reestruturado. Andará apenas a enganar-se a si mesmo, a destruir-se a si mesmo, a afundar-se em "self pity" e a desperdiçar as oportunidades que a vida lhe dá de refazer o que foi aniquilado (de preferência, melhor). Poderá até já não andar a bater com a cabeça na parede, mas continua a não perceber que existe mais para além dela. Não terá saído do sítio. Não terá aprendido absolutamente nada.

© [m.m. botelho]

instantâneos [18]

do filme «Bikur Ha-Tizmoret»/«The Band's Visit» [2007], de Eran Kolirin
visto aqui

«10 decisions shape your life, you'll be aware of 5 about»

«10 decisions shape your life,
you'll be aware of 5 about,
7 ways to go through school,
either you're noticed or left out,
7 ways to get ahead,
7 reasons to drop out.
when I said «I can see me in your eyes»,
you said «I can see you in my bed»,
that's not just friendship that's romance too,
you like music we can dance to.

sit me down,
shut me up,
I'll calm down,
and I'll get along with you.

there is a time when we all fail,
some people take it pretty well,
some take it all out on themselves,
some they just take it out on friends,
oh, everybody plays the game,
and if you don't you're called insane.

don't don't don't don't! it's not safe no more.
I've got to see you one more time,
soon you were born
in 1984.

sit me down,
shut me up,
I'll calm down,
and I'll get along with you.

everybody was well dressed,
and everybody was a mess,
6 things without fail you must do,
so that your woman loves just you,
oh, all the girls played mental games,
and all the guys were dressed the same.

why not try it all,
if you only remember it once.

sit me down,
shut me up,
I'll calm down,
and I'll get along with you.»



The Strokes, «I'll try anything once» / «You only live once».
Do álbum «First impressions of Earth» [2006].

Esta canção é obrigatória. Uma daquelas canções para o resto da vida.

24.2.11

perguntas e respostas

Anteontem, sentada sozinha no hall de entrada, folheava a «Courrier Internacional» de Fevereiro enquanto esperava pela minha vez de ser recebida. Repentinamente, a porta em frente abre-se, sai uma jovem muito chorosa ainda a fungar e, atrás, o médico que a atendera. Depois de a jovem bater a porta, o médico olha para mim e dirige-me um «Olá» muito sorridente, a que eu respondo com um tímido «Boa noite». E nisto, ele desata a falar comigo, dizendo-me que «É sempre a mesma coisa», que já está atrasado, que «As pessoas não cumprem horários» e ele tem de estar nas Antas dali a dez minutos, sendo que demora pelo menos vinte só no trajecto que tem de fazer de carro. Remexe nuns papéis na secretária da recepcionista, separa os que são para si, disparando sempre para o ar um palavreado que a certa altura se tornou imperceptível. Entra no gabinete dele novamente e volta a sair para o hall de pasta a tiracolo. Agarra no casaco que está pendurado no bengaleiro, atira para o ar a interrogação sobre se estaria muito trânsito e abre a porta. Eu, surpreendida pelo inesperado da situação, balbucio outro «Boa noite» como resposta e ele, já meio corpo atravessado na porta, dá um passo atrás e diz-me «E o trânsito? Não disse nada sobre o trânsito». Eu sorrio, explico que «Não apanhei muito trânsito», ele exclama «Óptimo», acrescenta que «Devemos sempre responder ao que as pessoas nos perguntam com uma verdadeira resposta ao que nos é perguntado, não acha?» e sai.

Eu volto a olhar para a «Courrier Internacional», mas já não leio nada. Fico a pensar no que me foi dito e no quanto me desgosta que eu fale em alhos e me respondam com bugalhos, que as conversas se tornem uma coisa pastosa e desviada do fulcral, que os discursos sejam um emaranhado de bloqueios e evitamentos das questões essenciais, que as pessoas se escudem em rodeios para não dizerem o que tem de ser dito ou, então, assumirem claramente que não o querem dizer. O meu telemóvel toca, é um sms que leio depressa, para voltar ao que me ocupava o pensamento e sobre o que me pareceu tão importante reflectir. Contudo, a porta ao fundo do corredor abre-se para me receber. Estendem-me a mão, seguram-me o braço enquanto eu retribuo o cumprimento e perguntam-me que tal a semana. «Boa», respondo, enquanto a porta se fecha atrás de mim e eu tiro o casaco. E continuo, dizendo que «A semana foi boa, também porque respondi a todas as perguntas que me foram feitas. Sabe, esta semana respondi a muitas perguntas que eu mesma me andava a fazer e cuja resposta andava a evitar há demasiado tempo».

© [m.m. botelho]

22.2.11

«the world is full of good intentions»


Beth Ditto. «I wrote the book».
Do álbum «Beth Ditto EP» [2011].

força e determinação

«Confundem força e determinação. Eu sou fraco, porque nunca imponho a minha vontade, mas sou determinado, porque nunca desisto da minha vontade. Ficamos ambos divertidos, eles com o fracasso, eu com o que vem depois.»
Pedro Mexia, «O que vem depois», no blogue «Lei Seca»

21.2.11

«do you really think you go to hell for having loved?»


Rufus Wainwright. «Going to a town».
Do álbum «Release the stars» [2007].

monstros

Costumo ler um blogue, o «Educação Irracional», de cuja frase de descrição gosto muito. Diz assim: «Existem dois monstros dentro de mim, um bom e um mau. Se quiseres saber qual sou, respondo-te : sou aquele que mais alimentares».

É uma grande verdade. A não ser que estejamos a falar de gente com sangue de barata, que ninguém espere receber coisas boas quando deu coisas más, que ninguém espere companheirismo quando deu esporadas, que ninguém espere cuidado quando deu rejeição. O ideal, aliás, é que ninguém espere nada, mas muito menos colher as flores que deliberadamente pisoteou.

Depois, ninguém diga, muito consternado, que não ia ficar feliz se assim fosse. Não há pachorra para tanta hipocrisia.

© [m.m. botelho]

instantâneos [17]

visto aqui

ouriço-cacheiro

«A little Consideration, a little
Thought for Others, makes all the diference.»
De um livro do «Winnie, The Pooh», que dizem que é para crianças.

Hoje, se eu pudesse, se me fosse dado escolher, queria ser como o ouriço-cacheiro, que se enrosca em si mesmo até que o perigo se afaste. Se eu pudesse, gostaria de não ter de lidar com uma série de coisas que, de repente, me invadiram a vida e a viraram de pernas para o ar. Tudo coisas que, por muito sentido que possam fazer para os outros, não fazem qualquer sentido para mim. Tudo coisas que, por mais voltas que dê à minha cabeça, por mais uso que faça da minha reconhecidamente descomunal inteligência (sim, já passei a fase da falsa modéstia há muito) não consigo entender, por mais que atente nas explicações que foram dadas e que ouvi com toda a abertura.

O que sinto, neste momento da minha vida - e isto não é auto-comiseração nenhuma, é uma simples constatação, que as coisas são para serem ditas quando se tem ovários para as dizer - é que fui um dano colateral de uma guerra que nem sequer era minha. O que sinto é que fui arrastada para um lodo que me era absolutamente alheio e que engoliu o que não era suposto ser engolido, porque eu não tinha nada que ver com ele. Podem dizer-me até à exaustão que as pessoas se limitaram a viver as suas vidas, que eu, dentro dos meus (chamem-lhe espartilhantes, que é para o lado que eu durmo melhor) princípios e valores, não consigo aceitar que se vivam vidas destruindo outras vidas. Há sempre, pelo menos, duas maneiras de fazer as coisas: a certa e a errada. E, às vezes, no melhor pano cai a nódoa, que é como quem diz, até o mais esforçado dos seres faz as coisas do pior modo possível.

Sei que cada um de nós é o único responsável pela sua própria felicidade. Sei e concordo, mas também tenho a destreza de ver que cada um de nós pode ser causa de infelicidade para os outros. E, convenhamos, cada um de nós até pode fazer tudo pela sua felicidade, que se outros vierem espalhar cinzano no que foi semeado, não há cá milagres que salvem a colheita.

Ao longo de anos, sempre fui exemplar para com todos os envolvidos nesta guerra da qual sou um dano colateral. Nunca os traí, nunca lhes fui desleal, sempre me empenhei no melhor para eles, sempre lhes tive o maior respeito, consideração e amor. Em suma, sempre fiz tudo o que podia para não ser causa da sua infelicidade. Posso até não ter feito muito pela sua felicidade, mas se há coisa que não fiz foi ser causa da sua infelicidade.

O que tive em troca, contudo, não foi o mesmo. Podem até não ter feito muito pela minha felicidade, mas a dado passo tiveram um papel determinante na minha infelicidade. E isso, ser causa de infelicidade do outro, é uma trampa que não se faz a ninguém, muito menos a quem sempre nos tratou bem, nos deu o melhor que tinha e nos amou.

Ah, se eu pudesse, queria ser como o ouriço-cacheiro, que se fecha em si mesmo e não permite que os outros o magoem! Se eu pudesse, queria ter a possibilidade de não permitir que alguém pudesse causar-me dor. Sucede que não posso, que ninguém pode.

Por muito defendidos que sejamos, por muito leais e amantíssimos que sejamos para não despertar a fúria das energias cósmicas, ninguém pode proteger-se dos outros quando os outros optam mesmo por nos sacrificar no seu altar das oblações ao próprio umbigo. Ninguém consegue comandar a vida dos outros de forma a que as suas escolhas, os seus actos, as suas palavras não sejam para nós causa de infelicidade. E não me venham com a conversa de que as pessoas só nos magoam se nós quisermos, porque isso é uma grandessíssima treta. As pessoas magoam-nos se quiserem magoar-nos - ponto - e é fácil perceber porquê: porque todos nos movimentamos num universo de afectos, já que o que nos une é o amor e o respeito que temos uns pelos outros, nada mais. E sendo que a condição humana é amar para ligar, está criado o cenário para que todos aqueles que amamos possam magoar-nos e para que possamos magoar todos aqueles que nos amam.

Isto não é, portanto, uma questão de "empowerment". Isto é, tão-somente, a vida dos homens, pura e dura, em todo o seu esplendor. Quem não vive isolado, quem cria laços de afecto, deixa de ter a possibilidade de controlar a sua própria dor, porque ela passa a poder ser causada por aqueles com quem esses laços são estabelecidos. Não é possível criar laços sem dar esse flanco. Não é possível evitar que assim seja de maneira nenhuma.

O que sobra, então? Sobra a consciência que cada um tem de ter de que, não sendo necessariamente motivo de felicidade para o outro, pode ser motivo da sua infelicidade. Sobra a crença de que aqueles que amamos e a quem estamos ligados terão a amabilidade de não ser causa da nossa infelicidade. Sobra a nossa dignidade de não querermos ser causa da infelicidade alheia.

Não se trata de diabolizar as pessoas. Trata-se de reconhecer a cada um de nós um poder que tem, de facto, um poder que adquire a partir do momento em que cria laços com o outro. Se pudéssemos ser todos ouriços-cacheiros, estaríamos todos muito tranquilos na nossa protecção espinhosa e aí cada um podia fazer trinta por uma linha porque estávamos todos cada um por si. Mas nós só podemos ser humanos, logo, tremendamente desprotegidos pelos afectos que nós mesmos alimentamos.

Se eu pudesse, se me fosse dado escolher, queria ser um ouriço-cacheiro para que ninguém tivesse o poder de me magoar, para que me bastasse encolher-me para afastar o perigo. É que esta condição de não poder ser ilha e ter de criar laços com os outros, esta condição demasiado humana de ficar sujeito ao impacto que o que os outros fazem tem na nossa vida é tremendamente angustiante e às vezes apetece mesmo fazer uma pausa desta contingência.

Confúcio disse que a vida é simples, nós é que temos a mania de a complicar. Em parte, isto é bem verdade: tudo pode ser simples, se todos estivermos conscientes de que podemos ser causa de infelicidade para os outros e, portanto, devemos a todo o custo evitá-lo. Porém, tudo se complica quando cada um desata a viver a sua própria vida, sem olhar a mais nada e, por arrasto, lixa a vida do outro, que se torna um dano colateral das suas acções. Aí é que tudo fica uma novela mexicana sem ponta por onde se lhe pegue: uns a chorarem para um lado, outros a chorarem para o outro, uns a gritarem «Ai, que sacanice que me fizeram!», outros a dizerem «Realmente, fui um grande sacana, mas eu cá tive as minhas razões.». E depois o enredo da novela ganha vida própria, assume contornos de grande ecrã e história de ficção que contada ninguém acredita, nada volta a entrar nos eixos, por muito que se queira, e fica tudo uma grande embrulhada da qual ninguém sai ileso.

Suponho que, aos ouriços-cacheiros, seja relativamente fácil esquecer. Suponho que, uma vez afastado o perigo, não reste mais nada que atormente, mas aos humanos, depois de passada a tempestade, resta sempre a memória. E a memória reaviva sensações que quando são más são terríveis, nos petrificam e, por muito nobre que seja o nosso coração e muito férrea que seja a nossa vontade, nos impedem de deixar de sentir um aperto na garganta quando elas afloram. Mais um motivo para invejar a sorte dos ouriços-cacheiros.

Às vezes, viver a nossa própria vida tem um impacto brutal na vida dos outros. Às vezes, as nossas opções e actos têm a virtualidade de destruir pedaços importantes das estruturas alheias. Isto não significa que devemos deixar de optar e agir, embora às vezes não fosse mau não fazer tudo o que nos dá na real gana, ainda que tenhamos as nossas íntimas razões que nos reconfortam muito na hora de nos justificarmos. Significa apenas que temos de estar conscientes de que aquele impacto ocorrerá, de que aquela destruição terá lugar. Significa, também, que teremos de passar o resto da vida a deitar a cabeça na almofada com a perfeita noção de que um dia tivemos um papel determinante para que assim fosse, porque, tal como temos memória do que nos fizeram, de bom e de mau, sempre teremos memória do que fizemos, de bom e de mau. E ainda há a história do olhar para o nosso próprio retrato e ver que não difere muito do de Dorian Gray, mas isso é só para os mariquinhas pé-de-salsa como eu, que apreciam romances poéticos e fatalistas.

Pela minha parte, acredito que é possível cada um viver a sua vida sem lixar a vida do parceiro. Acredito nisso porque, aos trinta anos, deito a cabeça na almofada com a satisfação de ainda não o ter feito e não me acho nada de especial por isso: só me acho minimamente decente. E se já me aguentei trinta anos, acalento a esperança de aguentar outros trinta, porque sou muito ciosa do meu carácter e deposito grande esperança em mim.

Porém, mais do que isso, o que eu gostava mesmo era de poder deitar a cabeça na almofada sem esta sensação horrenda que é a de que já houve quem, para viver a sua vida, tenha lixado a minha com estrondo. Gostava de não ter de lidar com esta angústia de ter sido estupidamente magoada por quem menos esperava. Gostava de não ter de lidar com a memória de uma dor que poderia, em grande parte, ter sido evitada. Gostava de não ter de olhar para quem me magoou e, sem nenhum esforço para isso, me recordar que o fez, tenha sido lá pelos motivos que tenha sido. É que, com muita pena minha, quando dói, os motivos de cada um não são analgésico e ainda está por inventar o palavreado que provoque amnésia.

Sei que tudo isto é absolutamente irrealista. Sei que o que estou a dizer é que gostava de não levar abanões, de não "crescer" pela dor, de não me fortalecer pela angústia e pela porradinha da vida. Sei que isto é assumir que o que eu gostava era que tudo fosse simples e tranquilo, maravilhoso e idílico, durante a minha passagem pela Terra. A verdade é que há dias em que gostava mesmo. Gostava mesmo que aqueles com quem criei laços não me obrigassem a sofrer desalmadamente, durante uma data de tempo que leva uma eternidade a passar e me desgasta emocionalmente com custos enormes para mim, só para viverem as suas ricas vidinhas, porque creio piamente que poderíamos ser todos muito felizes sem termos de nos andar a estropiar uns aos outros. Gostava mesmo de só ter de sofrer por causa de pessoas em quem não investi, a quem não me dediquei e a quem não votei afectos. Gostava mesmo que as minhas feridas não tivessem nomes, que fossem todas de gente anónima a quem nunca dei abraços e com quem nunca me sentei à mesa. Gostava, admito, porque seria tudo muito mais bonito de se ver, ninguém ficava mal na fotografia e eu não teria estas tristes historietas mirabolantes para contar aos netinhos quando for muito velha. Gostava, palavra de honra que gostava mesmo que, em dias como o de hoje, me fosse dado escolher ser um ouriço-cacheiro.

Como não é, vou ali fazer-me à vida, que ela continua e eu não quero perder pitada de tudo de bom que ainda está para me acontecer. Porque eu mereço: tenho as contas acertadas por uns bons anos.

© [m.m. botelho]

17.2.11

instantâneos [16]

visto aqui

até logo

«Tenho de ir-me embora», disse, e expliquei, talvez de modo até bastante atabalhoado, por que não posso ficar ali, onde estou, por que preciso de uma pausa. Do outro lado da linha disseram-me compreender a minha dificuldade em gerir as coisas como estão e perceber porque é que ela existe. Assim nos despedimo-nos, pela segunda vez nas nossas vidas.

Da primeira vez, eu disse que, habitualmente, me despedia dizendo «até logo», porque fazia questão de demonstrar a vontade de existência do contacto seguinte, mas que, naquelas circunstâncias, não sabia o que dizer, visto que não sabia se alguma vez haveria de voltar a querer o encontro. E o meu costumeiro «até logo» foi substituído por um pesadíssimo «adeus», palavra que evitei sempre por achar definitiva.

Desta vez, não precisei de dizer absolutamente nada. Do outro lado, um desejo de boa viagem, uma sugestão de envio de postais de vez em quando, a afirmação da disponibilidade para os ler e da certeza de que o encontro se daria certamente, nos lugares de sempre, assim eu o quisesse, quando eu o quisesse. No remate, um «até logo», que sei que não foi circunstancial, porque não é habitual. Um «até logo» como quem diz «vou despedir-me de ti como tu sempre te despedes, porque desta vez sou eu quem quer demonstrar a vontade da existência do contacto seguinte». Uma despedida tranquila e compreendida por ambas as partes. E dois «até logo», ditos ambos com a ternura de quem quer que haja um «logo», ainda que não saiba quando esse «logo» será.

© [m.m. botelho]

15.2.11

gaguez

O filme que escolhi ver ontem foi «O discurso do Rei». O critério foi o do horário de início: este era o que começava primeiro, circunstância que, no final de um dia de trabalho fora de casa, pode mesmo ser determinante.

«O discurso do Rei» é um invulgar filme sobre a fragilidade humana, sobre o combate contra o medo, sobre a tensão entre o querer e o dever, sobre a importância da autoconfiança e o papel que o afecto pode desempenhar no seu reforço.

Bertie, segundo filho do Rei Jorge V de Inglaterra, padece de gaguez. A mulher empenha-se na sua cura e, por recomendação, entra em contacto com Lionel Logue, um terapeuta da fala com métodos pouco ortodoxos. A partir daqui, a acção foca-se na relação entre os dois homens. Quando o irmão abdica para poder casar-se com a mulher que ama, Bertie vê-se a braços com o seu maior medo: ter de proferir os eloquentes discursos que se esperam de um Rei. E não pode evitar o confronto.

Lamentavelmente, o argumento explora apenas superficialmente a faceta de actor frustrado de Lionel. Julgo que, de certa forma, constitui uma oposição à situação vivida por Bertie. Lionel, um apaixonado por Shakespeare, gostaria de ter sido actor de teatro, mas nunca conseguiu pisar os grandes palcos. Bertie, um frustrado amante de modelismo forçado pelo pai a ser coleccionador de selos, não quer ser Rei, mas as circunstâncias conduzem-no ao trono. Isto acontece com todos nós em determinadas dimensões da nossa vida: há coisas que não queremos e que nos acontecem e coisas que desejamos e que nem sempre conseguimos alcançar. Teria sido estimulante assistir a uma abordagem mais profunda deste aspecto.

Mas «O discurso do Rei» cumpre a sua função ao desperta-nos para a noção de que, tal como Bertie, todos termos a nossa própria gaguez e de que todos podemos ultrapassá-la. É um filme sobre obstáculos, receios e dificuldades, mas também é um filme sobre soluções. Veio em boa altura, na minha vida. Veio na altura ideal.

© [m.m. botelho]

eu disse que ia repetir

Eu bem disse que tinha gostado e que ia repetir. Ontem à noite, voltei a ir ao cinema sozinha. Era noite de S. Valentim. A maior parte das pessoas que estavam na sala estava acompanhada. Não vi absolutamente ninguém sozinho, para além de mim. Curiosamente, na sala, muitos casais de pessoas mais velhas, com idade para serem meus pais.

Fiquei sentada na terceira fila a contar do fim, entalada entre dois casais daquela geração. Fui a última a chegar, os meus vizinhos já estavam sentados, mas cheguei até antes da hora (agora, eu raramente me atraso para os meus compromissos com hora marcada: faz parte dos meus muitos progressos como ser humano). Quando me viram inclinar para entrar na fila, olharam-me como se eu fosse um extraterrestre. Se calhar, não estavam à espera de ver uma personagem como eu a chegar àquele lugar, mas eu até estava com uma aparência muito banal: sozinha, um saco de compras na mão esquerda, uma garrafa de água na direita e o tiracolo da mala atravessado no peito (com o casaco que estava a usar, estilo militar, gosto de usar a mala assim). A senhora que estava à minha direita, uma louraça espampanante, retirou a mala e o casaco para eu poder sentar-me. Agradeci e ela sorriu simpaticamente. O sujeito do lado esquerdo, endireitou-se na cadeira e pôs os óculos para me ver melhor. Mal o olhei, só sei que tinha bigode e que um duche antes do cinema não lhe teria feito mal nenhum.

Eu sentei-me, desliguei o telemóvel, tirei o casaco e abri a garrafa de água, para não estar a fazer barulho durante o filme. Como sempre, cruzei a perna esquerda sobre a direita. E depois não me lembro de mais nada. Concentrei-me no momento e pus os olhos na tela onde passavam os trailers. Acho que sorri. Não, não acho. Tenho a certeza de que sorri. Senti-me bem. Senti-me feliz, satisfeita comigo mesma. Sim, só posso mesmo ter sorrido.

© [m.m. botelho]

14.2.11

resistências e desligamentos: para mais tarde recordar

Por vezes, durante algum tempo após determinados acontecimentos terem lugar na nossa vida, continuamos a atribuir às pessoas com eles relacionadas um papel especial e inigualável no nosso percurso e quase forçamos, dentro da nossa maravilhosa e inocente cabecinha, a existência de uma importância para essas pessoas, de um lugar que lhes é devido, de um valor que lhes é inerente, ainda que não saibamos explicar por que razão teriam essa importância, esse lugar ou esse valor. A reboque disto, ficamos presos à ideia de que aquelas pessoas detêm ainda o poder de nos avaliarem e que tudo o que elas pensem ou digam sobre nós tem de assumir grande relevo. Como que lhes concedemos o poder de nos julgarem, de tecerem considerações sobre o que fazemos e, mais grave, sobre o que somos e como somos. Ficamos a cismar sobre isso e achamos que as pessoas têm sempre razão, mesmo quando não têm, e permitimos que as suas opiniões tenham efeito em nós, que nos atormentem, que nos sejam muito caras.

Possivelmente, fazemos isto porque o desligamento, em particular o desligamento absoluto que (porque somos uns tontos idealistas que nem parecemos deste mundo) achamos desnecessário, é tremendamente penoso e tendemos a evitar a dor que daí advirá. Em consequência, oferecemos uma resistência enorme à aceitação de que os desligamentos sejam definitivos, indispensáveis, um facto, uma evidência, uma realidade clarividente, pura e dura para toda a gente de bom-senso, grupo no qual, obviamente, não nos incluímos porque estamos muito ocupados a tentar arranjar justificações para legitimar a nossa resistência.

Porém, em certos casos, mais cedo ou mais tarde, damo-nos conta de que, à tal dor do desligamento que achamos desnecessário, à tal dor que a tanto custo queríamos evitar mas não conseguimos, se juntou outra, porventura mais pungente, com a qual nos confrontamos quando olhamos para o que temos com essas pessoas e percebemos que é apenas a cristalização consequente do facto de nada termos feito ou, então, que é apenas a cristalização consequente do facto de alguém, no pleno exercício dos direitos que lhe assistem, não ter aproveitado todas as possíveis oportunidades que, ainda que de forma mais ou menos desajeitada, foram criadas. Em suma, damo-nos conta de que o que temos com essas pessoas não passa do que nós lhes demos (porque lhe atribuíamos importância, lugar, valor) e do que elas, do alto do poder de que nós mesmos as investimos sem qualquer justificação, avaliam (as mais das vezes, de forma errada), pois do outro lado não houve retorno (nem tinha de haver). E quando nos apercebemos de que não houve, não há nem haverá retorno, vamos dar com os burrinhos na água.

A grande vantagem de dar com os burrinhos na água é que, como não é lá muito agradável, somos obrigados (por nós mesmos) a perguntar (a nós mesmos) qual é, afinal, a razão que justifique a atribuição de tal importância, lugar, valor e poder a essas pessoas. Quando damos com os burrinhos na água temos de os ir lá buscar e o banho obriga-nos a acordar para a realidade e para a necessidade de explicarmos a nós próprios porque raio é que fazemos o que fazemos, o que inclui os motivos pelos quais atribuímos determinado estatuto a alguém. Às vezes, não somos capazes de articular uma resposta, não sabemos porquê, não invocamos uma única razão especial. E percebemos, então, que esse estatuto só existe porque nós o criámos dentro da nossa maravilhosa e inocente cabecinha, porque nem a pessoa o pediu, nem lhe era devido, nem sequer é justificado. E tudo o que era deixa de ter sentido.

Com sorte, no meio da angústia, lá encontramos o norte e encaramos o facto de que temos de iniciar uma nova etapa. Começamos, então, a expurgar da nossa maravilhosa e inocente cabecinha o que não tem sentido que lá esteja (a importância, o lugar, o valor e o poder que erroneamente atribuímos a determinadas pessoas), sob pena de bloquearmos o caminho da nossa própria estratégia de sobrevivência e nos desgastarmos infinitamente em trabalhos em que nos metemos porque queremos e sem os quais passaríamos muito bem.

Percebemos, então, que é tudo uma questão de "empowerment" e que, portanto, essas pessoas, uma vez desprovidas do que lhes atribuímos, não passam de pessoas com as quais nos cruzámos e que, em tempos idos, desempenharam um determinado papel na nossa vida. Percebemos, sem retirar qualquer importância a esse papel, que ele só existiu num determinado contexto e porque nós lho atribuímos e, ainda, que só depende de nós que assim deixe de ser.

Percebemos, finalmente, que, por muito difícil que seja, há que fazer os desligamentos absolutos. Há que cortar as pontas que ficaram soltas, porque já não há nada onde elas se prendam, mas também porque não há teias ilusórias e invisíveis, "empowerment" ou mecanismos de resistência que segurem ou liguem o que as pessoas já não querem que exista, aliás, melhor dizendo, o que não existe mesmo, a não ser na nossa visão idílica das coisas e na nossa obstinação pela manutenção de cenários esgotados. Se assim não fizermos, cairemos numa situação contraproducente à prossecução dos nossos objectivos de crescimento individual. Andaremos a desperdiçar as nossas energias atribuindo importância ao que e a quem a não tem.

Com efeito, nem todas as histórias da nossa vida podem ter o final que nós gostaríamos de lhes dar, mas antes o final possível. Não é o fim do mundo, é só um dos vários desligamentos que teremos de fazer ao longo da nossa vida. Há que aceitar que, nas relações com o outro, nem tudo depende de nós, da nossa vontade, da nossa iniciativa, do nosso desejo, da nossa intenção e que, portanto, não faz sentido alimentar dentro de nós a ilusão da desnecessidade do desligamento quando o outro pensa de modo completamente diferente do nosso em relação a isso, e que muito menos vale a pena continuar a atribuir às pessoas uma dimensão que já não lhes é devida, porque algo mudou no trajecto que vinha sendo cumprido. Do mesmo modo que há que ver que, no que respeita ao modo como nós conduzimos a nossa vida, tudo depende de nós, da nossa vontade, da nossa iniciativa, do nosso desejo, da nossa intenção, que cada um deve a si mesmo o mais e o melhor possível e que isso, definitivamente, não se compadece com o desperdício que é andar atrás dos burrinhos para os tirar da água. Se não percebermos isto, só há uma constatação possível: os burrinhos seremos nós.

[Vês, miúda dos caracóis cada vez mais curtos, como tudo o que tu me dizes faz ressonância cá dentro? É por isso que eu não abdico de te ter na minha vida.
E tu, miúda dos caracóis um pouco mais compridos e mais claros, vês como escuto tudo quanto tu te fartas de repetir? É por isso que te estimo como estimo: muito.
Este texto fica aqui, por escrito, para que eu possa relê-lo de cada vez que me deixar cair na tentação de não questionar certas coisas na minha vida. E também para que vós, minhas queridas, possais poupar o vosso latim a dizer pela enésima vez as mesmas ideias. Da próxima vez (que espero que não exista, mas à cautela...), não me mandeis só beber um copo de água e pensar. Mandai-me também ler isto que eu mesma escrevi, isto que eu mesma concluí. Só me fará bem.]

© [m.m. botelho]

instantâneos [15]

visto aqui

12.2.11

parecer e ser

«Quem observa de fora as regras, mas não o amor que as governa, vê-se muitas vezes demasiado predisposto a qualificar os outros como "prisioneiros".»
Iris Murdoch, «O mar, o mar» [2005], p. 72

Há uns tempos, pediram-me que enunciasse objectos que constituíssem bons presentes para alguém me oferecer. Referi os que me ocorreram de imediato, sem grandes cogitações ou esforço de memória: livros, canetas, marcadores de livros, cadernos ou blocos bonitos, um iPod, uma Lomo, um cachimbo, um ou outro DVD de filmes em que se aprenda alguma coisa para a vida. «Já reparaste que todas essas coisas implicam que estejas sozinha para poderes usufruir delas?», perguntaram. Não, não tinha reparado, mas se nunca reparei é porque não acho que assim seja. É possível ler um livro ou ver um filme com a cabeça recostada no peito de outra pessoa, é possível escrever quando alguém dorme no nosso colo, é possível dividir os headphones de um iPod, é possível fumar cachimbo a dois e uma máquina fotográfica tem muito melhor uso se a empregarmos para eternizar momentos partilhados.

À vista desarmada, posso até parecer muito metida comigo mesma, muito absorta em grandes racionalizações internas, muito no meu casulo, muito cá de casa. Porém, um olhar mais atento que contemple um leque de possibilidades que vão além do óbvio topa que nem tudo é o que parece. É um risco, por isso, que as pessoas, por muito tempo que hajam partilhado com alguém, partam do pressuposto de que são capazes de traçar um perfil do outro e saber que ele é assim ou assado. Não é que até não sejamos, em parte, o que parecemos e, portanto, o que os outros vêem. A questão é que podemos ser - e, na maior parte dos casos, somos - muitíssimo mais do que isso.

© [m.m. botelho]

11.2.11

instantâneos [14]


do filme «Vicky Cristina Barcelona» [2008], de Woody Allen
visto aqui

«perder quem não se pode perder»

«Com a morte, também o amor devia acabar. acto contínuo, o nosso coração devia esvaziar-se de qualquer sentimento que até ali nutrira pela pessoa que deixou de existir. pensamos, existe ainda, está dentro de nós, ilusão que criamos para que se torne todavia mais humilhante a perda e para que nos abata de uma vez por todas com piedade. e não é compreensível que assim aconteça. com a morte, tudo o que respeita a quem morreu devia ser erradicado, para que aos vivos o fardo não se torne desumano. esse é o limite, a desumanidade de se perder quem não se pode perder. foi como se me dissessem, senhor silva, vamos levar-lhe os braços e as pernas, vamos levar-lhe os olhos e perderá a voz, talvez lhe deixemos os pulmões, mas teremos de levar o coração, e lamentamos muito, mas não lhe será permitida qualquer felicidade de agora em diante.»
valter hugo mãe, «a máquina de fazer espanhóis» [2010] [negrito meu]

«love is not a victory march»


Jeff Buckley. «Hallelujah».
Do álbum «Grace» [1994].

instantâneos [13]


da série «Grey's Anatomy» [temporada 2, episódio 15]
visto aqui

luz

Parece-me vergonhoso que tantas vezes se diga «com a verdade me enganas», e que não se veja por aí ninguém a reconhecer que «com a mentira me iluminas».

Bem, na realidade, nem é preciso que seja uma mentira. Basta que seja uma tirada qualquer que permita não assumir a verdade.

[Eu sei, eu sei: sou uma inflexível.]

© [m.m. botelho]

10.2.11

intuições

«O pior cego é o que não quer ver.»
[ditado popular]

Julgo que, pelo menos desde os meus vinte e poucos anos, comecei a aperceber-me de que, às vezes, percepcionava que determinados acontecimentos teriam lugar na minha vida. Não se tratava de quaisquer dotes paranormais, visões ou algo do género. O que me assaltava eram pensamentos de que determinadas coisas estavam a acontecer, coisas não explicitamente reveladas. Não sabia o que eram e abominava a ideia de que eu fosse capaz de ter pressentimentos. Ouvia dizer muitas vezes que as mulheres são muito mais sensíveis a certos aspectos do que os homens. Regra geral, isto era dito como se tal característica fosse negativa, uma reminiscência de tempos idos em que tudo eram apresentado como se só as mulheres fossem feiticeiras, sendo que isso era algo muito mau, expurgável apenas pelo fogo propalado nas pilhas montadas e acesas pela Inquisição. Talvez por isso tenha sedimentado em mim a ideia de que ser intuitivo era mau, algo que deveria contrariar ou, mais do que isso, negar absolutamente.

Assim, neguei sempre as minhas intuições. Quando ouvia falar no assunto, dizia-me completamente desprovida de tal característica feminina. Repetia constantemente para mim mesma que só existe o real realinho, o que é palpável e visível, o cientificamente explicável. Isto acabou por condicionar até o modo como vivia a minha religiosidade. O tema religião interessava-me muito, a tal ponto de ter lido integralmente a Bíblia entre os dezassete e os vinte e três anos, feito que até hoje não conheci quem, não sendo padre, teólogo ou afim tenha cumprido. Li integralmente o Catecismo da Igreja Católica, sei a doutrina de trás para a frente e, quando isso deixou de me bastar, passei a ler livros de História e de Sociologia das religiões e até o Direito Canónico captou de forma especial a minha atenção. Não obstante tudo isto, era incapaz de sentir uma ligação especial às entidades da religião que praticava. Não rezava - raramente rezei em toda a minha vida - e nunca sequer tentei estabelecer a comunhão espiritual que se espera que os católicos tenham com Deus, Cristo, a Virgem Maria e os Santos. Não tinha essa necessidade. Na realidade, nunca encarei a minha religiosidade como um domínio espiritual. Quando me questionava se teria fé, acaba por concluir um pouco apressadamente que sim, que tinha, só porque era suposto que a tivesse, e não me permitia ponderar que talvez eu fechasse deliberadamente o meu íntimo a tal sensação, não fosse isso fazer de mim uma má católica. Refugiava-me no confortável dito de que a fé não se explica e mentalizava-me que a tinha, mesmo que não me permitisse senti-la, sabendo que não me permitia porque não queria. Não me era, nunca me foi importante senti-la e nem sequer nutria admiração por quem era muito fervoroso.

Para mim, era bastante simples e pacífico: eu não era intuitiva e, por isso, também não era espiritual. Era do mundo do lado de cá, da Terra. Apreciava tremendamente a reconfortante ideia da doutrina católica de que não existe reencarnação e de que não existe qualquer comunicação entre vivos e mortos. Encarei sempre com uma calma perturbadora para os demais a morte das pessoas do meu universo. A propósito disto, ocorre-me agora que nunca chorei num funeral. Não chorei sequer quando o meu Avô, que eu amava profundamente, morreu. Vi a minha família, os nossos amigos e os nossos vizinhos chorarem a perda do meu Avô e eu nem no instante em que soube da sua morte fui capaz de o fazer. Não passou um dia em que eu tenha estado com o meu Avô em que não lhe tenha dado um beijo. Nos dias em que estava zangada com ele - tinha com ele uma relação tão sui generis que até me era permitido zangar-me com ele, dizer-lhe coisas que mais ninguém ousava dizer, tratá-lo por "tu" quando nem sequer a minha Mãe o fazia, confrontá-lo com tudo e mais alguma coisa, como se não houvesse entre nós distâncias impostas pela idade, pelo estatuto familiar ou por qualquer outra coisa -, dava-lhe um beijo e dizia-lhe «Não é que tu mereças.» e depois piscava-lhe o olho. Nem eu nem ninguém temos dúvidas de que eu gostava imenso dele. Gostava tanto dele que, mesmo quando estava aborrecida com ele, lhe dava beijos e, no entanto, depois de ele ter morrido, não mais lhe toquei a não ser para lhe beijar rapidamente a testa fria antes de selarem definitivamente a urna. Dizia para mim mesma que o meu Avô já não estava ali, por isso não o chorava, por isso não lhe tocava. Olhava para ele e dizia para mim mesma que ele agora estava noutra dimensão, uma dimensão na qual eu jamais poderia entrar enquanto fosse viva e por isso, porque havia uma separação intransponível entre nós, não valia a pena chorar nem beijar o que, para mim, era apenas o seu cadáver. E senti sempre isto perante todas as mortes: elas eram a passagem para um longe tão longe que não valia de nada aos vivos emocionarem-se por causa disso, porque os vivos eram do lado de cá e os mortos eram do lado de lá e entre um lugar e o outro havia um fosso de incomunicabilidade. A morte não tinha, portanto, nada de espiritual, nada de transcendente, nada de acessível fosse de que forma fosse.

Na verdade, eu tinha pavor em relação ao que não se entende nem se pode entender. Sempre gostei de tudo muito bem explicado e muito bem percebido. Aquilo que eu não percebia e não conseguia explicar não existia. Era por isso que, em mim, não existia a espiritualidade, a reencarnação e a intuição. Não nego que isso torna a minha religiosidade bastante pobre, do mesmo modo que não nego que recusar a existência da minha intuição em determinadas situações da minha vida fez de mim bastante cega. Intuía as coisas, mas como não percebia porque é que as intuía, negava que as intuísse. Quando, depois, as minhas intuições se tornavam o real realinho, ali à vista de toda a gente, eu repetia para mim mesma que tinha sido uma coincidência, que eu não era intuitiva, que o que tinha acontecido tinha sido uma conclusão óbvia do que antecedera e que o facto de tudo se ter passado como eu intuíra que estava a passar-se não era senão um acaso.

Não era. Não é um acaso, não são coincidências, são intuições. Talvez eu as tenha em maior número do que gostaria, mas devo aceitar que as tenho. E mais do que aceitar que as tenho, devo fazer uso delas. Acredito que se, ao longo da minha vida, tivesse feito esse uso, me tivesse poupado a alguns dissabores. Muitas das negações das minhas intuições conduziram a um estado de verdadeira cegueira, mas de uma cegueira perfeitamente consciente, logo, dolorosa.

Só o Peter Pan é que pode dar-se ao luxo de nunca dizer adeus, porque dizer adeus significa ir embora e ir embora significa esquecer. Nós, gente de carne e osso, não podemos dar-nos ao luxo de não dizer o que tem de ser dito, não fazer o que tem de ser feito, não lidar com o que está a acontecer. Por isso, quando intuímos que algo está a acontecer, melhor é que sejamos suficientemente inteligentes para assumirmos que aquilo já faz parte da nossa realidade e que, portanto, mais cedo ou mais tarde haveremos de ter de lidar com ela. As verdadeiras intuições podem não ser explicáveis, mas não é por isso que deixam de existir. Assim, talvez não seja lá muito perspicaz relegá-las para o plano do acaso. Se eu não quero estar alerta, mas algo me desperta, não pode ser por acaso. Não sei por que é, nem isso não interessa. Interessa é que estou desperta, que (pres)sinto e, se puder fazer alguma coisa com o que (pres)sinto, devo fazer. Por mim mesma.

Há sempre, pelo menos, uma coisa que podemos fazer com o que (pres)sentimos: tomar consciência de que o (pres)sentimos, aceitar que o (pres)sentimos e que, se assim é, por algum motivo é, motivo esse que, geralmente, até nem tarda a revelar-se. Só assim conseguiremos evitar que num instantinho, aos nossos próprios olhos, passemos de bestiais a bestas: de bestiais porque tivemos a capacidade de intuir, a bestas porque o negámos absurdamente.

© [m.m. botelho]

instantâneos [12]


do filme «Darbareye Elly» [2009], de Asghar Farhadi
visto aqui

«don't struggle like that or I will only love you more»


The Cure, «Lullaby».
Do álbum «Disintegration» [1989].

9.2.11

beijos escritos

Consta que, nos primórdios da descoberta pelo povo desse interessante objecto que é o telemóvel, isto é, quando a coisa se tornou de tal modo comum que mais do que cinco dos conhecidos de cada um de nós passaram a ser ostensivos possuidores do dito bicho, se vulgarizou a troca de mensagens curtas, vulgo sms. Visto que as operadoras estabeleceram como limite máximo de caracteres para cada sms o interessante número de 140 (que deve ser mítico, já que é o mesmo estabelecido para os mais modernos tweets), e visto que os primitivos aparelhos apenas permitiam o envio de um sms de cada vez, o povo rapidamente percebeu que poderia poupar trabalho e uns tostões se abreviasse certas palavras. E assim se propagou a castradora moda de suprimir as vogais.

Um dos desgraçados termos que passou a ser alvo das abreviaturas foi a palavra "beijos" que, provavelmente por, regra geral, ser a última palavra a ser escrita, rapidamente deu lugar a um curtíssimo "bjs". Uma pena.

Escrever "beijos" jamais será igual a dá-los. Por muito escritos que estejam, não há letras que substituam o contacto entre a pele do destinatário e os lábios do remetente da mensagem. Logo, escrever "beijos" já é, por si só, limitado nos efeitos. Abreviar o termo torna a coisa ainda mais escassa. Não são dados, mas também já nem sequer são escritos: são tão-somente abreviados, compactados em três caracteres, muito apertadinhos, muito pequeninos, muito desenxabidos.

Por isso, sempre fui muito resistente ao uso desta pseudo-expressão, em particular. A princípio, porque "bjs" me sabia a pouco. Depois, progressivamente, fui desenvolvendo uma aversão à abreviatura porque passei a vê-la como um gesto de quem não está muito preocupado no modo como se despede, de alguém que beija mas de fugida, à pressa, desleixadamente e se há momento confrangedor e desagradável é o da despedida apressada, o do beijo atirado à sorte, o do acenar de costas voltadas.

Felizmente, à medida que eu e os meus fomos acrescentando anos à idade, deixámos de usar esta abreviatura, quero crer, porque passámos a ser mais sensíveis ao modo como terminamos os "encontros via sms", porque passámos a dar mais importância ao remate dos contactos que estabelecemos, porque passámos a ser mais atenciosos com os destinatários dos nossos escritos.

Por isso, não é senão com estranheza que vejo que há quem, tendo mais do que quinze anos, insista em utilizar a abreviatura. Pior do que isso: que há quem, tendo mais do que quinze anos, use a abreviatura nos sms que manda de borla, nos e-mails, nos comentários de blogues ou do Facebook, ou seja, em circunstâncias onde deixou de justificar-se a poupança de caracteres. Sendo que não se aplica o critério da racionalidade económica, só pode explicar-se o "bjs" por preguiça, por conformismo ou por desleixo, tudo coisas que, se ainda vamos tolerando nos adolescentes, já não temos tanta pachorra para aceitar na malta mais crescidinha.

Pela minha parte, nos escritos que me são dirigidos, prefiro mil vezes que não escrevam nada do que escrevam "bjs". Ao fim e ao cabo, o efeito é o mesmo: é tão insípida uma mensagem selada com aquela abreviatura como uma mensagem em que o remetente nada diz. Porque um "bjs" não é uma despedida, não é um beijo, não é nada, é uma trapalhada metida à pressa que eu, nesta fase da vida, não só dispenso bem como rejeito veementemente.

Ainda que seja por escrito, gosto de ser beijada com cuidado, com ternura, com atenção. É que, mesmo por escrito, não me beija quem quer, beija apenas quem eu deixo e, para isso, tem de beijar nada mais, nada menos do que muito, muito bem.

© [m.m. botelho]

instantâneos [11]

visto aqui

8.2.11

desejar muito

«Sempre senti que estávamos os dois no mesmo barco, partilhando uma mesma aventura. Líamos os mesmos livros e discutíamo-los: livros infantis, histórias de aventuras, mais tarde romances, história, biografias, poesia, Shakespeare. Apreciávamos e desejávamos muito a companhia um do outro. Uma verdadeira prova, isso era: mais do que devoção, admiração, paixão. Se desejamos muito a companhia de outra pessoa, é porque a amamos.»
Iris Murdoch, «O mar, o mar» [2005], p. 40

Pergunto: e o contrário, será verdade? Isto é, se não desejamos muito a companhia de outra pessoa, é porque não a amamos? Ou podemos não desejar estar, não querer estar, não conseguir estar, decidir não estar precisamente porque a amamos?

© [m.m. botelho]

3.2.11

a corrida

fonte: visto aqui

Está ali, parado, de corda na mão, na linha de partida. Espera que a corrida comece. Sucede que a corrida não pode começar enquanto não vier alguém que agarre na outra ponta da corda. É uma corrida a dois, a corda é o que os liga, é o que lhes permite comunicar, dizer «estou cansado» ou «tenho sede», para que cada um saiba quando é que o outro precisa de abrandar o passo ou de se abeirar de uma fonte para beber. Enquanto a corda permanecer ali, estendida sobre a terra, a corrida não começa, não pode começar.

Sucedem-se as estações. É Inverno, hoje. Faz frio, um vento gelado que lhe percorre o corpo como uma língua húmida. Vestiu grossas camisolas, um casaco espesso, luvas, um gorro, tudo o que se lembrou, tudo o que ajudasse a suportar a espera. De vez em quando, tira as luvas, olha para as mãos e vê os golpes que se foram desenhando, a pele ressequida, a carne roxa sob as unhas. Mexe-se para aquecer, dá pulos, faz malabarismos. As horas passam. Ninguém vem.

Durante todo este tempo, nunca um café que o aquecesse, nunca um raio de sol que diferenciasse os dias, nunca um passo sequer na corrida. A corrida não começou, não podia começar.

Olha em volta, nada acontece. Olha para dentro e sente o frio quase nos ossos, como um berbequim que foi perfurando as roupas. Olha para as horas e sente o desalento. Cada raiar do dia arrancou-lhe um pouco de paciência, um pouco de empenho, um pouco de sentido, um pouco de estima por si mesmo, até um pouco de vontade, se bem que nunca um pouco de intenção.
Sabe-se ridículo, ali naquela espera. Intui-se assim.

Como se tivessem vida própria, as mãos gretadas começam a recusar agarrar a corda. Não tem forças para as fechar, tolhidas que estão pelo longo tempo. «Já esperei tanto», pensa, «não deverei esperar um pouco mais?», mas não se trata já de esperar, antes de aceitar. Aceitar que, por muito que o tivesse desejado, por muito que o tenho dito, por muito que se tenha empenhado, por muito que tenha esperado, ninguém veio pegar na outra ponta da corda, ninguém quis correr, ninguém quis absolutamente nada.

Sabe que, perante isto, tem de escolher entre preservar tudo o que fez e correr o risco de morrer de frio ou deixar tombar a ponta da corda que segura e sobreviver à intempérie. «Eu aguento um pouco mais», repete, mas sabe que não aguenta, sabe que tem limites, sabe que chegou o dia em que não pode mais permitir-se definhar na linha de partida.

Larga a corda. No limite, larga a corda. Já não sente o corpo, mas, pelo menos, está vivo. No limite, mas vivo. Por momentos, não sabe o que fazer. Angustia-se, pergunta-se se terá desistido, chora. Extenuado, senta-se e descansa. Após o repouso, recomeça a sentir os pés, as pernas, o tronco, os braços, as mãos que abre e fecha vigorosamente. Sabe, então, que não desistiu. Sabe que, ao invés, teve a coragem de se fazer escapar a uma mais do que provável morte ao vento gélido. Escolheu salvar-se. Escolheu-se. E, sozinho, começa a caminhar ao longo da linha de partida.

© [m.m. botelho]

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» O âmbito do direito de autor e os direitos conexos incidem a sua protecção sobre duas realidades: a tutela das obras e o reconhecimento dos respectivos direitos aos seus autores.
» O direito de autor protege as criações intelectuais do domínio literário, científico e artístico, por qualquer modo exteriorizadas.
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» A obra não depende do conhecimento pelo público. Ela existe independente da sua divulgação, publicação, utilização ou exploração, apenas se lhe impondo, para beneficiar de protecção, que seja exteriorizada sob qualquer modo.
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